Archive for the 'Diálogos' Category

o senhor do bom fim.

setembro 8, 2009

“há uma história para essa fitinha. eu vou te dizer toda ela porque você me perguntou sobre. acho que você merece muito bem saber sobre isso. a ganhei do meu avô quando eu era uma criança de sete anos de idade – isso faz com que ela esteja amarrada ao meu pulso há quase vinte anos – e, desde então, tem se enrolado e enrolado no meu braço, mas de forma alguma estourou. era uma tarde de março quando ele chegou de viagem depois de duas semanas entre a bahia e o rio de janeiro. fui ao aeroporto com meu pai para buscá-los: ele, minha tia e minha avó. eu sempre adorei ir ao aeroporto. tanto pela estrada que leva até ele quanto pelo resultado da viagem: ver aquelas máquinas gigantescas que, como se por magia, se erguiam no ar e sumiam entre as nuvens. os aviões sempre me fascinaram, talvez por isso eu tenha desejado por um tempo largar tudo o que conquistei para tentar a vida como piloto de avião, algo inusitado. nunca conheci um piloto de avião por aqui. não sei de nenhuma família cujo filho entrou para a escola de aviação de alguma das grandes empresas aéreas do país. a sorte foi que notei a estupidez que seria e larguei a idéia pouco tempo depois de ela ter surgido. meu pai dirigia o carro da minha tia naquele dia, eu ia no banco de trás por ser pequeno demais para andar na frente. quando estacionamos fomos para o portão de desembarque, onde me deixaram esperando pelos meus avós na parte restrita. lá eu podia ver os aviões de uma forma muito melhor. brancos, ostentavam seus símbolos pelos ares, onde ninguém os via, e os trazia para a terra, que era onde podiam ser avistados por todos. assisti ao desembarque do avião e, de longe, avistei meu avô. alto, moreno, os poucos cabelos que tinha eram brancos e curtos. de longe podiamos ver seu bigode da mesma cor e bem feito. logo depois vinha minha avó e à frente, ajudando-o a descer as escadas uma por uma, minha dedicada tia. ele se aproximava a passos lentos e arrastados – eram assim desde que eu tinha 3 anos e ele sofreu seu primeiro derrame, as seqüelas foram poucas, pelo que lembro, mas seu caminhar nunca mais foi o mesmo, apesar de toda a fisioterapia. e eu ansiava pela presença deles, pelas novidades e pelos presentes.ao atravessarem o portão que separa a parte de desembarque da pista de pouso, corri para abraçá-los. pedi a benção a todos, como sempre fui acostumado a pedir – e até hoje, mesmo sem acreditar que deus irá me abençoar porque creio em sua divina inexistência, peço a meus familiares – e meu avô me deu um cheiro na cabeça, como era seu costume. tanto era que, até hoje, quando alguém vem me beijar, eu baixo a cabeça para que me beijem a testa ou o topo da cabeça. um costume estranho, mas que nunca saiu de mim. estávamos todos felizes por terem feito uma viagem tranqüila e sem complicações.

fomos, então, para a casa dos meus avós, onde eles contariam mais sobre as duas semana, desfariam as malas e destribuiriam os presentes. sim, eu sempre fui um menino interesseiro e egoísta. cresci e me tornei esse homem egoísta, mas menos interesseiro que quando criança. hoje em dia poucas coisas me interessam. uma delas é você. sim, é claro que você me interessa. os teus olhos brilham de uma forma diferente dos outros olhos que eu já vi e tua voz tem uma entonação bela. você consegue sempre parecer interessada em qualquer coisa que eu diga, inclusive minha ida ao aeroporto aos setes anos para pegar meus avós e minha tia, pessoas que você nem conheceu fisicamente e nunca o fará porque agora eles são apenas lembranças boas que eu carregarei comigo até onde der. e é claro que há fotos deles, mas por mais que você os veja, nunca será a mesma coisa, você nunca saberá como é ser abraçado por eles como eu soube. mas vamos voltar à minha história antes que eu me distraia demais elogiando você e sua maneira de sempre ter paciência comigo e minhas histórias sem sentido ou continuidade. minhas lembranças bestas. mas é que você pediu isso quando perguntou o que essa fitinha significava. é claro que você sabe o que é uma fitinha do nosso senhor do bonfim. você amarra e faz alguns pedidos para quando ela estourar, porque ela vai estourar um dia, seu desejo se realizar. mas dizem que se você contar esse desejo ele nunca se realizará. eu mantenho o meu trancado a sete chaves. infelizmente, não vou dizer para você antes dela pocar. sim, pocar. você sabe o que é isso, não sabe? é claro que sabe, te ensinei uma vez… é o mesmo que estourar, quebrar. a corda do violão pocou, a gente diz. enfim, a história da fitinha… chegamos na casa dos meus avós, eles tomaram banho, almoçaram porque chegaram por volta de onze da manhã e o almoço não tinha sido servido no avião. naqueles tempos havia comida de verdade no avião. não eram essas coisas de caixa e só. estava a família inteira que morava na cidade: eu, meu pai e minha tia e meus avós. meus dois primos moram longe e meu tio, na época, também. depois da refeição fomos para o quarto eu, meu avô e minha tia, foi lá que meu avô me entregou a fitinha. lembro que ele mandou que escolhesse uma cor antes de entregar a fita para mim. escolhi azul porque é uma cor bela. ele me entregou a fitinha mandando eu estender o braço e que a cada nó que ele desse nela, era pra eu fazer um pedido. ele deu três nós. ao fim do terceiro ele me disse que assim que aquela fita estourasse sozinha, meus desejos seriam realizados. lembro de todos os meu pedidos até hoje. dois já se realizaram, mas o que espero mesmo é o terceiro. mas esse… esse eu acho que está quase se realizando… espero. e o melhor… tenho quase certeza que se realizará com você.”

“é?” ela perguntou curiosa com as mãos passeando sobre os braços dele até tocar na fita velha e enrolada. foi aí, então, que ela estourou e ele sorriu. ela fez um olhar de espanto, como se tivesse feito uma coisa horrível, como quando se quebra um jarro da avó e ninguém está vendo e não se sabe o que fazer. “e o que você pediu?”

ele se aproximou dela, deu um abraço e lhe disse ao ouvido.

“pedi pra ser feliz.”

