Archive for fevereiro, 2010

palavras.

fevereiro 21, 2010

eu acredito nas palavras. acredito nelas como aqueles que acreditam em deuses e anjos e cidades de prata flutuantes, onde o chão nunca é tocado acreditam; como os que crêem no anjo da luz caído e em seus lacaios demônios, que reinam sob a terra em seus seis círculos, crêem; e como aqueles que acham que o sobrenatural existe de fato e checam sempre seus horóscopos e seus supostos futuros nas cartas de um baralho velho ou nas linhas de suas mãos marcadas e todo esse tipo de bobagem mística/esotérica que eu não acredito, porque parecem tolas e forçadas demais para minha cabeça. mas se há algo em que acredito de verdade nesse mundo imenso são nas palavras. sim, as palavras, aquelas coisas que lemos, que falamos, que escrevemos. acredito mesmo nelas e creio que elas têm um enorme poder. não o tipo de poder que é atribuído às entidades supracitadas, mas aquele que é capaz de mudar as coisas que nos cercam como quase nada mais no mundo pode fazer, mudanças sérias e pra valer. as palavras encerram em si um poder cru – algo que seria magia, se ela existisse, a magia bruta quase miraculosa – que nenhum homem na existência pensou ser capaz de ter, mas tem, porque palavras são tudo o que temos uns dos outros, o que mais damos uns aos outros. palavras são tudo aquilo que construímos e guardamos de cada um, por menos que pareçam palavras, se disfarçando atrás de atos e lembranças e imagens que parecem indescritíveis, tudo se resume a palavras, mesmo que não saibamos bem quais.
as palavras, no entanto, sempre estão lá, sendo o que são desde que começaram a ser, tendo a influencia que sempre tiveram em todos nós, meros humanos, como sempre, mas quando elas se disfarçam, elas se enfraquecem, perdem sua admirável e bela objetividade. quando uma frase qualquer – vamos escolher o clássico “eu te amo”, afinal, quem não gosta de clássicos, bom sujeito não é – se esconde atrás de um olhar ele não é o mesmo que um “eu te amo” dito pela primeira vez bem baixinho como um segredo entre o dono das cordas vocais e o do ouvido no qual as palavras são surssurradas; também não é um abraço quente e confortável ou um beijo apaixonado – e hoje em dia, beijos apaixonados quase nunca valem um “eu te amo” (é incrível como se pode se dar beijos apaixonados quando não há paixão nenhuma) -, ele é um olhar que quis dizer “eu te amo”, mas por algum motivo pode ter se perdido no meio do caminho extenuante que é o dizer o que se quer sem parecer demasiado confuso ou subjetivo como eu estou parecendo agora. e quando um poder tão grande quanto o da palavra se dissipa, se perde através de conversões como se perde parte da energia de um motor em calor – vejamos aqui as palavras como energia e seus disfarces como convertores, transformadores de uma energia em outra, transmutando a energia bruta que vem das palavras em uma energia menor, gasta, perdida em algumas coisas supérfluas.
com palavras pode-se fazer de tudo: uma frase, uma ordem, uma pergunta, um longo texto elogiando a beleza de uma mulher ou uma curta carta recusando os talentos de alguém que se propõe e ser utilizado, pode-se fazer uma música, um livro, uma árvore, um filho, uma vida de verdade, com todas as suas complexidades e alegrias e tristezas e vergonhas e constrangimentos e monotonias e sonhos e desesperos e desejos e delírios e destruição e doenças e saúdes e miséria e riqueza e até mesmo toda uma mitologia de seres superpoderosos que podem fazer o que quiserem a qualquer horas e os locais onde dizem que habitam, seja um monte grego ou um céu azul e límpido, ou metrópolis ou star city ou um lugar que palavras quase não parecem o suficiente para descrever, mesmo sabendo que não existe tal coisa e o que falta, na verdade é imaginação para criar a palavra certa e usá-la no exato contexto que é pretendido, mas mesmo sem saber descrever tudo o que nunca viram, a imaginação os faz usar palavras como essas: “setenta e duas virgens”, ou ainda “setenta e duas uvas brancas” ou ainda “um banquete eterno onde será servido das melhores comidas já criadas e imaginadas.” e assim como as palavras podem criar a vida a seu bel prazer, ela pode muito bem acabar com ela quando bem entender. a morte, na verdade, não passa de uma palavra e não é nem tão grande assim, mas ainda assim é maior que a vida, possui um peso maior quando postas na balança dos significados. com algumas palavras certas numa determinada ordem, pode-se executar as mais incríveis proezas que um ser humano poderia imaginar, pode-se dizer que no fim de semana que passou você conseguiu comer a garota mais linda da escola/faculdade/trabalho e, dependendo da tua confiabilidade, essa mentira pode se espalhar mais do que a verdade, que você passou o fim de semana estudando e jogando videogame. pode-se com algumas letras em conjunto, começar os relacionamentos mais maravilhosos que duas pessoas podem ter, assim como pode acabar completamente com amores e amizades. estava eu a pensar hoje mesmo sobre como escolhemos não dizer certas coisas a pessoas que sabemos que se sentirão machucadas por causa disso, sabemos que há riscos demais em proferir certas sentenças e que, muitas vezes, simplesmente não vale a pena perder uma pessoa tão especial por causa de uma meia dúzia de palavras verdadeiras. mas cada um de nós talvez conheça as poderosas palavras capazes de destruir as grandes amizades e os maiores amores.
as palavras têm mais poder do que as palavras podem dizer e não há uma palavra que possa dizer que não. nem mesmo o não.
para mim, palavras são tudo. talvez haja quem não acredite na importância delas, mas mesmo assim, sem que percebam, têm sua vida comandada por essas entidades que não acreditam que tenham poder. as palavras,  por muitas vezes – e isso acontece com mais frequência do que se espera e se é adequado- , não são tão claras quanto deveriam. como dissemos, podem ser extremamente subjetivas, e em determinados momentos parece que simplesmente não há formas de compreender o que elas querem dizer. no entanto, tento entender tudo o que posso entender, mas nem sempre as palavras são claras para mim.

frustrações. (um texto ruim de madrugada)

