sonhos, devaneios e morte.

agosto 19, 2010

uma vez deus falou comigo nos meus sonhos. é sério, não faça essa cara. não, eu não estou maluco. sei que ele falou comigo no meu sonho. sim, eu sei que eu não acredito nele. sim, eu sei, mas o fato de não acreditar nele não anula completamente o fato de ele ter falado comigo no meu sonho. sonhos não precisam ser reais, precisam? a verdade é que deus falou comigo no meu sonho. eu perguntei a ele o que seria de mim, se eu iria pro inferno e ele disse que não, mas eu também não iria para o paraíso. eu não faço muita questão disso, você sabe, então não me preocupei. perguntei sobre minha mãe e ele disse que ela estaria lá no céu. fiquei feliz por ela. acho que seria melhor pra nós dois e pro paraíso não estarmos no mesmo lugar depois da vida. depois desse sonho eu acordei me sentindo um pouco estranho, um pouco traidor de mim mesmo por sonhar com algo como deus falando diretamente comigo. entende o que quero dizer? o pior de tudo é que acordei pensando nisso e isso nunca saiu da minha mente. esse sonho tem mais de cinco anos, já devo estar no inferno agora e minha mãe, se continua no paraíso, certamente é por coisas que ela fez antes desse período. a verdade é que eu me senti tocado por esse sonho maluco. faz tanto tempo, depois dele sonhei com tantas coisas que não me lembro. eu queria que todas as noites eu dormisse e não fosse capaz de lembrar de nenhum dos meus sonhos porque, afinal, quase nunca eles são coisas boas de se recordar. teve outro sonho que tive, faz uns dois anos, em que minha tia não tinha morrido de verdade, ela tinha entrado num estado narcoléptico e depois desses anos todos haviamos descoberto isso e exumado ela, que ainda estava viva. então tentamos todos readaptá-la à vida. lembro de nesse sonho ela me levar pra comprar roupas numa loja em que ela me comprou um presente de natal quando eu tinha sete anos. foi algo muito doloroso porque acordar foi a pior coisa que já fiz depois desse sonho. se eu pudesse eu estaria vivendo nesse sonho ao invés de estar aqui, nessa suposta realidade. esse sonho que tive foi pior que aquele outro de uns sete anos atrás, quando sonhei que tinha um playstation 2, estava jogando feliz e acordei e vi meu playstation velho na penumbra da noite e me senti triste. hoje em dia tenho um playstation 3. queria poder ter minha tia de volta. esses dias eu fui abalado pela morte do meu padrinho, eu percebi que eu realmente nunca mais poderia conversar com ele. então, fui relembrando de muitas das conversas que tivemos ao longo do nosso tempo juntos. ele me conhecia desde que eu tinha oito, nove anos. senti um aperto no peito e uma falta de ar ao pensamento de que nunca mais poderia ligar para ele no dia dezoito de agosto e desejá-lo um feliz aniversário e dizer o quanto o admiro e falar sobre como ele é uma pessoa querida para mim até que ele se emocione e caia em lágrimas do outro lado da linha. nunca mais vou poder dar um abraço nele, apertar sua mão, conversar sobre política, sobre livros, sobre arte e viagens. aprender sobre a vida, o universo e tudo mais. não, ele não morreu há pouco tempo. a verdade é que daqui a três meses fará um ano da morte dele. essa foi a morte mais rápida que consegui assimilar. depois de nove anos foi que consegui assimiliar a morte do meu avô. esse ano eu comecei a escrever um texto que seria dedicado a ele, mas o texto não seguiu. o sentimento é muito maior do que minhas palavras possam descrever. sim, é verdade, ano passado perdi meu outro avô, mas essa morte me foi mais sentida porque minha mãe sentiu do que eu mesmo. nunca fomos muito chegados, creio que nem nos conhecemos, na realidade. mas eu o respeitava, respeitava porque pra aguentar a família, só mesmo com muito álcool e paciência. eu o entendia. olha, esse assunto, é melhor mudar, não é mesmo? estou com fome, sabia? já está um pouco tarde, ou cedo demais, e eu deveria deixar você dormir e ir pra cama, deveriamos fechar os olhos e eu te peço as mais sinceras desculpas por não te deixar pregar os olhos, mas esse desabafo é mais que necessário para mim. preciso me manter bem, preciso falar sobre essas coisas porque se eu ficar parado, se eu começar a pensar, a cabeça fica vazia e mente vazia é a oficina do diabo. as coisas que vêm quando estou só, sem fazer nada, somente a pensar na vida, não são das melhores, entende? preciso desopilar, preciso pensar em qual será o proximo assunto a ser abordado nesse desabafo, em como hoje eu peguei um ônibus e ele fez um caminho diferente, mas tudo bem, eu nunca pego esse ônibus. e como eu sei que foi diferente? o cobrador me explicou que seria, mas ele só seria diferente a partir da parada onde eu desci, então a verdade é que ele não fez nada de diferente até que eu descesse dele. eu fui ver livros hoje, livros sempre me fazem sentir um misto de bem e mal. me fazem sentir bem porque quero todos eles e mal porque sei que jamais serei capaz de tê-los todos e muito menos de lê-los todos. mas isso não me impede de tentar, não é mesmo? sabia que um dos meus planos já foi ter uma livraria? e que um dia queria ser um bibliófilo de verdade? queria que, quando fosse mais velho, as pessoas falassem da minha biblioteca particular com admiração e respeito e veneração pelos livros porque é isso que deveriamos todos ter. sabe, acho que você nunca vai entender isso, mas uma coisa em que acredito, talvez a única coisa em que acredito, é que a gente só tem palavras. parece besteira, parece mentira, parece idiota, mas não é. há muita verdade nisso que estou falando. eu sou tudo isso que eu disse, eu tenho somente isso que disse, assim como você só é o que fala e só tem o que fala. todo o resto são adereços, tudo o mais é fantasia.


fábio.

agosto 19, 2010

“eu não sei o que você pensa sobre as coisas que têm acontecido com nós dois, mas a verdade é que eu nunca pensei que elas fossem chegar a esse ponto. o que foi que aconteceu pra que parassemos aqui?”

a mulher alta e magra, dos cabelos negros e pele bronzeada, vestindo calça jeans e camisa branca, se dirigia ao carro, onde havia um homem que um dia foi moreno, com um pouco de sobrepeso, sentado no banco do carona. não obteve resposta, mas pareceu não se incomodar. deu alguns passos na direção oposta ao automóvel, olhou para trás e deu um sorriso.

“espero que você saiba que teve todas as chances de evitar tudo isso, mas jogou todas elas fora, querido.”

dentro do carro o homem não se moveu. não podia, suas mãos estavam amarradas, sua cabeça sangrava e o líquido viscoso escorria por sua nuca e descia pelas costas. estava inconsciente havia horas, ela achava que ele poderia jamais acordar da pancada, pelo menos não antes que tudo se concretizasse e seu corpo estivesse queimado e no fundo de um dos rios que cortavam a região.

o carro estava enxarcado de gasolina, o tanque cheio, uma pequena trilha de gasolina foi feita por ela, para poder acender o fogo de uma distância segura, a mesma em que se encontrava agora. riscou um palito de fósforo desses que se ganha de brindes de motéis – motel esse que ela visitou com ele pouco antes de estarem aqui onde estão -, acendeu um cigarro e apagou o palito com uma baforada leve. ainda não estava pronta para assistir ao fim do homem que tanto amou. além do mais, havia a sádica esperança que ele acordasse e se visse amarrado, incapacitado, preso num carro no meio do nada e molhado de gasolina. a verdade é que ela queria ouvir os gritos de dor que ele soltaria enquanto tinha sua pele, seus pêlos, seus órgãos sendo devorados pelas chamas. ela queria que ele sentisse tudo aquilo porque assim se sentiria menos mal por tudo o que já sentiu, assim, acreditava, estariam quites.

enquanto fumava seu cigarro – roubado do porta luvas do carro dele, que ela tinha acabado de molhar com três galões de gasolina – pensou em todo o tempo que os dois passaram juntos e em cada um dos orgasmos que não atingiu, em todas as vezes em que ele montava sobre seu corpo escultural e descia depois de dois minutos, ofegante, cansado, orgásmico, e, egoísta, virava-se pro lado e dormia sem se preocupar com ela por um só segundo. lembrou de cada vez que ele a fez sentir burra por causa dos filmes que ela não assistiu e dos livros que nunca leu e dos quadros e artistas plásticos que ela não conhecia – porque nunca se interessou de verdade por artes plásticas -, por cada um dos pedaços dele mesmo que ele apresentava a ela conforme os dias iam passando. esse quebra cabeça que ele a fazia construir só despertava ódio em seu coração e a cada pedaço que ele liberava para ela, como um presente irritante, a deixava com pensamentos sádicos, imaginando meios para fazê-lo sofrer física e psicologicamente. foi entre uma tragada e outra do cigarro mentolado – ele sempre gostava dessas coisas com sabores artificiais, ela detestava, mas precisava de um tempo para admirar a visão dele amarrado, abandonado no meio do nada, frágil e pronto para receber um fim.

soltou a fumaça quente que vinha de seus pulmões e achou que viu movimentos dentro do carro. olhou atentamente para ele, ainda de longe, confirmou que ele começava a acordar. “graças a deus”, pensou apagando o cigarro na árvore e soltando a baga apagada bem longe do caminho de gasolina que preparou. aproximou-se do homem. ele gritava o nome dela.

“rebeca!”

ela se regojizava com aquilo. ele berrava o nome dela como se fosse a salvação da vida dele, como se tivesse alguma maneira dela voltar atrás e salvá-lo. ela se pôs à janela e sorriu. ele olhou para ela, entre os olhos escorria um filete de suor misturado com gasolina. ela tinha certeza que ele já tinha engolido alguma quantidade do líquido, tinha certeza que ele já havia realizado o que se passava naquele exato momento.

“me tire daqui, rebeca!”

ela riu.

“isso daqui não tem graça, rebeca!”

