Archive for maio, 2010

psycho circus.

maio 26, 2010

conheci adelaide como ninguém mais poderia conhecer outra pessoa. pelo menos era isso que eu pensava todos os dias da minha vida, quando acordava ao seu lado e a via completamente assanhada, sem seus cabelos bem penteados, sem o toque suave do hortelã artificial do creme dental, sem suas maquiagens para disfarçar suas “imperfeições”. eu nunca enxerguei muito essas coisas que ela teimava em disfarçar com seus pós coloridos, achava até que elas eram extremamente benéficas para nosso relacionamento, já que assim eu sabia que estava me envolvendo com uma pessoa real e não uma mulher feita de plástico como tantas outras que existem por aí e que espreitam nas sombras, prontas para se mostrarem como bonecas do rosto liso como bunda de nenê ou coisa parecida. adorava cada espinha de adelaide, suas olheiras, suas marcas de expressão, seus pêlos que escorriam pelo ralo de vez em quando e em certas ocasiões encravavam e inflamavam, suas unhas roídas por causa do nervosismo que nunca passava. eu adorava…não, eu ama adelaide. a mulher dos olhos verdes e das sardas no nariz pequeno, dos cabelos ondulados e dos braços roliços, das pernas pouco torneadas, mas que me fazia sempre querer estar entre elas. adelaide, a mágica, a palhaça, a inteligente, a vadia.

estivemos juntos por um tempo. tempo o suficiente para que eu acreditasse que estava feliz ali, ao lado dela. talvez eu até estivesse realmente me sentindo daquele jeito. estar com aquela mulher era sempre se extasiar com alguma de suas maravilhas. nas nossas conversas, não havia assunto que não pudessemos abordar. numa noite deitados na cama, fazendo sexo e vendo televisão, geralmente, iamos de sexo e nossas fantasias a invasões extra terrestres e pactos universais de preservação de civilizações ainda em desenvolvimento científico e tecnológico, passando por música e seus significados para cada um de nós, por livros e quadrinhos lidos e não lidos e a possibilidade de uma futura leitura,  sem falar das séries e programas de tv que assistiamos (ela costumava rir das coisas mais sem graça, enquanto eu costumava rir das coisas mais idiotas) e que estavam passando entre os intervalos da televisão ligada. nos sentíamos extremamente a vontade quando nossos corpos repousavam um ao lado do outro no colchão, e meu membro geralmente se intumescia facilmente quando a via ao meu lado, o corpo nu, seus ombros bronzeados, suas marcas de sol, seus sinais, suas manchas, seus pêlos pubianos bem aparados. a visão dela esparramada na cama, mudando de canal intensamente, numa busca desesperada por uma boa programação enquanto descansamos da atividade sexual recém terminada, me faz voltar para cima e para dentro dela, me aventurando em seus orifícios e sentindo seu calor por mais algum tempo. na verdade, acredito que tenhamos ficado juntos tempo o suficiente para saber que ela era o tipo de mulher que eu queria ter ao meu lado por muito tempo. talvez, até o fim da minha vida, ou da dela, o que viesse primeiro.

agiamos como muitos casais e, quem observasse, nos acharia um casal normal: jantares, cinemas, motéis, programas a dois em sua maioria (por mais que às vezes eu tentasse trazer alguma moça para fazermos algo a três). amigos eram restritos a certas ocasiões especiais como aniversários, despedidas, funerais e missas de sétimo dia e, ainda assim, com ela me acompanhando. quando eramos nós, eramos realmente nós. o eu inexistia, assim como o ela. não acreditava que isso me fizesse mal, achava até que ela seria capaz de me valer muito mais do que meus amigos. não se troca amigos por mulher.

um dia resolvemos fazer um passeio diferente, inusitado. não lembro bem quem propôs isso, acho que foi ela. há uns tempos ela havia dito que nosso relacionamento havia entrado no ciclo da mesmice e que precisavamos mudar algo nele, fazer coisas novas. eu, querendo ser um bom namorado, acreditei que aquela proposta não nos faria mal e, depois de uma discussão sobre os porquês de se fazer um menàge a trois com uma amiga e não com um amigo, aceitei que o melhor mesmo era algo mais leve. um circo chegara na cidade havia nove dias e resolvemos que esse seria nosso programa para o final de semana, um início leve para as mudanças.

