Archive for abril, 2010

MEU lixo.

abril 24, 2010

carlos escreve todos os dias. ensinaram-lhe que para escrever bem, deve-se escrever todos os dias em uma boa quantidade. carlos, todas as noites, escreve em seu blog cerca de quinhentas palavras sobre temas diversos. de futebols e carros a textos ficcionais tratando sobre a vida, o universo e tudo mais. carlos se comunica com outras pessoas ao redor do mundo que têm gostos semelhantes aos dele e fazem as mesmas coisas, tratam dos mesmos assuntos e escrevem todos os dias em quantidades admiráveis. carlos acha que um dia alguém deveria chamá-lo para publicar um livro com suas idéias, acredita ser capaz de expô-las bem em um ou mais volumes. carlos se ilude achando que suas palavras são bonitas. ele é mais um no meio de tantos que produz a cultura do mundo através de palavras mal escritas que dizem muito pouco, e tentam ser mais do que verdadeiramente são.

fernanda acha que ver o mundo através das lentes de sua câmera de dez mil reais é ver o mundo através da arte. fernanda leu o manual de duzentas e quinze páginas que explicava detalhadamente cada uma das funções de sua máquina fotográfica. ela já fez cursos sobre fotografia, mas nunca aprendeu os efeitos de luz e sombra. fernanda nunca revelou um filme de máquina, nunca entrou numa sala escura. ela sabe usar o photoshop e usa e abusa desses recursos quando bem entende. fernanda tira fotos de seus amigos, do céu, do mar, de folhas e de pedras. fernanda deita no chão para fotografar estátuas de baixo para cima e os resultados esdrúxulos de suas incursões fotográficas são vistas na sua página/portfólio on line. fernanda não tem qualidade, não tem o olho e todas as suas fotos parecem boas porque a câmera é boa e só. fernanda é uma das milhares de pessoas que acreditam que suas fotos caseiras podem e deveriam ser expostas para o mundo em galerias e não em álbuns pessoais.

marcelo e madalena são irmãos. marcelo aprendeu a tocar violão há dois meses, aos dezessete anos; madalena sempre gostou de cantar no chuveiro e hoje, aos vinte, acredita que está pronta para mostrar ao mundo seu suposto talento musical em vídeos caseiros gravados no quarto do computador. nos vídeos onde ela dança porcamente na frente de uma câmera parada, enquanto seu irmão toca um ré mi fá com uma batida estranha e sem compasso, ela consegue cantar fora do tom, fora do tempo e fora de qualquer ritmo que ela esteja propondo cantar. tudo isso enquanto se ouve a respiração ofegante devido ao esforço da dança. no fundo do vídeo, seu irmão sofre para fazer a pestana do fá e demora demais para passar de um acorde para o outro. eles acreditam piamente que o som que fazem, uma mistura de axé com forró com letra de funk carioca, será o próximo sucesso da música popular brasileira. o medo é que eles acertem essa previsão.

sabrina ouve bob dylan, johnny cash, neil diamond, crosby, still, nash com e sem young, o mesmo young em outros momentos; lê os escritores da geração beat: neal cassidy, kerouak, burroughs; lê bukowski, fante, henry miller, anaïs nin; lia clarice e lygia, caio fernando abreu. tinha contas nos álbuns on line, onde postava as fotos em preto e branco dos seus tênis quadriculados guardados no seu armário; ela também tem um blog onde expõe pensamentos dpressivos e sensações de solidão para que todos comentem sobre sua infelicidade. ocasionalmente, sabrina coloca trechos de caio fernando abreu e clarice lispector, entre aspas, em seus textos e faz disso uma postagem. acredita que por causa das supostas boas influencias culturais e do dito bom gosto, é capaz de produzir tão bem quanto suas “influências”. sabrina se engana e consigo leva várias amigas com gostos semelhantes. juntas organizam saraus onde recitam seus poemas mal escritos, fazem shows onde tocam mal seus instrumentos e cantam suas letras de músicas que deveriam seguir uma linha entre o folk americano e o rock n roll, mas que terminam caindo no lugar comum de todas as músicas from uk.

os relatos supracitados são histórias de ficção, personagens que não existem como os descrevi, ou melhor, que estão vivos entre nós e você pode encontrá-los facilmente, mas são ficção pelo fato de eu não conhecê-los bem o suficiente para descrevê-los como fiz, usando, assim, recursos da minha imaginação para criá-los e apresentá-los. entre todos os casos – carlos, fernanda, marcelo e madalena, sabrina – há uma linha comum que os amarra num só grupo de novos fazedores da atual cultura: a internet.