“claro que tem, fábio. claro que tem. é que você não está vendo tudo isso do meu ponto de vista.” ela deu uma gargalhada de prazer. “engraçado, sabia que hoje você está me dando mais prazer do que em todo o nosso tempo juntos?”

a voz dele começava a soar irritada, raivosa. “olha, rebeca, eu não sei o que você acha que está fazendo, que tipo de brincadeira é essa…”

ela o interrompeu com um grito agudo. sabia que ninguém estaria ali para escutá-la, por isso o fez. ele se calou imediatamente.

“isso não é brincadeira nenhuma” ela começou a explicar rapida e exasperadamente “você realmente acha que eu brincaria com uma coisa séria dessas, fábio? agora pare de gritar, ninguém vai te ouvir. pare de agir como uma criança e aceite o fato que você é um homem, fábio. por menos que você tenha crescido, por mais que o teu pau tenha continuado do tamanho que era aos oito, nove anos, não me importa nada disso, você cresceu e tem que aceitar os fatos da vida: você vai morrer hoje por tudo o que você me fez passar, por todos esses tempos em que você agia como se eu fosse a coisa mais importante para você, quando na verdade tudo o que você queria era me jogar de lado e deitar na cama com a primeira que se dispusesse. agora é a hora de pagar por todas as vezes que você deitou do meu lado e disse que me amava com teu hálito quente e fedido. agora é a hora, fábio, de colher o que plantou, como os maiores clichês do mundo.”

“rebeca, você está louca! você está sendo completamente irracional. pense um pouco sobre o que está fazendo! me amarrar aqui no carro, jogar gasolina em cima de mim e depois o quê? jogar um fósforo em cima de mim e me ver morrer? e tudo isso para quê? não faz nenhum sentido, nada disso. e você sabe!”

rebeca foi se afastando do carro. ela não queria mais ouvir os papos furados que ele tinha, a fala mansa, numa tentativa constante de tentar fazê-la ser racional, como se ela já não fosse racional o suficiente. hoje ela deixaria a emoção dominá-la por completo.

“adeus, fábio. obrigada por hoje.”

ele  gritava, xingava, dizia que ela seria presa, que passaria o resto da vida na prisão, mas ela não ligava. ouviu quando ele começou a se debater dentro do carro, chegou a bater a cabeça no vidro entreaberto do carro, tentou, com a boca, destravar a porta, todas as coisas que fazia, no entanto, eram inúteis. a única coisa que viria agora seria o fogo. rebeca se postou ao lado da árvore onde estava antes, riscou cinco dos fósforos do motel e os soltou na trilha de gasolina que se acendeu iluminando seu rosto e aquecendo-a.

começou a ouvir os gritos e viu a explosão. estava feito e não havia como voltar atrás. agora seu amor sabia um pouco da dor que ela sentiu.


amanhecer.

agosto 17, 2010

eram cinco da manhã e o sol começava a subir preguiçosamente no céu. o lusco fusco da manhã era toda a iluminação do quarto, onde corpos deitados nus pareciam objetos abandonados sobre o colchão desforrado e duro da cama – de madeira, carvalho – que se sustentava sobre quatro pernas grossas e pesadas. lençóis vermelhos e verdes estavam largados no chão, amassados, manchados de fluidos, abandonados ao lado de cinzeiros e bitucas de cigarro e garrafas de vinho vazias. o homem e a mulher que dormem juntos têm seus corpos nus e indefesos, como se tivessem acabado de emergir do útero de suas genitoras, inocentes em seus sonhos. a quem observar, pode parece que todo o potencial para fazer o mal que há nos dois seres é mera especulação, mentira até. eram delicados e frágeis ao ponto de enganar os olhos mais descuidados, as pessoas mais otimistas. os sons que reinavam no aposento eram o completamente humanos: o leve ressonar, o som de ar inflando e esvaziando pulmões cheios de sangue, tendões rangendo ocasionalmente a cada movimento involuntário feito durante o sono, um ou outro gemido leve. a natureza inumana parecia não existir, os pássaros pareciam nunca terem existido, a noite parecia ter calado toda a existência. se compararmos os sons que já ecoaram nessas paredes, o silêncio reina como o faz em poucos lugares do mundo.

posso dizer que descrever o que acontecera na noite anterior não é algo difícil de forma geral, mas entrar em detalhes específicos de determinados assuntos é impossível até mesmo para o mais perfeito descritor – coisa que este limitado e inimaginativo narrador não é. houveram pequenas coisas demais, palavras sussurradas demais, movimentos rápidos e finos completamente imperceptíveis ao olhar humano. no entanto, acima de tudo, pode-se dizer que a noite que antecedeu o atual momento que se observa foi rica em bebida, cigarro, risinhos, gargalhadas, carícias, gemidos e fluidos.

o corpo na cama assumia uma forma estranha, as pernas um tanto abertas – uma delas, a esquerda, estava completamente estirada na cama, com seu lado externo tocando completamente a cama, já seu membro direito se elevava, dobrando o joelho, como se estivesse sentada. tal posição revelava um pouco do sexo que a natureza resolveu esconder entre as pernas. vislumbrava-se os grandes lábios coberto por pequenos e escaços pêlos – ainda crescendo em diversos pontos depois de sua última depilação, provavelmente há cinco dias ou uma semana – e escureciam seu monte púbico. sua pele branca ainda estava avermelhada em determinados pontos do lado de suas coxas e nádegas, seu cabelo negro, assanhado, se espalhava pelo travesseiro e se derramava em alguns pontos da cama. seu corpo tomava o máximo de espaço que conseguia no colchão. seu braço direito se cruzava sobre si e se enfiava sob sua cabeça enquanto o membro esquerdo se estendia rente ao corpo. o lençol desarrumado sobre a cama lhe cobria uma de suas pernas. seu corpo exalava um odor doce e bom. seu corpo ou seu rosto não aparentavam mais de vinte e cinco anos, a idade que tinha.

o corpo pesado afundava no colchão ao lado dela. se encolhendo, procurava atingir o mais perto da posição fetal que lhe era possível. as mãos unidas o faziam parecer se encontrar em algum tipo de posição de prece. os joelhos e pernas unidas e nuas, cheias de pêlos, próximas ao tronco gordo o tornavam simplesmente ridículo. seu membro murcho se escondia entre suas pernas e só se era capaz de vislumbrar um minúsculo pedaço entre um movimento involuntário e outro. sua barriga era marcada pelas dobras que a gordura lhe proporcionou ao longo dos anos, seu rosto era um pouco enrugado e a barba crescia em alguns pontos, revelando uma barbeada mal feita e inúmeras falhas na disposição dos seus pêlos faciais. suas costas tinham arranhões recentes, ainda avermelhados, marcas de unhas da noite anterior. ele cheirava a fumaça de cigarro e álcool, os suores da noite anterior o fizeram cheirar um pouco azedo, seu hálito recende a vômito, apesar de não ter vomitado em nenhum momento.

o sol começava a ficar mais e mais forte, ultrapassando a fina barreira criada pelas cortinas de pano escuro. os raios incidiam diretamente sobre os dois, esquentando suas peles e iluminando seus rostos. ele foi o primeiro a se incomodar com aquilo. moveu-se sobre a cama, procurou esconder seus olhos com os braços, com as mãos, com o travesseiro, mas nada parecia lhe agradar, nenhuma posição lhe era confortável. até que abriu os olhos e a viu ao seu lado. uma visão linda para se começar o dia. as lembranças da noite anterior lhe surgiam à mente conforme seus olhos iam passeando ao longo do corpo que repousava silenciosamente ao lado do seu. um sorriso apareceu nos lábios grossos, revelando dentes amarelados. seu olhar era cheio de ternura. fechou os olhos e, quando os abriu, começou a se movimentar lentamente, se sentando na ponta da cama, evitando qualquer movimento brusco que fosse capaz de acordá-la. sentiu sua cabeça pulsando rápida e dolorosamente, colocou as mãos na testa e, massageando as têmporas, permaneceu nessa posição por alguns minutos.

ela abriu os olhos e o viu sentado com as mãos na cabeça.

“tá pra perder o juízo?” perguntou com um sorriso de bom dia. ela é um dos seres que ele mais admirava no mundo porque conseguia acordar com bom humor e pronta para fazer piadas.

“é, me segurando pra não te estripar.” disse entre dentes, mostrando um sorriso um tanto quanto sinistro e demonstrando que não sabia a hora de fazer piadas pesadas como aquela. ela fechou o rosto e ele foi emendando “desculpa, a verdade é que estou morrendo de dor de cabeça.”

ela levantou da cama, pôs-se atrás dele, abraçou seu tronco por trás e lhe deu um beijo no pescoço. disse baixinho:

“eu tenho remédio para dor de cabeça no banheiro, se quiser eu vou buscar pra você.”

ele balançou a cabeça de leve, olhou pra ela no fundo de seus olhos verdes e disse que não precisava, que não queria nenhum remédio, a dor passaria por ela própria, era só questão de tempo. depois disso, levantou-se, procurou a roupa pelo quarto e encontrou a cueca e a calça debaixo da cama, sua camisa estava perto do banheiro, sacudiu a camisa no ar e a vestiu. sem olhar pra ela, procurou as chaves do carro, que estavam em cima da mesa, ao lado de sua carteira. abriu a carteira, tirou uma nota de cinqüenta, colocou-a embaixo de um jarrinho de mesa.

