Archive for dezembro, 2010

alguns porquês.

dezembro 14, 2010

às vezes você me pergunta por que é que eu te amo. a verdade é que eu não sei responder isso tão bem. não é uma pergunta fácil, sabe? é extremamente difícil explicar sentimentos de uma forma racional, são de naturezas opostas. você pergunta os motivos do meu sentimento por você e eu não sei dizer se é por causa dos teus incisivos superiores e como eles deixam o teu sorriso tão lindo ou se é por causa dos teus olhos verdes me encarando enquanto eu te olho e acho linda. talvez seja apenas pela forma como a tua mão é pequena e como eu gosto de colocá-la na palma da minha mão só para então fechá-la sobre a tua. talvez um bom motivo para te amar seja a maneira como você acha que eu não gosto da tua comida, quando na verdade eu gosto dela de verdade e acho que se você praticar um pouco mais você se tornará uma cozinheira de mão cheia. eu te amo, talvez, por todos os abraços que você me dá e pelo jeito que você me aperta forte enquanto eu sinto o cheiro dos teus cabelos. talvez eu te ame de verdade por causa de como você fica extremamente linda e deliciosa usando os teus vestidos para ficar em casa e deitando ao meu lado para vermos na televisão algum filme ou seriado. talvez a razão de eu te amar seja porque você sempre reage da mesma forma com as brincadeiras que eu repito só porque eu sei que você reagirá sempre da mesma forma. eu te amo, possivelmente, por você parecer sempre tão paciente e compreensiva quando eu começo as minhas conversas mais absurdas e sem sentido, por você me ouvir todas as vezes que eu quero falar e por falar todas as vezes que eu quero ouvir. acho que te amo porque você tem as melhores opiniões formadas sobre os assuntos que mais gosto e, mesmo quando discordamos, conseguimos discutir de uma forma extremamente elaborada e crítica sobre os mais variados temas. é provável que eu te ame por você ter uma biblioteca de respeito, por você ter os quadrinhos que eu tenho vontade de ter e por você saber bastante sobre teoria dos quadrinhos, por você ter embasamento o suficiente para dizer quais são quadrinhos que devem ser lidos e quais são os roteiristas mais interessantes que já trabalharam na mídia (e mesmo você não conhecendo tantos roteiristas mainstreams atuais, você sempre está me ouvindo o suficiente para se interessar por uma ou outras coisas que foram ditas por mim). é bem fácil que eu te ame só porque você tem gostos muito semelhantes e, ao mesmo tempo, extremamente diferentes dos meus, por você gostar das coisas eletrônicas que eu não gosto e por você gostar dos clássicos do rock que eu gosto, por transitarmos entre o clássico, o blues, o jazz, o rock e as bandas novas que você me faz ouvir quando estamos juntos. eu acho que todas as vezes que você me perguntar por que é que eu te amo, eu deva responder que te amo porque você me faz sentir extremamente bem por ser eu mesmo com você e que ninguém mais no mundo consegue fazer com que eu me sinta assim, talvez eu diga também que é porque você tem o melhor sabor e que quando eu te vejo a vontade que sinto é te jogar na cama, no sofá ou até mesmo no chão, te despir e fazer as coisas que quiser com você. talvez eu te ame por todas as nossas diferenças, meu bem, porque você é uma garota nintendo e eu sou um cara sony, mas mesmo assim eu me apaixono por você todos os dias e ainda insentivo seus gostos te ajudando com os jogos retardados do wii – e você me ajudando a ficar viciado em jogos que antes eu menosprezava. acho que eu te amo por você ter uma voz linda e por me deixar extremamente excitado só de ouví-la falar. acho que te amo por você achar graça e rir das minhas piadas ruins. eu te amo porque você não tem problemas em comer comigo quando dá vontade e levanta e se arruma sem muitas frescuras e vamos comer um sanduíche no meio da madrugada só porque nós dois estamos com vontade e que se danem os possíveis futuros problemas coronarianos e os possíveis ateromas. dane-se tudo isso! eu te amo porque você me atura todas as vezes que eu reclamo da minha vida mesmo você sabendo que minha vida ainda é extremamente simples e sem problemas sérios – e talvez, apenas talvez, eu te ame por você me mostrar que meus problemas não são tão sérios assim e que tudo um dia vai piorar consideravelmente. eu sei que eu te amo porque você parece não esperar tantas coisas de mim, mas ainda assim eu sempre tento fazer alguma coisa legal por você, porque eu acho legal sempre ser capaz de surpreender de alguma forma, mesmo achando que faz muito tempo que não te surpreendo positivamente. eu te amo porque você gosta das pequenas coisas que faço e dedico a você, pelos versinhos que escrevo num papel e te entrego dizendo que foram inspirados por você e por versos de poetas de verdade que escrevo com minha caligrafia ruim e te entrego porque acho que você precisa lê-lo e não quero que você faça isso apenas através de um link de uma página de internet qualquer, quero que você saiba que estou usando essas palavras para expressar sentimentos meus que já foram melhor ditos com palavras dos outros. acho que te amo porque você se interessa por boa parte das coisas que eu falo e eu me interesso por grande parte do que que você diz. eu te amo porque você diz que gosta do que eu escrevo, mesmo às vezes achando que você só diz isso para me agradar. a verdade é que não acho que eu precise de motivos para te amar. não preciso racionalizar e fazer uma lista de coisas que justifiquem o meu sentimento por você. eu te amo porque te amo e isso só já basta. eu te amo porque sinto amor por você e é isso. não há nada mais a se fazer. por favor, não procure motivos para esse meu sentimento, eu te amo por te amar e, para mim, isso é mais que o suficiente.