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Virgínia

agosto 11, 2009

eu nunca li hemingway. você também não. esse é nosso ponto em comum e isso não influencia na nossa relação. você sabe mais coisas do que eu sobre muitas coisas da vida e eu sei outras tantas coisas sobre tantas outras coisas. mas, ainda assim, não conseguimos nos completar. você gosta das escritoras, você acha que elas sabem transmitir os sentimentos muito bem. eu gosto dos escritores e acho que eles sabem pensar nos sentimentos muito melhor. mas você não acredita que os sentimentos devem ser pensados. você acha que eles não precisam ser racionalizados e nem acha que podemos colocá-los lado a lado e mensurá-los, porque você me diz que não se mede essas coisas, que não é como se faz com altura, perímetro cefálico, cintura, coxa, busto, quadril, pau, pé. não dá pra colocar uma fita métrica nessas coisas de sentimentos e as medir para, no final, compararmos qual tem o maior. (o meu é maior que eu teu, lálálálá). você prefere as músicas que eu não dou valor, mas não por causa disso. talvez eu não goste porque você gosta tanto e certas coisas em você me irritam tanto quanto boa parte das coisas em mim irritam você. de vez em quando eu te pego escutando aquela música que eu detesto e que me faz ter nojo das pessoas que a escutam, e você conhece e canta e até ensaia uns passos de dança. uma dança maluca que você inventou só para me provocar, mas diz que não. diz que sempre gostou daquela música e que ela era muito boa para se dançar, mas eu só imagino um monte de pessoas paradas escutando até que a primeira toma a decisão sábia de se mover e sair do lugar de onde aquilo está vindo. você nunca gosta das minhas provocações e eu nunca gosto das tuas, não gosto dos teus segredos e nem você dos meus. eu gosto do teu cheiro e se eu pudesse eu te cheirava toda, até a alma. como no livro que você não leu, mas que tem um filme que você talvez tenha visto, mas eu não sei porque eu nunca te perguntei. bem…tem esse cara e ele sente cheiros e ama cheiros e perto de você eu me sinto ele. o que é um tanto preocupante porque ele é um louco que mata pessoas para tirar seus cheiros. mas isso é só depois. enfim. quando eu te cheiro eu sinto vontade de nunca parar. de inspirar até meus pulmões não agüentarem mais e aí continuar inspirando até meu nariz não conseguir captar mais nenhum odor e ainda assim continuar a te cheirar até que você preencha meu coração com o odor que emana do teu corpo quente. de vez em quando, sem você perceber – ou você percebe? – eu fecho os olhos e respiro fundo perto de você. é o mais perto disso tudo que eu disse que eu consigo chegar. e eu adoro o teu gosto. você tem gosto de flor salgada. uma verdadeira delícia que não se encontra em lugar nenhum desse mundo inteiro, mas que eu já provei porque é assim que as coisas são. eu queria que você soubesse dessas coisas, sabe? porque acho que ser sincero é a melhor coisa que uma pessoa pode fazer para a outra. é um presente meu para ti. e você sabe como eu gosto de te presentear. lembra daquele presente que eu te dei e você achou que tinha sido muito, mas muito caro e eu disse que não havia sido? foi. mas valeu cada centavo pelo sorriso que você deu, pela tua empolgação ao recebê-lo. eu tenho dessas coisas. mas tudo aqui você já sabe, porque você é a pessoa que mais me conhece no mundo, a pessoa a quem eu mais me exponho, a minha pessoa favorita do mundo todo. de todos os quase sete bilhões. você é a maior improbabilidade que existe e, por si só é um milagre, você sabe, aquela coisa toda daquele quadrinho/filme. ah, eu sempre esqueço que você não leu/viu. você prefere os dramas chorões e eu as comédias idiotas. você acha maconha legal e eu não suporto o cheiro daquilo. você me diz boa parte dos teus sonhos e eu acho que mais da metade deles não são bons, mas ainda assim acho que você deve sonhar, deve correr atrás e todas essas coisinhas que os livros de auto ajuda falam. porque se não o fizermos, quem fará por nós? lembro de um dia em que você pediu que eu lesse um livro. eu li. você perguntou o que eu achei dele e eu fui sincero. eu não devia ter sido, você ficou magoada. uma verdadeira pena, você sabe, mas é assim que as coisas são e acho que se eu um dia te passasse um livro ruim você me diria. mas eu não te passo livros ruins porque eu não os tenho. além do mais, depois de um tempo eu percebi que eu não deveria tentar te fazer conhecer as coisas que gosto, mas que deveria mais conhecer as que você gosta. por isso li livros improváveis, assisti a filmes e seriados demasiado bestas, escutei músicas ruins. para poder entender um pouco do que passa na tua cabeça. mas é claro que eu não consegui gostar de nada, nem entendi você. talvez eu não tenha me esforçado o suficiente ou talvez você não seja alguém para se entender, mas para se sentir, como você diz que os sentimentos são. você, talvez, seja um dos meus sentimentos mais intensos. talvez não. às vezes eu espero que seja, só pelo prazer de sofrer um pouco sabendo que é você quem me fará sentir como me sentirei, mas boa parte do tempo acho isso uma idiotice sem tamanho. minhas mãos doem quando escrevo à mão por muito tempo, minhas costas doem quando fico sentado por muito tempo, minha cabeça dói quando fico acordado por pouco tempo, minhas bolas doem quando não ejaculo há muito tempo, meu coração dói quando não vejo você há muito ou pouco tempo, meu coração dói quando vejo você, meu coração se enche de alegria quando você aparece, meu coração se enche do teu cheiro quando você não está comigo. e é tudo muito, mas muito estranho porque é assim que as coisas são. você não gosta do que eu gosto, não conhece maioria das coisas e parece não se interessar por elas. eu conheço boa parte do que você ama, percebo que metade ou mais não passa de lixo e que a outra metade é feita de coisas boas, mas que eu talvez não dê o devido valor a elas porque não são especiais para mim. um dia eu vou olhar pra você e pensar: “o que foi que vírginia me deu de bom, o que sobrou de especial dela em mim?” e eu não saberei responder. talvez eu fique em dúvida se foi aquele dia em que você me matou e eu ressuscitei ou se foi aquele dia em que você me mostrou aquela música, aquele texto, aquele sentimento. eu nunca saberei responder, meu bem.

a última carta a Ela.

