Archive for outubro, 2010

a queda.

outubro 17, 2010

eu acreditava que ela tinha algum tipo de super poder. porque as coisas que eu sentia quando estava com ela não estavam no livro. sério. é engraçado de pensar nisso, sabia? mas hoje, talvez eu entenda que posso ter exagerado um pouco todas elas, pelo calor do momento, pela empolgação, a novidade. você, sabe… às vezes podemos nos emocionar com coisas que normalmente não o fariam e, quando pensamos num motivo para sentirmos aquilo, quase nunca encontramos algo racional para justificar. quando estava com ela era mais ou menos assim, sabe? eu não sabia o que sentia, mas era simplesmente bom, e eu jamais pensei que ela fosse me fazer algum tipo de mal. com ela eu me sentia protegido, seguro. era como se eu tivesse sempre alguém pra me proteger, como se nada pudesse me atingir porque, afinal de contas, eu estava com ela e nada entraria no meu caminho e todas as coisas do mundo dariam certo.

lembro bem de dias felizes com ela. nós dois no meu quarto/sala, sozinhos, estirados no chão, as roupas espalhadas, enquanto o meu som tocava bem alto uma daquelas baladas punks que eu tanto curtia. lou reed cantou várias das músicas que eu dediquei tanto a ela. para nós dois não havia vida lá fora. sério, sentia como se só existisse a gente no mundo, e eu simplesmente não me importava com mais nada, porque sentia que tinha tudo: minha cerveja na geladeira, uma garrafa de vinho ao meu lado, ela comigo e a sensação boa de segurança e despreocupação. foi numa noite de sexta que deitamos, foi na manhã de segunda que levatei e fui trabalhar, um dos poucos momentos em que nos separavamos, afinal, era preciso um pouco de trabalho para conseguir bancá-la, satisfazê-la e fazê-la continuar comigo para sempre – quando estamos apaixonados só pensamos no para sempre, não existe nenhuma outra medida de tempo para um coração satisfeito.

o trabalho era algo que eu queria evitar com todas as minhas forças. naquela época eu não sentia prazer nenhum em fazer o que fazia. mas se eu parar para pensar em todas as pessoas que realmente sentem prazer em seus trabalhos, posso dizer que eles são muito mais as exceções do que eu. então, tudo o que eu fazia era pelo dinheiro. as pessoas passavam por mim e eu simplesmente fazia de tudo para me livrar delas o mais rápido possível e nunca mais vê-las na minha frente. alguns chamam isso de eficiência, mas o atendimento expresso quase nunca tem a qualidade de um mais demorado. naquela época eu só queria cumprir minha meta e sair cedo. por dois meses ganhei o prêmio de empregado do mês por ter a maior produção em menos tempo. cumpria minha quota diária rapidamente e enrolava um pouco para poder ir para casa e tê-la em meus braços mais uma vez.

outro fato que me vem à mente quando penso nela é na noite em que nós dois fomos três pela primeira vez – a primeira de muitas, no entanto, essa foi a mais marcante. eu, ela e raíssa, os três na cama, os três fora da cama, todos dentro de todos, todos se usando sem nenhum sinal de posse, incrível desprendimento. uma verdadeira loucura e, por muitos momentos, perdemos noção de nossos corpos e viramos o todo e o todo era um só. raíssa e ela tinham um gosto doce e uma provou da outra, foi lindo. por um tempo nós três mantivemos uma boa relação e raíssa aparecia nos fins de semana e todos nós viravamos uma coisa só mais uma vez. depois dela vieram fabiana – amiga de raíssa, que participou da nossa primeira, e infelizmente única, reunião a quatro -, alessandra, adriana, marina, marta, sabine, zuleica, thamires e muitas outras que não consigo lembrar do nome. era por coisas assim que eu a amava tanto, ela sempre esteve segura de que, por mais que houvessem outras, meu coração era inteiramente seu, assim como todo o meu ser. chego a pensar até que acreditava que sem ela eu não seria capaz de viver, e penso isso porque creio ter dito isso a ela uma noite. mas não tenho essa lembrança. há muitas coisas de nosso tempo junto das quais não me recordo. espantoso é ter todas essas lembranças que tenho.

