Archive for março, 2010

“amor, meu grande amor.”

março 6, 2010

eu não quero te encontrar toda arrumada – vestido, maquiagem, perfume, cabelo arrumado –  na porta da minha casa às sete da manhã de uma segunda feira ou qualquer coisa do tipo. quero te ver na rua, na vida, fazendo o que quer que estivesse que fazer naquele exato momento, se descabelando, suando. quero te ver várias vezes sorrindo distraidamente de alguma piada contada por um dos teus amigos, que por uma maravilhosa coincidência também são meus, e me encantar com a brancura dos teus dentes e com a suavidade da tua voz. quero me alimentar um pouco daquele momento, da tua energia e tua alegria, da tua beleza. quero te notar quando eu menos pensar em notar alguma coisa. então você estará lá e todo o resto que eu percebia sumirá e só restará a tua imagem na minha retina, na minha lembrança, nos meus pensamentos. não quero te achar em qualquer lugar como se nossas vidas fossem cenas de filme, com uma trilha sonora propícia ao primeiro encontro romântico de um casal, porque não é assim que a vida é e eu quero você com as coisas que a vida proporciona. eu quero é encontrar com você bêbada num show, quero conversar com você qualquer besteira e rir porque nos lembramos um do outro de algum momento do passado em que rimos da mesma piada ou qualquer coisa assim. quero ter com você um desses momentos que tantas pessoas têm, mas que na verdade são simples e únicos, porque é assim que acredito que sejam as coisas. então, um outro dia eu quero me encontrar com você e então você já lembrará de mim. não haverá uma coisa resumida de amor à primeira vista ou qualquer coisa dessas irrealidades, essas mentiras que os casais do mundo contam pra justificar a ausência de conhecimento entre eles, a falta de verdadeira intimidade – que se caracteriza pelo que temos hoje: não sentir vergonha de sermos quem somos na frente um do outro.
não quero ter que usar sempre as palavras dos outros pra dizer o quanto o meu amor é grande, mas não terei medo de ser brega quando for a hora certa. você me conhece e sabe que eu não tenho medo dessas coisas. quero que você me encontre como eu vou te encontrar: ao completo acaso, por sorte. nada das velhas desculpas de que o destino nos uniu. nós dois sabemos que o destino não une ninguém, que é completamente alheio à nossa infimez e que o que reina é o caos, o acaso. não quero ir em tua direção esperando que teus braços sejam quentes e estejam sempre abertos, prontos para me acolherem. quero que muitas vezes você não me deseje tão perto e queira teu próprio espaço porque é assim que as coisas são e eu certamente respeitarei isso, mesmo que seja uma noite em que eu preciso que não haja espaço entre nós.
e tudo o que há para te oferecer é meu amor. mas eu me envergonho disso porque pode parecer tão… vergonhoso, tão sem valor. mas acredite que se eu pudesse eu te daria os anéis de diamante, colares de pérolas, vestidos de seda e todas essas besteiras que eu sei que não valem nada, mas que tantas pessoas gostam por representarem algum status besta. e você sabe bem que eu não quero nem um pouco te dar roupas caras e jóias que custam tanto quanto o pib de um pequeno país. você me entende bem demais para saber que, ao abrir um embrulho de presente vindo de mim, não encontrará nada além de algumas palavras. mas, meu bem, se eu pudesse te dar tudo o que te deixa feliz, eu daria. espero que você saiba disso.
não quero você pelo nome que tens ou a família que te criou. apesar da importância dessas coisas para a criação dos nossos caráteres (porque nós dois sabemos que nem só de livros e filmes se faz um bom caráter, mas de uma construção sólida de moral e tradições familiares), não quero você pelo nome do sangue que você carrega em teus vasos ou pela tua carga genética. para mim isso não passa de um detalhe (detalhe importante, porque não tens cromossomopatias ou alterações importantes que te impediriam de ser agora exatamente quem você é).
não quero que você me venha dizendo coisas que são mentiras. não é correto construir qualquer coisa sobre mentiras. o risco de uma fissura fazer com que tudo caia e machuque mais do que deveria é demasiado grande. é um erro acreditar que mentir ou omitir coisas possa ser uma prática saudável. e por mais que eu diga que nós homens devemos proteger as mulheres das verdades, prefiro contar as verdades. machuque a quem machucar e, acredite, boa parte do tempo isso machuca mais a mim que a outras pessoas.
quero que você me tenha por inteiro e se satisfaça comigo e só comigo, porque tentarei me entregar completamente. quero que você sinta por mim todos os clichês de amor que as pessoas possam vir a ter. e quero que você crie novos clichês, assim como quero criar novas situações nunca antes experimentadas por mim e/ou pela humanidade. e quero que depois de mim você não queira ter mais nenhum outro. quero ser teu último e teu primeiro a te fazer pensar coisas que antes nunca havia imaginado.
tudo o que posso te dar, meu bem, é meu calor: minhas roupas, meu corpo; posso te dar o lugar onde vivo, mas acho que tudo o que tenho já está mais cheio de você do que de mim. há você em todos os lugares que vejo: na mesa, na cadeira, na cama, na televisão. e tudo isso são apenas reflexos de tempos passados em que você esteve lá. às vezes me desloco no eixo do tempo dentro da minha cabeça e volto a viver os momentos que tive com você. é uma pena que não chego a sentir teu calor, teu toque, teu beijo. e a saudade só faz crescer todos os dias longe de você.então, meu grande amor, eu quero algumas poucas coisas nessa vida, e a mais interessante é você.