julho 23, 2009

é assim porque tem que ser. não há nenhum outro motivo para as coisas. é preciso que seja assim, não há como mudar. faz parte das coisas da vida. como o billy pilgrim. “coisas da vida”. poucos de vocês saberão de onde ele é e o porquê de eu escolhe-lo, talvez nem eu saiba direito dessas coisas, mas aqui está, escrito com minhas palavras, minhas mãos, meu lápis – porque eu nunca consegui abandonar essa mania de grafite. não sei como se escrevem testamentos verdadeiros. na verdade, isso não é um testamento. é apenas uma carta aberta aos vivos. espero que estejam todos confortavelmente sentados e os que estão em pé, por favor me desculpem pela falta de espaço. escrita por mim hoje, na madrugada do dia tal do ano tal, sem nenhum conhecimento de quando minha morte vai chegar, apenas pela diversão de ter o que escrever. pobre daquele que sabe e vive com medo, vive apressado, vive sabendo. todos sabem que o saber é o verdadeiro perigo do mundo. conhecimento é a arma mais usada para a autodestruição.
espero ter chegado a idades mais avançadas que a atual. por incrível que pareça, eu quero envelhecer mais ainda e sofrer ainda mais as conseqüencias da última grande piada da vida. espero que minha mulher esteja bem se não estiver morta. e sei muito bem que ela sabe o que fazer hoje, já que eu não posso guiá-los e entretê-los no meu funeral. espero que meus filhos, os dois, tenham netos, assim terei bisnetos na época da minha morte.
lembro do nascimento de todos. o menino nasceu no segundo ano do nosso casamento, depois que Ela parou de usar as pílulas e estávamos em empregos estáveis e viviamos uma vida confortável. do jeito que pode parecer completamente entediante para boa parte das pessoas, especialmente os jovens que sempre acham que viver a vida é se arriscar todos os dias, mas que para mim – e espero eu para Ela também – foi a realização de um sonho. ele nasceu numa quarta feira, às 16:43. a obstetra foi uma colega de turma, uma das poucas com quem eu ainda mantinha contato depois de formado. chovia e era março. ele veio fechando o verão. foi o que alguns disseram. alguns são bregas e caem em clichês, mas eles não deixam de ser verdades. depois do verão, como todos sabem, veio o outono. como estamos onde estamos – e espero morrer onde tanto pedi para morrer, senão tudo isso estará errado e meus planos falharam. abortar plano, abortar plano – outono não existe, nem primavera, e mal existe um inverno. existe a estação das chuvas e a estação do sol. ambas têm dias quentes e noites que entremedeiam o quente e o confortável. o menino saiu a cor da mãe, os olhos do pai. levamos ele para casa.
um ano e meio depois, o menino cabeludo a andar e falar pela casa, aproveitamos uma noite em que a avó materna tomou conta dele para que eu e Ela pudessemos relaxar e fizemos a menina. ela saiu depois de nove meses, auxiliada pela minha amiga, num sábado de sol no meio de agosto, às 10:07. era linda como um raio de sol atravessando um prisma. ela parecia pegar o melhor de nós dois: era a cara da mãe e graças aos bons genes, quase nada ruim do pai. lembro dos dois crescendo belamente. das brigas estúpidas por causas bestas. lembro muito bem do dia em que a menina quase arrancou um pedaço do braço do menino com uma dentada. o menino chorou por toda a noite e a menina, com a boca ensangüentada, foi colocada de castigo por um mês. depois disso eles se aproximaram, por mais incrível que pareça. tornaram-se amigos, aceitaram o fato de serem irmãos.
lembro de quando conheci a mãe deles. ela vinha linda do trabalho. usava suas roupas normais e eu a vi e pensei que jamais conseguiria dizer a ela o quanto ela era a melhor visão que eu tive naquele inferno. quase não falei isso, mas tomando coragem de não sei de onde, sentei ao lado dela e disse que ela era provavelmente a pessoa mais interessante daquele lugar e que eu adoraria conhecê-la. acho que nunca passei tanto tempo conhecendo uma pessoa. isso foi há mais de 35 anos, mas lembro de como seu cabelo negro caiu sobre os seus olhos por um tempo e você teve que ajeitá-los para melhor me olhar nos olhos e foi aí que eu pensei: ok, acho que ela não deve achar que eu sou um maluco qualquer abordando-a, acho que ela realmente está ouvindo o que estou falando. falei pra você sobre o que eu fazia, o que estudei, onde comecei a trabalhar e essas coisas que você não sabia. você me falava das tuas coisas e começamos a nos conhecer naquela noite. foi bom. com o tempo, é claro, fomos nos conhecendo mais e mais. descobri teus medos e você os meus. e nos dissemos coisas para afastar tais medos: “quando vier o despertar, é claro que eu protejo você.”; “sim sim, se você começar a ficar demente eu te ajudo a se matar.” nós sabiamos exatamente o que falar um para o outro, sabíamos que presentes dar, que frases escrever nas dedicatórias. quais nossos ficcionistas favoritos, as bandas favoritas, os poetas favoritos. sabíamos de todas as besteiras que pouca gente consegue saber sobre seus parceiros mesmo depois de anos de casados. e sabíamos dessas coisas antes mesmo de casar. eu fiquei chocado por você não ter lido certas coisas e você ficou chocada por eu não ter lido outras e, juntos, lemos cada um suas coisas, formamos nossa biblioteca. cada um com seu trabalho, ambos compartilhando as paixões. foi depois de dois anos juntos que eu escrevi um pequeno discurso sobre como era maravilhoso estar com ela e sobre como era ela quem me dava esperanças para sustentar todas as minhas maiores vontades e torná-las realidade. e que não estar com ela era sentir medo, fraqueza, e meu corpo suava e esfriava. era ela quem trazia calor à minha vida. e foi assim que eu a pedi em casamento. até hoje ela diz que lembra de cada palavra que eu disse, mas eu não acredito nisso.
lembro de quando o menino passou no vestibular e saiu da cidade em que estavamos morando. Ela chorou como se tivesse perdido um pedaço da alma. dois anos depois foi a vez da menina. ficamos sozinhos pela primeira vez em quase 20 anos de casados. não sabíamos o que fazer com o peso daquela ausência. os dois filhos estavam vivendo a vida como maiores de idade, responsáveis por si mesmo, noutras cidades, com outras pessoas. foi nessa época que o menino engravidou a mocinha com quem namorava desde os tempos de colégio e que se mudou com ele quando ele se mudou, porque passaram juntos no mesmo curso e essas coisas. o menino estava seguindo os passos da mãe na carreira, já a menina seguia meus passos como eu sempre disse para ela não fazer, mas ela puxou o meu temperamento e quando quis quis realmente. era uma jovem esperta, inteligentíssima, de verdade, e disciplinada. a mãe foi a melhor influência nessas horas, porque todos aqui sabem como eu sou indisciplinado e preguiçoso. ou era, vão mudando os tempos verbais para adaptar ao atual momento em que lêem a carta.
meu primeiro neto nasceu numa madrugada escura de junho, às 2:32. mais uma vez com minha colega. minha nora pariu o garoto e quase não agüentou. salvamos a vida dela por muito pouco. isso faz 13 anos. há 8 anos nasceram as gêmeas do menino. já não foi minha colega quem as segurou pela primeira vez. minha colega precisou do meu auxílio há 12 anos. diagnosticamos um câncer de pâncreas. ela não resistiu muito tempo. quem fez o parto foi a menina minha filha, que estava terminando a faculdade e quase casando com o marido dela. acho que tivemos sorte com as escolhas dos nossos filhos. nunca tivemos problemas com eles. eu poderia falar sobre os dois e falaria muito bem de cada um. eles têm meu carinho e meu respeito.
eu lembro de uma noite na cama com Ela. foi há pouco tempo para mim. estávamos os dois deitados assistindo a um seriado bobinho que passava na televisão. Ela disse que nunca havia visto aquele seriado antes e eu lhe disse que ele havia sido cancelado quando eu tinha 13 anos. não sei que canal resolveu desenterrar aqueles episódios, mas foi muito bom porque naquele dia Ela soube perfeitamente tudo sobre como eu queria que fosse hoje. e se vocês estão ouvindo a carta é porque ela continuou me amando e respeitou as minhas vontades. eu disse a Ela que haveria Noel Rosa e Led Zeppelin no meu funeral e Fernando Pessoa. não mais que uma hora seria sua duração. o tempo perfeito seria os onze minutos de In My Time of Dying, os três minutos e pouco, acho, de Fita Amarela e o tempo de alguém, queria que fosse Ela, recitar Quando vier a primavera do Alberto Caeiro, meu heteronômio favorito do Pessoa. além, é claro, do tempo de ler a carta. mas a carta é a parte mais desnecessária de tudo isso.
há pouco tive a iluminação. a noção de que a morte está pairando em minha vida desde quando passei da metade da expectativa de vida atual. eu não sonho com a imortalidade, seria bom, muito bom, mas eu sei que ela é impossível. quero ser, no entanto, lembrado, quero partir com a consciência de que construí coisas boas. olho para meus filhos e vejo que consegui, vejo meus netos sorrindo e brincando e sei que consegui. mas ainda há tempo para fazer mais. espero que entre o meu agora e o hoje de vocês haja muito tempo para marcar muito mais e fazer muito mais do que fiz.
acho que o pior de saber que eu vou morrer é a idéia de que Ela não estará mais comigo. sei que não sentirei mais nada, cessarei minha existência, mas pensar agora que alguma hora eu poderei não tê-la dói como doía a vida antes Dela. lembro de um dia ter visto um filme no cinema e alguém dizia como era bom ser jovem e sentir as dores da paixão. posso dizer, então, que nunca cresci e que a paixão sempre queimou em meu coração, fazendo doer sempre um pouquinho, o suficiente para saber que era aquela a dor que eu queria não parar de sentir. com Ela eu me sinto uma criança andando na montanha russa. com Ela eu ainda sinto as borboletas, que jamais entrarão em extinção, sinto a vontade louca de aparecer com centenas de balões coloridos na frente do trabalho Dela, sorrindo e perguntando se Ela está a fim de voar. quando estou perto Dela sei que todas as pequenas coisas, cada um dos gestinhos que faço, por menor que sejam, são compreendidos. quando estou com Ela eu sei que tudo vale a pena. e que não há nada de entediante em viver toda uma vida ao lado da pessoa que se ama.
essa carta é para agradecê-La por ter me dado tudo o que eu sou: pai, avô, amigo, teu marido; para agradecê-La por ter aparecido na minha vida e aceitado entrar nela. amigos, aqui está a mulher que faz uma vida inteira valer a pena. Ela é o verdadeiro significado de amor.