não lembro exatamente como foi que aconteceu, quem foi que tentou me dizer que ela não estava me fazendo bem. lembro do que senti quando me disseram – acho que foi minha irmã sabrina quem me alertou – era raiva, vontade de esganar esse ser que não queria me ver feliz com ela. e o pior de tudo, minha própria irmã, que deveria querer minha felicidade tanto quanto eu queria a dela! me senti traído, lembro bem disso, porque essa foi a primeira noite que passei na prisão. tentativa de homicídio. havia uma faca na minha cozinha, uma dessas facas de serrar pão, mas uma faca, ainda assim. eu saltei sobre minha irmã e tentei enfiar e faca em seu coração – eu sabia bem onde ficava o lugar mais fácil de alcançar o músculo e não poupei energias para isso. ela gritou e se debateu, enquanto eu gritava que ela era uma vadia e que nunca seria metade do que ela era para mim, que nunca faria um homem tão feliz quanto ela conseguia me fazer, então o vizinho arrombou minha porta e entrou, me imobilizando e chamando a polícia. minha irmã não o impediu, depois de duas noites na delegacia, ela retirou a queixa e eu saí. voltei para meu apartamento e lá encontrei minha mãe e meu pai, que viajaram só para sentarem na minha cama suja e me olharem com olhares reprovadores. disseram que eu iria com eles, que eu não pagaria mais o aluguel, que voltaria a morar na casa deles, que trabalharia na cidade de onde vim. disseram muitas coisas e, em mim, crescia raiva e vergonha. raiva deles e vergonha dela. recusei e recusei, neguei-me relutantemente a voltar para a casa deles, mas estavam irredutíveis. disseram que falaram com meu senhorio, que ele concordava e que já arranjara um novo inquilino para o quitinete. eles haviam planejado tudo para me afastar dela, mas faltava minha vontade, que eles pareciam ignorar. fui arrastado de volta à nossa cidade, onde arranjaram um trabalho num lugar qualquer e seguiram a vida, me espionando. me separaram dela sem dó ou piedade.

por muitas vezes tentei voltar pra ela. encontrava com ela às escondidas, bolava planos absurdos só para tê-la comigo por pouco tempo. fiz essas coisas até o dia em que fui parar no hospital depois de um acidente. foi então que vi que talvez fosse hora de acabarmos. eu já não produzia nada no trabalho, já não tinha mais o dinheiro para sustentá-la, e as visitas que lhe fiz acabaram com o pouco que tinha. havia me tornado uma pilha de nervos, minha calma acabara e tudo me fazia explodir. em um mês perdera quase dez quilos, não sentia mais fome, tudo o que pensava era nela e em como queria estar com ela e em como não conseguia. tentei roubar dinheiro dos meus pais, mas eles estavam um passo à minha frente e conseguiram evitar. foi então que me senti no fundo do poço, afundado em merda até o pescoço. lembro perfeitamente do dia em que me olhei no espelho e não me reconheci. foi o dia em que resolvi que era preciso desistir dela, que agora ela seria de outro – ou outra, ela se sentiu muito bem com raíssa, fabiana, zuleica e as outras. que eu tivera meu tempo com ela e que agora devia seguir em frente, como as pessoas fazem em todos os outros relacionamentos. havia acabado. e daquela vez eu tinha decidido.

faz muito tempo que não a vejo. às vezes acho que havia coisas boas em estar com ela, coisas que hoje não tenho, mas… penso estar enganado. me enganava com ela, todos os dias, pensando que ela estava me salvando porque era seu dever, porque ela tinha super poderes, porque era heroína, mas não… tudo o que ela fez foi me levar ao céu, fazendo crer que eu aprendera a voar, e me largar. a queda machucou bastante e às vezes acho até que ela ainda não acabou.

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bunda.

outubro 7, 2010

“encontrei a bunda perfeita.”

“ahaha e de quem é essa bunda?”

“isso realmente é importante?”

“não?”

“ora, cara, o mais importante é a bunda perfeita, não sua dona. mas tudo bem, ela tem vinte e um anos, um metro e sessenta e três, cerca de cinquenta e quatro quilos, extremamente bem distribuídos por seu corpo branco e cheio de sinais. tem uma cintura fina, uma barriga batida, magra, e os quartos largos, meu amigo. largos e carnudos, como uma boa bunda deve ser. e devo dizer, em questão de mamas, ela não é mal algum, não deixará esfomeado nem a mim nem a seus descendentes. mas isso realmente não é importante. o que importa é sua bunda linda.”

“e de onde ela é, essa bunda sem nome?”

“ela é da vida, do trabalho, do ônibus, da pracinha, do super mercado. sei lá, cara! você está fazendo muitas perguntas sem cabimento. já já vai me perguntar o nome da bunda.”

“e essa bunda tem nome?”

“é claro que tem, irmão. toda bunda tem um nome…”

“e qual o nome dessa bunda?”

“raphaela. com pê agá, de acordo com ela.”

“sei… eu conheço?”

“sei lá. você conhece alguma raphaela com pê agá?”

“não que eu saiba.”

“então, até onde você sabe, você não conhece.”

“então você interagiu com essa bunda, conte-me dessa interação.”

“é claro que interagi. você acha mesmo que eu veria a bunda mais linda do mundo e não interagiria?”

“vai saber, cara? sabe-se lá a que distância ela estava de você e tudo mais…”