“olha, acho melhor ir embora agora. a gente se vê depois? deixei aqui o que te devia.”

saiu do quarto deixando-a só. ela só ouviu a porta da sala sendo fechada. acendeu um cigarro e, entre a fumaça exalada, lágrimas escorriam dos seus olhos.


como encontrar a liberdade (ou como se livrar da culpa e do pecado).

junho 30, 2010

quando acordou eram quase três da tarde. o quarto estava abafado e sua testa estava molhada de suor, apesar do ventilador quase grudado à sua cabeça, os lençóis estavam jogados no chão e ele ainda estava calçado. tinha poucas lembranças dos sonhos que tivera, achava que envolviam liberdade, correr pelo céu que resplandecia lindamente ao seu redor enquanto estrelas brilhavam, mas não tinha certeza. queria o sentimento de liberdade, nem que fosse apenas nos sonhos. o cheiro dela entrava em suas narinas e vinha de todos os lugares da casa: do travesseiro, do lençol, do colchão, do chuveiro, do sanitário, da pia, do ralo, da escova de dentes e do creme dental, da estante de livros e dos cadernos velhos, da televisão e dos filmes em fitas, dos seus discos de música, das suas roupas. ela estava ali e ele sentia medo de jamais ser capaz de se livrar dela para sempre. ainda era capaz de sentir o calor dela se derramando sobre si, enxarcando-o, depois secando e formando uma crosta marrom em sua pele. quando chegou em casa deitou na cama sem lavar seu corpo. ainda sentia em sua boca o sabor do último beijo.

*****

o sol se punha preguiçosamente naquela tarde de segunda vazia. estava passeando entre os canais da televisão sem prestar atenção a nenhum deles especificamente. queria algo que o fizesse esquecer a vida lá fora. na verdade, queria algo que o fizesse esquecer o email, o telefone, as fotos. queria algo que o fizesse esquecer do mundo inteiro, mas especialmente dela. no entanto, é como um amigo próximo costumava lhe dizer: quanto mais se tenta esquecer, mais se consegue lembrar. por pouco não vira as imagens que lhe foram enviadas, quase as ignorara como faz com tudo o mais na vida, mas naquele dia não, naquele dia ele viu e pensou em como seria melhor não ter visto. queria não acreditar naquilo, mas sabia que era verdade, a triste e amarga realidade. sua namorada, sua mulher, sua amada, sua amante, ela. ela beijando outro homem, ela amando outro cara, ela namorando outro cara, ela amando outro cara. ela e outro cara. queria esquecer o que viu, queria não pensar em maneiras de acabar com ela, de fazê-la sofrer. queria não pensar em amordaçá-la, amarrá-la a uma cadeira enquanto riscava sua pele com pedaços de vidro, queria não pensar em como arrancaria seu útero com uma colher entortada, queria não pensar em métodos de tortura medieval, queria não pensar em fogueiras e em gritos de dor. queria ser capaz de ser frio, preciso. controlou-se para não derramar lágrimas. ela chegou em casa por volta das seis, eles viram televisão, um ou dois episódios de seriados de comédia até que ela desligou o aparelhou e foram para o quarto, onde fizeram sexo até que ela caísse no sono. na cama, depois de horas pensando, sem conseguir pregar o olho, olhou para ela e soube exatamente o que deveria fazer.

*****

preparou o jantar como ela gostava, comprou o melhor azeite, o melhor espaguete, os melhores temperos, o melhor corte de filé. abriu uma garrafa de um vinho bom, indicado por um amigo entendedor de bebidas – ele não sabia nada sobre elas, só beber. criou um ambiente confortável e relaxante, acolhedor e romântico. escolheu as músicas a dedo, nenhuma delas poderia estar errada, cada uma deveria ter seu significado e ela deveria gostar de cada uma delas. fez tudo para que se sentisse bem ao fazer o que precisava fazer. fez tudo para que ela não soubesse de nada até que a hora de saber de tudo chegasse.

*****

tudo o que se ouvia naquela rua eram seus sapatos pretos tocando pesadamente o asfalto molhado. o homem alto, cabelos desgrenhados, pele morena e pálida, vestindo roupas escuras e folgadas, caminhava na noite como se ela tivesse sido feita para ele, como se fossem conhecidos de séculos e, ao longo do tempo, tornaram-se grandes amantes.a verdade era que ele havia entendido que a única coisa que poderia amar realmente era a noite, que ela jamais o faria mal. o odor característico daquele bairro penetrava suas narinas: urina e dejetos, alimentos podres e vômito, carniça animal e humana, tudo isso era facilmente encontrado pelas esquinas dali se misturando como se fossem uma coisa só. e talvez fossem.

eram quase duas da manhã de uma quarta feira. andava só, com um leve sorriso de realização no rosto e a lembrança de uma noite que jamais se apagará.

*****

sinatra cantava nas caixas de som enquanto o eles bailavam sozinhos no meio da sala. dançavam juntinhos depois de um jantar a luz de velas e algumas taças de vinho. era uma terça feira, por volta das nove da noite. ela usava um vestido preto que exibia suas belas pernas e sorria a cada passo para lá e para cá que davam ao embalo da música. seu sorriso era lindo, dentes longos e brancos como marfim eram sustentados por suas gengivas róseas e úmidas. seu esmalte se iluminava belamente à luz das velas.

em seus braços, sentia o calor que emanava dela enquanto a segurava com força contra seu corpo. os cabelos longos escorriam-lhe pelas costas, cobrindo os dedos que se punham na nuca da belíssima mulher longilínea, esguia e de pele clara. aproximou sua boca da orelha esquerda dela e articulou palavras facilmente audíveis.

“eu te amo, meu bem.” sua voz era firme e clara.

ela sorriu para ele e disse que também o amava. disse isso num tom calmo e suave, quase automaticamente, como se seu amor viesse apenas do amor dele. deu-lhe um beijo rápido nos lábios.

ele repetiu a declaração, desta vez olhando-a nos olhos.

“eu te amo.” e fixou a mão em sua nuca, fazendo com que ela não fosse capaz de desviar o olhar do dele. seu outro braço a envolvia e puxava contra seu corpo, imobilizando-a. “você é uma vadia que não merece nada além de uma morte lenta e dolorosa, mas eu te amo.”

enfiou sua língua bem fundo na garganta dela, sentiu o gosto da última refeição, sentiu o sabor salgado de lágrimas se misturando ao sabor ferroso.


A mesa.

junho 10, 2010

“então, ela estava lá sentada, tá entendendo? e eu cheguei perto dela e senti o perfume dela e vi que ela tava bebendo uma bebida rosa… então falei pra ela que eu estava olhando ela fazia um tempo. sabe o que ela me disse?”

“o que?”

“ela perguntou se além de olhar eu não queria pegar! caralho!”

“caralho!”

“eu fiquei sem acreditar naquilo, sabe? mas eu disse que seria algo realmente bom, afinal, ela era tão linda, cara. olhos castanhos claros e cabelo preto bem longo, preso num penteado modernoso e bonitinho. e ela tinha uma bundinha linda que parecia maravilhosa de se pegar.”

“você disse isso a ela?”

“eu? não! claro que não. se não ela não deixaria que eu pegasse. a gente foi pra um canto da festa, onde tinha pouca luz e muito som, e começamos a nos beijar feito dois loucos desconhecidos, que é bem isso que a gente era, né verdade?”

“é sim.”

os dois riram. sentados no bar, bebendo cerveja, comendo batatas fritas e tiras de carne macia. para eles a juventude parece eterna e tudo o que há de bom no mundo é conversar sobre mulher, comer filé com fritas e beber entre uma desconhecida e outra.

a lua brilhava alta no céu, cheia como estômago de gordo depois de uma refeição. eram quase oito da noite e eles esperavam a chegada de mais amigos. era a segunda garrafa de cerveja da mesa, mas a conversa ainda ia na primeira mulher. muitas outras viriam, ainda.

“e aí?” perguntou o amigo que ouvia a história, espetando uma batata e uma tira de carne e colocando-as na boca.

“então, pouco depois de a gente se agarrar pesado no escuro – e sim, a bunda dela era ótima de pegar – eu perguntei o nome dela. a gente tava indo pegar mais bebida pra, acho, se agarra ainda mais. clarice, o nome. puta merda, clarice!”

“o que tem?”

“ela começou a falar sobre o maldito nome dela, cara. começou a falar como os pais dela adoravam a escritora e… nossa, deu uma dor no esquerdo de tanto ela falar, sabe? mas eu consegui ignorar boa parte do que ela falava, afinal, ela era tão bonitinha. aí ela continou falando e falando e falando e aí me disse alguma coisa que chamou atenção.”

“o que?”

“ela disse algo sobre o namorado dela achar que lispector é dona das melhores obras literárias do século.”

“puta merda! a mulher tinha namorado?”

“pois é! e ainda tinha um com mal gosto.”

“mulher é foda…”

“mulher é foda! e aí, sabe o que eu fiz? tomei minha cerveja, paguei a conta e fui embora. eu não fico com menina que tem namorado, cara. isso é simplesmente errado. ou ela namora ou ela não namora. pra que namorar alguém se você vai ficar com outras pessoas? o namoro não é uma coisa mais séria, mais comportada e com algumas regras e pressupostos básicos? pra que se submeter a essas coisas, como a monogamia, se você não tá com vontade disso?”

“exatamente! não entendo essa galera que diz que quer namorar e, na primeira chance que tem, aproveita pra trair. não é muito mais fácil e honesto simplesmente não começar?”

“acho que tudo isso é motivado por uma única coisa: o medo.”

“o medo.”

“além da falta de respeito pela outra pessoa. me chame de antiquado, mas eu não gosto desses namoros modernos que as pessoas têm hoje em dia, onde um namora dois que namora três.”

“é um samba do criolo doido, todo mundo é de todo mundo e todo mundo é de ninguém e só reclamam quando não conseguem pegar ninguém. como na música do mamonas, sabe? acredito que são pessoas que têm idéias mal definidas sobre o que é o ficar e o que é o estar junto, o namorar. gosto de pensar que elas só precisam de um tempo para esclarecer e espairecer.”

“é… espero que algum dia elas parem e pensem que talvez a melhor coisa para elas não é um relacionamento, ou até que descubram que é, mas que não é nem um pouco legal você usar e magoar pessoas para conseguir isso. e esse papo todo está me deixando com sede e vontade de mais cerveja.”

“e é por isso que estamos aqui!”

o amigo que contava a história levanta a mão e chama o garçom, que vem à mesa já com uma nova cerveja em mãos. um rosto familiar aparece na rua, caminhando lentamente, se aproximando da mesa. é um jovem de cabelos longos e sem barba, ele sorri e coloca a mão nos ombros de ambos. eles o cumprimentam enquanto o recém chegado senta á mesa.