com o acesso à internet, todos os dias centenas de milhares de usuários dos blogs, flickr, youtube e redes sociais em geral, divulgam, através dessas ferramentas, o que seria sua produção cultural. através de fotos tiradas por suas câmeras caras semiprofissionais, suas músicas de batidas repetitivas, letras vazias e ritmos completamente descompassados, seus textos inundados de palavras rebuscadas e difíceis, que dizem absolutamente nada relevante sobre a vida, em todos os possíveis aspectos que seja possível em muitas palavras não falar sobre coisa alguma, conseguem mostrar ao mundo sua irrelevância e inundar o planeta com suas inutilidades. e todas essas imagens tiradas na função preto e branco da máquina digital, todas as poses pseudoespontâneas, todos os poeres e nasceres do sol, cada um dos textos que tentam ser intimistas falando sobre os sentimentos de angústia e a sensação de solidão no meio da multidão entram como cultura mesmo quando, na verdade, não são muita coisa. para ser cultura não precisa de muita coisa, na verdade, nada é necessário para se produzir cultura, apenas a vontade de criar qualquer coisa. a cultura, atualmente, tem muito pouco significado. a massificação, a deselitização, a globalização proporcionaram uma cultura global onde há a perda da identidade cultural e da cultura polarizada. a mesma coisa que deu a todos as oportunidades de expor suas visões, deu ao povo a capacidade de fazer qualquer coisa e a liberdade de chamá-la de cultura. e não é que elas sejam menos cultura, mas me irrito porque o filtro entre a cultura boa e a ruim é algo extremamente íntimo e pessoal e a massa, através de sua filtração, escolhe o lixo para ser exposto como a cultura domintante.

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Artemis.

abril 22, 2010

quando a conheci, ela era uma mulher rasa como um pires, de predileções fúteis e um gosto indubitavelmente ruim. agradava-lhe tudo o que me desagradava, ou quase tudo, das cores aos sons. enquanto eu gostava das cores neutras, do preto e branco, ela gostava das cores chamativas, aquelas que logo são captadas quando nossos olhos repousam no objeto: o vermelho, o amarelo, o rosa. enquanto eu passava o dia escutando aos clássicos rock do século XX, ela escutava tudo o que estivesse tocando nas rádios populares, escutava a música que me dava arrapios de terror. mas o que mais me doía era saber que com ela eu jamais poderia discutir minha grande paixão: os livros. ela simplesmente tinha desprezo por eles. não consigo entender como consegui me apaixonar por aquela mulher.

seu sorriso era claro e caloroso, como a luz do sol. seus dentes incrivelmente proporcionais, nem grandes demais e nem pequenos demais, faziam com que fosse um dos mais lindos que já vi. eu me sentia incrivelmente bem quando a via sorrindo, o que me fazia ter vontade de sempre fazê-la rir. isso era um problema sério, porque tenho quase certeza que ela me achava completamente sem graça e, das minhas ironias, meu recurso linguístico favorito, ela entendia poucas, além de não apreciar o sarcasmo nas minhas palavras e o humor negro que cercava boa parte das minhas piadas favoritas. ela era uma garota ingênua e nem um pouco inocente. ela era, no bom generalês, uma moça completamente comum e sem atrativos que não fossem seu rosto lindo e aquele corpo maravilhoso, que será detalhado mais adiante. seus lábios eram grossos, e rosados, úmidos e me deixavam com uma vontade absurda de não fazer mais nada no mundo além de provar daquela suculenta boca.

seus olhos eram da cor de mel escorrendo, algo nem muito claro nem muito escuro, reluzente sob o efeito da luz branca que incide no líquido espesso. emoldurados por cílios longos e sempre bem feitas sobrancelhas, seu olhar seduzia por parecer ser mais do que verdadeiramente é, por parecer analisar a alma do ser observado. quando encontrei aqueles lindos globos me observando pela primeira vez, me questionei o motivo, a razão daquela linda mulher me observar. me questionei sobre como ela parecia me entender como nunca fui entendido, senti que ela poderia muito bem me acalentar em seus braços, me aquecer entre as pernas, me dar o colo quando eu precisasse e tudo estaria bem desde que eu a tivesse comigo. depois descobri que tudo o que lhe passou pela cabeça foi: “como esse cara é estranho e como usa umas camisas com estampas estranhas.”