noites.

dezembro 7, 2010

sentava-se para escrever e não conseguia. passaram-se dias e noites sem que isso mudasse. sempre que sentava, por volta das sete da noite, e se punha a escrever, não conseguia seguir além de algumas dúzias de palavras. ao relê-las, não conseguia sentir vontade de continuar trabalhando com elas, queria mudá-las completamente, começava a sentir arrependimento da hora em que resolveu sentar sozinho e se pôr a escrever. ele sabia que jamais conseguiria voltar a escrever como fazia, sabia que as palavras não sairiam mais dele como se fluissem vindas de um rio. a verdade é que o rio secou. foram muitas intervenções ao longo dos tempos, muitos baldes e baldes de pesca saídos desse rio que antes parecia infinito em sua riqueza. agora se arrependia de tudo aquilo, queria ter aproveitado melhor cada momento de inspiração, porque agora só lhe restava o trabalho árduo, as noites inteiras acordado para escrever três ou quatro parágrafos e não achar que eles conseguem agradar a si mesmo. há um mês não conseguia escrever qualquer coisa que o agradasse, até seus pensamentos pareciam difíceis de pensar, emaranhados por demais entre si, cheios de nós, sem fim.

a verdade é que acreditava ter perdido o interesse por tudo, o pouco interesse que tinha pelas coisas que o cercavam parece ter migrado para algum lugar sem que tenha sequer notado. não conseguia escrever, não conseguia ler, não conseguia assistir a um filme que precisasse de algum pensamento crítico. parecia querer desligar sua mente. queria desligar sua mente. queria acompanhar os programas de tv, mas não conseguia se estimular. sentia vontade de não sentir vontades, queria não querer com tanta vontade escrever, queria que, para ele, escrever não fosse algo tão nobre, tão essencial, tão primordial. queria que fosse apenas um hobby, que sua saúde psiquica não dependesse de seus rasbiscos, de suas notas sobre a vida. queria se enfiar num quarto escuro com alguns sanduíches de queijo, algumas xícaras de café com leite e só sair de lá quando o mundo dissesse: sentimos sua falta e realizaremos agora todas as suas vontades. mas o mundo jamais diria isso, o mundo não se importava com ele e ele, como bom leitor de alberto caeiro, bem sabia disso.