listada.

julho 15, 2009

olha só, meu amor, eu podia mentir pra você pela primeira vez agora. podia dizer que eu lembro de quando você apareceu na minha vida pela primeira vez e que eu lembro que naquele dia – um dia de setembro, perto do fim do mês, pouco depois do aniversário de uma das minhas melhores amigas que você nunca conheceu porque nunca quis aceitar os meus convites – a lua cheia mandava a luz que batia em você de uma forma linda, deixando a tua pele morena extremamente desejável, mas eu não lembro. não lembro também de quando você me disse algo que me fez pensar que talvez você não quisesse realmente dizer aquilo, mas outra coisa, porque você sabe como eu sou com pessoas. eu sempre as entendo errado. eu sempre vejo mais malícia nas palavras e nas ações, especialmente nessas últimas, do que realmente existe. mas isso é uma coisa minha e você me conhece bem o suficiente para saber que eu não lembro de muitas coisas e dessa vez você não pode culpar o álcool. estou aqui provando que sou esquecido mesmo e que meu cérebro não está sendo deformado pelo etilismo. e convenhamos, minha dependência dele não existe, e já você… eu quase não consigo imaginar sem a bebida na mão e um cigarro no bico.

quando eu olho para você, e você sabe porque eu já te disse (eu já te disse tudo o que estou dizendo aqui, mas eu gosto de me repetir porque acredito que é na repetição do que foi dito que o que foi dito se mostra algo constante e não apenas algo de momento. uma vez você me disse que tinha medo quando te diziam “eu te amo” porque pensava que era só naquele momento e no segundo depois de dito ele deixaria de ser verdade, então eu costumo acreditar n’algo parecido com isso. eu tento sempre confirmar meus sentimentos. sempre deixar claro o que precisa ficar claro. porque ninguém vive bem na penumbra da vida. perde-se muitos detalhes, meu bem. você sabe, eu sei, o mundo inteiro sabe disso. os detalhes são tudo o que importam para uma verdadeira vida. sem eles é impossível se desenvolver qualquer coisa.) eu sinto uma enorme paz aqui dentro. e eu nem sei se é paz ou amor o que eu sinto, mas sei que é muito bom. sempre muito bom. e eu já te disse tanta coisa que você deve estar cansada de tantas coisas que eu ainda tenho pra dizer.