seu rosto era completamente harmônico, e seus cabelos longos e negros  de fios finos e delicados, caíam-lhe pelas costas até chegarem à sua cintura fina. seus traços eram completamente femininos, finos e delicados, mas fortes e firmes.

seus quadris eram largos e ela era dona de duas belas pernas, bem torneadas a muitos exercícios nas academias que eu abomino. ela estudava educação física, seja lá como se estude a educação física, os resultados dos exercícios físicos eram explicitados naquele corpo de músculos rígidos, onde a gordura só estava onde realmente deveria estar: mamas e quadris, mas sem se excederem de forma alguma. era uma mulher digna de capa de revistas. e eu não faço a menor idéia de como começamos a nos relacionar.

sei que um belo dia, numa festa na qual eu não queria estar, ouvindo as músicas que o que eu não gostava de ouvir, dançando o que não queria dançar (na verdade, só o fato de eu estar me movendo numa pista de dança quer dizer que eu já não suportava o lugar) e bebendo mais do que deveria beber (para que tudo fique suportável) , me vi com o nariz enfiado no cangote dessa mulher. seu cheiro era de suor e exalava um perfume bom como poucos suores conseguem fazer. das caixas de som saiam barulhos eletrônicos, muitas batidas compassadas por minuto, mais do que seria humanamente possível, mais do que o saudável, ao redor de mim e dela as pessoas pulam e se debatem, os braços se agitam, enquanto eu estou com minha cabeça apoiada num dos ombros dela, com meus braços ao redor do pescoço dela, enquanto ela me abraça e descança a cabeça em mim. não falamos nada, não fazemos nada, a não ser dar um passo para um lado e para o outro até que, ao fim do que as pessoas ao redor chamam de música, nós nos olhamos e nossos lábios resolvem se encontrar.

naquela noite nos beijamos por muito tempo, nos encostamos numa parede escura do bar e ficamos lá até que um amigo meu me encontrou e me levou embora sob a ameaça de não ter mais carona para casa. achei justo e fui embora. não troquei números, nem e-mails e não sabiamos de quem eramos amigos nas redes sociais da vida. coisas da vida.

depois de uma semana, nos encontramos novamente. ela lembrava de mim como se não tivesse sofrido de blackout alcoólico na manhã seguinte, enquanto eu tentava me lembrar dela além da parede no escuro e da língua quente passeando na minha boca. eu estava no aniversário de um colega de trabalho e ela veio falar comigo, dizendo meu nome e tudo mais. eu sorri para ela e conversei com ela esperando que saber seu nome não fosse necessário. por sorte, uma amiga dela a chamou e ouvi seu nome, levemente familiar.

conversamos por um tempo, eu não tinha uma gota de álcool no meu sangue naquela noite, meu nível de tolerância para pessoas superficiais e rasas estava no nível mais baixo e manter uma conversa com ela era um tanto supliciante, mas era um sacrifício que chegava a valer a pena simplesmente pela presença e o cheiro daquela obra prima da natureza, que se erguia em seus dois pilares maravilhosos bem na minha frente. ela parecia feliz por me ver e eu tentava forçar meu sorriso falso mais sincero possível, aqueles que me doem os músculos da face ao tentar fazer com que parecessem reais sem expor meus dentes inferiores. acho que consegui isso quando ela não resistiu minha tentativa de beijá-la e nossas bocas se encontraram e nossas línguas se tocaram mais uma vez. dessa vez, no entanto, trocamos telefones, emails, perfis de redes sociais. na verdade, naquela festa marcamos de almoçar no outro dia juntos e ver um filme no cinema, qualquer filme, qualquer hora, o sentido daquilo estava explícito e a proposição foi minha: sou um cara clássico que apela para os velhos clichês do almoço/cinema, um programa de respeito que muitas moças de hoje em dia não fazem a menor idéia que existe.