“quais as novas, caras?”

“bem… acho que a mais recente é que eu tava numa festa e fiquei com uma doidinha com namorado.”

“mulher é foda…” diz o recém chegado.

“mulher é foda.” diz o dono da história.

“mulher é foda.” só nos resta um. “e como andam as coisas com você e a carol, carlos?”

o jovem dos cabelos longos se ajeitou na mesa, ergueu o dedo para que o garçom visse, gesticulou que queria um copo, filou um gole do copo do dono da história, que logo logo será batizado.

“estamos bem, cara. acho. eu nunca sei bem como estão as coisas com a gente. quando acho que estamos bem, ela arranja algo para me fazer sentir mal, quando estamos mal, transamos feito dois loucos, como se fosse a única coisa que nos une e aí nos sentimos bem e acho que está tudo bem quando, na verdade, as coisas ainda estão más na cabeça dela. mulher é foda.”

“mulher é foda…”

“mulher é foda…”

o graçom trouxe o copo para carlos, que se serviu e a seus amigos, tomou um gole longo.

“e você, marco, como foi essa história da mulher com namorado?”

“então, eu estava num show ruim de uma banda ruim que uns amigos da faculdade gostam, então encontrei essa garota. que basicamente disse que queria se agarrar. então fomos, né? clarice. falou sobre lispector e sobre o namorado.”

“porra! só falou merda, hein?”

a risada foi alta. as outras mesas do bar viraram suas cabeças na direção da mesa onde estavam os três. duas pessoas se aproximaram deles, rostos conhecidos. cumprimentaram todos e sentaram. fizeram o mesmo gesto de carlos, pedindo copos.

“como é que vocês estão, caras?” perguntou o ainda sem nome.

“estou bem, otto, e você?”

“é, otto, tudo tranquilo. mas e você, como é que tá? tua vó melhorou?”

“melhorou sim, neto. já saiu do hospital e tudo. valeu.”

“que nada, cara. gente fina ela. mande um beijo.”

“tá certo.”

“então, quais as novas?” perguntou o recém chegado ainda desconhecido. pegou seu copo e tentou se servir de cerveja, mas só conseguiu um dedo de copo. pediu mais duas garrafas para a mesa.

“porra, júnior, o marco tava contando aqui de uma doidinha que queria dar pra ele numa festa.” disse carlos entre risos.

“porra! e aí, cara, comeu?”

“não é bem assim, cara. a menina gostava de lispector.”

“mas que gosto seboso.”

“pois é… eu nem sabia, mas perguntei o nome, clarice, e ela começou a me falar disso. e o pior… ela tinha namorado.”

“porra! que safada! caralho, mulher é foda.”

“mulher é foda.”

“mulher é foda.”

“mulher é foda.”

“mulher é foda.”

“mulher é foda.”

“mulher é foda.”


psycho circus.

maio 26, 2010

conheci adelaide como ninguém mais poderia conhecer outra pessoa. pelo menos era isso que eu pensava todos os dias da minha vida, quando acordava ao seu lado e a via completamente assanhada, sem seus cabelos bem penteados, sem o toque suave do hortelã artificial do creme dental, sem suas maquiagens para disfarçar suas “imperfeições”. eu nunca enxerguei muito essas coisas que ela teimava em disfarçar com seus pós coloridos, achava até que elas eram extremamente benéficas para nosso relacionamento, já que assim eu sabia que estava me envolvendo com uma pessoa real e não uma mulher feita de plástico como tantas outras que existem por aí e que espreitam nas sombras, prontas para se mostrarem como bonecas do rosto liso como bunda de nenê ou coisa parecida. adorava cada espinha de adelaide, suas olheiras, suas marcas de expressão, seus pêlos que escorriam pelo ralo de vez em quando e em certas ocasiões encravavam e inflamavam, suas unhas roídas por causa do nervosismo que nunca passava. eu adorava…não, eu ama adelaide. a mulher dos olhos verdes e das sardas no nariz pequeno, dos cabelos ondulados e dos braços roliços, das pernas pouco torneadas, mas que me fazia sempre querer estar entre elas. adelaide, a mágica, a palhaça, a inteligente, a vadia.

estivemos juntos por um tempo. tempo o suficiente para que eu acreditasse que estava feliz ali, ao lado dela. talvez eu até estivesse realmente me sentindo daquele jeito. estar com aquela mulher era sempre se extasiar com alguma de suas maravilhas. nas nossas conversas, não havia assunto que não pudessemos abordar. numa noite deitados na cama, fazendo sexo e vendo televisão, geralmente, iamos de sexo e nossas fantasias a invasões extra terrestres e pactos universais de preservação de civilizações ainda em desenvolvimento científico e tecnológico, passando por música e seus significados para cada um de nós, por livros e quadrinhos lidos e não lidos e a possibilidade de uma futura leitura,  sem falar das séries e programas de tv que assistiamos (ela costumava rir das coisas mais sem graça, enquanto eu costumava rir das coisas mais idiotas) e que estavam passando entre os intervalos da televisão ligada. nos sentíamos extremamente a vontade quando nossos corpos repousavam um ao lado do outro no colchão, e meu membro geralmente se intumescia facilmente quando a via ao meu lado, o corpo nu, seus ombros bronzeados, suas marcas de sol, seus sinais, suas manchas, seus pêlos pubianos bem aparados. a visão dela esparramada na cama, mudando de canal intensamente, numa busca desesperada por uma boa programação enquanto descansamos da atividade sexual recém terminada, me faz voltar para cima e para dentro dela, me aventurando em seus orifícios e sentindo seu calor por mais algum tempo. na verdade, acredito que tenhamos ficado juntos tempo o suficiente para saber que ela era o tipo de mulher que eu queria ter ao meu lado por muito tempo. talvez, até o fim da minha vida, ou da dela, o que viesse primeiro.

agiamos como muitos casais e, quem observasse, nos acharia um casal normal: jantares, cinemas, motéis, programas a dois em sua maioria (por mais que às vezes eu tentasse trazer alguma moça para fazermos algo a três). amigos eram restritos a certas ocasiões especiais como aniversários, despedidas, funerais e missas de sétimo dia e, ainda assim, com ela me acompanhando. quando eramos nós, eramos realmente nós. o eu inexistia, assim como o ela. não acreditava que isso me fizesse mal, achava até que ela seria capaz de me valer muito mais do que meus amigos. não se troca amigos por mulher.

um dia resolvemos fazer um passeio diferente, inusitado. não lembro bem quem propôs isso, acho que foi ela. há uns tempos ela havia dito que nosso relacionamento havia entrado no ciclo da mesmice e que precisavamos mudar algo nele, fazer coisas novas. eu, querendo ser um bom namorado, acreditei que aquela proposta não nos faria mal e, depois de uma discussão sobre os porquês de se fazer um menàge a trois com uma amiga e não com um amigo, aceitei que o melhor mesmo era algo mais leve. um circo chegara na cidade havia nove dias e resolvemos que esse seria nosso programa para o final de semana, um início leve para as mudanças.

eu nunca fui uma pessoa chegada a circos. nunca gostei dos animais treinados – na verdade, nunca gostei de animais que não estivessem devidamente assados (há dias para os bem passados e há dias para os mal passados) e bem servidos – andar em cordas finas suspensas a metros do chão com uma rede de proteção nunca me pareceu encantador, afinal só acho que é preciso andar em linha reta para se mostrar sóbrio e, mesmo sem álcool no meu sangue, essa é uma tarefa um tanto desnecessária, afinal, quem vai avaliar se estou realmente andando reto ou cambaleando um pouco? então vem aquela parte em que tiram a rede de proteção e o show começa a parece uma tentativa de suicídio que fascina a todos. os olhos vidrados e a tensão a cada passo dado pelo equilibrista. o pensamento constante de todos: ele vai cair, ele vai cair. a espera por aquela que vem para todos nós. então o cidadão consegue chegar do outro lado do fio e todos aplaudem sua busca pela morte. é a mesma coisa com os malabaristas. não gosto do globo da morte – e qual a fixação desses circenses pela morte? sei que todos pensamos nela, alguns a temem, mas… buscá-la tanto certamente não os faz pessoas saudáveis. eles são o tipo de gente que, de acordo com o que aprendi na faculdade, estão sofrendo com algum transtorno psiquiátrico e precisam de ajuda e tratamento, antes que esse grito por ajuda se cale com um som mudo de ossos se quebrando dentro da carne depois de uma queda. globo da morte. um barulho incrivelmente alto, ensurdecedor, o cheiro de combustível queimando e pessoas fazendo loopings em velocidades constantes que viram problemas de física para alunos do segundo grau. o melhor do circo são os ilusionistas e suas assistentes deliciosas e o segundo pior (porque nada supera os animais treinados e o tédio que eles me trazem) são os palhaços. aqueles seres grotescos com rosto pintado de branco e uma maquiagem ridícula ao redor da boca, dos olhos, do nariz, se fazendo passar por situações pseudo engraçadas, das quais as crianças riem pela inocência e os adultos por saberem que seus empregos são melhores que aquilo e que não precisam passar o ridículo de ter que trabalhar daquela maneira.

palhaços são grotescos e aquele que se apresentou naquela noite abafada dentro daquela tenda gigantesca era o mais sem graça de todos. entrou olhando para os lados, com um jeito que tentava imitar andy kaufman, mas sem metade da espontaneidade ou o talento dele, uma situação em que tentava ser engraçado pelo jeito enquanto era algo visivelmente artificial, mas que todos ao redor riam, inclusive adelaide. depois de sua entrada, tropeçando em suas próprias pernas e caindo, olhando ao redor, a procurar em que havia topado, levantou-se, limpou-se, e começou a soltar piadas idiotas sobre seus animais. as crianças riam suas risadas de criança, claras e belas, e os adultos riam também, com suas vozes graves e velhas e eu os observava todos e não entendia o motivo de suas gargalhadas. adelaide estava encantada, os olhos não se desviavam do picadeiro, onde uma luz acompanhava os passos do palhaço que corria de um lado para o outro, com uma mão levantando as calças e a outra segurando seu chapéu. seu rosto pintado de branco com detalhes pretos ao redor dos olhos e da boca, mais parecia um mímico que fugiu da escola de mímica porque, diferente de todos os outros, não conseguia manter-se calado. a apresentação acabou, foi o número final. todos estavam maravilhados com aquilo. adelaide pediu para visitar os bastidores, eu disse que podia ser, já havia aturado tudo aquilo até aquele momento, por que não um pouco mais? pelo menos agora não haveria aqueles animais e toda a artificialidade da apresentação. fomos para os bastidores.