eu lembro de uma vez, quando você viajou para longe e eu fui te levar no aeroporto. no carro a gente só fez escutar música. você não me dizia uma palavra e eu não dizia uma palavra com medo de quando fosse falar interromper a palavra que você estava pensando em começar a dizer. ficamos em um silêncio que conseguiu me ferir. quando eu era mais novo eu pensava que eu sabia conviver bem com silêncios e olhares e viver apenas disso, mas eu cresci e vi que nem só do silêncio apaixonado vive o homem. que as palavras são muitas vezes bem mais necessárias que as ausências de sons. naquele dia eu te disse adeus com a triste esperança de que nunca mais nos veríamos. eu te abracei, te beijei. e você foi embora. mas voltou. não lembro muito bem de como foi a vida enquanto você esteve lá, mas não foi a pior coisa do mundo. meu mundo não pareceu menos bom nem nada do tipo. eu acho que eu só senti falta de você. eu te disse isso quando você chegou. disse que senti a tua falta, saudades até. e você me abraçou e disse que também sentiu. só que eu nunca acredito no que outras pessoas me dizem porque é muito fácil dizer as coisas, eu só acredito no que eu posso sentir. acho que com você é a mesma coisa, mas não sei.

eu tenho fé na humanidade. eu sei que é tolice, mas eu tenho. tenho porque se não tivesse, como seria? é besteira confiar em alguém, mas acho que eu sinto a necessidade de fazê-lo. e eu confio em você. confio como confio em poucas outras pessoas. e eu não vou dizer o nome das pessoas por mais que você esteja querendo saber. eu acredito no que as pessoas me dizem sobre suas vidas porque é o que elas dizem sobre suas vidas. se não elas, quem sabe mais sobre o assunto? eu tenho fé em você, meu bem. mas às vezes você me faz pensar em abandonar tudo por causa de uma coisa qualquer. eu não sei bem o quê, mas às vezes eu olho para você e não te vejo. não vejo a mulher por quem me apaixonei, a dona dessa carta, de todas as cartas que eu tenho aqui dentro para escrever. aí eu não faço idéia do que eu vejo. mas você me vem sempre linda com teu sorriso tosco de orelha a orelha que sempre me faz pensar em como você é uma pessoa linda e me faz ter vontade de rir, apenas. e eu rio para você que se sente realizada e volta a fazer o que quer que estivesse fazendo antes de me mostrar os dentes quase que num pedido para que eu te mostrasse os meus mais amarelados que os teus. porque você largou o cigarro e eu comecei. mas você vem e me diz que só fumou naquele dia e que eu fiquei com a imagem na cabeça não sabe por que. eu não sei se é verdade, mas eu acredito, porque é isso que eu faço. então, depois de um tempo te condenando silenciosamente por ter feito aquilo aos teus pulmões, eu te dei uma ou outra lição sobre os males do cigarro, mas dois ou três meses depois eu comecei a fumar um ou outro cigarro enquanto bebia uma ou outra dose de whisky. e você começou a rir e me dar as lições que eu te dava. sempre que você me perguntava por que eu fazia aquilo eu dizia que era porque o prazer do momento valia o câncer de pulmão futuro. você se calava. acho que não gostava da minha brincadeira. hoje em dia sabemos que eu não pego pesado em bebidas e cigarro. você nunca mais teve que me levar para casa e pedir para um amigo me arrastar até debaixo do chuveiro pra jogar água fria na minha cabeça.

lembra daquela vez que fomos ao zoológico bêbados? era umas duas da tarde e você riu muito das zebras e eu ria da tua risada linda. você odiou o cheiro dos hipopótamos e disse que as girafas eram supervalorizadas. gritou para os macacos que era para eles esperarem que logo logo o planeta seria deles e nós seríamos os escravos deles. você lembra disso? espero que lembre porque essa é minha pequena vingança de todas as vezes que você perguntou se eu me lembrava de detalhes pequenos de uma noite de bebedeira inocente. “você lembra que você disse isso?”, “lembra que fez isso?”. quase fomos expulsos de lá. foi engraçado.

então, meu bem, eu não lembro a segunda vez que a gente se viu. não acredito que tenha sido naquele show em que você ficou cuidando da tua amiga bêbada que eu conhecia e de quem eu não me aproveitei porque eu não me aproveito das pessoas. e eu estava com meus amigos, que você conhecia, ou não. não sei. talvez eu tenha olhado para você como quem olha para alguém que já se viu e se está acostumado com o rosto. mas não estava. acho que ainda não estou, para falar a verdade. e espero não ficar nunca. porque assim, sempre que te olhar conseguirei descobrir algo novo e surpreendente. o manuel escreveu algo um dia. O rapaz chegou-se para junto da moça e disse:/- Antônia, ainda não me acostumei com o seu corpo, com a sua cara./A moça olhou de lado e esperou./- Você não sabe quando a gente é criança e de repente vê uma/lagarta listada?/ A moça se lembrava:/- A gente fica olhando…/A meninice brincou de novo nos olhos dela./ O rapaz prosseguiu com muita doçura:/- Antônia, você parece uma lagarta listada./A moça arregalou os olhos, fez exclamações./O rapaz concluiu:/- Antônia, você é engraçada, você parece louca.” você é minha lagarta listada. e você às vezes parece louca e eu sinto que sou o cara mais sortudo do mundo por causa disso, da tua loucura.

eu não lembro de todas as vezes que a gente se viu. eu queria lembrar e escrever essa carta até o infinito contando de todas as minhas impressões de você. mas eu não lembro. não temos todo o tempo do mundo para isso. espero que você leia a minha carta para você como um dia eu lerei a tua carta para mim. e acredite em mim, beibe. porque eu sou exatamente isso que você está lendo: um mesclado de idéias dos outros que no fim se distorcem tanto que se tornam novas e minhas, somente minhas.

até mais, lagarta.