na tarde seguinte eu quase não acordei para o almoço marcado. cheguei no local combinado a pé, suado, e atrasado. estava usando uma das minhas camisas favoritas, preta com uma estampa que faz referência a um filme inglês de comédia dos anos 70, um jeans um tanto surrado e meu único tênis confortável. ela vestia um vestido roxo com detalhes verdes, algumas jóias no pescoço e orelhas e um anel no polegar. lembrei que meus amigos dizem que mulheres com anel no polegar curte anal e esperei que fosse verdade, porque era ela quem estava sentada numa cadeira, esperando que eu chegasse para almoçar com ela e entrarmos numa sala escura, onde sentaríamos num canto e colocaríamos as mãos sobre as genitálias um do outro. sentei na cadeira em frente à dela, perguntei o que ela queria comer e ela disse uma daquelas comidas saudáveis que eu jamais teria coragem e ousadia de colocar na minha boca com medo de estragar minhas papilas gustativas. eu pedi a coisa menos saudável e mais apetitosa do cardápio. conversamos coisas bestas como o dia de ontem, o retorno da festa, o sono, o tempo, ela me falou um pouco sobre o curso que fazia, eu falei um pouco do meu trabalho, dos tempos da faculdade, então a comida chegou e falamos sobre nossos hábitos e ela não pareceu achar graça nenhuma no fato de eu desprezar todas as tentativas de dietas saudáveis que existem e discordou completamente quando eu disse que simplesmente não valia a pena viver até os 120 anos se para isso eu não poderia comer o que é gostoso e viver uma vida de sedentário fazendo apenas o que gosto. ela pareceu bastante chocada com isso. então eu ri desse abismo que se abriu entre nós e ela achou que eu estava rindo do que eu estava dizendo e voltou a falar as mesmas coisas que me entravam num ouvido e saiam pelo outro. então levantamos e fomos, no carro dela, para o cinema.

escolhemos qualquer filme, o primeiro que começasse, e terminou sendo uma comédia romântica mela cueca onde tudo dá certo no final. as grandes inverdades da vida estão nessas películas. não que tenhamos prestado atenção à tela. nossas mãos passearam sobre nossos corpos e parte íntimas e meus dedos chegaram a tocar a carne entre suas coxas, sentindo seu calor e umidade.

eu não voltei para casa naquele dia. depois do cinema, ela me chamou para um encontro das amigas dela, onde eu seria um completo estranho e acabaria por conhecer quatro das pessoas mais vazias que já conheci na minha vida. as amigas dela eram lindas, verdadeiras belezas, semelhantes a ela, embrulhos semelhantes, recheios idem. aquele jantar foi o maior exercício mental ao qual precisei me submeter. foram três horas de sorrisos falsos, acenos com a cabeça, brincadeiras fúteis, tentativas falhas de puxar algum assunto interessante e me ver sufocado por conversas sobre festas ruins, shows ruins, amigas falsas, amigos falsos, academia, paqueras com homens bombados que fingem que são heteros quando na verdade gostam mesmo é de suar com outros homens.

foi suar com ela o que fiz depois daquela tortura. e foi ótimo. sua boca no meu corpo, minha língua sentindo o sabor salgado de sua pele, do corpo todo, todas essas coisas que acontecem no caminho do encontro dos nossos órgãos sexuais, o caminho sensual das preliminares. a visão do seu corpo nu era gloriosa, seus pêlos crespos bem aparados, sua bunda firme me chamando, seu calor…

dessa noite em diante, passamos a nos comunicar muito mais. não sei precisar quando me vi preso a ela. e quando digo preso não é como numa prisão, mas apenas sentindo a necessidade diária dela, sentindo-me apaixonado. não sei pelo que me apaixonei, achei que seria impossível isso acontecer, não acreditava que aquela mulher que não lia porque ia malhar, que ouvia não as músicas boas, mas as músicas para dançar, que gostava de comidas saudáveis e de cuidar do corpo mais do que cuidar da mente fosse me fazer pensar nela todos os dia. mas aconteceu, fui pego.

ficamos juntos por sete meses. o fim chegou quando me dei conta que eu não sabia o motivo de estar apaixonado por ela e a paixão simplesmente foi embora. o encanto acabou bem como ele começou. percebi que em momento nenhum daquele relacionamento eu me diverti verdadeiramente quando estávamos fora do quarto. ela seria uma ótima amante, uma ótima transa eventual, mas ela havia se tornado minha namorada, minha paixão.

eu disse que quando a conheci ela era rasa como um pires. queria poder dizer que quando a deixei ela havia melhorado, havia se interessado por coisas boas, mas estaria mentindo. a única diferença é que agora ela engole ao invés de cuspir.

sul.