fevereiro 19, 2010

com todo o tempo que tenho passado acordado, tenho esquecido um pouco do que é que eu tanto falava quando era mais novo. aliás, o problema não é o que eu falava, que eu posso muito bem lembrar, mas é como eu falava, como eu sentia, como era toda aquela coisa juvenil de se sentir certo no mundo errado, de se sentir errado no mundo errado, de achar o mundo todo errado porque ele é errado e não há quem diga que não é porque todos sabem que é. eu não lembro como é sentir raiva de desejar coisas que não se podia ter, não me recordo de como antes eu me sentia com a minha relação de amor/ódio de ficar só no meu canto, calado, pensando. não lembro como é querer passar boa parte do tempo só. hoje eu sempre procuro alguma companhia e mesmo quando eu não procuro, encontro alguém pra não me deixar só. minha avó costuma dizer que não fica só porque isso a faria pensar e a essa altura da vida, tudo o que ela menos quer é isso. eu acho que entendo ela, mas eu gosto tanto de pensar. às vezes, mesmo acompanhado eu paro e fico um tempo em silêncio para poder pensar na vida, no universo e em tudo mais. eu ainda continuo com essas histórias, com esses mesmos sonhos de conseguir pensar, mas eu já não acredito que seja capaz de encontrar soluções aplicáveis a problemas maiores que eu, maiores que o mundo em si. me frustro por inúmeras coisas todos os dias: por não gostar de estudar, por não conseguir aprender, por não me interessar por nada que possa construir alguma coisa para mim algum dia, por não ter dinheiro, por não ser um orgulho para ninguém, nem para mim mesmo. mas são cada vez mais raros os dias em que eu me revolto com isso, que não aceito que essa é uma parte normal da vida e que uma hora ou outra todos passarão por ela e seguirão. talvez eu esteja em um dos conflitos que erikson propôs, talvez eu esteja fazendo uma tempestade em copo d’água. mas eu sei que nada disso é, de fato, importante. não é importante para ninguém o que eu gosto ou desgosto, quem amo ou quem acho que deveria sumir porque o fato de que essa pessoa existe me deixa triste por todas as pessoas que um dia entrarão em contato com ela; não é importante os sonhos que tenho e os que deixei de ter, nem o que eu penso sobre uma coisa ou deixo de pensar. esse texto inteiro não faz a menor diferença. tanto podia estar aqui como não estar e isso é uma verdade indubitável. eu queria saber usar palavras difíceis em textos, queria colocar conceitos complicados que eu saiba, com aqueles termos que ninguém entenderia e eu pareceria uma pessoa que sabe das coisas, mas eu não sei. eu não entendo conceitos simples, esqueço palavras que acabei de ler e elas bem podem ser paralelepípedos – e eu lembro da primeira vez que minha mãe me disse essa palavra, eu estava no ônibus quando ela me disse “paralelepípedo” – ou interleucinas e prostaglandinas. eu esqueço assim que as leio e não importa quanta atenção eu preste, eu sempre vou esquecer algum pedaço do todo. é assim que eu sou e tenho sido desde que nasci. eu não entendo de muita coisa, talvez eu possa dizer que conheça alguns livros e alguns quadrinhos, mas isso não vai me fazer ser melhor em nada, não vai me sustentar quando eu precisar de um sustento. talvez seja verdade que nenhuma cultura é inútil, mas não é com todas que se pode conseguir dinheiro. é necessário conhecimentos aparentemente inúteis, é preciso horas e horas de potenciais boas leituras desperdiçadas por causa de livros explicando em dezenas de páginas que seu coração bombeia sangue no seu corpo. eu me frustro com isso, me sinto um derrotado ao perceber que tudo o que sei não parece valer muito, na verdade, parece valer absolutamente nada. estou cansado de escrever esse pseudo texto de revolta, onde culpo tudo que não gosto, onde digo que não há muito que preste nesse mundo. mas eu devo dizer que mesmo escrevendo todas essas merdas, me sinto extremamente grato por cada coisa que tenho, até as que odeio. me sinto grato por acordar para me sentir um burro todas as segundas e quintas, por me sentir um incompetente nervoso todas as terças e sextas, por me sentir um irresponsável completo todas as quartas, sábados e domingos. sou grato por todas as vezes que me desespero pensando na saudade que sinto das pessoas com quem eu queria estar: meu pai, minha mãe, minha avó, minha namorada, meus amigos, minha casa, meu quarto, minhas coisas, meus livros. sou grato por ter um lugar que detesto estar porque assim percebo o quão importante é estar onde se gosta, onde se quer, onde se sente bem. eu me canso muitas vezes de toda a minha repetição e gostaria sinceramente de ser capaz de parar com isso, mas acredito que seja algo muito maior que eu, muito maior que tudo o que há, porque é só parar um pouco tudo o que está fazendo e pensar sobre todas as vezes em que você já fez algo e perceber que a vida é uma grande repetição onde todos os dias você acorda, se frustra, levanta, se frustra, vive a vida, se frustra, deita, se frustra, dorme e é nos sonhos que muitas vezes podemos fugir de frustrações, mas não é sempre, então é possível frustrar-se ou não. é assim que é tudo o que é, tudo o que há e tudo o que continuará sendo: um ciclo ininterrupto de frustrações e incapacidades e cada uma delas é uma forma de crescer e se entender, de perceber que mesmo com todas as merdas que podem acontecer, tudo ainda é grande demais para ser jogado numa cova de sete palmos antes que se tenha provado do sabor da vida. eu tenho esse enorme desejo de entender que, mesmo sendo sempre frustrado, nunca me abandonou. então, quero entender até que não seja capaz de viver.

k.

fevereiro 19, 2010

certa manhã, ao acordar de sonhos eróticos com o membro sexual ereto e uma vontade gigantesca de urinar, k. percebeu que não havia se transformado no banquinho da bicicleta ou na calcinha daquela menina, como havia pedido tantas vezes antes. estava frustrado e queria voltar a dormir seu sono tranquilo, onde ele era um homem rico e poderoso e estava acabando de receber um boquete da megan fox e prestes a meter o pau na natalie portman, mas nada disso parecia ser possível devido ao enorme barulho que se fazia do lado de fora do seu quarto.

a vida havia de continuar para k. e não tinha nada que ele pudesse fazer para evitar sem que ela deixasse de continuar como ele conhecia, ou seja, a alternativa a tudo aquilo era a boa e velha faca correndo rua a baixo e não ao redor do mundo como é poetizado em tantas fotos de meninas que se acham os seres mais sofridos da terra quando, na verdade, estão apenas começando a prova do sofrimento real que é viver. k. sabia que aquela escolha não era a coisa mais inteligente a se fazer se ele quisesse continuar com as coisas que precisava fazer: respirar o ar da manhã e tossir fortemente devido a seu vício em cigarros que ele teima em jamais abandonar, comer as maravilhas da culinária gordurosa que promete matar todo mundo lenta e deliciosamente, cagar em grandes quantidades toda essa comida ingerida e sentir suas tripas vazias, tomar o café que constitui seu maior vício – maior até que o tabaco, enfim, todas as coisas essenciais para uma boa vida não saudável. k. sabia que o segredo de morrer era morrer aos poucos, cada dia um pouco, como tudo que existe, e não simplesmente preparar uma seringa cheia de KCl e aplicar na veia.

k. levantou-se, tossiu, foi ao banheiro dar um fim naquela ereção matinal, escarrou um material esverdeado na privada e começou a urinar com o pau meia bomba, o que era o suficiente para iniciar uma boa urinada. k. se deliciava com as pequenas coisas da vida: controlar seus esfíncteres era um luxo que adorava. sabia que quando chegasse o dia em que seus músculos formadores dos esfíncteres saíssem de seu controle, sua vida estaria completamente desgraçada, então vivia cada minuto feliz por ter esse controle tão importante. depois de balançar algumas vezes e deixar que o último pingo fosse na cueca, porque sempre é e não há muito que possa se fazer quanto a isso, foi até a cozinha, pôs um copo de leite no microondas e jogou uma porção de cereal num prato fundo. olhou o mundo lá fora através da janela da cozinha e lá embaixo o mundo corria dentro de carros e ônibus e motos e coisas que fazem muito mais barulho do que k. gostaria que existisse no mundo. foi para a sala e ligou a tv.

k. gostava dos programas matinais, adorava ver a grade infantil que as emissoras preparam, com todas aquelas apresentadoras deliciosas usando saias minúsculas, exibindo suas coxas grossas e falando como se as crianças fossem todas retardadas ou coisa do tipo. k. se imaginava calando a boca de todas elas, se imaginava comendo todas elas por trás, ao vivo, enquanto elas pediam mais e toda a população assistia àquilo tudo. k. também gostava de alguns desenhos que eram exibidos, mas achava que muitos deles eram responsáveis pelo real retardo de algumas crianças facilmente influenciáveis.

depois de algum tempo na frente do televisor, k. percebe que, naquele calor, o que ele precisa mais do que um ar condicionado é de um banho. volta ao banheiro, pendura sua toalha no local onde se pendura a cortina do chuveiro, pendura também sua cueca, que será lavada agora, abre a água, que desce fraca e irrita. tomar banho, para k. é um exercício de paciência, por isso, para relaxar, com alguma frequência resolve que está na hora de prestar uma homenagem a alguma das apresentadoras da tv; é sempre uma vitória cada vez que ele sai do chuveiro com seu objetivo concretizado e ele sai do banheiro com um sorriso de satisfação em direção ao quarto, onde veste sua calça de linho, leve e confortável. volta para a sala e volta a ver qualquer coisa que estiver passando na tela. abre um livro e começa a ler, mas quase sempre se distrai com alguma coisa que está passando, algum som que lhe chama atenção. k. gosta de livros e acha que deveria se comprometer mais com eles, se esforçar para estudar, para ler mesmo, por recreação, k. não costuma fazer tanto isso. o barulho de vida acontecendo lá fora continua, cada vez mais alto e k. sabe que alguma hora ele terá de se juntar a ele, ser uma parte desse som horripilante que tanto assusta a quem o escuta.