pointless, ou um texto que não sabe o motivo de existir.

março 4, 2010

a mesa vibrou devido ao celular que brilhava e se agitava sobre ela no modo silencioso. todos olharam para o aparelho que se movia sobre a superfície plana de modo bastante barulhento. o dono do telefone – este que se move rapidamente para calá-lo o mais rápido possível – sentiu o sangue subir à face e os olhares dos presentes na reunião se desviarem do objeto e pousarem em sua carcaça, o que o fez se sentir outro objeto, de bem menos valor e extremamente substituível.

era ela. uma mensagem dela. leu discretamente o texto antes de guardar o telefone no bolso de seu jaleco. o celular exibia as letras iluminadas: “queria chupar você agora!”. as mensagens dela sempre o deixavam constrangidos, mesmo sabendo que ele era o único a lê-las.

“então… podemos continuar?” perguntou um dos jalecos brancos da reunião.

“não vejo por que não.” disse ele constrangido. não havia como remediar o que aconteceu, apenas seguir em frente. a mensagem continuou em sua cabeça durante todo o resto da reunião e fez com que perdesse toda a concentração.

depois do compromisso encerrado, evitou com sucesso todas as investidas dos seres que vieram em sua direção prontos para puxar conversa e dizer como aquela reunião havia sido chata e como o gelo que ele levou do chefe foi tenso e todo esse papo amigo que vinha dessas pessoas que não chegavam nem perto de serem conhecidas. foi até o banheiro, onde sabia que conseguiria um pouco de privacidade para fazer a ligação que planejara em sua cabeça desde que a mensagem foi recebida.

apertou o botão de última chamada discada e lá estava o nome dela brilhando na tela. confirmou a ligação e pôs o aparelho no ouvido. escutou dois toques antes que ela atendesse com sua voz calma e doce, como se fosse uma criança inocente, um anjo puro que desceu do céu, uma completa enganação.

“oi.”

“oi.”

“então… quando você vem?” ao dizer isso, ela fez com que ele pensasse no quão direta ela era sempre e como isso o atraía. “estou desejando você agora!” ela dizia isso de modo sensual e não vulgar, se fosse possível, até com inocência, porque era a mais pura verdade. talvez ele não acreditasse, talvez pensasse que ela era só uma mulher com muita vontade de fazer sexo, mas tudo o que ela queria era ele.

“tentarei chegar em casa o mais breve possível. meu turno só acaba daqui a três horas, mas vou ligar para minha colega pra saber se pode me render e logo estarei aí.” sempre tentava ser o mais objetivo possível ao telefone, não gostava das divagações e jamais revelava com quem estava falando; não expressava carinho ou preocupação, era frio, porque as pessoas que demonstram demais suas emoções acabam se expondo, mostram suas fraquezas aos que estão atento, e ele sabia disso como ninguém. já haviam tocado em sua ferida, já tinham atingido seu ponto fraco várias vezes. não queria que acontecesse novamente. estava sempre se precavendo.