abril 8, 2010

“me decidi. eu vou pro sul. depois de muito pensar em tudo o que cerca essa quase mitologia que é essa coisa que chamamos de nós dois, acho que o melhor a ser feito é me dar um tempo para pensar em tudo o que se poderia pensar, ou quase isso. então, eu decidi num arroubo de pensamento: vou pro sul. pra qual lugar? eu ainda não sei exatamente. talvez eu vá ao gunga, começarei tudo por lá – afinal, tudo precisa de um início e esse é um maravilhoso. aproveitarei o sol e o mar e continuarei meu caminho até nossa primeira capital, marechal, onde vou comer uma dessas comidas que adoro, mas que nunca comi em tua companhia por causa dos teus eosinófilos, tua cara inchada, tua quase falta de ar. vou continuar lá por um tempo, ver o francês e sua piscina natural calminha e limpa e, seguindo a natureza linda, irei pra a barra de são miguel, onde nenhum santo me protegerá dos pecados e me entregarei a todas as delícias que vierem para mim. de lá, depois de tantos dias de praia, me lavando com a água salgada de iemanjá, não sei pra onde vou. pode ser que eu vá a penedo, ver o rio, ver a história, os pescadores do velho chico, então eles me levarão até piaçabuçú, que eu nunca tive a oportunidade de conhecer, mas sei que você, mesmo sem nunca ter pisado nessa cidade, tem conhecidos cuja família é de lá, não é? não é você? alguém que conheço tem conhecido com parentesco nesse lugar. enfim… me diz: de penedo tem como ir pra lá, pra piaçabuçú? ótimo, ótimo. de piaçabuçú – que nome legal de dizer, não é? adoro os nomes das cidades – eu vou pra sergipe, onde verei todas aquelas mulheres e me sentirei linda por algum tempo, até pensar em você – porque não tenho planos de pensar em você enquanto estiver pegando um sol ou observando a vida acontecer das formas que não conheço através dos pescadores e as mulheres rendeiras das beiras de rios e as broeiras das beiras de estrada e todas essas profissões que exercem mais esforço do que eu já precisei fazer durante toda a minha vida (e que você também, não me negue isso, porque te conheço o suficiente para saber que, de nós dois, eu sou quem mais teve que se esforçar para conseguir as coisas que tem).

eu vou pro sul, sabe? pretendo passar pouco tempo em sergipe, apenas o suficiente para me sentir bem, dois ou três dias, e de lá partirei para salvador. vou curtir o carnaval de lá, mesmo sem gostar do carnaval, sem gostar da música, do clima, do aperto. mas sinto que terminarei por gostar de tudo isso enquanto estiver por lá. a pele na pele, o suor, as risadas, o sexo. sim, vou pra lá e vou trepar, mas não vou fazer só isso. sexo eu fazia tanto com você, não era? e sim, era bom, às vezes ótimo, realmente fantástico. porra, era excelente e só você me fazia gozar mesmo! mas agora eu vou provar novas coisas e sair de perto de você e acho que tendo essa oportunidade de procurar novas coisas pra me preencher, não devo perdê-las. ainda mais quando o risco de ganhar prazer de uma forma que ainda não tive é tão grande.

eu tenho que experimentar, meu bem, mas é porque eu vou pro sul, entendeu? acho que não, que você não faz a menor idéia, mas é bonito você mentindo e dizendo que sabe. quando você mente , você fica de outra cor, sabia? seu rosto se cora, dá pra ver que o sangue sobe. é bonito, é engraçado, é charmoso. enquanto eu estiver na estrada, indo pro sul, eu vou prestar bastante atenção nas novas paisagens que se abrirão para mim nos horizontes e aos meus pés, às milhares de novidades que entrarão em meus olhos através da pupila, atravessando os humores vítreo e aquoso, a retina o nervo óptico… as imagens me parecerão tolas, uma planta que não tem aqui, uma ponte nova sobre um rio desconhecido, mas essas coisas todas marcarão a minha vida como nunca pensei que fossem capaz de fazê-lo. algumas horas, no entanto, eu sentirei falta de tudo o que já me é conhecido e familiar, terei medo do novo, vou ligar pra alguém daqui, perguntar como as coisas estão e me segurar para não perguntar sobre você. então desligarei o telefone, olharei para o céu e me sentirei em casa – porque ele é azul e à noite as estrelas brilham – a parte boa de se sentir assim, pelo menos.

depois do carnaval, continuarei indo pro sul e passarei algum domingo em ilhéus. da bahia, rumo ao sudoeste, que ainda é sul e me deixo visitar as ladeiras de minas gerais, onde descansarei de tanto mar. aproveitarei para conhecer as cachoeiras tão famosas que vi nas novelas e programas de televisão. então conhecerei aquele monte de lugares históricos e grandiosos. verei os traços do passado, esse que você acha tão chato e sem empolgação porque diz que sem guerras não se faz uma nação e que nossas batalhas, na realidade, não valeram nada. você é cheio dessas coisas bestas de revoltado, essas manias de contestar até mesmo as coisas mais naturais cuja explicação todos conhecem.