conhecemos os domadores, os malabaristas, os equilibristas, os ilusionistas, demos parabéns a todos eles, conhecemos, então, o palhaço. seu nome era matias e, tirando a maquiagem, que servia para esconder um rosto de traços delicados, ainda jovens, era igualzinho ao que se apresentava no palco: piadas sem graça para agradar a quem quer que se aproximasse dele, sempre prestativo, uma pessoa na qual eu não confiaria. em seu visual destacavam-se os olhos, que se apresentavam um de cada cor, o esquerdo era azul e, o direito, castanho. parabenizei-o pelo espetáculo, como fiz com os outros e me despedi. adelaide então me segurou um pouco mais, estava fascinada pelo homem alto e magro que estava ali.

quando saímos de perto dele, alfinetei-a dizendo que ela havia dado mole para o palhaço e que estava me sentindo ameaçado. ela riu. eu ri. chegamos em casa, fizemos sexo, vimos tv, discutimos sobre a situação do circo no brasil e no mundo, sobre não mais utilizarem animais e sobre como na apresentação daquele dia havia sido a última ou algo do tipo, fizemos mais sexo, depois falamos sobre filmes que se passam em circos como dumbo e aquele dos trapalhões e robin hood. falamos sobre as adaptações de robin hood para o cinema e como a melhor delas talvez tenha sido a da raposa da disney. fizemos mais sexo e dormimos. quando acordei naquela manhã de domingo, adelaide não estava descabelada ao meu lado, com o rosto amassado por causa do travesseiro ou o gosto de sono na sua boca. chamei por ela e não houve resposta. chamei umas três vezes, gritei seu nome. a porta do quarto estava fechado para que o frio se mantivesse dentro. levantei-me e fui ao banheiro. de lá disse seu nome.

“adelaide?”

não houve resposta. fui na cozinha esperando encontrá-la, mas não estava lá. procurei em todos os cômodos do apartamento e ela não estava. peguei o telefone e liguei para ela. ao primeiro toque, ouvi seu celular tocando de dentro do quarto. saiu sem ele. foi então que notei um bilhete no chão, à beira da porta. peguei-o e comecei a ler o que estava escrito nele, à mão. a letra era dela, de adelaide. li atentamente, cada uma das palavras, uma, duas, três vezes. sentei-me e reli o bilhete por mais vezes do que possa me lembrar. eram poucas as palavras escritas, mas diziam tudo. “eu te amo, mas o matias me arrebatou.”

então você me pergunta o que eu estou fazendo aqui? por que é que estou preso com vocês aqui, hoje? por que escolhi matar todos os palhaços que encontrasse? bem… essa é a resposta.

Psycho Circus


quem?

maio 12, 2010

havia uma mulher. sempre houve uma mulher. em toda história do mundo, há sempre um desses magníficos seres. de adão e eva a eu e ela, a vida do homem tem sempre o incrível peso da presença e leveza das mulheres. lembro bem dos olhos dessa mulher pousando sobre meu corpo, sempre me analisando como se eu fosse uma conta de matemática errada e ela quisesse encontrar onde estava o erro responsável pelo resultado final para poder corrigí-lo enquanto há tempo. não havia mais tempo, mas ela não sabia disso à época. seus olhos eram da cor do mar num dia de sol e me faziam sentir nu e desconcertado. eu me esforçava para não transparecer nada do que sentia naquele exato momento: a tensão, o medo de sua análise, o frio na barriga que me dava de saber que ela estava olhando para mim. momentos como esse parecem ter sua própria lógica no tempo, parecem pesar os segundos, fazendo-o com que se arraste ao invés de continuar caminhando como sempre faz.

então vi seus lábios se movendo, seus músculos da face se contraindo e formando um sorriso. seus dentes se expunham para mim. aquela boca, aquele sorriso, dentes, língua, eram meus e eu sabia disso. foi naquele momento, numa mesa de um restaurante, lendo um livro enquanto a esperava chegar para nosso encontro, que ela apareceu, sorriu e se entregou a mim e eu percebi que não haveria nenhuma outra mulher para mim, naquela hora. eu tinha vinte e poucos anos naqueles tempos, ela tinha seus dezessete, com um rosto de catorze e um corpo de vinte e cinco (o ápice corporal de uma mulher). era dona de uma bunda linda, dura e grande, que sempre fazia minha cueca ficar apertada.

foi numa noite de setembro, ela e eu no meu quarto, na velha casa, as roupas soltas pelo chão, nós no meio dos lençóis desarrumados da minha antiga cama de solteiro, que ela me disse para ter paciência, que ela não queria que doesse. eu, com a cabeça entre suas coxas, sentindo o gosto de sua labia minora em minha boca, lhe disse que faria o melhor para que se sentisse bem, para que houvesse conforto e que tentaria fazer de tudo para acontecer da forma menos traumática possível. ela não pareceu acreditar nas minhas palavras, mas me beijou a boca e recostou na cama. se entregou sorrindo, pedindo pra ir com calma. eu fui. bem devagar, fui a penetrando, como nenhum outro homem fez antes, seu calor a me envolver. houve certa resistência inicialmente, seu rosto com expressão de dor me fez sentir uma mescla de cuidado e pena e prazer. senti seu sangue escorrendo e manchando o lençol sob nossos corpos. os movimentos foram suaves, tentei fazer com que sentisse o mínimo de desconforto com a nova experiência e ela disse que adiantou, por menos que eu tenha acreditado. apesar de todas essas coisas, aquela foi uma noite, diferente das muitas primeiras vezes, ótima para ambos. noites depois já fodiamos como dois cães loucos no cio.

eu só queria que todos os dias de hoje fossem iguais àqueles que passei com ela. queria mais uma vez sentir seus movimentos de quadril e cintura sobre o meu corpo, suas mãos delicadas e pequenas e sua boca quente e macia envolvendo meu membro túrgido; sentir suas coxas e sua bunda com minhas mãos, morder suas nádegas, lubrificar bem seu ânus, passear por sua vulva com minha língua e sentir seu sabor ácido e finalmente sentir o calor daquele canal vaginal, enquanto minha glande bate inúmeras vezes naquele colo de útero. todas essas pequenas coisas me fizeram um mal que nenhuma outra mulher conseguirá fazer: me fizeram sonhar em ter um futuro ao lado de alguém, onde eu trabalharia de oito a doze horas por dia, faria plantões noturnos, lavando meu rosto para acordar entre uma emendada de noite com dia, ralaria até a exaustão só para poder dar tudo o que eu acreditava que ela merecesse.

foi isso o que fiz enquanto ela esteve comigo. enquanto estive com ela, a vida era uma grande festa. ela, com seus cabelos vermelhos, fazendo-me sorrir até nos momentos mais inapropriados, dizia ao meu ouvido, no meio de funerais, que queria sair dali para poder transar comigo entre as árvores mais distantes do cemitério, falava enquanto o padre proferia a omilia que ela, que me arrastou até ali, preferia ir ao confessionário comigo para realizarmos aquela cena de detroit rock city que acho tão fabulosa e que meio que virou uma fantasia sexual minha, sussurrava que precisava de mim dentro dela urgentemente enquanto jantavamos e morriamos de tédio na casa dos primos dela, numa comemoração de aniversário. enquanto fomos um casal, fomos o melhor casal que eu poderia ser com alguém. aquele tipo de dupla que você vê e sabe que há uma algo mágico em vê-los juntos e sabe que é errado haver uma separação entre os dois. enquanto estivemos juntos fomos algo que o mundo jamais verá novamente.

não importava se eu estivesse cansado, quando eu voltava para casa depois das doze ou mais horas de trabalho seguidos, ela subia em cima de mim (nesses tempos nós já morávamos juntos, eu trabalhando, ela estudando as coisas da faculdade dela) e caiamos no chão, nos arrastavamos para a cama e trepavamos feito dois macacos. com ela eu sentia que minha vida era como a lua de mel que passamos no havaí. rolando no chão, com a areia tocando nossas peles salgadas e seu sorriso sempre presente me fazendo me sentir bem por ser capaz de fazê-la feliz por alguns momentos. não importava se eu estava triste em casa, depois de perder um paciente ou de levar um esporro de um dos diretores do hospital, depois de uma maldita ameaça de processo por ter salvo a vida de uma pessoa, ela sempre conseguia chegar ao meu lado e me fazer sorrir. ela sempre arranjava um jeito de me fazer parar de dizer que não estava bem, com sua mão procurando sempre o zíper da minha calça e seus olhos sempre grudados nos meus.

foi depois do segundo filho, da nossa segunda criança. foi depois do nascimento de ivan, que ela deixou de estar no mundo dos vivos, o único mundo que existe para mim. foi uma gravidez complicada, o pré natal de risco extremo, sua pressão estava elevada demais, na hora ela entrou em eclâmpsia. não conseguiram salvá-la. sofia, nossa filha, tinha cinco anos quando ela morreu. nós, eu e ela, minha mulher, nos conhecíamos há dez. tão nova ela foi embora. ela que era minha, a melhor. que tinha a bunda mais linda que eu já vi na minha vida, com o melhor sabor e os melhores movimentos, o melhor calor. seu funeral foi o primeiro funeral triste que fui em toda a minha vida. tantas mãos nos meus ombros tantos olhares de sinto muito e tantos pêsames, mas tudo o que eu queria era sua mão no meu ombro, seu hálito quente chegando em minha face e seu sussurro me chamando para transar debaixo de uma mangueira no final do cemitério.

a muitas pessoas resolveram ser professores, resolveram me ensinar o bê a bá, queriam que eu aprendesse letra por letra de cada uma das coisas que achavam que era importante em si, mas para ser ditado, não adianta ir à escola. as palavras estão em qualquer livro, basta a nós nos interessar e aprendê-las. a vida resolveu me dar uma lição tirando a única coisa que me fez pensar, ao longo de quase quarenta anos, que a vida valia a pena. hoje, com mais de sessenta anos, com filhos criados e netos por nascer, eu aprendi muito mais com as coisas que a vida me fez do que com as que as pessoas ao redor tanto tentaram me mandar. desde que minha mulher foi embora, desde que a vida levou minha melhor amiga para longe de mim, eu tenho feito perguntas a todos. e ninguém soube realmente responder a uma dessas, não sem parecerem um bando de falsos autosuficientes, um bando de imbecis que não entendem que não adianta, que quem segurar, cairá junto.

então, quem me segura, se eu cair?