Hoje é terça feira…

abril 22, 2009

“terça feira? heh. deixe-me contar umas coisas que eu sei sobre as terças feiras… são os dias mais sombrios. acredite nisso. não há vida nas terças feiras, meu amigo, tudo o que existe deixa de existir no momento em que a segunda vira terça e o sol não aparece no céu quando deveria, e as nuvens não somem nunca. se você parar suas vida para obervar uma terça feira agindo, você verá muita coisa que não queria. você coisas que os olhos humanos não foram desenvolvidos para ver, você vê a anti-luz, você enxerga a verdadeira natureza da escuridão, você enxerga todas as cores sob uma nova forma, você não consegue encontrar a vida em nada nem em ninguém, você não vê a beleza onde deveria estar e nem onde não estaria. é tudo horrendo, tudo aterrorizante, tudo pronto para se demolir sobre sua cabeça quando estiver extremamente distraído com as dores. as dores da terça feira. porque uma terça feira não é terça feira sem uma dor que seja. nas terças feiras você vê tudo borrado, você enxerga sombras do que, no dia anterior, eram pessoas como eu ou você. terças feiras são capazes de destruir tudo, acabar com esperanças e com sonhos, matar milhares deles por segundo. isso apenas no começo dela. ao longo do dia, na escuridão eterna das 24 horas, as coisas não vão melhorando. às terças você encontra o medo, a solidão, o desespero. e eles entram na tua casa como se fosse domingo, só que muito pior, porque agora elas estão a trabalho e aos domingos elas só vêm visitar. eles entram e bagunçam tudo, transformam tudo o que você tem numa zona, num mundo fantasma, numa quase vida. às terças feiras todos morrem. todos são zumbis.

só que ninguém percebe.

é por isso que estou aqui trancado, porque um dia, numa terça feira, anos atrás, os zumbis me agarraram e me trancaram aqui dentro. porque eu percebi… eu entendi tudo.”

O veneno.

abril 9, 2009

o sol entrava por entre as frestas que a janela fechada deixava. uma jovem mulher estava sentada numa poltrona reclinável. estava sentada olhando para o tempo, que passava no relógio da parede. ela tinha seus vinte anos, cabelos negros como piche caíam trançados por sobre o ombro até que a ponta deles apontasse para seu ictus cordis. ninguém jamais diria que era a moça mais linda que havia visto na vida, mas era dona de uma beleza estranha que podeira se acostumar depois de um tempo e, com alguma paixão e um tantinho de esforço, poder-se ia chamar de linda. mas jamais a mais linda. tinha lábios inxados, olhos escuros pequenos, aumentados pelas finas lentes de seus óculos de aros grossos, e leves olheiras que lhe escureciam o semblante. cada segundo passava por suas mãos com um leve toque do indicador no braço da poltrona. cada segundo um toque. foi assim por um bom tempo.

a porta se abriu. ela continuou olhando o relógio que arrastava seus ponteiros negros pelo fundo branco. o homem que acabou de chegar fechava a porta com a chave. olhou para ela e sorriu. ela não o notou.

“que horas são, Kristina?”

ela não soube responder.

“hã? o que?”

“a hora. que horas são? você está olhando o relógio, não está?”

“sim, sim.” gaguejou ela.

o homem agora se movia em direção ao sofá, onde soltou seu corpo largo, quase gordo, e ficou a encarar a mulher, em silêncio, por um tempo.

“você sabe que precisamos conversar, não é?” disse ele de braços estendidos e se acomodando da melhor forma nas almofadas do sofá.

“precisamos?” disse sem flexionar nem um pouco o tom de sua voz, sem desviar o olhar dos ponteiros.

“sim, precisamos.” disse ele de forma séria. seu tom foi tão grave que a fez mover os olhos para vê-lo pela primeira vez desde que pusera os pés na casa há cerca de meia hora.

“é… precisamos. então, vamos conversar.” ela se virou para ele. agora ambos se encaravam. “sobre o que você quer falar?”

um silêncio que dizia a verdade pairou entre os dois por segundos. constrangedores e amedrontadores segundos. até que ele falou.

“por que você não morre?”

ela não se abalou com a pergunta absurda.

“o que você quer dizer com isso? acho que não tenho idade para morrer ainda. mal completei vinte e um.”

“você bem entendeu o que eu quis dizer.” ela realmente havia compreendido. “eu digo… com tudo o que eu te dei, com os litros e litros de coisas que eu te dei… como é que você ainda não morreu?” ele fazia aquelas perguntas como quem perguntava o que ela havia tomado no café da manhã.

“eu não sei.”

“lógico que você sabe. o que eu te dei, mulher, faria muita gente morrer, acabaria com a raça de muita gente ruim. mas você está aí de pé. firme como uma rocha, olhando as horas como quem não tem mais nada para fazer. esperando algo que nunca vem.”

“acho que o que eu tanto esperava chegou, finalmente.”

“então era isso?”

“era sim.”

“engraçado… eu pensei que eu fosse te pegar de surpresa. mas acho que quem foi surpreendido fui eu. todo dia eu chegava em casa esperando encontrar teu corpo caído em algum cômodo da casa. então eu diria à tua família que eu te encontrei assim quando cheguei. e todos lamentariam e chorariam. e eu choraria muito porque sentiria demais a tua falta. e diria que nunca mais amaria alguém como você e que você era a mulher da minha vida. tua família teria pena de mim, meus amigos teriam pena de mim, eu teria pena de mim, me enganaria com toda essa bobagem de você ser a única na minhda vida. depois seguiria minha vida, depois do luto, depois da dor. eu lembraria de você como uma das melhores coisas da minha vida. quando você morresse você deixaria de ser a mulher que acorda descabelada e com mau hálito para se tornar a mulher que acordava linda todos os dias e tinha a boca com gosto de hortelã sempre, não importando a hora do dia. você deixaria de ser um ser humano que amei pra ser a coisa mais perfeita que amei. seria uma lembrança, uma idéia. é claro que eu nunca mais poderia sentir o teu cheiro e eu sentiria falta das nossas trepadas, mas certos sacrifícios precisam ser feitos. além do mais, o luto poderia me arrumar umas mulheres descartáveis. então, por que é que você não morre depois de todo o amor que eu te dei?”

“porque ele não é forte o suficiente para matar. e nem se você me desse todo o amor que tem, seria capaz de causar algum efeito. tudo o que você tinha e me deu era demasiado fraco. e era até doce, sabia? você me envenenava com o teu amor pensando em me matar e eu sentia o gosto doce na minha boca. mas ele nunca foi o suficiente para o que você planejava. por isso eu não morri, por isso que ninguém jamais vai morrer do teu amor. porque ele é fraco. é como suco de uva.”

“suco de uva?”

“nunca embriagará como vinho, mas tomamos quando queremos ter certeza que não faremos alguma besteira. o teu amor, para mim, foi diversão. algo para me assegurar que jamais faria alguma besteira. agora vá, saia daqui antes que eu tenha que te dar o meu amor.” ela apontava para a porta pela qual o homem havia passado há algum tempo. ele entrara por ela aparentando seus vinte e poucos anos, mais que os dela, o cabelo curto, a barba por fazer. agora ele recebia a indicação de sair por ela. levantou seu corpo que agora parecia ter o dobro do peso, seu rosto parecia mais marcado por aqueles minutos de conversa que pelos anos de vida. tinha agora quase 40 anos. não havia mais nada para falar entre os dois e a pergunta que tinha fora respondida de forma sincera. ele era fã da sinceridade, doesse a quem doer. e sempre era nele que doía.