k. assiste às notícias com tamanha imparcialidade que provavelmente deve ser invejado pelos jornalistas que deveriam tê-la. para k., as pessoas que matam e as que morrem são parte de tudo o que acontece na vida e não há muito a se fazer. não adianta lamentar em nada, porque ele sabe que se não fossem aquelas, seriam outras: as pessoas continuarão matando e morrendo enquanto existirem pessoas para matar e para morrer. e então, quando a última pessoa sobrar viva, depois de matar todas as outras, depois de ver morrer todas as que não matou, é bem capaz que ela se mate para completar a grande missão de matar e morrer e assim acabar com a parte humana da história do planeta. k. assiste à programas que mostram corpos se deteriorando com uma indiferença digna de assassinos seriais. ele sabe que não há como mudar tudo aquilo e que alguma hora nenhum daqueles corpos importarão, sabe que em algumas horas encontrarão mais cinco morto, que um avião cairá em algum lugar e será esquecido porque houve um terremoto num outro canto e uma ilha habitada quase desapareceu.

k. desliga a televisão com uma cara de tédio, vai ao quarto, pega sua carteira, veste uma camisa de botão, calça seu sapato e decse as escadas, sentindo o calor das pessoas lá embaixo, “o inferno são os outros”, sartre disse e ele sabe disso – todo mundo sabe -, e o inferno fica cada vez mais perto. chega ao térreo do prédio onde mora, sai pelo portão e vê que todos ao redor seguem cegamente suas vidas, não se importante com os outros que fazem o mesmo. então, k. põe seu rabo entre as pernas e segue como um cão. como um cão!

como não ficar com ninguém em uma noite (ou como encontrar a mulher perfeita para você).

fevereiro 14, 2010

enviamos a campo um de nossos repórteres mais experientes na arte de perder a mulherada que dá mole e pedimos que ele escrevesse tudo o que é preciso para aprender como não conseguir nem um beijinho de boa noite da mãe quando chegar em casa. prestem atenção, caros leitores, anotem e estudem bem todos os assuntos abordados. as dicas são verdadeiras lições sobre a arte da sedução e todas as suas possibilidades.

a noite começa cedo, então é bom estar preparado para ela. por volta das 18 horas, preparar o estômago com um belo jantar com macacheira e queijo e uma xícara de café bem forte para combater tudo o que está por vir é uma atitude que demonstra toda a esperteza que podemos apresentar. comecemos tudo com a concentração na casa de algum amigo, onde regaremos nossas gargantas sedentas com o mais dourado lúpulo da mais deliciosa cerveja, afinal, ainda estamos no aquecimento e nossas papilas ainda fazem questão de alguma qualidade gustativa. nesses momentos, pode anotar no caderninho, só coisa boa. nada de tomar aquelas cervejas ruins (leia aqui nova schin) ou vinho, vodca, whisky barato, esse é o momento de separar os beberrões de festa dos apreciadores de bebida beberrões, uma diferenciação que pode ser imperceptível a olho nu, mas que funciona quase como a separação entre meninos e homens ou joio e trigo. essa hora com os amigos é quando se deve beber com moderação, afinal, não queremos chegar no local onde pretendemos azarar as mocinhas já bêbados, não é verdade? beber pouco para conseguir pegar o ônibus certo para a balada é uma coisa sensata a se fazer (não beber e dirigir é outra coisa sensata, assim como ter dinheiro para o táxi de volta), deve-se aproveitar o momento também para conversar sobre a vida, o universo e tudo o mais que pode aparecer numa conversa entre amigos (ou seja, mulher, mulher, mulher, video games e futebol).

então é chegada a esperada hora de partir em direção ao local onde colocaremos em prática toda a sedução e charme necessários para a não concretização do ato de fazer duas línguas roçarem. algo altamente recomendável no momento em que se chega ao ponto escolhido para o ataque final é encontrar o ambulante com a cerveja mais barata e comprar algumas para beber um pouco mais antes de entrar, afinal, não queremos nos manter extremamente sóbrios ao fim dessa noite. continuemos com a bebida por um tempo até o ponto em que, ao olhar para o lado, você avista uma mulher totalmente deliciosa e você chega nela pedindo um gole de qualquer coisa que ela esteja bebendo – com um olhar safado que diz que você beberia ela todinha se ela desse a chance, coisa que nunca vai acontecer nessa noite, ou nessa vida – e ela te olha estranho e diz não. quando algo semelhante a isso acontecer, pode acreditar que você já entrou completamente no clima da noite e que de agora em diante, é só pra baixo que você vai.

agora o ambiente é fechado e tem algumas mesas que, a esse ponto da sua jornada alcoólica, mais parecem verdadeiros obstáculos quase intransponíveis. mas a esse ponto da noite você sabe que nada é capaz de te parar e as mesas no seu caminho tombarão com boa parte das coisas sobre elas. você esbarra na primeira mesa e pede desculpas às pessoas sentadas nela, ao fazê-lo você esbarra numa moça bonita – o local está abarrotado delas, todas prontas para te dar o não que você tanto espera ouvir depois de tantas ofensas ao fígado e ao cérebro. ela olha estranho pra você, como todas as outras farão, e você sorrirá para ela como se fosse algum tipo de don juan de marco made in qualquer cidade em que você tenha nascido. se estivéssemos num programa de televisão, ao dar o seu olhar, a cena paralisaria, tornar-se-ia preto e branco e um carimbo vermelho de FAIL apareceria gigantescamente na tela. mas nesse exato momento você se acha o homem mais sedutor do mundo, o álcool é teu senhor e você só segue a ele. você pergunta se a moça está bem, se você a machucou, diz que ela é muito bonita e pede para dançar com ela. enquanto você vai pronunciando as palavras, ela vai se afastando de você indo em direção ao local mais distante, segurando um sorriso amarelo no rosto e dizendo que está indo encontrar o namorado e… você não escuta o resto porque agora estás só.

você resolve olhar ao redor e analisar o local com um olhar analítico. as possibilidades são inúmeras. agora, prestem atenção a essa dica maravilhosa: ao dar em cima de uma das moças da noite, não se desanime com os foras, muito pelo contrário, se sinta estimulado e dê em cima da moça ao lado. isso mesmo, não deves deixar nenhuma mulher desacompanhada sem que tenha ouvido a tua voz naquela noite. um exemplo da noite foi o seguinte: ao abordar uma vítima que andava em bando, ao perceber que talvez eu conseguisse alguma coisa com aquele exemplar de fêmea, assim que ela deu as costas, dei em cima de uma de suas companheiras de bando. assim que ela voltou, me viu tentando conseguir alguma coisa com sua colega – que eu sabia que não me daria bola, mas que estava ali, ouvindo tudo o que eu tinha pra falar. dar em cima de uma moça na frente de outra moça é perfeito para perder todas as chances com qualquer uma das duas moças. faça isso ao extremo e todas as mulheres do local saberão que você está bêbado dando em cima de todas as vaginas do local. é tiro e queda.