MEU lixo.

abril 24, 2010

carlos escreve todos os dias. ensinaram-lhe que para escrever bem, deve-se escrever todos os dias em uma boa quantidade. carlos, todas as noites, escreve em seu blog cerca de quinhentas palavras sobre temas diversos. de futebols e carros a textos ficcionais tratando sobre a vida, o universo e tudo mais. carlos se comunica com outras pessoas ao redor do mundo que têm gostos semelhantes aos dele e fazem as mesmas coisas, tratam dos mesmos assuntos e escrevem todos os dias em quantidades admiráveis. carlos acha que um dia alguém deveria chamá-lo para publicar um livro com suas idéias, acredita ser capaz de expô-las bem em um ou mais volumes. carlos se ilude achando que suas palavras são bonitas. ele é mais um no meio de tantos que produz a cultura do mundo através de palavras mal escritas que dizem muito pouco, e tentam ser mais do que verdadeiramente são.

fernanda acha que ver o mundo através das lentes de sua câmera de dez mil reais é ver o mundo através da arte. fernanda leu o manual de duzentas e quinze páginas que explicava detalhadamente cada uma das funções de sua máquina fotográfica. ela já fez cursos sobre fotografia, mas nunca aprendeu os efeitos de luz e sombra. fernanda nunca revelou um filme de máquina, nunca entrou numa sala escura. ela sabe usar o photoshop e usa e abusa desses recursos quando bem entende. fernanda tira fotos de seus amigos, do céu, do mar, de folhas e de pedras. fernanda deita no chão para fotografar estátuas de baixo para cima e os resultados esdrúxulos de suas incursões fotográficas são vistas na sua página/portfólio on line. fernanda não tem qualidade, não tem o olho e todas as suas fotos parecem boas porque a câmera é boa e só. fernanda é uma das milhares de pessoas que acreditam que suas fotos caseiras podem e deveriam ser expostas para o mundo em galerias e não em álbuns pessoais.

marcelo e madalena são irmãos. marcelo aprendeu a tocar violão há dois meses, aos dezessete anos; madalena sempre gostou de cantar no chuveiro e hoje, aos vinte, acredita que está pronta para mostrar ao mundo seu suposto talento musical em vídeos caseiros gravados no quarto do computador. nos vídeos onde ela dança porcamente na frente de uma câmera parada, enquanto seu irmão toca um ré mi fá com uma batida estranha e sem compasso, ela consegue cantar fora do tom, fora do tempo e fora de qualquer ritmo que ela esteja propondo cantar. tudo isso enquanto se ouve a respiração ofegante devido ao esforço da dança. no fundo do vídeo, seu irmão sofre para fazer a pestana do fá e demora demais para passar de um acorde para o outro. eles acreditam piamente que o som que fazem, uma mistura de axé com forró com letra de funk carioca, será o próximo sucesso da música popular brasileira. o medo é que eles acertem essa previsão.

sabrina ouve bob dylan, johnny cash, neil diamond, crosby, still, nash com e sem young, o mesmo young em outros momentos; lê os escritores da geração beat: neal cassidy, kerouak, burroughs; lê bukowski, fante, henry miller, anaïs nin; lia clarice e lygia, caio fernando abreu. tinha contas nos álbuns on line, onde postava as fotos em preto e branco dos seus tênis quadriculados guardados no seu armário; ela também tem um blog onde expõe pensamentos dpressivos e sensações de solidão para que todos comentem sobre sua infelicidade. ocasionalmente, sabrina coloca trechos de caio fernando abreu e clarice lispector, entre aspas, em seus textos e faz disso uma postagem. acredita que por causa das supostas boas influencias culturais e do dito bom gosto, é capaz de produzir tão bem quanto suas “influências”. sabrina se engana e consigo leva várias amigas com gostos semelhantes. juntas organizam saraus onde recitam seus poemas mal escritos, fazem shows onde tocam mal seus instrumentos e cantam suas letras de músicas que deveriam seguir uma linha entre o folk americano e o rock n roll, mas que terminam caindo no lugar comum de todas as músicas from uk.

os relatos supracitados são histórias de ficção, personagens que não existem como os descrevi, ou melhor, que estão vivos entre nós e você pode encontrá-los facilmente, mas são ficção pelo fato de eu não conhecê-los bem o suficiente para descrevê-los como fiz, usando, assim, recursos da minha imaginação para criá-los e apresentá-los. entre todos os casos – carlos, fernanda, marcelo e madalena, sabrina – há uma linha comum que os amarra num só grupo de novos fazedores da atual cultura: a internet.

com o acesso à internet, todos os dias centenas de milhares de usuários dos blogs, flickr, youtube e redes sociais em geral, divulgam, através dessas ferramentas, o que seria sua produção cultural. através de fotos tiradas por suas câmeras caras semiprofissionais, suas músicas de batidas repetitivas, letras vazias e ritmos completamente descompassados, seus textos inundados de palavras rebuscadas e difíceis, que dizem absolutamente nada relevante sobre a vida, em todos os possíveis aspectos que seja possível em muitas palavras não falar sobre coisa alguma, conseguem mostrar ao mundo sua irrelevância e inundar o planeta com suas inutilidades. e todas essas imagens tiradas na função preto e branco da máquina digital, todas as poses pseudoespontâneas, todos os poeres e nasceres do sol, cada um dos textos que tentam ser intimistas falando sobre os sentimentos de angústia e a sensação de solidão no meio da multidão entram como cultura mesmo quando, na verdade, não são muita coisa. para ser cultura não precisa de muita coisa, na verdade, nada é necessário para se produzir cultura, apenas a vontade de criar qualquer coisa. a cultura, atualmente, tem muito pouco significado. a massificação, a deselitização, a globalização proporcionaram uma cultura global onde há a perda da identidade cultural e da cultura polarizada. a mesma coisa que deu a todos as oportunidades de expor suas visões, deu ao povo a capacidade de fazer qualquer coisa e a liberdade de chamá-la de cultura. e não é que elas sejam menos cultura, mas me irrito porque o filtro entre a cultura boa e a ruim é algo extremamente íntimo e pessoal e a massa, através de sua filtração, escolhe o lixo para ser exposto como a cultura domintante.


Artemis.

abril 22, 2010

quando a conheci, ela era uma mulher rasa como um pires, de predileções fúteis e um gosto indubitavelmente ruim. agradava-lhe tudo o que me desagradava, ou quase tudo, das cores aos sons. enquanto eu gostava das cores neutras, do preto e branco, ela gostava das cores chamativas, aquelas que logo são captadas quando nossos olhos repousam no objeto: o vermelho, o amarelo, o rosa. enquanto eu passava o dia escutando aos clássicos rock do século XX, ela escutava tudo o que estivesse tocando nas rádios populares, escutava a música que me dava arrapios de terror. mas o que mais me doía era saber que com ela eu jamais poderia discutir minha grande paixão: os livros. ela simplesmente tinha desprezo por eles. não consigo entender como consegui me apaixonar por aquela mulher.

seu sorriso era claro e caloroso, como a luz do sol. seus dentes incrivelmente proporcionais, nem grandes demais e nem pequenos demais, faziam com que fosse um dos mais lindos que já vi. eu me sentia incrivelmente bem quando a via sorrindo, o que me fazia ter vontade de sempre fazê-la rir. isso era um problema sério, porque tenho quase certeza que ela me achava completamente sem graça e, das minhas ironias, meu recurso linguístico favorito, ela entendia poucas, além de não apreciar o sarcasmo nas minhas palavras e o humor negro que cercava boa parte das minhas piadas favoritas. ela era uma garota ingênua e nem um pouco inocente. ela era, no bom generalês, uma moça completamente comum e sem atrativos que não fossem seu rosto lindo e aquele corpo maravilhoso, que será detalhado mais adiante. seus lábios eram grossos, e rosados, úmidos e me deixavam com uma vontade absurda de não fazer mais nada no mundo além de provar daquela suculenta boca.

seus olhos eram da cor de mel escorrendo, algo nem muito claro nem muito escuro, reluzente sob o efeito da luz branca que incide no líquido espesso. emoldurados por cílios longos e sempre bem feitas sobrancelhas, seu olhar seduzia por parecer ser mais do que verdadeiramente é, por parecer analisar a alma do ser observado. quando encontrei aqueles lindos globos me observando pela primeira vez, me questionei o motivo, a razão daquela linda mulher me observar. me questionei sobre como ela parecia me entender como nunca fui entendido, senti que ela poderia muito bem me acalentar em seus braços, me aquecer entre as pernas, me dar o colo quando eu precisasse e tudo estaria bem desde que eu a tivesse comigo. depois descobri que tudo o que lhe passou pela cabeça foi: “como esse cara é estranho e como usa umas camisas com estampas estranhas.”

seu rosto era completamente harmônico, e seus cabelos longos e negros  de fios finos e delicados, caíam-lhe pelas costas até chegarem à sua cintura fina. seus traços eram completamente femininos, finos e delicados, mas fortes e firmes.

