noites.

dezembro 7, 2010

sentava-se para escrever e não conseguia. passaram-se dias e noites sem que isso mudasse. sempre que sentava, por volta das sete da noite, e se punha a escrever, não conseguia seguir além de algumas dúzias de palavras. ao relê-las, não conseguia sentir vontade de continuar trabalhando com elas, queria mudá-las completamente, começava a sentir arrependimento da hora em que resolveu sentar sozinho e se pôr a escrever. ele sabia que jamais conseguiria voltar a escrever como fazia, sabia que as palavras não sairiam mais dele como se fluissem vindas de um rio. a verdade é que o rio secou. foram muitas intervenções ao longo dos tempos, muitos baldes e baldes de pesca saídos desse rio que antes parecia infinito em sua riqueza. agora se arrependia de tudo aquilo, queria ter aproveitado melhor cada momento de inspiração, porque agora só lhe restava o trabalho árduo, as noites inteiras acordado para escrever três ou quatro parágrafos e não achar que eles conseguem agradar a si mesmo. há um mês não conseguia escrever qualquer coisa que o agradasse, até seus pensamentos pareciam difíceis de pensar, emaranhados por demais entre si, cheios de nós, sem fim.

a verdade é que acreditava ter perdido o interesse por tudo, o pouco interesse que tinha pelas coisas que o cercavam parece ter migrado para algum lugar sem que tenha sequer notado. não conseguia escrever, não conseguia ler, não conseguia assistir a um filme que precisasse de algum pensamento crítico. parecia querer desligar sua mente. queria desligar sua mente. queria acompanhar os programas de tv, mas não conseguia se estimular. sentia vontade de não sentir vontades, queria não querer com tanta vontade escrever, queria que, para ele, escrever não fosse algo tão nobre, tão essencial, tão primordial. queria que fosse apenas um hobby, que sua saúde psiquica não dependesse de seus rasbiscos, de suas notas sobre a vida. queria se enfiar num quarto escuro com alguns sanduíches de queijo, algumas xícaras de café com leite e só sair de lá quando o mundo dissesse: sentimos sua falta e realizaremos agora todas as suas vontades. mas o mundo jamais diria isso, o mundo não se importava com ele e ele, como bom leitor de alberto caeiro, bem sabia disso.

algumas noites, quando desistia de tentar escrever os parágrafos que lhe desagradariam, levanta da cadeira e saia de casa em busca de alguma forma de inspiração. geralmente descia os trezes andares de escada, o que o ajudava a se distair, e ia para o bar que ficava na esquina da rua onde morava. sempre pedia três tipos de cerveja, uma malzbier, uma lager e uma pielsen, nessa ordem. depois pedia uma dose de whisky sem gelo, tornava tudo num só gole, fazia uma careta – sempre, não importa quantas vezes por semana ele fizesse isso – e então começava a beber calado o resto da noite, sentado no mesmo lugar olhando o relógio pendurado na parede, observando as partidas de sinuca que aconteciam, ouvindo as conversas, as discussões, as brigas. ocasionalmente se levantava, interagia com uma ou outra mesa, oferecia uma bebida a alguém – geralmente mulheres sozinhas. tinha um padrão que gostava de manter sempre, não importa quantas garrafas entornasse. em dias de sorte, conseguia levar uma das mulheres para seu apartamento e se livrar dela assim que o sol nascesse. não era difícil para ele perder as pessoas, sabia exatamente o que dizer, e saber isso é uma arte.

quando estava de bom humor e tentando coisas novas, gostava de jogar sinuca, embora não fosse bom. não era fã dos jogos, a verdade era essa. sentia-se entediado com as partidas de dominó, não sentia a empolgação que os outros sentiam ao encaçapar uma bola, mas todas as vezes que jogava eram tentativas de conseguir essa emoção que todos tinham, à exceção dele. não conseguia entender por que não sentia o tesão nas coisas que o mundo inteiro parecia sentir. por mais vezes do que sempre pensou, quis ter essa vontade de vida, esse medo da solidão, do silêncio, do frio, da luz. muitas ocasiões se viu querendo se enfiar num buraco escuro, quente e barulhento e passar toda a noite a se movimentar por lá, mas recordava-se de todas as frustradas tentativas anteriores. há anos teve um relacionamento que acabou justamente por ele não ser a pessoa mais animada do mundo e por achar que tudo o que precisava estava no conforto do seu lar: seus livros – todas as suas influências, todos os seus mestres, os senhores da retórica, os mestres da descrição -, sua escrita – que sempre lhe pareceria amadora e indigna de figurar nas mesmas prateleiras das obras de seus grandes professores -, seus discos de música instrumental – sua principal fonte de força nas noites intermináveis de escrita e reescrita.

quando não saía à noite para o bar, colocava na vitrola um dos seus vinis antigos e sentado em sua poltrona, se punha a pensar na vida. sem nada em suas mãos para tomar notas, sem um livro em seu colo para ler, apenas ouvindo a música que saía das caixas de som. em algumas noites eram os noturnos de Chopin, em outras eram óperas de Wagner – gostava do alemão, via uma imensa força que propelia sua música e empolgava a alma -, em outras ainda, os trabalhos em violoncelo de Beethoven e uma vez por semana, como regra da casa, ouvia a nona sinfonia do início ao fim. ele sabia que parecia um antiquíssimo clichê, mas ele não tinha culpa de se sentir como sentia ao ouvir as palavras de Schiler tão imponentemente pronunciadas num coro que nos anuncia um fim tão próximo e indiscutível. “Wem der grosse Wurf gelungen/Eines Freundes Freund zu sein” acreditava que aquele que sabia como era se sentir assim, como o poeta alemão disse, era abençoado.

a verdade é que se sentia solitário muitas vezes. punha-se a descrer que o método da solidão sempre utilizado não era o que lhe caia melhor. a solidão pode ser assustadoramente opressora. lágrimas brotavam dos seus olhos todas as vezes em que pensava nas pessoas que uma vez estiveram ao seu redor e se foram por qualquer motivo, as pessoas que ele afastara de si voltavam para lhe assombrar em noites envoltas de pensamentos. seus pais enterrados, seus irmãos brigados, seus seis divórcios e a eterna sensação de nunca conseguir sentir algo autêntico por mais de alguns meses. todas as noites, às sete horas, quando se punha sentado em frente ao papel, pronto para escrever as palavras e transformá-las em qualquer coisa que pudesse fazê-lo sentir bem, tudo o que conseguia era se frustrar. o rio secara, não viria um dilúvio, um milagre divino para salvá-lo. sabia que jamais conseguiria escrever como antes.

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2 Respostas to “noites.”

  1. Alline Says:

    Adoro teus textos, teu estilo. É bem direto e cai muito bem numa narrativa e essa é uma coisa que eu jamais conseguiria fazer, apesar de admirar muito.


  2. isso foi, no mínimo, fantástico.


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