e quando você achar que toda a noite acabou, depois de muitos foras, você ainda encontrará alguma moça que você não deu em cima. eis o que você pode fazer para assustá-la e mandá-la para bem longe de você. algumas dessas abordagens foram testadas com sucesso. uma coisa a se fazer é: você comentar com um grupo de amigos, em voz bem alta, que você acabou de dar em cima de mais da metade das mulheres que você viu e, ao notar uma moça ao lado do grupo que provavelmente escutou tudo o que você disse, abordá-la perguntando: olá, eu dei em cima de você, moça? ela vai se assustar e dizer que não. aí você pergunta se pode dar. é tiro e queda. ela vai dizer um belo não. outra forma de assustar é, enquanto você conversa qualquer coisa com seus amigos, você fala que nunca ficaria com uma mulher em determinadas condições (uma mulher que não sabe o que é “crime e castigo” não é digna de ficar comigo – alguns dizem), há sempre alguma coisa que você possa dizer para assustar uma moça. o que foi utilizado foi a abordagem súbita sobre um assunto aparentemente sem sentido. “moça, me diga, você sabe quem foi dostoiveski?” e quando ela disser que não, você pode dizer em voz alta: “viu? eu nunca ficaria com uma moça assim.”

no fim da noite, ao chegar bêbado em casa, sem receber nenhum beijinho e sendo olhado torto por todas as mulheres que você abordou naquela noite (o que quer dizer, todas as que não estavam acompanhadas por seus machos), você vai direto para o quarto e dorme só.

essas são as grandes lições para não pegar nenhuma mulher na balada. não é difícil e sua aparência não faz a menor diferença. se você não conseguiu ficar bêbado com tudo o que você bebeu, finja! se você conseguiu, talvez no outro dia você não lembre de boa parte do ocorrido. espero que tudo tenha sido válido e boa sorte quando cair no oco do mundo.

e… quanto à mulher perfeita para você… ela é aquela que mesmo sabendo que você fez tudo isso, ainda assim aceitou tudo e ficou com você. elas são raras, acreditem, então, quando avistarem esse ser, segurem para não largar mais…

a casa.

fevereiro 6, 2010

estamos fugindo deles desde que tudo isso começou, há sete meses. não sabemos como e nem o porquê. é como nos filmes e os menos preparados se vão primeiro. é uma piada da natureza que nos faz enxergar que realmente só os mais aptos sobrevivem, a prova de que darwin estava completamente certo. os criacionistas e outros crentes foram os primeiros a morrerem, rezando dentro das igrejas que estavam despreparadas para aguentar os ataques. eles falavam alguma coisa sobre o fim dos tempos e que o livro sagrado dizia tudo. mas se realmente dizia tudo, não eram eles que deveriam estar aqui, contando a história, e não eu? acho que isso é uma das mais lindas ironias já vividas por mim. depois que os mais fracos foram eliminados – e foi tudo tão rápido que contar o que ocorreu de verdade é impossível, só dá para imaginar que alguém infectou alguém que infectou alguém e como tudo isso é muito fácil de ocorrer – uma simples mordida -, logo todos estavam infectados. era difícil viver lá fora, no começo principalmente. posso dizer que os que estão aqui dentro, na casa, são os dez maiores sobreviventes que já conheci, criaturas espertas nas qual eu deveria confiar, mas não confio. e não o faço simplesmente porque seria uma estupidez sem tamanho fazê-lo. de todos que aqui compartilham um teto, nessa mansão onde nos escondemos de todos lá fora e nos sentimos seguros por causa dos muros altos de pedra e um portão de ferro blindado, eu conhecia poucos e não o suficiente para saber o quanto minha vida importa para eles. afinal de contas, depois de perder todos os amigos e família, perder um conhecido não faz diferença.

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estamos todos mortos. não faz diferença se sobrevivemos a tudo o que passamos. estamos todos mortos, é nosso destino, não dá para escapar, eu sei disso, tenho certeza. essa casa não conseguirá ser um local seguro para sempre, há muitos deles lá fora e mesmo havendo poucos de nós aqui, a comida não durará para sempre. eu olho para o rosto desses desconhecidos e penso qual deles irá enlouquecer primeiro, qual irá, no meio da noite puxar uma faca e matar a todos nós, qual irá pensar que dividir a comida não é mais um ato de solidariedade, mas apenas um ato de suicídio. me pergunto todas as noites onde está o deus por quem eu rezava, por que diabos ele não faz alguma coisa agora e nos salva todos. minha mãe costumava dizer que não devemos deixar para deus o que podemos fazer, mas acho que agora eu não posso fazer nada a não ser temer. e onde ele está? ele não desce dos céus soltando bolas de fogo e relâmpagos nesses monstros que nos espreitam lá fora. nada disso. assisti a minha mãe ser devorada pouco depois dela rezar para que deus nos protegesse dentro de casa. mas numa tentativa de fuga de casa, pouco antes de eu encontrar a todos que aqui estão e chegar nesse lugar, ela foi mordida pelo meu irmão. desde então eu tenho me perguntado se todo o tempo que gastei idolatrando e orando, sendo uma boa serva do senhor, serviu de alguma coisa.

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estou feliz por ter achado todas essas pessoas, assim eu não me sinto tão sozinho. sinto falta da mamãe e do papai. se não fosse pela minha mana mais velha eu não estaria aqui hoje. me sinto bem porque aqui dentro a gente pode esperar enquanto tudo lá fora se acalma e volta ao normal. tenho saudades de brincar com alguém, minha irmã nunca brinca comigo, ela sempre está preocupada com alguma coisa e nunca tem tempo pra mim. não tem mais ninguém para brincar aqui dentro, é um saco. queria ir lá fora pra poder correr no jardim e jogar bola, mas todo mundo diz que é perigoso demais. aqui dentro é muito chato, não tem energia, então não tem videogame, nem tv, nem computador, nem nada! quando chega a noite tudo fica escuro e, quando vamos dormir, ouvimos o barulho lá de fora, que vem dos muros, não é legal, me dá muito medo. minha irmã disse para eu não ter medo porque alguma hora eles iam sair dali, mas eu acho que ela está mentindo, às vezes eu penso que a gente nunca vai sair daqui.

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eu olho para ele e fico pensando em tudo o que ele nunca vai ter. ele nunca vai dar um beijo, nunca vai fazer sexo, nunca vai poder crescer e passar pelas coisas que as pessoas normalmente passam. desde que tudo isso começou, sabe-se lá como, eu tenho tentado salvar nós dois. foi quando encontrei esse pessoal, eram menos quando me juntei a eles, depois fomos crescendo e chegamos a quase quarenta pessoas, mas ao longo do caminho fomos os perdendo para aquelas coisas. há um cara aqui dentro que me assusta, ele já estava no grupo quando eu me reuni. sempre noto que ele fica me olhando estranho com seus olhos injetados no rosto magro, a barba por fazer, o cabelo branco e escasso, ele deve ter uns cinquenta e poucos anos, a idade do meu pai, talvez, mas aparenta ser bem mais velho devido o mal cuidado que é tão comum entre todos aqui os sobreviventes, que largaram mão de coisas como aparência para se importar mais com continuar respirando. procuro me afastar dele o máximo possível, interagindo apenas quando necessário, mas não sei até quando poderei continuar assim. um dia, quando não conseguia dormir, deitada ao lado do meu irmão, notei que ele estava parado no escuro ao lado da porta. ele estava com as mãos dentro da calça, ou foi essa a impressão que tive com a pouca luz que vinha das velas na casa. não comentei nada com ninguém sobre isso, mas acho que devia, só não sei em quem confiar.

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é quase o décimo dia de todos nós aqui na casa. os dias aqui dentro têm sido fáceis se compararmos com a situação lá fora. não há sinal de energia elétrica desde o segundo mês do ocorrido e a água é pouca, mas suficiente para mais dez dias, no mínimo. a comida é bastante, havia um belo estoque aqui dentro, é uma casa rica, de algum político influente. chegar aqui foi fácil, o problema vai ser sair com todos os monstros do lado de fora. mas espero que demos um jeito nisso até quando for completamente preciso. talvez pulemos os muros para o vizinho e eles nem notem, talvez ao fazer isso nos condenemos à morte. pensaremos em algo, se chegamos aqui, somos espertos. antes de ontem houveram alguns problemas na casa. uma discussão entre uma garota de seus vinte e poucos anos com um cara um tanto esquisito. ela dizia que ele estava a seguindo para todo o canto com um olhar estranho e disse também que já havia pego ele se masturbando enquanto olhava para ela durante uma noite. havia um homem de bigode, de cerca de quarenta anos, que apoiava ela, dizendo que ele não devia fazer uma coisa assim e que todos nós aqui dentro deviamos tentar uma convivência harmônica porque só tinhamos uns aos outros. depois disso tentei conversar com o homem que foi acusado, mas ele só fez me olhar e sair de perto. uma mulher viu o ocorrido e disse para deixar para lá, cada um com seus problemas, logo todo mundo estaria morto.

