anabel, ou o sentido que não existe.

setembro 14, 2010

moro num prédio antigo, muito antigo. vez por outra um pedaço de reboco cai de uma das paredes do edifício e suja o chão com sua branquidão seca. definitivamente aqui não é o lugar limpo que todos esperavam que eu fosse morar, inclusive eu. aqui não tem nada pronto. no armário estão todas as coisas que esperam por mim para jogá-las numa panela e transformá-las em comida: macarrão, arroz, feijão. no congelador estão pedaços de animais mortos: frangos, bois, creio até que um pouco de porco, mas não estou tão certo quanto a isso. o fato é que eu nunca faço as coisas que deveria fazer, nunca cozinho, nunca como corretamente. o único verde da casa é o pão mofado que está na mesa, há três dias esperando que eu o leve para a lata do lixo. moro só. mentira. eu vivo com o mundo inteiro. tenho uma televisão que vive ligada mesmo quando não estou assistindo, um computador com acesso ilimitado à rede em banda larga, tenho muitos livros que já li e alguns poucos que lerei em estantes que não pegam poeira porque é a única parte da casa que eu cuido. meus livros são meus tesouros, meus queridos, minha alma fora de mim. sem eles não sei se conseguiria sobreviver a esse mar de gente que está lá fora só esperando que eu saia para que possam me afogar em mediocridade, em ignorância, em coisas sem nenhum valor que eles acreditam que são as coisas que dão sentido à vida. como se precisasse de algum sentido.

boa parte do tempo estou reclamando do calor, do clima seco, do clima chuvoso, do dia longo e noite curta, do sol de sete da manhã, do sol de meio dia, do sol das três da tarde, das pessoas que falam muito, das pessoas que falam pouco, das pessoas que não falam comigo e das pessoas que falam comigo, dos livros que as pessoas lêem e dos livros que elas não lêem, das músicas das rádios, das músicas dos cds, das músicas dos mp3 players, das músicas dos sons dos carros nas ruas, dos carros nas ruas, dos ônibus na rua, das motos nas ruas, das pessoas nas ruas, das pessoas em suas casas ouvindo suas músicas ruins tão alto que ouço de onde moro, da programação da televisão, das pessoas que assistem aos programas de tv, das pessoas que não assistem aos programas de tv que assisto… enfim, arranje um assunto e eu posso reclamar dele.

boa parte do tempo que tenho aqui gasto com as coisas que não deveria. mas acredito que seja assim com todos aqueles irresponsáveis como eu. talvez por isso eu estude o que estudo, talvez por achar que a vida é curta demais para se preocupar e tomar responsabilidades em suas costas eu tenha escolhido fazer isso que faço. talvez porque eu não tenha sido feito para salvar vidas sendo um médico graduado ou para defender e julgar pessoas, nem mesmo para construir prédios. profissões cuja responsabilidade me arrepia só de pensar. não, não quero nada disso para mim. o peso de uma vida é grande demais para que queira carregá-la. melhor deixar com que outros matem pacientes, julguem inocentes e derrubem edifícios. deixe que outros sejam culpados por essas coisas, meu maior erro não se compara a nada perto desses.

não que meus pais não quisessem que eu fosse um médico ou coisa assim. e eu até tentei, juro como tentei. em algum lugar da casa deve haver um diploma, sabe, mas deixa ele lá, o peso que ele traz não é nem um pouco o que quero para minha vida, me deixe com meus livros, para catalogá-los e pô-los na ordem que quiser, por autor, por título, por ano de lançamento, por edição. deixe-me ler meus filósofos e meus poetas e passar noites lendo livros que poucas pessoas por aqui leram, de autores extremamente fabulosos que ninguém sabia da existência. deixe-me esquecido de pelo menos dois terços da turma da faculdade – na qual apareço todos os dias só para variar um pouco da monotonia – onde assisto a aulas estúpidas de uma das cadeiras bizarras de alguma dessas logias da vida – e noto que todos que prestam atenção àquilo são os mesmos dois terços que não se relacionam comigo. gosto de estar na sala para observar, desde sempre, sempre achei uma atividade antropológica fabulosa essa do ritual da sala de aula. e outra: a faculdade é um ótimo exemplo de etologia.

das pessoas ao meu redor, a melhor é anabel. ela estuda na mesma classe que eu, entre tantos ninguéns, e é, como eu, uma desiludida, ou melhor, uma iluminada. sabe das coisas que tantos fazem questão de fechar os olhos e não enxergar. anda sempre com seus olhos azuis bem abertos, injetados como se num momento de calmo pavor furioso. é ela a única que vem à minha casa, a única que usa meu banheiro, a única que deita na minha cama, a única que joga meu pão mofado na lata de lixo, a única que usa o gás e faz comidas deliciosas. anabel tem um jeito todo estranho de ser e é por isso que nos damos tão bem. uma vez perguntei por que é que ela era como ela era e ela sorriu e disse – em inglês, numa bela referência a “blade runner” – que tinha visto coisas que as pessoas não acreditariam. foi nesse dia que soube que nenhuma outra mulher que deitasse na minha cama seria como anabel. ela não é um pedaço de mau caminho, e com seus quase quarenta anos, dois filhos e um marido morto, se encontra longe disso, mas é o caminho que eu percorro sem me cansar e sem me desviar. foram precisos trinta anos, dois cursos de graduação, três anos de um trabalho odioso, isolado no meio do mato para ganhar o suficiente para que não precisasse trabalhar por alguns anos; foi preciso dizer adeus a meus pais, a meus dias de paz, adeus a coisas que eu nem sabia que iriam embora – a sonhos e promessas -, mas hoje sinto que estou, de alguma forma que não sei descrever, bem.

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2 Respostas to “anabel, ou o sentido que não existe.”

  1. Mina Vieira Says:

    Totalmente você, man. Desculpa te entregar fácil assim às pessoas que não te conhecem, mas te enxergo em cada uma das linhas do texto. Deve ser assim quando você me lê também, né?

    Bem bom o texto, gostei especialmente da forma como você introduziu a existência da anabel.

  2. nelson Says:

    “[…] e é, como eu, uma desiludida, ou melhor, uma iluminada.”

    achei legal isso.

    “ela não é um pedaço de mau caminho […], mas é o caminho que eu percorro sem me cansar e sem me desviar.”

    achei foda essa! nela dá pra sacar a idéia toda do texto, que é boa e vc executou bem!
    ficou foda, man!

    FH


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