sobre o que nunca aconteceu, mas poderia ter acontecido com qualquer um.

fevereiro 18, 2011

ela me disse que não gostava da idéia de sexo oral. eu fingi que não ouvi, fingi que aquela pessoa não era real porque, deus, como alguém pode não gostar de sexo oral? ela dizia que era anti higiênico e eu só conseguia pensar em como eu passava bastante tempo do banho ensaboando e lavando minhas partes íntimas. o tempo que todo homem gasta nessas partes pode fazer qualquer um pensar que ele carrega uma tromba de elefante entre as pernas e precisa executar manobras além da imaginação para poder se lavar. mas a verdade é que está longe disso.

ela tinha os olhos grandes e castanhos, como dois grãos de café gigantescos que foram colocados em suas órbitas no lugar dos bons e velhos globos oculares. e ela tinha a pele morena do sol que gostava de tomar quando não fazia nada de especial. quando tinha tempo livre, e ela sempre tinha, levava um livro para o sol e e ficava lá, lendo por horas e horas, até achar que tinha lido demais e achar que seu corpo estava homogeneamente bronzeado.

estávamos sentados em frente a uma vela, que queimava vermelha e amarela, bruxuleando e criando sombras em nossos rostos. o fogo derretia a vela vermelha, que soltava sua cera que escorria pelos lados como seiva das árvores e chegava até o pires que servia de candelabro, onde ela se depositava e solidificava na porcelana fria. sob o prato a toalha quadriculada de restaurante italiano, limpa, asseada, as cores vermelha e branca se estendiam sobre a madeira e escorriam pelos lados.

não foi aí que ela me disse que não gostava da cunilíngua. não seria uma conversa apropriada para se ter durante uma refeição e ela se preocupava muito com o que se deve falar em determinados momentos. ela dizia que enquanto comia só se devia falar sobre assuntos leves que não nos façam nos distrair do sabor da comida. se eu perguntasse algo, ela responderia sim, mas com o mínimo de palavras possível. então preferi comer calado, ocasionalmente olhando-a nos olhos para ver seu belo rosto de bochechas rosadas que se movem seguindo o movimento de mastigar que executa. ela movia os lábios fechados de um lado para o outro do rosto.estavamos jantando juntos porque depois que uns amigos em comum haviam nos apresentado, nos achamos o mínimo interessante para fazer o convite para jantar e aceitar. talvez ambos estívessemos errados, a impressão que tive durante aquela refeição foi essa, de que aquela mulher jamais conseguiria me surpreender com nada nessa vida. foi depois da sobremesa que ela me dirigiu a palavra e conversou comigo além da meia dúzia de palavras que já tinha me dito, boa parte delas monossilábicas ou simples ruídos de concordância a cada pergunta que eu fazia. foi quando ela se afastou do prato de sobremesa num claro sinal que indicava que estava satisfeita, que ela resolveu que era hora de conversar.

“o que vamos fazer agora?” ela perguntou com um olhar inquisitivo, seu corpo pequeno sentado na cadeira, suas pernas cruzadas sob os panos da mesa.

“o que você está pensando em fazer?” perguntei para escutar sua opinião. geralmente mulheres não se impressionam com meu conceito de diversão: ficar em casa, ouvindo música, lendo um livro, escrevendo, bebendo uma cerveja, vendo um filme, jogando algum jogo no meu console, essas coisas que faço quando quero aproveitar bem o tempo que tenho. geralmente o conceito de diversão de mulheres envolve muita gente desconhecida, música bem mais alta do que o confortável, a impossibilidade de uma conversa decente, danças.ela me respondeu como a maioria das mulheres.

“ah, sei lá, você quem sabe.”

se eu realmente soubesse eu teria respondido que naquela noite iriamos para a minha casa, ou para a casa de algum amigo, beberíamos uma ou cinco garrafas de vinho, cerveja ou vodka, o que ela preferisse, e caíriamos no sono depois de atritarmos nossos órgãos sexuais por um certo tempo. mas eu não disse nada disso. eu estava fazendo como a maioria dos homens que não conseguem pensar em como preencher o tempo entre o jantar e a cama e, num momento de puro autruismo e preguiça, acha que o melhor a se fazer é se submeter à vontade da mulher, mesmo que isso seja uma imensa estupidez.

“não sei… acho melhor você escolher…” deixo as palavras no ar, olho para ela sorrindo.ela responde meu sorriso com um outro e move seus lábios pintados de vermelho.

“não quero escolher. quero que você me guie essa noite. quero fazer o que você quer fazer comigo.”

ela sorriu, mas não havia malícia em seu sorriso. obviamente ela não sabia de tudo o que passava na minha cabeça, não fazia a mínima idéia das coisas que eu já me imaginei fazendo com ela. foi nesse momento, na ausência de segundas intenções em sua fala, que me fizeram pensar, pela primeira vez na noite, que aquela noite não seria repleta de sexo como eu antes desejara.

“olha, eu tenho uns filmes lá em casa.” eu disse “e a gente poderia ver algum que você ainda não viu, algum que você queira, enquanto bebemos um vinho, uma cerveja, uma vodka ou o que raios você quiser. topa?”

eu jamais imaginaria que dez minutos depois estaríamos no meu carro, discutindo música enquanto eu dirigia para a minha casa.assim que abri a porta da minha casa, perguntou onde ficava o banheiro e foi para lá. fiquei na sala esperando. ela não demorou e saiu com as mãos cheirando a sabonete e ainda um pouco úmidas. senti a umidade quando ela colocou suas mãos nas minhas e se aproximou de mim.