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já houve a primeira baixa aqui dentro. hoje, quando fizemos a distribuição de comida pela manhã, percebemos que um casal havia sumido pela noite. começamos a desconfiar uns dos outros. não sei quem os outros acham que fez isso, mas eu acredito que tenha sido o homem acusado de perseguir uma outra garota aqui na casa. ele é bem estranho e tem umas atitudes suspeitas. não sei o que aconteceu com os dois, não encontramos corpos na ronda pelos jardins da casa, mas encontramos umas pegadas nos fundos, levando até a casa ao lado. foi por causa delas que não expulsamos o cara daqui de dentro e o condenamos a morte lá fora, porque talvez o casal tenha tido a vontade de se aventurar lá, a genial idéia de cometer suicídio, porque andar no meio daqueles animais que se tornaram nossos entes queridos e conhecidos é pedir para morrer de uma das maneiras mais cruéis e dolorosas possível. eu ria de coisas ridículas como essas quando as via nos filmes e nos livros, mas agora tudo se tornou realidade e eu tenho medo porque agora acho que não exista um depois daqui, que o máximo que poderemos chamar de pós vida é o que vemos agora: esse errar em busca de seres humanos, com o único e enorme desejo de saciar a fome que se tem ao devorá-los por inteiro.

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os dias só fazem ficar mais e mais chatos aqui dentro. eu queria comer batata frita e sanduíche, queria que a mamãe me levasse na casa da vovó, onde eu passava o tempo brincando e correndo, queria que o papai me levasse para tomar sorvete. eu sinto falta de sorvete, de ver desenhos e filmes de super heróis. eu queria meus bonecos. não tem brinquedo nenhum nessa casa, e ela é tão grande. eu sinto fome de vez em quando, fome como eu nunca havia sentido antes. aqui dentro a gente só come duas vezes por dia, de manhã e de noite, aí dormimos e continuamos a escutar as coisas lá fora batendo no portão e tentando entrar. um dia desses encontraram um deles no jardim, depois de cortarem a cabeça dele, viram que ele era uma pessoa que antes estava aqui dentro. um moço legal, de bigode, que sempre conversava comigo e com a mana sobre coisas legais. ele falava sobre futebol e vôlei, fórmula 1 e outros esportes que eu gostava de acompanhar. eu falei a ele da vez em que meu pai me levou pra ver um jogo no estádio e dos gols que aconteceram e de como foi legal estar ali e ele me disse que sempre ia ver as partidas na arquibancada e que levava o radinho de pilha dele e escutava. eu perguntei a ele pelo rádio, se ele estava com ele ali para podermos escutar algum jogo lá fora e ele me disse que tinha perdido ele fazia tempo. foi o melhor dia aqui dentro, o moço ela legal e agora não está mais aqui.

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eu tenho certeza que foi ele, o cara que vivia me seguindo, tenho certeza que foi ele quem matou o seu ari. eu ainda não sei como ele fez isso e nem o porquê, mas não confio nele, nem um pouco. desde que eu falei ao seu ari, um homem muito bom, que logo encantou meu irmão com suas conversas sobre esportes, sobre o ocorrido naquela noite em que o vi se masturbando enquanto me olhava e tomou uma repreensão dele, o cara estranho tem ficado longe de mim, não o tenho visto mais, apenas nas manhãs, na hora da divisão da comida. aqui dentro, agora, somos apenas sete e um deles é esse cara completamente bizarra que me dá calafrios só de olhar. os dois sumiços da semana passada nos deixaram com um pouco mais de comida e um tanto de preocupação, desconfiei do cara, lógico. não me parece que mais ninguém aqui dentro seja capaz de fazer alguma coisa contra os outros, não nesse ponto. começamos a nos conhecer bem melhor agora e, com exceção do esquisitão, todos nos tornamos amigos, ou algo assim. desconfio até que há um casal que se formou aqui dentro. acho que não é bem amor o que eles devem sentir. na verdade, acho que eles estão juntos por causa da mistura de medo da morte com o impulso sexual que nunca abandona os animais. eu sinto falta de carinho, de sexo, sinto inveja dos dois, mas eu olho para meu irmão e penso que existem coisas mais importantes com o que se procupar agora, nossa sobrevivência vem em primeiro lugar.

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a cada dia que passa a tensão aumenta aqui dentro. há pessoas convencidas de que o fernando é quem anda empurrando pessoas para fora da casa e condenando-as à morte certa, mas não há provas o suficiente para condenarmos ele. nada aponta para ele, todos os sumiços parecem ter sido decisão de quem foi embora, suicídio, talvez não tenham aguentado a pressão, talvez tenham percebido que nunca mais na vida verão as pessoas que amam e que tudo o que eles acreditavam tenha se provado uma enorme mentira e suas psiques tenham se quebrado em milhares de pedaços e os tornado extremamente frágeis e fracos. talvez, no fim das contas eles não tivessem chegado até aqui por serem mais fortes e espertos, como eu acreditava, mas por pura sorte e acaso. sendo assim, talvez até tenha sido melhor que eles tenham ido. mas eu não sei… talvez haja mesmo um assassino entre nós e eu não consigo imaginar quem seja. talvez tenha sido até mesmo a mel… não, não acho que a mel tenha matado alguém, mesmo em seu estado abalado, não creio que ela tenha sido capaz de matar alguém. a comida está perto do fim, as refeições são cada vez mais escassas, tendo dias em que apenas comemos uma vez. todos aqui já emagreceram bastante e isso é preocupante, estamos fracos e não sei se seremos capazes de fugir daqui rápido o suficiente e com firmeza e segurança quando precisarmos.

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mais duas pessoas sumiram. agora somos apenas cinco. a quase certeza que tenho é que fernando é quem está mandando todas as pessoas para fora da casa. não sei como ele faz isso, ele não parece forte o suficiente para jogá-las através dos muros, mas se tivesse que condenar alguém, seria ele. só o vemos pelas manhãs, quando temos que dividir a comida do dia, depois ele some pela casa. quando alguém pergunta onde ele fica, responde que está na biblioteca da casa lendo alguma coisa. e é bem verdade, todas as vezes que alguém vai na biblioteca/escritório, lá está ele, sempre lendo. mas não há mais de quem desconfiar! paulo foi o único que manteve algum contato com fernando, eles conversaram bastante e acho que se identificaram. eles se respeitam e não interferem na vida um do outro, creio que é por esse motivo que ambos se dão tão bem, porque eles não parecem se incomodar com o que o outro está fazendo ou nem ao menos dar o menor valor às vidas que se perderam. para eles, talvez, tudo o que importa é que eles tenham sobrevivido até agora. mas isso tudo não passa de uma ilusão! a sobrevivência é temporária, o fim está próximo e, por mais que eu goste do paulo, por mais noites que tenhamos passado juntos tentando fazer silêncio enquanto fazemos sexo para não acordar as outras pessoas da casa, a morte está mais próxima de todos a cada segundo e nada do que fizermos vai anular isso, só temos que aceitá-la.