desligou o telefone sem se despedir, sem nem mesmo esperar que ela terminasse de dizer o que estava falando do outro lado da linha. ligou para a colega que lhe renderia o turno e perguntou se poderia chegar mais cedo porque ocorreu uma emergência em casa e estavam precisando dele. a colega se prontificou e em cerca de meia hora estava lá. ele achava que talvez, se as condições fossem outras, se a vontade e a paciência necessárias para construir amizades existisse na alma dele, seriam bons amigos. mas não era assim. ele era um completo desconhecido a todos dali. ao sair do local de trabalho, abandonava os problemas que seus colegas carregavam para casa. não se sentia mal com isso, poderia muito bem trair os juramentos que fez. mas enquanto estivesse dentro, caminhando pelos corredores e sendo útil e pago, seria um exemplo de profissional, ou o mais próximo disso possível.

dirigiu até seu apartamento, onde ela esperava sentada no sofá escolhido por ela, folheando uma revista e olhando, vez por outra, a televisão ligada num canal qualquer. com os pés na mesa, usando um short que lhe expunha as belas pernas morenas torneadas e uma das camisas de banda que ele tanto gostava de vê-la usando. quando entrou, ela o olhou rapidamente e voltou suas atenções à revista em suas mãos. passou o olhar em algumas páginas por mais um tempo, ignorando-o até ele soltar suas coisas num canto da sala, sobre a poltrona velha que ele fazia questão de manter, e sentar-se ao lado dela. então, ela colocou de lado a revista, desligou a televisão, e colocou a mão na calça dele, desabotoando o botão e abrindo o ziper da calça, expondo seu sexo e colocando-o na boca. ele olhava para ela enquanto ela se punha a chupar seu pau, que ficava cada vez mais duro naquela boca molhada e quente. ela era boa naquilo, ele pensava, talvez pudesse ganhar a vida fazendo essas coisas, se ela quisesse, se ela precisasse, se fosse o caso, mas não era e ele sabia que ganhava muito menos que ela em seu trabalho, que quem trazia mais dinheiro para a casa era aquela mulher, que passava a língua em sua glande.

então ela parou com o sexo oral, levantou-se, limpou os cantos da boca como num movimento clichê e clássico que envolve o ato, tirou lentamente a camisa, revelando seu corpo lindo, de seios firmes e suculentos e sua barriga com aquele buxinho que ele fazia sempre questão de morder. ela usava uma de suas calcinhas de algodão, aquelas que ela diz serem extremamente confortáveis e nem um pouco sexys. ele não ligava para isso, sabia que a calcinha é parte do jogo de sedução e que naqueles momentos intensos que viviam, o jogo já tinha sido abandonado e trocado pela vida e paixão. puxou ela para perto de si e mordeu-lhe a barriga. ela riu lindamente, como não se acredita que adultos sejam capazes de fazer.

“sua barba faz cócegas” ela disse.

ele, de olhos fechados, roçava o rosto na barriga branca enquanto, com as mãos, tirava a calcinha dela, revelando o púbis liso, sem pêlos, raspado. segurou-a firmemente pelos quadris e desceu o rosto até alcançar seu sexo e começou a lambê-lo e chupá-lo. até que ela se soltou e o empurrou contra o sofá e sentou-se em seu colo.

fizeram sexo no sofá. suaram o couro caro e sujaram as almofadas de seda e pena de ganso com seus fluidos corporais. não havia arrependimento em ambos porque sabiam que tudo aquilo era certo. depois de jogar a camisinha fora e tomarem um banho juntos, ela voltou para a sala, apenas de toalha, e sentou-se no sofa e voltou a assistir ao que quer que estivesse passando. já ele foi para a cozinha, nu, colocou queijo num pão, esquentou-o no microondas e pôs uma xícara de café. voltou para a sala e sentou no sofá, ao lado da mulher.

o prato do sanduíche descansava no braço do sofá, as mãos dela brincavam distraidamente com o pênis amolecido enquanto na tela iluminava-se o rosto de um vilão de novela qualquer. ele segurava o caneco de café com uma mão e o pão com a outra. deu uma mordida e tomou um gole. olhou para ela, que mantinha os olhos fixos na tv. segurou seu queixo e ela virou para ele. deu-lhe um beijo molhado com gosto de café forte e amargo.

“eu também te amo.” ela disse.