Archive for junho, 2010

como encontrar a liberdade (ou como se livrar da culpa e do pecado).

junho 30, 2010

quando acordou eram quase três da tarde. o quarto estava abafado e sua testa estava molhada de suor, apesar do ventilador quase grudado à sua cabeça, os lençóis estavam jogados no chão e ele ainda estava calçado. tinha poucas lembranças dos sonhos que tivera, achava que envolviam liberdade, correr pelo céu que resplandecia lindamente ao seu redor enquanto estrelas brilhavam, mas não tinha certeza. queria o sentimento de liberdade, nem que fosse apenas nos sonhos. o cheiro dela entrava em suas narinas e vinha de todos os lugares da casa: do travesseiro, do lençol, do colchão, do chuveiro, do sanitário, da pia, do ralo, da escova de dentes e do creme dental, da estante de livros e dos cadernos velhos, da televisão e dos filmes em fitas, dos seus discos de música, das suas roupas. ela estava ali e ele sentia medo de jamais ser capaz de se livrar dela para sempre. ainda era capaz de sentir o calor dela se derramando sobre si, enxarcando-o, depois secando e formando uma crosta marrom em sua pele. quando chegou em casa deitou na cama sem lavar seu corpo. ainda sentia em sua boca o sabor do último beijo.

*****

o sol se punha preguiçosamente naquela tarde de segunda vazia. estava passeando entre os canais da televisão sem prestar atenção a nenhum deles especificamente. queria algo que o fizesse esquecer a vida lá fora. na verdade, queria algo que o fizesse esquecer o email, o telefone, as fotos. queria algo que o fizesse esquecer do mundo inteiro, mas especialmente dela. no entanto, é como um amigo próximo costumava lhe dizer: quanto mais se tenta esquecer, mais se consegue lembrar. por pouco não vira as imagens que lhe foram enviadas, quase as ignorara como faz com tudo o mais na vida, mas naquele dia não, naquele dia ele viu e pensou em como seria melhor não ter visto. queria não acreditar naquilo, mas sabia que era verdade, a triste e amarga realidade. sua namorada, sua mulher, sua amada, sua amante, ela. ela beijando outro homem, ela amando outro cara, ela namorando outro cara, ela amando outro cara. ela e outro cara. queria esquecer o que viu, queria não pensar em maneiras de acabar com ela, de fazê-la sofrer. queria não pensar em amordaçá-la, amarrá-la a uma cadeira enquanto riscava sua pele com pedaços de vidro, queria não pensar em como arrancaria seu útero com uma colher entortada, queria não pensar em métodos de tortura medieval, queria não pensar em fogueiras e em gritos de dor. queria ser capaz de ser frio, preciso. controlou-se para não derramar lágrimas. ela chegou em casa por volta das seis, eles viram televisão, um ou dois episódios de seriados de comédia até que ela desligou o aparelhou e foram para o quarto, onde fizeram sexo até que ela caísse no sono. na cama, depois de horas pensando, sem conseguir pregar o olho, olhou para ela e soube exatamente o que deveria fazer.

*****

preparou o jantar como ela gostava, comprou o melhor azeite, o melhor espaguete, os melhores temperos, o melhor corte de filé. abriu uma garrafa de um vinho bom, indicado por um amigo entendedor de bebidas – ele não sabia nada sobre elas, só beber. criou um ambiente confortável e relaxante, acolhedor e romântico. escolheu as músicas a dedo, nenhuma delas poderia estar errada, cada uma deveria ter seu significado e ela deveria gostar de cada uma delas. fez tudo para que se sentisse bem ao fazer o que precisava fazer. fez tudo para que ela não soubesse de nada até que a hora de saber de tudo chegasse.

*****

tudo o que se ouvia naquela rua eram seus sapatos pretos tocando pesadamente o asfalto molhado. o homem alto, cabelos desgrenhados, pele morena e pálida, vestindo roupas escuras e folgadas, caminhava na noite como se ela tivesse sido feita para ele, como se fossem conhecidos de séculos e, ao longo do tempo, tornaram-se grandes amantes.a verdade era que ele havia entendido que a única coisa que poderia amar realmente era a noite, que ela jamais o faria mal. o odor característico daquele bairro penetrava suas narinas: urina e dejetos, alimentos podres e vômito, carniça animal e humana, tudo isso era facilmente encontrado pelas esquinas dali se misturando como se fossem uma coisa só. e talvez fossem.

eram quase duas da manhã de uma quarta feira. andava só, com um leve sorriso de realização no rosto e a lembrança de uma noite que jamais se apagará.