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as pessoas continuam saindo da casa. todo mundo está procupado com isso. às vezes eu me assusto com as pessoas daqui de dentro. saudades do papai e da mamãe, muitas, queria que eles estivessem aqui comigo e com a mana. outro dia a tia mel veio conversar comigo e aí a gente ficou brincando a tarde toda. foi legal, mas não é como as coisas eram lá fora. aqui dentro ninguém parece gostar de rir, acho que isso lembra como foi boa a vida antes de tudo o que aconteceu acontecer, não sei. um dia desses eu encontrei a mana chorando num canto. eu perguntei se ela estava bem, ela sorriu, enxugou as lágrimas com as mãos e disse que sim, que tudo tava bem e que eu devia ir pro quarto. eu tava pensando comigo mesmo e percebi que nunca mais vi o moço que a mana disse que seguia ela, quando eu encontrei com ele, ele tava na biblioteca, lendo um livro sem figuras. perguntei o que ele tava lendo, mas ele só olhou pra mim e não respondeu. depois disso eu fui embora dali porque não tinha nada com desenhos legais. acho que ninguém aqui da casa gosta do moço, minha irmã diz que ele é mau e que é pra tomar cuidado com ele. eu não acho que ele seja malvado. ele só é calado, ele devia largar aqueles livros só com letras e brincar um pouco.

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os últimos dois dias foram horríveis, a comida está quase no fim e a mel morreu. encontramos seu corpo no jardim da frente ontem de manhã. seu pescoço estava quebrado e ela estava nos degraus iniciais que dão na porta. na noite anterior à sua morte, depois de transarmos, ela disse que iria lá fora pegar um ar. eu disse que era perigoso, mas não me ofereci para acompanhá-la, uma falha sem tamanho. o que parece é que ela tropeçou e caiu com o pescoço no degrau. os fatos apontam para isso, mas começo a desconfiar do meu amigo fernando. todas as vezes que anunciamos um sumiço ou morte ele não esboça nenhuma reação, não parece sentir surpresa ou medo ou raiva ou qualquer outro sentimento. completamente apático. agora somos eu, ele, o menino e sua irmã, que vivem isolados de todos no quarto deles. a comida da casa ainda vai ser suficiente para uma semana se continuarmos com uma refeição por dia, depois disso teremos que buscar outros locais. estamos aqui há quase oito semanas. e a água e comida têm rendido devido às baixas da casa, se antes eu já estava atento, agora devo zelar completamente pela minha vida.

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a tia mel foi embora agora e eu não sei o motivo, mas encontraram ela na porta da casa. eu gostava muito dela, ela brincava comigo e me contava histórias legais e me ensinava piadas engraçadas. a minha irmã está com cada vez mais medo e eu fico tentando dizer a ela que ela não precisa ficar com tanto medo porque eu protejo ela. aí ela me ri, soluça, chora e aí me abraça e fica assim por um tempo até que eu tento sair do aperto dos braços dela e dos beijos que ela fica dando na minha cara. ela fica me babando com uns beijos, eca. essas coisas me lembram a mamãe e o grude que ela era. eu sinto falta dela, mas não disso, não gostava de quando ela apertava meu rosto e essas coisas, já sou um homem, eu dizia, era vergonhoso aquilo. ela me dizia que eu ainda era o bebê dela. eu sinto falta de ser o bebê da minha mãe. um dia desses eu estava andando pela casa e vi uma revista em que o papai aparecia, senti muita falta dele e percebi que eu não lembrava da voz dele e da mamãe. eu mostrei pra a mana a revista com a foto dele de terno e gravata e ela começou a lacrimejar. acho que ela sente muita saudade deles também. queria que tudo voltasse a ser como era antes logo, está demorando demais.

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agora somos só eu, meu irmão e o louco assassino. hoje pela manhã, ao descer as escadas, vi os pés do paulo pendendo no ar, girando de um lado para o outro, uma corda no pescoço o mantinha pendurado ao lustre da sala, sua cabeça estava roxa. não consegui tirá-lo de lá. estou desesperada! tenho certeza que o homem bizarro vai nos matar assim que tiver a oportunidade e ela virá rapidamente, a não ser que eu aja primeiro. tenho que dar um jeito nele logo, não podemos ser vítimas desse lunático, tenho que salvar meu irmão, tenho que fazer isso porque é o que irmãs mais velhas fazem, porque é o que meus pais iriam gostar que eu fizesse! estou trancada com ele no nosso quarto e penso que eu devia tentar dar a ele uma vida normal, ou o mais próximo disso que fosse possível atualmente, mas não sei se serei capaz, sei que para isso tenho que fazer o monstro assassino pagar por todas as mortes que cometeu aqui dentro e deus sabe se houveram outros lá fora! e será hoje à noite, me esgueirarei na biblioteca, que é onde ele vive e o matarei. tenho que proteger meu irmão desse pervertido, salvar nossas peles e nos manter vivos.

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onze semanas nessa casa, tentando me isolar o máximo possível de todos para poder me salvar, perdendo amigos sem motivos aparentes, sentindo falta da minha família, minha esposa e filha – que se parecia muito com a garota que contou a todo mundo que eu me masturbava enquanto a observava da porta do seu quarto, mas na verdade eu estava segurando a foto da minha filha dentro do meu bolso e derramando lágrimas ao lembrar dela, que vi sendo devorada viva na minha frente enquanto eu nada podia fazer a não ser correr. tenho lido bastante para tentar entender o que está acontecendo lá fora, mas não há nada aqui nessa biblioteca que indique algum motivo para a maldição que nos acometeu. dos sobreviventes iniciais, só restaram eu, a garota e seu irmão assassino, e tenho certeza que eles virão aqui hoje. ela pensa que eu sou o matador e fará de tudo para que ela e ele se manterem vivos. devo me cuidar para sobreviver não somente a eles, mas aos predadores que esperam lá fora. o número deles já diminuiu consideravelmente, é verdade, muitos morreram de fome, muitos comeram uns aos outros, mas ainda há um número ameaçador lá na porta. hoje à noite tenho certeza que ela virá me visitar pela primeira vez. não será algo amigável, no entanto.

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minha mana mandou eu ficar esperando no quarto. ela me disse para ficar aqui dentro por toda a noite e que era pra eu não sentir medo em nenhum momento porque ela ia nos salvar e então saiu e trancou a porta, girando a chave na fechadura, mas eu já tinha achado antes uma chave extra pra todos os quartos da casa e escondi comigo, ninguém nunca achou. eu sei o que ela vai fazer nessa tentativa “heróica” de salvar a gente, sei o que ela pensa que precisa fazer. eu acho tudo isso engraçado, porque sei também que ela não vai conseguir, ela é fraca demais para muitas coisas desde que os monstros apareceram, vive chorando nos cantos, se lamentando pelas perdas que tivemos. eu sinto falta do papai e da mamãe, é claro, mas eu acho que se estou aqui é pra continuar vivendo e não vou ficar me lamentando pelas coisas do passado e nem ficar passando fome por causa de pessoas que eu nem conheço que estão acabando com a minha comida. eu mesmo devia fazer o que ela planeja. ela diz que vai me defender, vai fazer a coisa certa para nos manter vivos, mas eu é quem devia proteger ela.

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deixei meu irmão trancado no quarto para protegê-lo, para que ele não veja o que farei para nos manter vivos por um tempo que pode ser curto demais ou longo o bastante, eu não sei. eu disse a ele que logo logo tudo isso iria passar e que poderíamos voltar a viver lá fora. eu me entristeço por ter que contar uma mentira dessas a ele, mas eu não sei como manter as esperanças sem mentir descaradamente. acho que mesmo ele já percebeu que as coisas não vão melhorar pra a gente e que nada vai voltar a ser o que era antes. se não fosse por ele, talvez eu já tivesse me matado há muito tempo, talvez eu nem tivesse chegado aqui. ele tem me dado a força que preciso. ó, deus, eu preciso conseguir terminar com tudo isso agora. dê-me forças, ó senhor, para conseguir pegar esse assassino e enviá-lo direto para o inferno.

