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o poeta.

novembro 12, 2010

um bar escuro. foi esse o lugar em que o encontrei. o maior poeta da atualidade, dono de inúmeros prêmios nunca aceitos, bebendo num buraco imundo, entre prostitutas e cafetões e usuários de drogas. no meio de tanta podridão e escuridão, vê-se o homem gordo, sempre sentado numa mesa no mesmo canto, com dois copos à sua frente: um cheio d’água e um com whisky e gelo. as pessoas passam por ele sem falar nada, sem reconhecê-lo, sem elogiá-lo ou qualquer coisa assim. todos ao seu redor parecem não tomar conhecimento de que estão ao redor do grande poeta dos últimos vinte anos. o homem que escreveu poemas políticos mais ricos que maiakóvski e juras de amor mais intensas que vinícius de moraes, um homem que explorou os sentidos em palavras como nenhum outro seria capaz de fazer. eu pergunto o que ele faz aqui e ele simplesmente olha para mim, tentando me reconhecer de algum lugar sem conseguir. toma um gole do copo de whisky e depois um de água.

“eu te conheço de algum lugar?” sua voz não expressa confusão, não tem o tom de voz de um bêbado, apesar de seus olhos parecerem cheios d’água como o olhar dos ébrios.

neguei com um movimento de cabeça.

“nunca nos vimos, mas conheço o trabalho do senhor.” minha voz deve ter subido umas duas oitavas enquanto eu falava, tornando-se irritantemente fina, completamente não natural. estava nervoso e quando tentava corrigir meu tom de voz, as palavras resolviam não mais sair. achei que seria melhor me comunicar assim do que não falar com o grande autor à minha frente “sou um grande admirador de suas poesias, senhor. nunca esperaria encontrá-lo aqui.”

“é, ninguém espera.” respondeu com calma, olhando nos meus olhos.

“o senhor é um dos meus poetas favoritos.” eu falo. minha barba está mal feita, minhas olheiras estão gigantescas, minha voz afinando está extremamente irritante, faz com que eu parece ter sofrido de algum tipo de problema hormonal durante a adolescência, estou lembrando um castrati. dá pra perceber facilmente que falta confiança na minha voz. nervosismo poderia definir bem a expressão que sinto meu rosto formar, sempre que iniciava uma frase tinha dificuldade em continuar as primeiras palavras. “sinto que suas palavras tocam a alma do homem com uma sensibilidade que outros poetas atuais simplesmente não conseguem alcançar, busca nas trevas, nos recônditos dos pensamentos, tudo o que não queremos que saia de lá.”

o homem sentado do outro lado da mesa, bebe do líquido amarelado que seu copo continha, e me encara.

“obrigado.” sua voz profunda e grave é calma e parece vir de uma tumba, tem um tom frio que faz sentir um leve arrepio. não fala mais nada.

extendo minha mão para que ele possa apertá-la. sorrio. tento parecer normal, mas creio falhar com louvor. ficamos em silêncio por um tempo. eu, em pé, mão pronta para ser apertada, encarando o homem enquanto ele apenas fixa o olha no recipiente à sua frente. ele inspira profundamente, ergue os olhos, larga o copo, extende a mão e sinto seus dedos frios e molhados ao redor da minha mão e em um tom de voz que deixa claro que não queria dizer nada daquilo que estava prestes a dizer, me direciona palavras.

“sente-se, meu jovem.” apontou a cadeira à frente da dele.

sentei-me colocando minha mochila no chão.

“então, o que você vai beber?” perguntou-me fechando os olhos e ficando com eles cerrados por um tempo. fiquei admirado com aquilo, cheguei a pensar que havia cochilado, mas abriu os olhos de repente e me pegou observando-o com um olhar curioso. senti o sangue correndo para minha face e a vergonha me dominando. as palavras quase desistiram de uma vez de mim, mas lutei por elas.

“uma caneca de cerveja. onde está o garçon?”

ergueu o braço esquerdo chamando o homem por trás do balcão que veio prontamente com um bloquinho anotar o pedido. repeti o que dissera e o homem se foi. mais uma vez o silêncio reinou. não sabia o que falar, não achava que continuar elogiando o trabalho daquele homem era o melhor a se fazer, era óbvio que ele já sabia de tudo aquilo e não precisava de mais um fã bizarro para confirmar essas coisas, todos os críticos já o faziam, todos os prêmios indicavam isso. perguntar de onde ele tira as idéias dele também não era nada inteligente. eu estava na frente de uma das criaturas que mais admirava e não sabia como proceder! era ridículo isso tudo.