eu, enquanto estiver na estrada indo pro sul, lerei todos os livros que você nunca quis ler, ou até quis, mas nunca teve o tempo ou a coragem necessários para começar a leitura deles. vou viajar fisicamente através do espaço e do tempo e dos fatos. quero estar em balzac, em tolstói, em mann, vou me encontrar em victor hugo, em dickens, em proust, vou ler as poesias que você nunca quis ler, meireles, hust, lêdo ivo, jorge de lima, homero. eu quero estar em cada uma das milhares de páginas de prosa e verso que você nunca sujou com tuas mãos. quero ter essa limpeza do teu toque, me livrar dele completamente, ir pro sul.

vou ver o rio de janeiro em maio. ouvi dizer que é mais bonito que pacotes prateados de cigarro amassados e jogados em becos com poças d’água límpidas como fontes de rios. vou ver refinarias da petrobrás de noite e filhotes de zebra no zoológico. verei também as praias das novelas, viverei um pouquinho da mentira, porque vou pro sul e devo aproveitar, não é mesmo?

verei as coisas que você nunca se interessou em ver: os nomes das ruas, das pessoas, a vida acontecendo de verdade. quero ver essas coisas, você entende? quero a naturalidade de um dia a dia, um cotidiano, uma rotina, essas coisas que você sempre menosprezou e disse que não precisava ver para entender, que não queria ter uma coisa dessas porque isso só faria você se tornar mais um no meio de tantos, dizendo que tudo é a massa e que se movem e agem de forma semelhante e previsível, como bandos de animais, esquecendo que é isso que nós todos somos: um bando de animais. e que você, sem perceber que ao falar todas essas coisas é só mais um no meio de tantos seres odiáveis, se encaixa perfeitamente no meio de todos. uma vez eu li num lugar algo que me fez pensar em você: ‘é triste quando a gente percebe que não somos especiais, que somos apenas mais um no meio de tantos.’ mas acho que ser mais um não me faz alguém menor, diferente do que você pensa. acredito que aceitar nossa condição é um avanço fabuloso e que você deveria tentar dar esse passo.

eu olho pra você agora, enquanto te digo que vou pro sul, e penso que ir pra lá e algo bom pra você. lembra de quando você foi embora pro leste além mar? você disse: ‘essa é uma oportunidade pra a vida, meu bem.’ você me chamou de ‘meu bem’, entrou no avião e foi embora. fiquei sem te ver por anos. o quê? foram 14 meses? para mim pareceram 14 anos. engraçado como einstein estava certo com algo tão complicado. o que quero dizer é que agora é minha vez de sair. só que eu vou pro sul e quero que você aceite como eu fiz quando você alisou meu cabelo com tua mão, olhou bem fundo nos meus olhos, me abraçou apertado, beijou meus lábios e foi pro leste viver a vida que se abria para você por lá. mas agora, quem vai abrir a vida sou eu, quando for pro sul, porque eu vou. já te disse!

vou ver a maior cidade da américa do sul, me disseram que eu preciso e acredito que seja bem verdade. vou andar nas ruas que só existem na minha mente e me perder nelas. paulista, augusta, vou ter a liberdade, o brasil inteiro será meu quando estiver lá. então, alguma hora eu vou cansar de ter tudo nas minhas mãos, o país, o mundo, o universo, porque, ao ter todas essas coisas, consequentemente, terei você novamente – já tive? – e me enojarei de mim e fugirei pro sul. vou para os interiores do paraná ver as fazendas de café e tomar de todas e cada uma delas um pouco dessa bebida maravilhosa. vou pra curitiba, ver as coisas como deveriam ser, a cidade modelo, vou ver as águas de iguaçú descendo sem parar, derramando seus litros e litros. infelizmente é bem menos que gostaria de fazer você derramar ao sentir minha falta enquanto eu estiver no sul. então vou pro paraguai, comprar as coisas falsas mais verdadeiras que as palavras que saem da tua boca suja. quero encher minha cara com whisky vagabundo em caixas falsificadas de boas marcas, enxarcar-me dos perfumes falsos, doces e fortes, para que todos ao meu redor sintam meu cheiro e meu suor. quero pendurar no pescoço e nas orelhas as jóias falsas e bonitas como as tuas juras de amor ao pé do ouvido. quero, então, voltar e ir pro sul, floripa e suas praias, onde sentirei inveja daqueles corpos maravilhosos, daquelas peles douradas, e então sentirei falta de quando eu era a mulher mais linda no estado de sergipe. de lá, das praias das meninas de santa catarina, partirei pro rio grande, o de lá de baixo, e verei o porto alegre, poá, e as mulheres lindas continuarão a desfilar em todos os lugares em que eu pise, visitarei os interiores de onde saem as modelos a serem descobertas.