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a noite passada foi extremamente confusa. estava decidida a dar um fim na vida do homem que eu acreditava ser o monstro assassino de todas as pessoas da casa. cheguei ao local onde ele passou quase todas as horas da nossa estadia nesse lugar, a biblioteca, pouco depois do sol se pôr e a escuridão dominar a casa. na minha cabeça eu pedia forças a qualquer entidade sobrenatural capaz de me apoiar nessas horas, mas agora acho que tudo o que fiz foi bobagem, rezar tanto foi em vão. quando abri as portas do aposento em que ele se encontrava, avistei-o lendo algum livro à luz de velas, olhou-me quando entrei pela porta, mas parecia não se preocupar com minha presença ali. aproximei-me dele devagar, segurando firmemente a faca com que pretendia assassiná-lo. tentarei reproduzir com o máximo de precisão o que houve lá dentro, por mais confuso e irreal que tenha me parecido.

“venha, se aproxime.” ele me disse sem levantar o olhar, que se mantinha nas folhas do livro. falou comigo com uma calma que me deixou mais nervosa por estar ali, faca na mão, pensando em fazê-lo sangrar até a morte. então fechou o volume que tinha em mãos e dirigiu o olhar para mim “sente-se e diga em que posso ser útil a você.”

eu simplesmente não pude acreditar no que ele estava falando! ele achava que poderia ser de alguma utilidade para mim! não pude me conter e sorri. um riso amargo que naquela luz deve ter feito eu parecer alguma louca.

“ser útil?” eu perguntei num tom de voz que eu mesma estranhei. era arranhado e esganiçado. “em que você pode ser útil, seu assassino!? você pode ser útil morto!” e avancei para cima dele, que pulou para trás numa esquiva rápida para a idade dele. a verdade é que eu nunca ataquei alguém e devo ter sido lamentável ao fazê-lo, de forma que um velho poderia ter feito o mesmo que ele fez. a luz de vela bruxuleava, quase ficamos sem ela com o meu ataque irracional.

“vamos pensar um pouco…” ele disse estendendo as mãos espalmadas na minha direção, tentando me dizer para ter paciência “você acredita que eu tenha acabado com todos que estão aqui na casa, não é mesmo? você acha que eu os condenei à morte um por um de várias formas, não é?” ele me dizia isso como se houvesse um outro que poderia ter feito aquilo, como se não fosse óbvio que entre os três sobreviventes ele seria o único capaz de fazê-lo.

“não há nada a ser pensado, seu assassino! você matou todos eles! e o que eles fizeram a você? te ajudaram a se manter vivo enquanto todos ao redor estavam morrendo! você se aproveitou da boa vontade de todos e da cooperação e matou todos quando achou que nenhum deles lhe servia mais de alguma coisa! você foi um porco louco e egoísta! e agora vai pagar por tudo o que fez no inferno!” mais uma vez eu pulei para cima dele com a faca em punho, mas ele conseguiu segurar minha mão. caimos no chão, ele por cima de mim, tentando me separar da faca. com a luta no chão, ele tentando me desarmar e eu tentando me manter com a faca – e falhando – o pé de um de nós bateu na mesa onde a vela estava, fazendo-a cair no chão e se apagar. naquele momento, a única fonte de luz no aposento provinha da fraca lua que se mantinha no céu lá de fora.

“você não entende que eu não fiz nada disso que você diz que sou culpado? não percebe que nós dois somos inocentes e logo seremos vítimas? não entende que” ele foi interrompido por uma pancada recebida na cabeça, que o fez rolar para o lado e urrar de dor. olhei para meu salvador e era meu irmão. do alto de seus sete anos, havia me salvado das mentiras do assassino, que começava a se levantar ao meu lado, e garantido nossa sobrevivência. tateei pelo chão em busca da faca para poder terminar com o que pretendia, mas fui distraída pelo grito do meu irmão, que acabara de cair no chão, largando o pedaço de madeira que trazia consigo e sendo puxado pelo louco.

“largue ele!” ordenei. o homem naquele momento agarrava meu irmão, que gritava alto, agitando as pernas no ar, impossibilitado de se movimentar.

“você não entende.” a voz dele estava fraca “você não entende que o verdadeiro assassino o tempo todo foi seu irmão…”

eu não podia acreditar no que ele estava falando. como podia ele acreditar que uma criança teria matado todos da casa? como ele poderia pensar que um inocente menino poderia ter feito isso?

“você é louco! louco! não tente pôr a culpa no meu irmão! ele estava comigo todo o tempo! quem matou todos foi você e agora tenta dizer que foi uma pobre criança? seu monstro! largue ele agora!”

ele continuava segurando meu irmão com força, enquanto este se debatia em seus braços nas tentativas de escapar do apresamento.

“entenda, menina, que o verdadeiro mal aqui é ele! foi ele que, usando a aparente inocência, trouxe a morte e maldade para dentro do nosso local seguro. foi ele quem fez tudo isso! não deixarei que você morra tentando salvar o verdadeiro monstro aqui. não deixarei que essa criatura vil escape ilesa, sem pagar as consequências de seus atos! ele deve morrer para que assim nos salvemos, entenda que eu nunca fiz mal a ninguém, perceba que ele foi o arquiteto de todo esse plano.”

“cale a boca! cale a boca!” parti para cima dele para tentar liberar meu irmão, mordi-lhe o braço, fazendo-o urrar de dor e liberar o pequeno de seus braços. “corra, mano! corra!”

meu irmão não correu, ele pegou a faca que estava aos seus pés e enfiou na barriga do homem que tentava lhe imobilizar novamente. fiquei parada, só olhando aquela cena: um menino de oito anos enfiando uma faca num homem.

“mano, corra!”

ele continuou parado, observando o homem que se ajoelhava de dor. pegou a faca e enfiou mais uma vez no tórax que sujeito. ele estava frio e parecia não se importar com o que fazia, parecia que matar, para ele, era tão natural quanto brincar com seus brinquedos, parecia que tudo aquilo era uma brincadeira para ele. então eu vi em seu rosto um sorriso e um brilho maléfico em seu olhar e senti um frio na espinha que fez os cabelos da minha nuca se arrepiarem. e então pensei que o que o homem falou talvez não fosse a mentira, essa frieza toda talvez provenha do fato de já ter matado antes. ó, deus, ó deus, por que não existes? por que não existes para parar com tudo isso, para fazer as crianças não mais matarem? por quê? o homem me encarou nos olhos enquanto sangrava, enquanto meu irmão continuava a enfiar o metal frio em suas entranhas.

me esgueirei por trás do pequeno, que se fazia grande perante o homem quase morto, e acertei-o com o mesmo pedaço de madeira com que ele acertou o homem na cabeça quando pensei que ele tentava me salvar. ele caiu no chão. dei mais alguns golpes, até que a madeira se quebrou em seu corpo já deformado de tantos golpes. aos meus pés, dois corpos ensanguentados, dois mortos. só eu havia sobrevivido, então. todo o meu trabalho para salvar meu irmão havia sido em vão e ele terminou morrendo pelas minhas próprias mãos. ele, o assassino. ele, o assassino? comecei a repensar em todas as noites e as dúvidas voltaram à minha mente. talvez eu tenha errado, talvez meu irmão só estivesse salvando minha vida, talvez ele tenha feito aquilo tudo por medo de perder a única coisa que o lembrava da vida lá fora. ó deus, eu havia me tornado um monstro! então resolvi sair da casa. haveria de morrer lá fora, devorada pelos monstros.

fazia silêncio, abri os portões de ferro da casa depois de muito esforço, pus os pés na rua e não havia nada. as centenas de corpos apodrecidos estavam caídas no chão, mortos de fome. há quanto tempo poderíamos sair da casa? não sei. não encontro ninguém ao redor, nenhum movimento, nada vivo ou morto-vivo. ajoelho no chão, me arrependendo de tudo o que fiz. então, me pergunto: e agora, o que fazer? parece fácil pegar a faca que meu irmão usou e cortar meu pescoço, parece muito fácil, mas eu não sei se é isso que eu realmente quero. o sol começa a nascer. eu quero ver se ainda existe alguém na cidade, quero ser capaz de dizer que sobrevivi ao fim do mundo. é um egoísmo imenso, um egocentrismo sem tamanho, mas é a verdade. eu não quero morrer, não agora que parece que tudo chegou ao fim. então eu acho que vou seguir em frente, vou comer a comida que restou, descansar um pouco em paz, tentar não pensar no que aconteceu e seguir em frente, porque é uma nova vida num mundo novo, e eu acho que estou pronta para ele.