“adeus, mulher.”

“adeus, Marco.”

nunca um adeus foi dito com tanto alívio por um casal.

“quando eu tinha 20 anos, foi um ano muito bom”

dezembro 31, 2008

eu posso dizer que foi um ano bom. eu acredito que foi um bom ano. quem melhor que eu para balancear todos os anos da minha vida e saber quais foram bons e quais foram ruins? o ano que acaba hoje foi um bom ano, apesar de tudo. as mudanças desse ano foram verdadeiramente significativas para a minha vida. e tudo pode mudar de novo, pode voltar a ser o como era, mas a ser o que era nunca voltará. há mudanças que os olhos não podem ver, há mudanças que só os olhos podem ver, e há as que nem eu mesmo sei que ocorreram. o ano passou correndo como todos os anos depois que nos acostumamos com a vida. e é tão triste admitir isso, dizer que me acostumei com a vida… ninguém devia se acostumar com ela, ela devia ser sempre cheia de surpresas e reviravoltas, sempre nos enchendo com emoções nunca antes sentidas. mas isso não seria realmente viver.

eu devo muita coisa a muitas pessoas, devo muito a amigos, porque sem eles esse ano teria sido o pior da minha vida. mas não foi. foi um bom ano. um ano de novas pessoas, de velhos convívios, de novas amizades, de velhos projetos tornando-se realidade. esse foi o ano em que projetos saíram do mundo das idéias para se tornarem reais. eu teria tanto a agradecer a tanta gente que acho melhor não falar disso e ir ao mais importante dessa carta: você.

você foi a pessoa que fez cada dia desse ano ter um brilho diferente, especial. e não é que você tenha feito eu seguir em frente ou nada disso, acho que eu seguiria de uma forma ou de outra, mas com você ao meu lado, as coisas difíceis pareciam valer um pouco mais a pena. é difícil de explicar, é difícil até mesmo de se sentir! e é por isso que eu sei que nenhum outro ano será como esse. nenhum outro ano terá nós dois nos falando como dois seres apaixonados no começo de uma grande paixão, nenhum outro ano terá um fim do ano com tanta expectativa quanto esse e um começo de ano seguinte tão grande quanto essa. nenhum outro ano terá você de um lado sentindo saudades e eu de outro sentindo saudades. saudades de um tempo que quase não tivemos, de momentos que quase passaram despercebidos enquanto os vivíamos. nada vai substituir as horas em que estávamos juntos. nada. e é por isso que eu sei que nenhum outro ano será como esse foi. por isso que sei que quando você encontrar essa carta e eu estiver bem longe você entenderá o que se passa comigo. porque temos um passado lindo e é melhor não estragarmos com um possível futuro escuro.

espero que você não fique tão mal quanto eu fiquei. acredito que você sabe lidar com essas coisas do coração melhor que eu… você sempre foi tão realista. e sim, eu sei que tudo isso é egoísta, pode me xingar. peço que não rasgue ou queime minhas cartas, não arranhe meus cds, não tente me esquecer. me desculpe por tudo e… muito obrigado por tudo o que você me deu, jamais poderei esquecer. e nunca esqueça que a única coisa que nós possuímos é nosso passado, foi ele que nos fez quem somos. você foi a melhor coisa do ano, meu bem. mas o ano acabou.

O para sempre…

agosto 14, 2008

era quente. era quente a mão dela. quente como um verão na praia. quente como a tarde que passaram juntos olhando a vida acontecer. quente como a língua dela passeando na boca dele.  e era por ela, pela mão que parecia a o sol depois de um dia chuvoso, que ele a puxava. apertava-a fortemente, como se tivesse medo de que ela fosse escorregar por entre seus dedos e que fosse perdê-la para sempre se não segurasse forte. os dedos finos e delicados dela se uniam, quase sendo um só. fazendo com que nem se notasse que eram bem tratados toda quinta feira à tarde.

mas não era quinta feira. e a tarde já havia ido embora. agora a lua brilhava amarelada. as estrelas mostravam seus retratos de anos e anos e anos. não estava frio, mas também não estava quente. era uma noite comum para todos os outros que não estivessem prestes a falar do para sempre. e até para quem estava prestes a fazê-lo também tomaria essa noite como comum. não havia nada para diferenciá-la de todas as outras coisas. exceto por eles dois ali, andando quase correndo em direção a algum lugar que ambos não sabiam onde. até que ele parou de andar de frente ao mar. puxou-a para perto de si, tomou lugar atrás dela e segurou-a pela cintura colocando sua cabeça sobre o ombro dela. apontou.

“olhe ali aquela estrela.”

“qual?”

“qualquer uma. olhou?”

“olhei.” disse num tom impaciente.

“olhe de verdade. olhe para qualquer estrela, mas olhe. veja!”

“estou vendo!”

“pois bem… quanto tempo você acha que essa estrela tem?”

“muito tempo…até a luz chegar aqui…”

“exato, exato. muito tempo. mas esse tempo de vida da estrela é finito, não é? uma hora ela deixará de jogar a luz até a gente e alguém vai notar. não a gente. não acho que estaremos aqui, nossos corpos e almas. nós só seremos pó. mas alguém vai notar. alguém tem de notar, não é?”

“deve ser…”

“sim…alguém há de notar.”

“e onde você quer chegar com isso? você quer me dizer que para sempre são as estrelas do céu? que para sempre é extremamente relativo? você quer que eu acredite nesse para sempre?”

“eu quero que você acredite no único para sempre que existe. no para sempre que a gente faz. você lembra de quando estávamos começando? lembra que um dia marcamos nossos nomes no cimento? o cimento endureceu e nossos nomes estão lá. aquilo é para sempre. nossos nomes estão naquele momento eterno. ele se repetirá para sempre enquanto existir cimento, enquanto existir um eu e um você, e esse é o momento mais comum de todos. o tempo… o tempo não pode ser uma reta. ele pode ser para mim e para você e para nós todos. mas ele não é uma reta. só não aprendemos como são suas curvas.”

“do que você está falando, homem de deus?”