eu nunca fui uma pessoa chegada a circos. nunca gostei dos animais treinados – na verdade, nunca gostei de animais que não estivessem devidamente assados (há dias para os bem passados e há dias para os mal passados) e bem servidos – andar em cordas finas suspensas a metros do chão com uma rede de proteção nunca me pareceu encantador, afinal só acho que é preciso andar em linha reta para se mostrar sóbrio e, mesmo sem álcool no meu sangue, essa é uma tarefa um tanto desnecessária, afinal, quem vai avaliar se estou realmente andando reto ou cambaleando um pouco? então vem aquela parte em que tiram a rede de proteção e o show começa a parece uma tentativa de suicídio que fascina a todos. os olhos vidrados e a tensão a cada passo dado pelo equilibrista. o pensamento constante de todos: ele vai cair, ele vai cair. a espera por aquela que vem para todos nós. então o cidadão consegue chegar do outro lado do fio e todos aplaudem sua busca pela morte. é a mesma coisa com os malabaristas. não gosto do globo da morte – e qual a fixação desses circenses pela morte? sei que todos pensamos nela, alguns a temem, mas… buscá-la tanto certamente não os faz pessoas saudáveis. eles são o tipo de gente que, de acordo com o que aprendi na faculdade, estão sofrendo com algum transtorno psiquiátrico e precisam de ajuda e tratamento, antes que esse grito por ajuda se cale com um som mudo de ossos se quebrando dentro da carne depois de uma queda. globo da morte. um barulho incrivelmente alto, ensurdecedor, o cheiro de combustível queimando e pessoas fazendo loopings em velocidades constantes que viram problemas de física para alunos do segundo grau. o melhor do circo são os ilusionistas e suas assistentes deliciosas e o segundo pior (porque nada supera os animais treinados e o tédio que eles me trazem) são os palhaços. aqueles seres grotescos com rosto pintado de branco e uma maquiagem ridícula ao redor da boca, dos olhos, do nariz, se fazendo passar por situações pseudo engraçadas, das quais as crianças riem pela inocência e os adultos por saberem que seus empregos são melhores que aquilo e que não precisam passar o ridículo de ter que trabalhar daquela maneira.

palhaços são grotescos e aquele que se apresentou naquela noite abafada dentro daquela tenda gigantesca era o mais sem graça de todos. entrou olhando para os lados, com um jeito que tentava imitar andy kaufman, mas sem metade da espontaneidade ou o talento dele, uma situação em que tentava ser engraçado pelo jeito enquanto era algo visivelmente artificial, mas que todos ao redor riam, inclusive adelaide. depois de sua entrada, tropeçando em suas próprias pernas e caindo, olhando ao redor, a procurar em que havia topado, levantou-se, limpou-se, e começou a soltar piadas idiotas sobre seus animais. as crianças riam suas risadas de criança, claras e belas, e os adultos riam também, com suas vozes graves e velhas e eu os observava todos e não entendia o motivo de suas gargalhadas. adelaide estava encantada, os olhos não se desviavam do picadeiro, onde uma luz acompanhava os passos do palhaço que corria de um lado para o outro, com uma mão levantando as calças e a outra segurando seu chapéu. seu rosto pintado de branco com detalhes pretos ao redor dos olhos e da boca, mais parecia um mímico que fugiu da escola de mímica porque, diferente de todos os outros, não conseguia manter-se calado. a apresentação acabou, foi o número final. todos estavam maravilhados com aquilo. adelaide pediu para visitar os bastidores, eu disse que podia ser, já havia aturado tudo aquilo até aquele momento, por que não um pouco mais? pelo menos agora não haveria aqueles animais e toda a artificialidade da apresentação. fomos para os bastidores.

conhecemos os domadores, os malabaristas, os equilibristas, os ilusionistas, demos parabéns a todos eles, conhecemos, então, o palhaço. seu nome era matias e, tirando a maquiagem, que servia para esconder um rosto de traços delicados, ainda jovens, era igualzinho ao que se apresentava no palco: piadas sem graça para agradar a quem quer que se aproximasse dele, sempre prestativo, uma pessoa na qual eu não confiaria. em seu visual destacavam-se os olhos, que se apresentavam um de cada cor, o esquerdo era azul e, o direito, castanho. parabenizei-o pelo espetáculo, como fiz com os outros e me despedi. adelaide então me segurou um pouco mais, estava fascinada pelo homem alto e magro que estava ali.

quando saímos de perto dele, alfinetei-a dizendo que ela havia dado mole para o palhaço e que estava me sentindo ameaçado. ela riu. eu ri. chegamos em casa, fizemos sexo, vimos tv, discutimos sobre a situação do circo no brasil e no mundo, sobre não mais utilizarem animais e sobre como na apresentação daquele dia havia sido a última ou algo do tipo, fizemos mais sexo, depois falamos sobre filmes que se passam em circos como dumbo e aquele dos trapalhões e robin hood. falamos sobre as adaptações de robin hood para o cinema e como a melhor delas talvez tenha sido a da raposa da disney. fizemos mais sexo e dormimos. quando acordei naquela manhã de domingo, adelaide não estava descabelada ao meu lado, com o rosto amassado por causa do travesseiro ou o gosto de sono na sua boca. chamei por ela e não houve resposta. chamei umas três vezes, gritei seu nome. a porta do quarto estava fechado para que o frio se mantivesse dentro. levantei-me e fui ao banheiro. de lá disse seu nome.