o eterno devir.

fevereiro 4, 2010

costumo sempre perguntar a alguns amigos (geralmente aquele mais chegados) o que eles estão lendo. é uma mania boba que eu tenho. serve para puxar assunto, além de ser uma forma de me atualizar em relação a boas literaturas. é claro que nem sempre eles estão gastando seu tempo com boa literatura (diferente de mim, só tenho boas leituras – not), mas é um preço a se pagar por ter amigos – ninguém vai ler sempre só coisas boas, nem mesmo eu. às vezes, no entanto, eu abordo algumas pessoas que não são tão amigas assim e pergunto se elas estão lendo alguma coisa boa. geralmente eu as vejo na rua lendo um livro que já li e gostei e pergunto se estão gostando. as que lêem livros que nunca li e não tenho uma vontade de ler – o que é o caso das pessoas que encontro na rua lendo a série crepúsculo -, essas eu nem falo nada. simplesmente ignoro o fato delas estarem lendo e sigo com minha vida como se nada tivesse acontecendo. (se bem que já perguntei a colegas: e esse livro aí, é bom? e devo admitir que sem nunca ler o livro sei que fala de coisas que brilham quando o sol incide sobre suas peles e que não podem namorar quando as garotinhas estão menstruadas porque sentem fome.) às vezes as respostas que recebo me dão um enorme desgosto. mas foram poucos os que me disseram que estavam lendo um livro do paulo coelho, o segredo ou outras auto ajudas e pseudo auto ajudas do tipo.

dia desses fiquei feliz por um amigo meu ter começado a maravilhosa obra de isaac asimov, a trilogia da fundação. comentamos sobre a leitura e o fato de que o doutor consegue nos guiar para um mundo fabuloso no futuro, explicar conceitos de matemática e psicologia e falar sobre política sem parecer chato e sem apelar para pares românticos ao longo da história. (e não é que asimov seja um cara insensível, muito pelo contrário. o livro, o fim da eternidade aborda a questão de romance muito bem com conceitos de viagem no tempo fabulosos – e olha que eu, pra falar bem de viagem no tempo, não é fácil. é um assunto muito delicado, esse.) falamos também das influências dele no livro, e como podemos ver na história do livro a história de uma das maiores civilizações que já deixaram registro histórico, os romanos. (depois de ler os três livros, fiquei com uma imensa vontade de ler “declínio e queda do império romano”, que foi uma das inspirações para a trilogia.) tanto ele quanto eu ficamos fascinados com o universo e conceitos criados por asimov, um autor que qualquer ser humano deveria conhecer (leis de asimov da robótica, você acha que foi quem que criou elas, hein?). pena que dele eu não li mais muitas coisas, mas seus contos são de fácil acesso e certamente estarão na minha estante algum dia.

uma boa maneira de se saber o que amigos estão lendo ou leram, sabendo assim as coisas que podem tê-los influenciados a serem as pessoas que são são os sites de relacionamento baseado em livros tais como o skoob ou o goodreads, neles você pode olhar as estantes que expoem as leituras e gostos das pessoas e revelam muito mais do que muito “quem sou eu” de outras redes sociais. é claro que esses não são locais supermovimentados onde as pessoas marcam de tudo, mas já é um bom começo de conversas com pessoas que compartilham de gostos semelhantes. alguns dos meus amigos têm cadastros nesses sites e eu aproveito para comparar nossas estantes. aqui, exporei o caso de uma das minhas grandes amigas, que é tão fascinada por livros quanto eu, ou mais, que lê tanto quanto eu, ou mais (acredito que mais) e que escreve ou escrevia coisas que, mesmo não sendo meu estilo de leitura, eram fabulosas. em sua lista de livros favoritos, há alguns que eu dou valor e há muitos outros que não dou. e vice versa. tenho certeza que para ela o guia do mochileiro das galáxias (o Guia) não marcou tanto quanto para mim, assim como eu acho os livros da lispector coisas completamente passáveis e que a profundidade de seus escritos pode ser comparado com um pires. mas não é sobre isso que quero falar. o que quero dizer com essa minha amiga é que mesmo tendo todas as incompatibilidades – cara, ela gosta de kafka, gosta gosta, e diz que o faz pelos mesmos motivos que eu digo que não o faço, porque nada acontece o tempo todo, do começo ao fim – nós dois somos amigos e adoramos, pelo menos da minha parte, discutir nossas leituras e experiências de leitura. além do mais, mesmo que as coisas que ela goste não me atraiam, admiro muitas delas e quero lê-las porque boa parte  desses livros são considerados clássicos obrigatórios da literatura mundial.

há também minha namorada, com quem gosto de brincar dizendo dos livros que gosto e que ela nunca leu que eles são formadores de caráter e que ela precisa lê-los. e não é nem que o meu caráter seja do melhores, mas é que são obras que me influenciaram tanto que uma pessoa de quem gosto tanto quanto ela deveria conhecer para ter o prazer de talvez me entender mais um pouco. ou talvez isso nem seja um prazer, mas eu tento fazer com que seja. pelo menos os livros são, na minha opinião, fabulosos. em dezembro passado eu dei a ela “os vagabundos iluminados”, do beat viajante jack kerouac, a melhor obra do cara para mim. tenho planos de dar outros livros a ela, algo do vonnegut (lê-se Matadouro 5) , já que ela já leu o Guia e, assim como eu, tem o caráter formado por quadrinhos e não vê problemas quando eu a presenteio com eles, visto que quando eu não dou livros, eu dou quadrinhos de presente. (e nossa, isso é tão fabuloso, minha namorada lê quadrinhos… só quem é meu amigo sabe o quão maravilhoso é isso. só quem gosta das hqs sabe o quão maravilhoso é poder conversar sobre quadrinhos sem ter que explicar boa parte das coisas. ela é meu orgulho.)

mas nada do que sou agora em relação a leituras teria acontecido sem a influência de duas pessoas. meu pai e minha mãe. e não é nem que meu pai leia. ele não lê, mas quando eu era criança, era ele quem mais comprava as histórias da turma da mônica para que eu lesse, era ele quem tinha uma conta astronômica por minha causa na banca de revistas do cara que veio a ser meu tio de coração, meu amigo com quem eu compartilhava livros e conversas e meu padrinho de crisma, mesmo sem que eu acredite em deus e essas coisas. meu pai sempre incentivou a leitura. já minha mãe era o exemplo. ela devorava livros. em um fim de semana de trabalho ela lia cinco livros, sempre a via com livros na bolsa ou a encontrava no quarto lendo enquanto eu via televisão. foi observando ela que peguei a paixão pelos livros, foi com o incentivo de ambos que hoje sou o que sou e como sou. e devo muito a eles e a amigos que me apresentaram autores e a autores que nunca conheci pessoalmente, mas que me apresentaram autores ainda melhores e assim vai. devo muito a cada livro que li, cada bom ou ruim, cada quadrinho bom ou ruim que li, graças a tudo isso sei ser um pouco crítico quando devo e sei ser ameno quando devo. hoje em dia sou o que sou graças aos volumes na minha estante e os que estão além dela. e acho que enquanto viver continuarei em crescimento devido a essas leituras. o que leio agora? os irmãos karamázov, clássico do russo dostoiévski e o demolidor do sensacional brian michael bendis. e você, o que lê?

e viva à eterna contrução de caráter!

A História do Declínio e Queda do Império Romano