“sabe…” sua voz foi cortada pelo engolir da bebida e depois seguiu molhada, mas clara e tranquila “eu venho todos os dias nesse bar. as pessoas aqui não me conhecem pela minha obra, ninguém chega junto de mim e fala coisas como você está fazendo. aqui eu sou chamado pelo meu nome, mas ele não quer dizer nada além disso. aqui dentro eu não tenho prêmios, ninguém ganha pra criticar minhas obras. aqui dentro o máximo que pode acontecer é alguém sentar na minha mesa e pedir que pague uma dose para ele ou dizer que vai pagar uma dose de qualquer coisa para mim, apenas por diversão, nada além disso.” tomou um gole d’água e me encarou fundo nos olhos. foi estranho o que senti naquele momento, um frio na espinha e então ele continou com a mesma calma “o garçon fala comigo sempre, tira uma brincadeira ou outra, a gente sorri, e a vida continua, ele num canto e eu no meu. quando entra uma moça bonita ele sempre vem pro meu canto com uma bebida na mão e comenta alguma coisa sobre ela, muitas vezes a bebida volta com ele. eu não estou acostumado a ter pessoas me fazendo elogios e esperando que eu diga qualquer coisa bonita sobre fazer arte.” fechou os olhos mais uma vez e ficou assim por um tempo. inspirou e expirou algumas vezes, quando suas pálpebras se levantaram, seu olhar castanho e profundo parecia perdido. “você já leu quais dos meus livros?”

quase não acreditei que depois de todo aquele discurso ele iria demonstrar algum interesse em mim.

“li quase todos os livros publicados pelo senhor, ‘versos brancos’ é um dos meus favoritos. inclusive, tenho um deles aqui. será que o senhor poderia autografá-lo? me desculpe por parecer tão fanático, mas a verdade é que estou bastante nervoso com esse encontro.” tirei da mochila o único livro de prosa publicado por ele. estava no meio da leitura. era uma coletânea de contos que tratavam basicamente do mesmo assunto de toda a carreira dele: mulheres. até agora, eu estava gostando. a crítica malhou o livro, na época do seu lançamento, fazendo parecer um dos piores livros já escritos, depois dele não houveram outras incursões do poeta no mundo da prosa.

ele pegou o livro grosso em suas mãos, seu olhar passava do livro para mim expressando certa desconfiança, colocou o volume em seu colo e começou a folheá-lo.

“o que você está achando?” perguntou sem parar de analisar o livro.

“estou gostando bastante. cada um dos contos aborda bem os temas propostos, gosto de como o senhor repete o tema sem jamais se repetir de fato. são os vários aspectos da mesma coisa, as mudanças de perspectiva fazem tudo parecer novo mesmo sabendo de tudo o que é aquilo. é interessante.”

“mas não te agrada como meus versos…” sua voz parecia carregar um certo rancor.

eu simplesmente não sabia o que dizer. resolvi ser sincero. “os versos que o senhor escreve são as melhores palavras da literatura contemporânea, seus versos são inigualáveis. a maneira como o senhor dobra o poema e o transforma em algo maior que o que ele parece ser não dá para ser copiado, o senhor é imortal por seus versos. sua incursão pela prosa não foi desastrosa como as críticas fazem parecer, mas não chegam perto do que seus poemas são.”

o homem à minha frente parou de folhear o livro. abriu nas primeiras páginas.”tem uma caneta, meu jovem?”

entreguei-lhe uma esferográfica que ele tomou com sua mão esquerda, escreveu quatro linhas e assinou. fechou o livro sobre a mesa e o deixou lá com suas mãos repousando sobre o volume. me encarava com certa curiosidade. sua voz calma continou a falar comigo.

“vou contar a você uma coisa, meu jovem. uma coisa que ninguém aqui nesse bar sabe, algo que nenhum dos críticos soube, algo que pouquíssimas pessoas tomaram conhecimento nessa vida.” nesse momento senti meu coração acelerar. o grande autor estava prestes a me contar um de seus segredos “esse livro,” ele dá um tapinha na capa do volume que repousa sobre a mesa “essa obra aqui, meu amigo, é a única que eu jamais gostaria de ter publicado. eu não sou poeta, não me sinto poeta, os versos não existem em mim, eles saem naturalmente, mas eu nunca os quis, entende? o que amo mesmo é a prosa. meu maior orgulho é esse volume aqui em cima.” mais uma vez dá tapas no livro. “acho meus poemas monotemáticos, não conseguem abordar nada, são rasos como essa mesa em que repousamos nossos cotovelos. se eu pudesse trocar todas as minhas publicações em verso por tudo o que gostaria de ter publicado em prosa, faria agora! mas nenhuma editora aceitou, disse que ninguém gostaria de ler minha prosa, ninguém se interessava por aqueles contos sobre mulheres que nunca existiram, situações que não importam para ninguém além de mim mesmo. como se os versos que escrevi fossem relevantes! enfim, jovem. você tem aqui na sua frente o motivo de eu continuar escrevendo – apesar de vocês, o público, nunca verem metade do que escrevo, de só terem conhecimento dos poemas iguais que escrevo desde que aprendi que a forma mais rápida e indolor de se esquecer uma mulher é através dessas linhas.” então ele levantou a voz pela primeira vez em toda a conversa. “agora fique aqui, com o livro e me deixe em paz, por favor. pode voltar ao bar, pode trazer seus livros para que eu os assine todos, mas, por favor, não vamos falar mais sobre isso, ok?” ele levantou antes que eu pudesse esboçar qualquer reação e saiu do bar.

puxo o livro sobre a mesa para mim. abro na página auografada e vejo que escrevera versos. não os reconhecia de nenhum de seus livros:

“parece que quanto mais tentamos
quanto mais juramos nunca trairmos aquilo que amamos,
mais afundamos,
mais nos enfiamos nas sombras da cidade prateada.”

então seguia seu nome assinado com a tinta negra da esferográfica.

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