“ela estava perto, cara. perto o suficiente para que eu sentisse o cheiro dos seus cabelos e achasse bom. melhor que aqueles cabelos que só cheiram a creme ruim. ela tinha um cheiro bom. algo que me lembrava o mar e flores. e, por um breve momento, eu achei que estava em outro lugar que não uma sala cheia de gente. fechei os olhos um pouco e, quando os abri, depois de pensar que estava num campo ouvindo as ondas quebrarem na areia ali perto, aquela bunda estava parada na minha frente. sério, linda, grande, dentro de um jeans que enaltecia toda sua beleza e grandeza. e eu senti vontade de, literalmente, comer aquela obra prima. dar uma mordida em uma de suas nádegas para arrancar um pedaço. precisei de muita força de vontade para não fazer isso. depois imaginei várias coisas que faria com aquela mulher se a tivesse na mesma cama que a minha. há quem diga que eu só falo as coisas, que talvez eu não fizesse nenhuma delas, talvez você seja uma dessas pessoas, cara, mas acredite, com a bunda da raphaela eu faria coisas que eu nunca me imaginei fazendo com bunda alguma! então ela virou e sorriu, acho que ela não me notou encarando sua bunda. eu sorri
de volta, ela perguntou se eu era de tal lugar e eu disse que era e ela disse que já tinha me visto antes e eu disse que infelizmente não podia dizer o mesmo e sorri mais uma vez. ela riu. disse que estava indo almoçar agora e perguntou se eu queria ir. eu não estava com fome, mas disse que sim, que queria ir. foi aí que ela me disse seu nome e seguiu na minha frente – admito que deixei que ela fosse um pouco à frente para que eu acompanhasse seus movimentos com o olhar. então almoçamos, conversamos amenidades, fingi o mesmo interesse que sempre tento fingir. aquela coisa de sempre, procedimento padrão para as mulheres que não conseguem ser mais do que… bem… uma bunda, por mais que seja A bunda.”
“ahahahha”
“é sério, cara. olhe para mim. eu falo com todo o meu coração. a bunda que vi não é apenas uma bunda. até porque, como diz um amigo meu há muito tempo sumido, bunda tenho eu, bunda tem você. o que raphaela tem é um monumento rabal.”
“porra, cara. essa raphaela deve ser um absurdo de mulher, então.”
“ela é algo que saiu de sonhos, meu velho. se eu pudesse daria um beijo nos pais dela só por terem feito e alimentado esse ser. as coisas que falo podem parecer sem sentido, podem soar como loucura, mas é que teus olhos não foram abençoados pela visão daquela bunda.”
“certo, certo. e você só viu essa bunda uma vez?”

“não. eu continuei encontrando com ela no mesmo lugar que a encontrei pela primeira vez. temos sorrido um para o outro e, qualquer dia desses vou chamá-la para qualquer programa que me faça chegar a palpar suas nádegas lindas. ahaha e você, cara, como está?”
“ah, cara, estou bem. faz uns seis meses que estou trabalhando num hospital e eles estão me pagando direitinho. eu queria abrir um consultório, mas ainda não creio que esteja pronto para isso, sabe? creio que faltará clientela e, no momento, tenho algo mais importante para fazer.”
“é, cara, e o que é?”
“estou pensando em pedir a beth pra mudar pra minha casa, termos uma vida de casados e tal. talvez até com alianças e essas coisas. ela não curte essa tradição toda, mas acho que ter testemunhas e certidão de casamento é um ritual que eu queria ter, sabe?”
“ahahah, nossa, cara, você está falando em casar! isso é foda! parabéns! dá cá um abraço!”
“ahaha, obrigado, cara. não acho que estou me precipitando, você acha? eu e ela estamos juntos já faz uns bons quatro anos, passamos por muita coisa juntos – e algumas à distância. acho que estamos prontos para, finalmente, morarmos juntos, começarmos a nossa própria família.acho que estou na idade para filhos, antes que eu fique velho demais e perca a energia para cuidar deles, sabe?”

“acho que sei, mas eu ainda não sinto as necessidades de me atrelar a uma pessoa só. talvez eu pense em me atracar a raphaela por vinte e quatro horas seguidas, entrando e saindo de cada um de seus buracos, mas… não consigo imaginar mais que isso. por exemplo, não consigo me imaginar mais de cinco meses ao lado dessa mulher. e quando vejo você com a beth, cara, eu sinto medo de nunca conseguir achar alguém como você encontrou, sabe? se sentir completo com a outra pessoa, ou, se não completo, menos vazio. parece que eu só consigo pessoas que me fazem pensar no quão vazio eu sou e em como isso parece nunca mudar, sabe? isso me assusta muito. eu… queria uma cerveja, ou uma dose de cachaça.”
“eu entendo você, cara. antes da beth eu via amigos com suas mulheres e pensava a mesma coisa que você. e olha, parece que o que vou dizer é só mais um clichê, mas… essa mulher que você quer, ela está aí, cara, ela vai chegar pra você, quando você menos esperar. você vai estar numa fila de banco, andando em algum lugar, ou, quem sabe, não é essa bunda que você está falando aí? o que você sabe sobre ela? sabe seu nome, sabe que a bunda dela é linda e algumas besteiras sobre seus gostos, que pelo que você me fez entender são ruins, mas… talvez ela seja capaz de te surpreender. talvez tudo o que falte seja estímulo. estimule-a, cara. compartilhe coisas com ela e deixe que elas compartilhem com você. devo dizer que muitas coisas que a beth me mostrou não me agradavam a princípio, mas hoje… hoje eu talvez não consiga imaginar minha vida sem elas. tente você também. e… vamos tomar essa cachaça, ou cerveja, ou o que quer que seja. tem um lugar aqui perto que é bem calmo e tem o melhor filé com fritas que eu já comi.”