“adelaide?”

não houve resposta. fui na cozinha esperando encontrá-la, mas não estava lá. procurei em todos os cômodos do apartamento e ela não estava. peguei o telefone e liguei para ela. ao primeiro toque, ouvi seu celular tocando de dentro do quarto. saiu sem ele. foi então que notei um bilhete no chão, à beira da porta. peguei-o e comecei a ler o que estava escrito nele, à mão. a letra era dela, de adelaide. li atentamente, cada uma das palavras, uma, duas, três vezes. sentei-me e reli o bilhete por mais vezes do que possa me lembrar. eram poucas as palavras escritas, mas diziam tudo. “eu te amo, mas o matias me arrebatou.”

então você me pergunta o que eu estou fazendo aqui? por que é que estou preso com vocês aqui, hoje? por que escolhi matar todos os palhaços que encontrasse? bem… essa é a resposta.

Psycho Circus

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quem?

maio 12, 2010

havia uma mulher. sempre houve uma mulher. em toda história do mundo, há sempre um desses magníficos seres. de adão e eva a eu e ela, a vida do homem tem sempre o incrível peso da presença e leveza das mulheres. lembro bem dos olhos dessa mulher pousando sobre meu corpo, sempre me analisando como se eu fosse uma conta de matemática errada e ela quisesse encontrar onde estava o erro responsável pelo resultado final para poder corrigí-lo enquanto há tempo. não havia mais tempo, mas ela não sabia disso à época. seus olhos eram da cor do mar num dia de sol e me faziam sentir nu e desconcertado. eu me esforçava para não transparecer nada do que sentia naquele exato momento: a tensão, o medo de sua análise, o frio na barriga que me dava de saber que ela estava olhando para mim. momentos como esse parecem ter sua própria lógica no tempo, parecem pesar os segundos, fazendo-o com que se arraste ao invés de continuar caminhando como sempre faz.

então vi seus lábios se movendo, seus músculos da face se contraindo e formando um sorriso. seus dentes se expunham para mim. aquela boca, aquele sorriso, dentes, língua, eram meus e eu sabia disso. foi naquele momento, numa mesa de um restaurante, lendo um livro enquanto a esperava chegar para nosso encontro, que ela apareceu, sorriu e se entregou a mim e eu percebi que não haveria nenhuma outra mulher para mim, naquela hora. eu tinha vinte e poucos anos naqueles tempos, ela tinha seus dezessete, com um rosto de catorze e um corpo de vinte e cinco (o ápice corporal de uma mulher). era dona de uma bunda linda, dura e grande, que sempre fazia minha cueca ficar apertada.

foi numa noite de setembro, ela e eu no meu quarto, na velha casa, as roupas soltas pelo chão, nós no meio dos lençóis desarrumados da minha antiga cama de solteiro, que ela me disse para ter paciência, que ela não queria que doesse. eu, com a cabeça entre suas coxas, sentindo o gosto de sua labia minora em minha boca, lhe disse que faria o melhor para que se sentisse bem, para que houvesse conforto e que tentaria fazer de tudo para acontecer da forma menos traumática possível. ela não pareceu acreditar nas minhas palavras, mas me beijou a boca e recostou na cama. se entregou sorrindo, pedindo pra ir com calma. eu fui. bem devagar, fui a penetrando, como nenhum outro homem fez antes, seu calor a me envolver. houve certa resistência inicialmente, seu rosto com expressão de dor me fez sentir uma mescla de cuidado e pena e prazer. senti seu sangue escorrendo e manchando o lençol sob nossos corpos. os movimentos foram suaves, tentei fazer com que sentisse o mínimo de desconforto com a nova experiência e ela disse que adiantou, por menos que eu tenha acreditado. apesar de todas essas coisas, aquela foi uma noite, diferente das muitas primeiras vezes, ótima para ambos. noites depois já fodiamos como dois cães loucos no cio.