então eu vou pro sul, meu bem, ver o uruguai e o que quer que haja lá para ser visto. você sabe o que tem? é claro que sabe, você sempre diz que sabe as coisas. quero ir dançar tango na argentina. e vou. verei a casa rosada e beberei todo o vinho que me for permitido, muito vinho, tanto que conhecerei a verdade. in vino veritas, meu bem. então participarei das festas organizadas em homenagem ao deus do vinho, serão maravilhosos os bacanais, dormirei com argentinos de cabelos longos e negros e com argentinas brancas dos olhos claros e cabelos também escuros. vou dormir com todos e pensar em como é bom tudo aquilo, como é bom estar ali, com todos eles dentro de mim e como eu gostaria que você sentisse ciumes de todos e cada um deles. queria que você quisesse machucá-los só por isso, por eles estarem onde você esteve tantas vezes, mas acho que jamais seria assim. você não tem os sentimentos desenvolvidos o suficiente para saber exatamente sobre o que estou falando. apenas entenda que eu vou pro sul dançar tango argentino usando um vestido longo preto como a noite e uma rosa vermelha como sangue entre os lábios.

então eu irei pra patagônia, vou pra a terra do fogo, verei os pinguins e imaginarei o sabor de suas carnes. então eu vou pro sul, pra te esquecer na branquidão do gelo, pra me esquecer na solidão. vou pro sul até não dar mais e então irei pro sul de lugar nenhum, aquele que o velho buk falou, sabe? eu vou pro sul, meu bem, e um dia talvez volte. um dia eu volto, quem sabe… a verdade é só que agora eu preciso ir pro sul, ele me espera. você não precisa me esperar voltar, não precisa me ligar ou tentar me escrever, não precisa nem fingir que pensou em fazer qualquer uma dessas coisas que acabei de falar. livrar-me-ei das coisas que me prendem, das amarras, dessa algema que você colocou em mim e nunca abriu com a chave. dessa vez terei que impor minha força para me libertar. entenderei o que é ser livre.

você pode ir pra onde quiser e bem entender, jamais te impedirei. adeus, meu bem, eu vou pro sul.”

um passeio.

abril 6, 2010

quando cheguei aqui ela estava lá, não mais comigo, e é assim que a vida nos faz permanecer por tempos mais longos do que gostariamos de passar. quando cheguei aqui, na verdade, ela não existia. nada existia, essa coisa que hoje a gente chama de nós. então, quando passamos a existir, estar aqui se tornou uma tortura maior que era antes mesmo de tudo ser o que é e cada segundo é um segundo de saudade, como em canções de amor bregas e textos clichês sobre o que é estar como eu e ela estamos. vocês entendem o que quero dizer? acho que sim, mas é bom sempre esclarecer. vocês não acham que é uma coisa boa deixar tudo claro?

enfim, hoje eu venho aqui para tentar um texto porque faz muito, mas muito tempo que não escrevo – na verdade, há um texto escrito nesse mês de março, mas ele está no caderno e tive problemas com a digitação dele, já que o pc não colaborou nesses dias e o tempo – sempre o tempo – não deu pra render tanto quanto eu gostaria que rendesse nesses dias de ovos de chocolate. a verdade é que perdi a mão para textos e já no começo desse segundo parágrafo eu não tinha mais nada sobre o que falar, por isso mudei completamente de assunto. e provavelmente é isso que farei no próximo parágrafo, assim que ele vier.

eu deveria estudar. sério. eu deveria ler agora, mais uma vez, o capítulo de constipação intestinal ou até mesmo dormir para acordar amanhã cedinho e então ler tudo o que devo ler, mas creio que não será isso que farei, de verdade. é provável que nesse exato momento eu procure vídeos do pânico na tv, enquanto na televisão está passando o cqc. e as palavras me fogem muito e cada vez mais.