*****

sinatra cantava nas caixas de som enquanto o eles bailavam sozinhos no meio da sala. dançavam juntinhos depois de um jantar a luz de velas e algumas taças de vinho. era uma terça feira, por volta das nove da noite. ela usava um vestido preto que exibia suas belas pernas e sorria a cada passo para lá e para cá que davam ao embalo da música. seu sorriso era lindo, dentes longos e brancos como marfim eram sustentados por suas gengivas róseas e úmidas. seu esmalte se iluminava belamente à luz das velas.

em seus braços, sentia o calor que emanava dela enquanto a segurava com força contra seu corpo. os cabelos longos escorriam-lhe pelas costas, cobrindo os dedos que se punham na nuca da belíssima mulher longilínea, esguia e de pele clara. aproximou sua boca da orelha esquerda dela e articulou palavras facilmente audíveis.

“eu te amo, meu bem.” sua voz era firme e clara.

ela sorriu para ele e disse que também o amava. disse isso num tom calmo e suave, quase automaticamente, como se seu amor viesse apenas do amor dele. deu-lhe um beijo rápido nos lábios.

ele repetiu a declaração, desta vez olhando-a nos olhos.

“eu te amo.” e fixou a mão em sua nuca, fazendo com que ela não fosse capaz de desviar o olhar do dele. seu outro braço a envolvia e puxava contra seu corpo, imobilizando-a. “você é uma vadia que não merece nada além de uma morte lenta e dolorosa, mas eu te amo.”

enfiou sua língua bem fundo na garganta dela, sentiu o gosto da última refeição, sentiu o sabor salgado de lágrimas se misturando ao sabor ferroso.

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A mesa.

junho 10, 2010

“então, ela estava lá sentada, tá entendendo? e eu cheguei perto dela e senti o perfume dela e vi que ela tava bebendo uma bebida rosa… então falei pra ela que eu estava olhando ela fazia um tempo. sabe o que ela me disse?”

“o que?”

“ela perguntou se além de olhar eu não queria pegar! caralho!”

“caralho!”

“eu fiquei sem acreditar naquilo, sabe? mas eu disse que seria algo realmente bom, afinal, ela era tão linda, cara. olhos castanhos claros e cabelo preto bem longo, preso num penteado modernoso e bonitinho. e ela tinha uma bundinha linda que parecia maravilhosa de se pegar.”

“você disse isso a ela?”

“eu? não! claro que não. se não ela não deixaria que eu pegasse. a gente foi pra um canto da festa, onde tinha pouca luz e muito som, e começamos a nos beijar feito dois loucos desconhecidos, que é bem isso que a gente era, né verdade?”

“é sim.”

os dois riram. sentados no bar, bebendo cerveja, comendo batatas fritas e tiras de carne macia. para eles a juventude parece eterna e tudo o que há de bom no mundo é conversar sobre mulher, comer filé com fritas e beber entre uma desconhecida e outra.

a lua brilhava alta no céu, cheia como estômago de gordo depois de uma refeição. eram quase oito da noite e eles esperavam a chegada de mais amigos. era a segunda garrafa de cerveja da mesa, mas a conversa ainda ia na primeira mulher. muitas outras viriam, ainda.

“e aí?” perguntou o amigo que ouvia a história, espetando uma batata e uma tira de carne e colocando-as na boca.

“então, pouco depois de a gente se agarrar pesado no escuro – e sim, a bunda dela era ótima de pegar – eu perguntei o nome dela. a gente tava indo pegar mais bebida pra, acho, se agarra ainda mais. clarice, o nome. puta merda, clarice!”

“o que tem?”

“ela começou a falar sobre o maldito nome dela, cara. começou a falar como os pais dela adoravam a escritora e… nossa, deu uma dor no esquerdo de tanto ela falar, sabe? mas eu consegui ignorar boa parte do que ela falava, afinal, ela era tão bonitinha. aí ela continou falando e falando e falando e aí me disse alguma coisa que chamou atenção.”

“o que?”

“ela disse algo sobre o namorado dela achar que lispector é dona das melhores obras literárias do século.”

“puta merda! a mulher tinha namorado?”

“pois é! e ainda tinha um com mal gosto.”

“mulher é foda…”

“mulher é foda! e aí, sabe o que eu fiz? tomei minha cerveja, paguei a conta e fui embora. eu não fico com menina que tem namorado, cara. isso é simplesmente errado. ou ela namora ou ela não namora. pra que namorar alguém se você vai ficar com outras pessoas? o namoro não é uma coisa mais séria, mais comportada e com algumas regras e pressupostos básicos? pra que se submeter a essas coisas, como a monogamia, se você não tá com vontade disso?”