eu só queria que todos os dias de hoje fossem iguais àqueles que passei com ela. queria mais uma vez sentir seus movimentos de quadril e cintura sobre o meu corpo, suas mãos delicadas e pequenas e sua boca quente e macia envolvendo meu membro túrgido; sentir suas coxas e sua bunda com minhas mãos, morder suas nádegas, lubrificar bem seu ânus, passear por sua vulva com minha língua e sentir seu sabor ácido e finalmente sentir o calor daquele canal vaginal, enquanto minha glande bate inúmeras vezes naquele colo de útero. todas essas pequenas coisas me fizeram um mal que nenhuma outra mulher conseguirá fazer: me fizeram sonhar em ter um futuro ao lado de alguém, onde eu trabalharia de oito a doze horas por dia, faria plantões noturnos, lavando meu rosto para acordar entre uma emendada de noite com dia, ralaria até a exaustão só para poder dar tudo o que eu acreditava que ela merecesse.

foi isso o que fiz enquanto ela esteve comigo. enquanto estive com ela, a vida era uma grande festa. ela, com seus cabelos vermelhos, fazendo-me sorrir até nos momentos mais inapropriados, dizia ao meu ouvido, no meio de funerais, que queria sair dali para poder transar comigo entre as árvores mais distantes do cemitério, falava enquanto o padre proferia a omilia que ela, que me arrastou até ali, preferia ir ao confessionário comigo para realizarmos aquela cena de detroit rock city que acho tão fabulosa e que meio que virou uma fantasia sexual minha, sussurrava que precisava de mim dentro dela urgentemente enquanto jantavamos e morriamos de tédio na casa dos primos dela, numa comemoração de aniversário. enquanto fomos um casal, fomos o melhor casal que eu poderia ser com alguém. aquele tipo de dupla que você vê e sabe que há uma algo mágico em vê-los juntos e sabe que é errado haver uma separação entre os dois. enquanto estivemos juntos fomos algo que o mundo jamais verá novamente.

não importava se eu estivesse cansado, quando eu voltava para casa depois das doze ou mais horas de trabalho seguidos, ela subia em cima de mim (nesses tempos nós já morávamos juntos, eu trabalhando, ela estudando as coisas da faculdade dela) e caiamos no chão, nos arrastavamos para a cama e trepavamos feito dois macacos. com ela eu sentia que minha vida era como a lua de mel que passamos no havaí. rolando no chão, com a areia tocando nossas peles salgadas e seu sorriso sempre presente me fazendo me sentir bem por ser capaz de fazê-la feliz por alguns momentos. não importava se eu estava triste em casa, depois de perder um paciente ou de levar um esporro de um dos diretores do hospital, depois de uma maldita ameaça de processo por ter salvo a vida de uma pessoa, ela sempre conseguia chegar ao meu lado e me fazer sorrir. ela sempre arranjava um jeito de me fazer parar de dizer que não estava bem, com sua mão procurando sempre o zíper da minha calça e seus olhos sempre grudados nos meus.

foi depois do segundo filho, da nossa segunda criança. foi depois do nascimento de ivan, que ela deixou de estar no mundo dos vivos, o único mundo que existe para mim. foi uma gravidez complicada, o pré natal de risco extremo, sua pressão estava elevada demais, na hora ela entrou em eclâmpsia. não conseguiram salvá-la. sofia, nossa filha, tinha cinco anos quando ela morreu. nós, eu e ela, minha mulher, nos conhecíamos há dez. tão nova ela foi embora. ela que era minha, a melhor. que tinha a bunda mais linda que eu já vi na minha vida, com o melhor sabor e os melhores movimentos, o melhor calor. seu funeral foi o primeiro funeral triste que fui em toda a minha vida. tantas mãos nos meus ombros tantos olhares de sinto muito e tantos pêsames, mas tudo o que eu queria era sua mão no meu ombro, seu hálito quente chegando em minha face e seu sussurro me chamando para transar debaixo de uma mangueira no final do cemitério.

a muitas pessoas resolveram ser professores, resolveram me ensinar o bê a bá, queriam que eu aprendesse letra por letra de cada uma das coisas que achavam que era importante em si, mas para ser ditado, não adianta ir à escola. as palavras estão em qualquer livro, basta a nós nos interessar e aprendê-las. a vida resolveu me dar uma lição tirando a única coisa que me fez pensar, ao longo de quase quarenta anos, que a vida valia a pena. hoje, com mais de sessenta anos, com filhos criados e netos por nascer, eu aprendi muito mais com as coisas que a vida me fez do que com as que as pessoas ao redor tanto tentaram me mandar. desde que minha mulher foi embora, desde que a vida levou minha melhor amiga para longe de mim, eu tenho feito perguntas a todos. e ninguém soube realmente responder a uma dessas, não sem parecerem um bando de falsos autosuficientes, um bando de imbecis que não entendem que não adianta, que quem segurar, cairá junto.

então, quem me segura, se eu cair?