seus quadris eram largos e ela era dona de duas belas pernas, bem torneadas a muitos exercícios nas academias que eu abomino. ela estudava educação física, seja lá como se estude a educação física, os resultados dos exercícios físicos eram explicitados naquele corpo de músculos rígidos, onde a gordura só estava onde realmente deveria estar: mamas e quadris, mas sem se excederem de forma alguma. era uma mulher digna de capa de revistas. e eu não faço a menor idéia de como começamos a nos relacionar.

sei que um belo dia, numa festa na qual eu não queria estar, ouvindo as músicas que o que eu não gostava de ouvir, dançando o que não queria dançar (na verdade, só o fato de eu estar me movendo numa pista de dança quer dizer que eu já não suportava o lugar) e bebendo mais do que deveria beber (para que tudo fique suportável) , me vi com o nariz enfiado no cangote dessa mulher. seu cheiro era de suor e exalava um perfume bom como poucos suores conseguem fazer. das caixas de som saiam barulhos eletrônicos, muitas batidas compassadas por minuto, mais do que seria humanamente possível, mais do que o saudável, ao redor de mim e dela as pessoas pulam e se debatem, os braços se agitam, enquanto eu estou com minha cabeça apoiada num dos ombros dela, com meus braços ao redor do pescoço dela, enquanto ela me abraça e descança a cabeça em mim. não falamos nada, não fazemos nada, a não ser dar um passo para um lado e para o outro até que, ao fim do que as pessoas ao redor chamam de música, nós nos olhamos e nossos lábios resolvem se encontrar.

naquela noite nos beijamos por muito tempo, nos encostamos numa parede escura do bar e ficamos lá até que um amigo meu me encontrou e me levou embora sob a ameaça de não ter mais carona para casa. achei justo e fui embora. não troquei números, nem e-mails e não sabiamos de quem eramos amigos nas redes sociais da vida. coisas da vida.

depois de uma semana, nos encontramos novamente. ela lembrava de mim como se não tivesse sofrido de blackout alcoólico na manhã seguinte, enquanto eu tentava me lembrar dela além da parede no escuro e da língua quente passeando na minha boca. eu estava no aniversário de um colega de trabalho e ela veio falar comigo, dizendo meu nome e tudo mais. eu sorri para ela e conversei com ela esperando que saber seu nome não fosse necessário. por sorte, uma amiga dela a chamou e ouvi seu nome, levemente familiar.

conversamos por um tempo, eu não tinha uma gota de álcool no meu sangue naquela noite, meu nível de tolerância para pessoas superficiais e rasas estava no nível mais baixo e manter uma conversa com ela era um tanto supliciante, mas era um sacrifício que chegava a valer a pena simplesmente pela presença e o cheiro daquela obra prima da natureza, que se erguia em seus dois pilares maravilhosos bem na minha frente. ela parecia feliz por me ver e eu tentava forçar meu sorriso falso mais sincero possível, aqueles que me doem os músculos da face ao tentar fazer com que parecessem reais sem expor meus dentes inferiores. acho que consegui isso quando ela não resistiu minha tentativa de beijá-la e nossas bocas se encontraram e nossas línguas se tocaram mais uma vez. dessa vez, no entanto, trocamos telefones, emails, perfis de redes sociais. na verdade, naquela festa marcamos de almoçar no outro dia juntos e ver um filme no cinema, qualquer filme, qualquer hora, o sentido daquilo estava explícito e a proposição foi minha: sou um cara clássico que apela para os velhos clichês do almoço/cinema, um programa de respeito que muitas moças de hoje em dia não fazem a menor idéia que existe.

na tarde seguinte eu quase não acordei para o almoço marcado. cheguei no local combinado a pé, suado, e atrasado. estava usando uma das minhas camisas favoritas, preta com uma estampa que faz referência a um filme inglês de comédia dos anos 70, um jeans um tanto surrado e meu único tênis confortável. ela vestia um vestido roxo com detalhes verdes, algumas jóias no pescoço e orelhas e um anel no polegar. lembrei que meus amigos dizem que mulheres com anel no polegar curte anal e esperei que fosse verdade, porque era ela quem estava sentada numa cadeira, esperando que eu chegasse para almoçar com ela e entrarmos numa sala escura, onde sentaríamos num canto e colocaríamos as mãos sobre as genitálias um do outro. sentei na cadeira em frente à dela, perguntei o que ela queria comer e ela disse uma daquelas comidas saudáveis que eu jamais teria coragem e ousadia de colocar na minha boca com medo de estragar minhas papilas gustativas. eu pedi a coisa menos saudável e mais apetitosa do cardápio. conversamos coisas bestas como o dia de ontem, o retorno da festa, o sono, o tempo, ela me falou um pouco sobre o curso que fazia, eu falei um pouco do meu trabalho, dos tempos da faculdade, então a comida chegou e falamos sobre nossos hábitos e ela não pareceu achar graça nenhuma no fato de eu desprezar todas as tentativas de dietas saudáveis que existem e discordou completamente quando eu disse que simplesmente não valia a pena viver até os 120 anos se para isso eu não poderia comer o que é gostoso e viver uma vida de sedentário fazendo apenas o que gosto. ela pareceu bastante chocada com isso. então eu ri desse abismo que se abriu entre nós e ela achou que eu estava rindo do que eu estava dizendo e voltou a falar as mesmas coisas que me entravam num ouvido e saiam pelo outro. então levantamos e fomos, no carro dela, para o cinema.

escolhemos qualquer filme, o primeiro que começasse, e terminou sendo uma comédia romântica mela cueca onde tudo dá certo no final. as grandes inverdades da vida estão nessas películas. não que tenhamos prestado atenção à tela. nossas mãos passearam sobre nossos corpos e parte íntimas e meus dedos chegaram a tocar a carne entre suas coxas, sentindo seu calor e umidade.

eu não voltei para casa naquele dia. depois do cinema, ela me chamou para um encontro das amigas dela, onde eu seria um completo estranho e acabaria por conhecer quatro das pessoas mais vazias que já conheci na minha vida. as amigas dela eram lindas, verdadeiras belezas, semelhantes a ela, embrulhos semelhantes, recheios idem. aquele jantar foi o maior exercício mental ao qual precisei me submeter. foram três horas de sorrisos falsos, acenos com a cabeça, brincadeiras fúteis, tentativas falhas de puxar algum assunto interessante e me ver sufocado por conversas sobre festas ruins, shows ruins, amigas falsas, amigos falsos, academia, paqueras com homens bombados que fingem que são heteros quando na verdade gostam mesmo é de suar com outros homens.

foi suar com ela o que fiz depois daquela tortura. e foi ótimo. sua boca no meu corpo, minha língua sentindo o sabor salgado de sua pele, do corpo todo, todas essas coisas que acontecem no caminho do encontro dos nossos órgãos sexuais, o caminho sensual das preliminares. a visão do seu corpo nu era gloriosa, seus pêlos crespos bem aparados, sua bunda firme me chamando, seu calor…

dessa noite em diante, passamos a nos comunicar muito mais. não sei precisar quando me vi preso a ela. e quando digo preso não é como numa prisão, mas apenas sentindo a necessidade diária dela, sentindo-me apaixonado. não sei pelo que me apaixonei, achei que seria impossível isso acontecer, não acreditava que aquela mulher que não lia porque ia malhar, que ouvia não as músicas boas, mas as músicas para dançar, que gostava de comidas saudáveis e de cuidar do corpo mais do que cuidar da mente fosse me fazer pensar nela todos os dia. mas aconteceu, fui pego.

ficamos juntos por sete meses. o fim chegou quando me dei conta que eu não sabia o motivo de estar apaixonado por ela e a paixão simplesmente foi embora. o encanto acabou bem como ele começou. percebi que em momento nenhum daquele relacionamento eu me diverti verdadeiramente quando estávamos fora do quarto. ela seria uma ótima amante, uma ótima transa eventual, mas ela havia se tornado minha namorada, minha paixão.

eu disse que quando a conheci ela era rasa como um pires. queria poder dizer que quando a deixei ela havia melhorado, havia se interessado por coisas boas, mas estaria mentindo. a única diferença é que agora ela engole ao invés de cuspir.


sul.

abril 8, 2010

“me decidi. eu vou pro sul. depois de muito pensar em tudo o que cerca essa quase mitologia que é essa coisa que chamamos de nós dois, acho que o melhor a ser feito é me dar um tempo para pensar em tudo o que se poderia pensar, ou quase isso. então, eu decidi num arroubo de pensamento: vou pro sul. pra qual lugar? eu ainda não sei exatamente. talvez eu vá ao gunga, começarei tudo por lá – afinal, tudo precisa de um início e esse é um maravilhoso. aproveitarei o sol e o mar e continuarei meu caminho até nossa primeira capital, marechal, onde vou comer uma dessas comidas que adoro, mas que nunca comi em tua companhia por causa dos teus eosinófilos, tua cara inchada, tua quase falta de ar. vou continuar lá por um tempo, ver o francês e sua piscina natural calminha e limpa e, seguindo a natureza linda, irei pra a barra de são miguel, onde nenhum santo me protegerá dos pecados e me entregarei a todas as delícias que vierem para mim. de lá, depois de tantos dias de praia, me lavando com a água salgada de iemanjá, não sei pra onde vou. pode ser que eu vá a penedo, ver o rio, ver a história, os pescadores do velho chico, então eles me levarão até piaçabuçú, que eu nunca tive a oportunidade de conhecer, mas sei que você, mesmo sem nunca ter pisado nessa cidade, tem conhecidos cuja família é de lá, não é? não é você? alguém que conheço tem conhecido com parentesco nesse lugar. enfim… me diz: de penedo tem como ir pra lá, pra piaçabuçú? ótimo, ótimo. de piaçabuçú – que nome legal de dizer, não é? adoro os nomes das cidades – eu vou pra sergipe, onde verei todas aquelas mulheres e me sentirei linda por algum tempo, até pensar em você – porque não tenho planos de pensar em você enquanto estiver pegando um sol ou observando a vida acontecer das formas que não conheço através dos pescadores e as mulheres rendeiras das beiras de rios e as broeiras das beiras de estrada e todas essas profissões que exercem mais esforço do que eu já precisei fazer durante toda a minha vida (e que você também, não me negue isso, porque te conheço o suficiente para saber que, de nós dois, eu sou quem mais teve que se esforçar para conseguir as coisas que tem).