“exatamente! não entendo essa galera que diz que quer namorar e, na primeira chance que tem, aproveita pra trair. não é muito mais fácil e honesto simplesmente não começar?”

“acho que tudo isso é motivado por uma única coisa: o medo.”

“o medo.”

“além da falta de respeito pela outra pessoa. me chame de antiquado, mas eu não gosto desses namoros modernos que as pessoas têm hoje em dia, onde um namora dois que namora três.”

“é um samba do criolo doido, todo mundo é de todo mundo e todo mundo é de ninguém e só reclamam quando não conseguem pegar ninguém. como na música do mamonas, sabe? acredito que são pessoas que têm idéias mal definidas sobre o que é o ficar e o que é o estar junto, o namorar. gosto de pensar que elas só precisam de um tempo para esclarecer e espairecer.”

“é… espero que algum dia elas parem e pensem que talvez a melhor coisa para elas não é um relacionamento, ou até que descubram que é, mas que não é nem um pouco legal você usar e magoar pessoas para conseguir isso. e esse papo todo está me deixando com sede e vontade de mais cerveja.”

“e é por isso que estamos aqui!”

o amigo que contava a história levanta a mão e chama o garçom, que vem à mesa já com uma nova cerveja em mãos. um rosto familiar aparece na rua, caminhando lentamente, se aproximando da mesa. é um jovem de cabelos longos e sem barba, ele sorri e coloca a mão nos ombros de ambos. eles o cumprimentam enquanto o recém chegado senta á mesa.

“quais as novas, caras?”

“bem… acho que a mais recente é que eu tava numa festa e fiquei com uma doidinha com namorado.”

“mulher é foda…” diz o recém chegado.

“mulher é foda.” diz o dono da história.

“mulher é foda.” só nos resta um. “e como andam as coisas com você e a carol, carlos?”

o jovem dos cabelos longos se ajeitou na mesa, ergueu o dedo para que o garçom visse, gesticulou que queria um copo, filou um gole do copo do dono da história, que logo logo será batizado.

“estamos bem, cara. acho. eu nunca sei bem como estão as coisas com a gente. quando acho que estamos bem, ela arranja algo para me fazer sentir mal, quando estamos mal, transamos feito dois loucos, como se fosse a única coisa que nos une e aí nos sentimos bem e acho que está tudo bem quando, na verdade, as coisas ainda estão más na cabeça dela. mulher é foda.”

“mulher é foda…”

“mulher é foda…”

o graçom trouxe o copo para carlos, que se serviu e a seus amigos, tomou um gole longo.

“e você, marco, como foi essa história da mulher com namorado?”

“então, eu estava num show ruim de uma banda ruim que uns amigos da faculdade gostam, então encontrei essa garota. que basicamente disse que queria se agarrar. então fomos, né? clarice. falou sobre lispector e sobre o namorado.”

“porra! só falou merda, hein?”

a risada foi alta. as outras mesas do bar viraram suas cabeças na direção da mesa onde estavam os três. duas pessoas se aproximaram deles, rostos conhecidos. cumprimentaram todos e sentaram. fizeram o mesmo gesto de carlos, pedindo copos.

“como é que vocês estão, caras?” perguntou o ainda sem nome.

“estou bem, otto, e você?”

“é, otto, tudo tranquilo. mas e você, como é que tá? tua vó melhorou?”

“melhorou sim, neto. já saiu do hospital e tudo. valeu.”

“que nada, cara. gente fina ela. mande um beijo.”

“tá certo.”

“então, quais as novas?” perguntou o recém chegado ainda desconhecido. pegou seu copo e tentou se servir de cerveja, mas só conseguiu um dedo de copo. pediu mais duas garrafas para a mesa.

“porra, júnior, o marco tava contando aqui de uma doidinha que queria dar pra ele numa festa.” disse carlos entre risos.

“porra! e aí, cara, comeu?”

“não é bem assim, cara. a menina gostava de lispector.”

“mas que gosto seboso.”

“pois é… eu nem sabia, mas perguntei o nome, clarice, e ela começou a me falar disso. e o pior… ela tinha namorado.”

“porra! que safada! caralho, mulher é foda.”

“mulher é foda.”

“mulher é foda.”

“mulher é foda.”

“mulher é foda.”

“mulher é foda.”

“mulher é foda.”