ontem eu tive uma idéia de texto, mas as palavras estão fora de mim. preciso treinar um pouco mais, preciso ler um pouco mais, preciso me entusiasmar, voltar a ler os quadrinhos que eu adoro e faz tempo que não leio. há tempos não leio alan moore (e vou voltar a ler tom strong e começar, finalmente e dessa vez vai, a elogiadíssima promethea), grant morrison (e continuar a loucura psicodélica d’os invisíveis), brian michael bendis (com seu homem aranha que torcemos que seja a base para o próximo filme do aranha), warren ellis (ensinando aos jornalistas tudo o que eles realmente precisam saber – e que não aprendem na faculdade – com o insano spider jerusalem – além de terminar crécy, que é muito, mas muito legal) e me decidi que sim, voltarei a ler estranhos no paraíso do terry moore (e não, ele não é parente do alan, até onde sei).

domingo, depois de muito tempo lendo os irmãos karamázov, eu terminei um dos melhores livros que li. fabuloso do tipo que me faz sentir mal por não escrever bem. quase como ler philip roth (nada me faz me sentir tão bem e ao mesmo tempo tão mal quanto ler philip roth, o homem é um mestre e não tem como negar isso. ele começou bem, seguiu bem e até agora, aos 77 (?) anos, continua fabulosamente bem. estou esperando que dois volumes da library of america dele cheguem para poder lê-lo no original, coisa que só fiz uma vez, com indignation, um romance fabuloso que já tem tradução (cara) da Cia das Letras. estou ansioso para poder lê-lo mais uma vez. hoje comecei a leitura de um livro que comprei em janeiro, quando não devia comprar nenhum livro, mas não resisti e acabei adquirindo três volumes (dois do chuck palahniuck, um dos quais já li, e o lobo da estepe, de herman hesse, que é o que comecei hoje de manhã, logo depois de terminar de estudar os transtornos de personalidade e pouco antes de dormir no ônibus que me trouxe para longe dela, o lugar onde eu menos queria estar.)

peter parker a magoou. ele está dizendo isso para a tia may na televisão. ela, nesse caso, é mary jane watson, ex futura parker, mas a verdade, e não dá pra negar uma coisa dessas, é que esse filme magoou a todos aqueles que já seguraram uma das revistas do homem aranha em suas mãos e leu pelo menos uma história. sério. eu senti vergonha quando vi essa película no cinema, vergonha como não sentia desde x-men 3 – e, porra, aquilo foi muito vergonhoso.

e vamos criar uma continuidade entre dois parágrafos falando sobre o que é vergonhoso. e o assunto agora é frank miller. é sério… o que diabos aconteceu com ele? digo… desde o cavaleiro das trevas dois, aquela coisa triste e deprimente, ele só tem feito lixo atrás de lixo – e dessa vez vou até procurar citar alguns lixos dele além da direção de spirit e o roteiro de all star batman e robin – o garoto prodígio, que eu devo lamentar ter comprado a edição número 4 da edição da panini. reza a lenda, amigo leitor invisível, que ele estava fazendo tudo isso para provocar os leitores, provando que não importa a merda que ele faça, vai vender. mas… a verdade destoa disso e não há como negar. acabei de ver uma notícia dizendo que a série all star batman e robin, que teve as edições 11 e 12 canceladas, vai volta no mundo de o cavaleiro das trevas, a obra fantástica de distopia super heróica. a decadência do colante com um batman durão gigantesco. temo por esse universo. temo mesmo porque… é um local interessante, de onde poderia sair o último filme da trilogia batman dirigido por christopher nolan, embora eu acredite que não será nada disso (mas, vamos lá, um filme contando a origem, outro o ápice – como foi o segundo – e o outro a queda – sem referências à queda do morcego, nada além do nome – seria muito bom. ao menos é o que acho. continuando nos temores millerianos, temo a sequencia de 300 e acredito que o cinema e a fama hollywoodiana está tomando a cabeça de miller mais do que devia (vamos tomar umas aulas com o tio alan moore de como botar pra foder com essas porras, ou simplesmente aprender com o tio gaiman a ter boas relações em todas as áreas sem estragar suas obras, porque o gaiman ainda detona com seus contos).

um texto ruim motivado pela vontade de escrever e a incapacidade de fazê-lo. a vida não é fácil, não é mesmo? e a saudade é um mar, estrada que dói. preciso de novas músicas, novas descobertas – velhas ou novas, veja só, ano passado é que descobri o roth e ele não é novo. preciso da música que não sinto mais, preciso das idéias, da inventividade, preciso de mais tempo, de coragem pra emagrecer, exercitar, nadar, ler, escrever, mas a verdade é que na verdade o que eu mais preciso mais é da comida da mãe, da conversa com o pai, do domingo com a avó e do abraço, do cheiro e do beijo d’Ela. todo o resto além é luxo.