“deus. para ele, se ele existisse, o tempo seria por onde ele andaria. o tempo é uma grande estrada na qual todos nós trafegamos. só que ela está engarrafada. todos em linha reta. nas duas mãos. o para sempre é o caminho por fora da estrada. o para sempre é a contra mão. o para sempre é o código que a gente usa para trapacear nos jogos de videogame.”

“meu bem… você está bem?”

“não. não estou bem porque você disse que me odiava. e isso ficou para sempre. ainda estou ouvindo que você me odeia.”

“e foi só uma brincadeira. e quanto a todas as vezes que eu disse que te amava?”

“viu só? amava!”

“…idiota. amo. amo amo.”

“não… você só quer acabar com a discussão. você só quer dizer que o seu amor é muito mais forte que o seu ódio. não. ódio… ódio é forte. é mais forte que amor. ódio é algo que eu nunca senti. ódio é forte demais para os corações não se machucarem ao senti-lo. eu não quero o seu coração machucado com o ódio. eu não quero você machucada de jeito nenhum. porque eu te amo… eu te amo para sempre. ontem, hoje e amanhã. porque é tudo o que existe: o ontem, o hoje e o amanhã. você entende isso? entende o que quero dizer?”

“acho que sim…”

“eu quero dizer que o para sempre…o para sempre existe sim. até que deixe de existir formas de se trafegar na estrada do tempo… (porque coisas podem existir e depois deixar de existir, tudo pode, pessoas, roupas, animais…) até que um dia a estrada se apague e os carros nela evaporem e todos os motoristas sumam e uma porta seja fechada e nada mais exista, nem o nada e nem o vazio. quando não houver vida e nem morte…  aí sim para sempre terá cessado sua existência. aí sim tudo o que há será o inimaginável e o inexitstente. mas até lá, eu te amo para sempre.”

“…” ela baixa os olhos.

“…” ele beija o pescoço dela, sussurra no ouvido “eu te amo.”

ela se vira para ele. olha-o bem fundo nos olhos. os olhos negros como o vazio, cheios do calor da vida. e ela fala com uma voz rouca, trêmula, cheia de lágrimas contidas.

“eu nunca mais vou brincar com você.”

e ele sorri. e ela sorri. e tudo termina bem.

e foram felizes para sempre.

(porque o para sempre existe)

Quem sabe…

agosto 10, 2008

o silêncio reinava entre os dois. mas não havia só o silêncio entre eles, havia a frieza. mas era só o silêncio que amplificava cada um dos passos dados por eles. o silêncio é um rei impiedoso, seu punho de ferro é conhecido por muitos. ele é respeitado e temido. o silêncio diz tudo aquilo que ninguém tem a coragem de dizer quando todos sabem que é preciso dizer uma coisa que será incômoda. o silêncio sabe das coisas, é sábio.

o sol agora estava aqui em baixo e descia mais e mais e mais. logo logo o sol estaria lá, do outro lado, pronto para outra vida, outras pessoas, outros momentos. logo logo ele não estaria mais aqui para os dois. ao pôr do sol, as mãos não mais dadas, braços cruzados, andando lado a lado, ele toma a frente dela.

“talvez as coisas que eu queira dizer não precisem de explicação, talvez tudo o que eu tenha aqui para dizer só possa ser sentido e só possa ser transmitido através desses sentimentos. talvez tudo o que eu verdadeiramente queira explicar seja que quando eu beijo você eu não sinto seus lábios nos meus lábios, eu sinto mundos se unindo, galáxias se juntando, sinto que se o mundo acabasse agora eu estaria feliz, porque sabia que tinha você comigo. eu não tenho que explicar nada, não tenho que saber explicar nada. cada um de nós deve aprender a sentir. você sabe sentir?”

ela olhou para ele bem fundo nos olhos. qualquer um poderia dizer que ela estava prestes a rir. um daqueles risos irônicos que dizem: “se eu sei sentir?”

“se eu sei sentir?. sim, eu sei sentir. sinto que você não sabe de metade do que está falando, sinto que você é feito de sonhos e desejos, sinto que você não percebe o que tudo o que a gente é verdadeiramente representa ou representou ou representará. você não faz a mínima idéia de como eu me sinto com você. não, não sabe. mas não é por falta de explicação. eu sempre expliquei. sempre disse que estar com você me fazia feliz, me deixava querendo sempre mais e mais e mais. à noite eu penso em sempre estar com você. sempre. mas eu vejo que não é impossível explicar as coisas. e eu só queria ouvir você dizer, você explicar tudo o que sente.”

“você não faz idéia do que é para sempre…”

“não sei? então me ensine o que é para sempre.”

“…dá a mão.”

ela não chegou a dar a mão, mas ele a tomou. andaram de mãos dadas novamente. ele na frente puxando ela que se deixava guiar meio na defensiva, desconfiada.

E quem sabe?

agosto 7, 2008

vinham os dois juntos, mãos dadas, dedos entrelaçados, paisagem bonita, sol lá em cima, descendo e descendo, folhas nas árvores, água correndo em riachos e fontes, pássaros voando, pássaros comendo pão, pássaros soltando dejetos no ar para atingirem quem quer que esteja no chão, pessoas passando. pessoas sempre passam por todos, elas nunca importam muito. não as pessoas do mundo inteiro, apenas nossas pessoas importam. para os dois, eles importavam. para o mundo eles só eram mais dois passando por um parque numa tarde ensolarada. ele aproxima o rosto do ouvido dela, diz algumas coisas e ri. ela fica séria, olha para ele bem seriamente enquanto ele ri e ela começa a rir. ela tem um sorriso lindo. mesmo no meio de tantas pessoas, ela se destacaria muito facilmente com aquele sorriso.

“eu te odeio.” disse ela no meio do riso. “te odeio, te odeio, te odeio.”

ele parou de andar. ela deu um passo e parou. parou no meio de toda a gente que vinha. mas ela não queria parar. ela não sabia porque pararam, isso estava claro em seu olhar.

“nunca…” disse ele calmamente, estava sério como nunca estivera antes “nunca diga isso. certo?”

“o quê?”

“nunca diga que me odeia.”

“era só brincadeira.”

“eu sei, eu sei. mas, por favor, nunca, nunca diga que me odeia, nem de brincadeira nem de verdade. eu não consigo aceitar que você me diga algo assim. porque eu te amo demais para aceitar tal coisa. só…só não diga, okay?”

“…você é assim fresco sempre?”

“não é questão de frescura… não sei explicar.”

“você não sabe explicar muitas coisas. se você não explicar, quem vai?”

“não sei…não sei…”