algumas noites, quando desistia de tentar escrever os parágrafos que lhe desagradariam, levanta da cadeira e saia de casa em busca de alguma forma de inspiração. geralmente descia os trezes andares de escada, o que o ajudava a se distair, e ia para o bar que ficava na esquina da rua onde morava. sempre pedia três tipos de cerveja, uma malzbier, uma lager e uma pielsen, nessa ordem. depois pedia uma dose de whisky sem gelo, tornava tudo num só gole, fazia uma careta – sempre, não importa quantas vezes por semana ele fizesse isso – e então começava a beber calado o resto da noite, sentado no mesmo lugar olhando o relógio pendurado na parede, observando as partidas de sinuca que aconteciam, ouvindo as conversas, as discussões, as brigas. ocasionalmente se levantava, interagia com uma ou outra mesa, oferecia uma bebida a alguém – geralmente mulheres sozinhas. tinha um padrão que gostava de manter sempre, não importa quantas garrafas entornasse. em dias de sorte, conseguia levar uma das mulheres para seu apartamento e se livrar dela assim que o sol nascesse. não era difícil para ele perder as pessoas, sabia exatamente o que dizer, e saber isso é uma arte.

quando estava de bom humor e tentando coisas novas, gostava de jogar sinuca, embora não fosse bom. não era fã dos jogos, a verdade era essa. sentia-se entediado com as partidas de dominó, não sentia a empolgação que os outros sentiam ao encaçapar uma bola, mas todas as vezes que jogava eram tentativas de conseguir essa emoção que todos tinham, à exceção dele. não conseguia entender por que não sentia o tesão nas coisas que o mundo inteiro parecia sentir. por mais vezes do que sempre pensou, quis ter essa vontade de vida, esse medo da solidão, do silêncio, do frio, da luz. muitas ocasiões se viu querendo se enfiar num buraco escuro, quente e barulhento e passar toda a noite a se movimentar por lá, mas recordava-se de todas as frustradas tentativas anteriores. há anos teve um relacionamento que acabou justamente por ele não ser a pessoa mais animada do mundo e por achar que tudo o que precisava estava no conforto do seu lar: seus livros – todas as suas influências, todos os seus mestres, os senhores da retórica, os mestres da descrição -, sua escrita – que sempre lhe pareceria amadora e indigna de figurar nas mesmas prateleiras das obras de seus grandes professores -, seus discos de música instrumental – sua principal fonte de força nas noites intermináveis de escrita e reescrita.

quando não saía à noite para o bar, colocava na vitrola um dos seus vinis antigos e sentado em sua poltrona, se punha a pensar na vida. sem nada em suas mãos para tomar notas, sem um livro em seu colo para ler, apenas ouvindo a música que saía das caixas de som. em algumas noites eram os noturnos de Chopin, em outras eram óperas de Wagner – gostava do alemão, via uma imensa força que propelia sua música e empolgava a alma -, em outras ainda, os trabalhos em violoncelo de Beethoven e uma vez por semana, como regra da casa, ouvia a nona sinfonia do início ao fim. ele sabia que parecia um antiquíssimo clichê, mas ele não tinha culpa de se sentir como sentia ao ouvir as palavras de Schiler tão imponentemente pronunciadas num coro que nos anuncia um fim tão próximo e indiscutível. “Wem der grosse Wurf gelungen/Eines Freundes Freund zu sein” acreditava que aquele que sabia como era se sentir assim, como o poeta alemão disse, era abençoado.

a verdade é que se sentia solitário muitas vezes. punha-se a descrer que o método da solidão sempre utilizado não era o que lhe caia melhor. a solidão pode ser assustadoramente opressora. lágrimas brotavam dos seus olhos todas as vezes em que pensava nas pessoas que uma vez estiveram ao seu redor e se foram por qualquer motivo, as pessoas que ele afastara de si voltavam para lhe assombrar em noites envoltas de pensamentos. seus pais enterrados, seus irmãos brigados, seus seis divórcios e a eterna sensação de nunca conseguir sentir algo autêntico por mais de alguns meses. todas as noites, às sete horas, quando se punha sentado em frente ao papel, pronto para escrever as palavras e transformá-las em qualquer coisa que pudesse fazê-lo sentir bem, tudo o que conseguia era se frustrar. o rio secara, não viria um dilúvio, um milagre divino para salvá-lo. sabia que jamais conseguiria escrever como antes.