eu vou pro sul, sabe? pretendo passar pouco tempo em sergipe, apenas o suficiente para me sentir bem, dois ou três dias, e de lá partirei para salvador. vou curtir o carnaval de lá, mesmo sem gostar do carnaval, sem gostar da música, do clima, do aperto. mas sinto que terminarei por gostar de tudo isso enquanto estiver por lá. a pele na pele, o suor, as risadas, o sexo. sim, vou pra lá e vou trepar, mas não vou fazer só isso. sexo eu fazia tanto com você, não era? e sim, era bom, às vezes ótimo, realmente fantástico. porra, era excelente e só você me fazia gozar mesmo! mas agora eu vou provar novas coisas e sair de perto de você e acho que tendo essa oportunidade de procurar novas coisas pra me preencher, não devo perdê-las. ainda mais quando o risco de ganhar prazer de uma forma que ainda não tive é tão grande.

eu tenho que experimentar, meu bem, mas é porque eu vou pro sul, entendeu? acho que não, que você não faz a menor idéia, mas é bonito você mentindo e dizendo que sabe. quando você mente , você fica de outra cor, sabia? seu rosto se cora, dá pra ver que o sangue sobe. é bonito, é engraçado, é charmoso. enquanto eu estiver na estrada, indo pro sul, eu vou prestar bastante atenção nas novas paisagens que se abrirão para mim nos horizontes e aos meus pés, às milhares de novidades que entrarão em meus olhos através da pupila, atravessando os humores vítreo e aquoso, a retina o nervo óptico… as imagens me parecerão tolas, uma planta que não tem aqui, uma ponte nova sobre um rio desconhecido, mas essas coisas todas marcarão a minha vida como nunca pensei que fossem capaz de fazê-lo. algumas horas, no entanto, eu sentirei falta de tudo o que já me é conhecido e familiar, terei medo do novo, vou ligar pra alguém daqui, perguntar como as coisas estão e me segurar para não perguntar sobre você. então desligarei o telefone, olharei para o céu e me sentirei em casa – porque ele é azul e à noite as estrelas brilham – a parte boa de se sentir assim, pelo menos.

depois do carnaval, continuarei indo pro sul e passarei algum domingo em ilhéus. da bahia, rumo ao sudoeste, que ainda é sul e me deixo visitar as ladeiras de minas gerais, onde descansarei de tanto mar. aproveitarei para conhecer as cachoeiras tão famosas que vi nas novelas e programas de televisão. então conhecerei aquele monte de lugares históricos e grandiosos. verei os traços do passado, esse que você acha tão chato e sem empolgação porque diz que sem guerras não se faz uma nação e que nossas batalhas, na realidade, não valeram nada. você é cheio dessas coisas bestas de revoltado, essas manias de contestar até mesmo as coisas mais naturais cuja explicação todos conhecem.

eu, enquanto estiver na estrada indo pro sul, lerei todos os livros que você nunca quis ler, ou até quis, mas nunca teve o tempo ou a coragem necessários para começar a leitura deles. vou viajar fisicamente através do espaço e do tempo e dos fatos. quero estar em balzac, em tolstói, em mann, vou me encontrar em victor hugo, em dickens, em proust, vou ler as poesias que você nunca quis ler, meireles, hust, lêdo ivo, jorge de lima, homero. eu quero estar em cada uma das milhares de páginas de prosa e verso que você nunca sujou com tuas mãos. quero ter essa limpeza do teu toque, me livrar dele completamente, ir pro sul.

vou ver o rio de janeiro em maio. ouvi dizer que é mais bonito que pacotes prateados de cigarro amassados e jogados em becos com poças d’água límpidas como fontes de rios. vou ver refinarias da petrobrás de noite e filhotes de zebra no zoológico. verei também as praias das novelas, viverei um pouquinho da mentira, porque vou pro sul e devo aproveitar, não é mesmo?

verei as coisas que você nunca se interessou em ver: os nomes das ruas, das pessoas, a vida acontecendo de verdade. quero ver essas coisas, você entende? quero a naturalidade de um dia a dia, um cotidiano, uma rotina, essas coisas que você sempre menosprezou e disse que não precisava ver para entender, que não queria ter uma coisa dessas porque isso só faria você se tornar mais um no meio de tantos, dizendo que tudo é a massa e que se movem e agem de forma semelhante e previsível, como bandos de animais, esquecendo que é isso que nós todos somos: um bando de animais. e que você, sem perceber que ao falar todas essas coisas é só mais um no meio de tantos seres odiáveis, se encaixa perfeitamente no meio de todos. uma vez eu li num lugar algo que me fez pensar em você: ‘é triste quando a gente percebe que não somos especiais, que somos apenas mais um no meio de tantos.’ mas acho que ser mais um não me faz alguém menor, diferente do que você pensa. acredito que aceitar nossa condição é um avanço fabuloso e que você deveria tentar dar esse passo.

eu olho pra você agora, enquanto te digo que vou pro sul, e penso que ir pra lá e algo bom pra você. lembra de quando você foi embora pro leste além mar? você disse: ‘essa é uma oportunidade pra a vida, meu bem.’ você me chamou de ‘meu bem’, entrou no avião e foi embora. fiquei sem te ver por anos. o quê? foram 14 meses? para mim pareceram 14 anos. engraçado como einstein estava certo com algo tão complicado. o que quero dizer é que agora é minha vez de sair. só que eu vou pro sul e quero que você aceite como eu fiz quando você alisou meu cabelo com tua mão, olhou bem fundo nos meus olhos, me abraçou apertado, beijou meus lábios e foi pro leste viver a vida que se abria para você por lá. mas agora, quem vai abrir a vida sou eu, quando for pro sul, porque eu vou. já te disse!

vou ver a maior cidade da américa do sul, me disseram que eu preciso e acredito que seja bem verdade. vou andar nas ruas que só existem na minha mente e me perder nelas. paulista, augusta, vou ter a liberdade, o brasil inteiro será meu quando estiver lá. então, alguma hora eu vou cansar de ter tudo nas minhas mãos, o país, o mundo, o universo, porque, ao ter todas essas coisas, consequentemente, terei você novamente – já tive? – e me enojarei de mim e fugirei pro sul. vou para os interiores do paraná ver as fazendas de café e tomar de todas e cada uma delas um pouco dessa bebida maravilhosa. vou pra curitiba, ver as coisas como deveriam ser, a cidade modelo, vou ver as águas de iguaçú descendo sem parar, derramando seus litros e litros. infelizmente é bem menos que gostaria de fazer você derramar ao sentir minha falta enquanto eu estiver no sul. então vou pro paraguai, comprar as coisas falsas mais verdadeiras que as palavras que saem da tua boca suja. quero encher minha cara com whisky vagabundo em caixas falsificadas de boas marcas, enxarcar-me dos perfumes falsos, doces e fortes, para que todos ao meu redor sintam meu cheiro e meu suor. quero pendurar no pescoço e nas orelhas as jóias falsas e bonitas como as tuas juras de amor ao pé do ouvido. quero, então, voltar e ir pro sul, floripa e suas praias, onde sentirei inveja daqueles corpos maravilhosos, daquelas peles douradas, e então sentirei falta de quando eu era a mulher mais linda no estado de sergipe. de lá, das praias das meninas de santa catarina, partirei pro rio grande, o de lá de baixo, e verei o porto alegre, poá, e as mulheres lindas continuarão a desfilar em todos os lugares em que eu pise, visitarei os interiores de onde saem as modelos a serem descobertas.

então eu vou pro sul, meu bem, ver o uruguai e o que quer que haja lá para ser visto. você sabe o que tem? é claro que sabe, você sempre diz que sabe as coisas. quero ir dançar tango na argentina. e vou. verei a casa rosada e beberei todo o vinho que me for permitido, muito vinho, tanto que conhecerei a verdade. in vino veritas, meu bem. então participarei das festas organizadas em homenagem ao deus do vinho, serão maravilhosos os bacanais, dormirei com argentinos de cabelos longos e negros e com argentinas brancas dos olhos claros e cabelos também escuros. vou dormir com todos e pensar em como é bom tudo aquilo, como é bom estar ali, com todos eles dentro de mim e como eu gostaria que você sentisse ciumes de todos e cada um deles. queria que você quisesse machucá-los só por isso, por eles estarem onde você esteve tantas vezes, mas acho que jamais seria assim. você não tem os sentimentos desenvolvidos o suficiente para saber exatamente sobre o que estou falando. apenas entenda que eu vou pro sul dançar tango argentino usando um vestido longo preto como a noite e uma rosa vermelha como sangue entre os lábios.

então eu irei pra patagônia, vou pra a terra do fogo, verei os pinguins e imaginarei o sabor de suas carnes. então eu vou pro sul, pra te esquecer na branquidão do gelo, pra me esquecer na solidão. vou pro sul até não dar mais e então irei pro sul de lugar nenhum, aquele que o velho buk falou, sabe? eu vou pro sul, meu bem, e um dia talvez volte. um dia eu volto, quem sabe… a verdade é só que agora eu preciso ir pro sul, ele me espera. você não precisa me esperar voltar, não precisa me ligar ou tentar me escrever, não precisa nem fingir que pensou em fazer qualquer uma dessas coisas que acabei de falar. livrar-me-ei das coisas que me prendem, das amarras, dessa algema que você colocou em mim e nunca abriu com a chave. dessa vez terei que impor minha força para me libertar. entenderei o que é ser livre.

você pode ir pra onde quiser e bem entender, jamais te impedirei. adeus, meu bem, eu vou pro sul.”