“me mostra a casa, seu bobo.” então sorriu.

“você já conheceu a sala e o banheiro, não há muito mais a ser conhecido.” estendi meu braço mostrando o espaço onde estávamos. o único sofá ficava de frente para a parede onde ficava o móvel com os aparelhos de video e áudio, em que, na minha fase de cinéfilo, investira algum dinheiro em aparelhos que melhorariam a experiência audiovisual. nas paredes haviam dois quadros de cores discretas. havia também, na sala, uma cadeira reclinável ao lado do sofá, perto da porta de entrada do apartamento.

guiei-a então até a cozinha, onde acendi a luz e mostrei o lugar, onde uma pilha de pratos se acumulava, todos sujos, na pia, uma geladeira grande e branca se erguia imponente num canto e um fogão sujo figurava ao lado de um botijão de gás quase no meio da pequena cozinha. mostrei-lhe a lavanderia conjulgada, um tanque onde eu poderia deixar minhas roupas de molho caso eu deixasse roupas de molho. levei-a ao quarto, onde ela se surpreendeu com a quantidade de livros nas prateleiras e de cds nas gavetas.

“que fantástico! você realmente gosta de ler. admiro muito isso. queria ter mais tempo para a leitura.” essa é uma frase que escuto muito e que sempre me cansa.

“acho que a gente tem todo o tempo que precisa, é só saber dar suas prioridades. eu priorizo meus livros a muitas outras coisas. há pessoas que não conseguiriam viver um dia como eu vivo, assim como eu não consigo viver duas horas como eles vivem. livros são minhas paixões, cada um desses volumes foi lido e, hoje, estão aqui, porque de certa forma, por pior que tenha sido, ele fez parte de mim, de quem eu sou. é isso que acho, entende?”

“acho que sim.” ela olhava atentamente os títulos dos livros e os nomes dos autores, passando os dedos nas lombadas.

sentou-se na minha cama, onde eu estava sentado. estávamos olhando um nos olhos do outro.

“você já tentou escrever um deles?”

se ela sugerisse que eu tentasse, ela seria somente mais outra a fazê-lo.

“sim e não. eu me meto a escrever, mas ao mesmo tempo que faço isso, me arrependo amargamente, porque eu não sei. eu simplesmente não sei escrever. não existe um assunto que eu seja capaz de abordar de formas originais e diferentes e, se existe, uso tanto o mesmo tema que saturo e perco toda a vontade de escrever qualquer palavra que seja. às vezes escrevo textos que me agradam muito em uma noite apenas. às vezes, no entanto, e isso é a maioria das vezes, eu escrevo por muito tempo, duas, três noites, até mesmo um mês, e tudo o que tenho é um texto que não me agrada em assunto ou forma. além do mais, escrevo errado. não sei como explicar o que escrevo errado, não é bem a grafia das palavras, mas… há algo que me faz pensar que está errado. que está tudo errado! enfim, eu acho que falei demais, mais do que você gostaria ouvir, de qualquer jeito. nunca falei essas coisas para ninguém, sabe? eu sempre finjo que não escrevo, que não sei o que é o processo de criação, que meus bloqueios criativos são coisas comuns com que consigo viver normalmente. mas não são! quando não consigo escrever fico mal, triste, sofro de prisão de ventre alternada com diarréia, fico nervoso, irritado, deprimido. não consigo expressar minhas idéias com clareza. há um transbordamento mental que somente a escrita consegue aliviar. eu preciso escrever sobre as coisas, por mais mal que sobre elas eu escreva, há, em mim, uma necessidade de dizer ao mundo minhas impressões através de personagens que não são reais, mas tentam expressar neles as coisas que acontecem na vida de todos. no entanto, não tenho a disciplina para escrever um livro e, sempre que penso nisso, me entristeço, porque percebo que esse é mais um dos meus sonhos frustrados. sabe, vou te falar a verdade: não entendo o motivo por que estou falando todas essas coisas com você, são quase segredos meus e cá estou eu, compartilhando todos com você.” sorri “agora você vai ter que me contar algum segredo seu.”

ela ergueu os olhos para o teto, colocou a mão no rosto num gesto que expressava concentração e seriedade. estava pensando no que me dizer. resolvi ficar em silêncio para não atrapalhá-la.

foi então que ela me disse e eu fingi não ouvir.

pisquei algumas vezes, enquanto ela ficava vermelha. o silêncio imperava entre nós, no quarto, sentados na cama.

então ela cortou o ar com suas palavras.

“você vai escrever sobre isso?”

e eu só pude ser sincero.

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4 Respostas to “sobre o que nunca aconteceu, mas poderia ter acontecido com qualquer um.”

  1. Lud Says:

    Seja bem-vindo de volta e não nos deixe mais tanto tempo sem notícias, haha. Gostei desse texto. Já devo ter dito antes, eu gosto da sua escrita que não se atém a pormenores desnecessários… É bem direta. E esse final foi sensacional ^^ o corte no fluxo temporal e tudo. Muito bom.

  2. Marden Says:

    Muito bom, man!
    Achei foda o jeito como você do recurso de começar pelo fim. E a narrativa desse jeito ficou muito boa.

    Texto muito jedi, man.

  3. Carol Says:

    Primo, gostei muito!
    “E esse final foi sensacional ^^ o corte no fluxo temporal e tudo” [2]
    Beijos!

  4. Wellington Says:

    Você escreve muito bem. Seu texto não é cansativo e é muito bom de ler.
    Raros são os textos que me prendem a atenção e o seu foi um deles!
    Eu gostei bastante =]


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