Archive for janeiro, 2010

anna lois.

janeiro 25, 2010

quando ela tinha seis anos, seu avô a levou a um passeio num parque de diversões. ela lembrava muito bem de todos os detalhes daquele dia. de como comeu algodão doce e se encheu de orgulho ao  perceber ser capaz de colocar três cachorros quentes na boca. o avô achava isso uma incrível falta de educação, mas se assombrara com aquilo. e a lembrança que ficou naquele dia foi a da cavalgada nos cavalos do carrossel. ela lembra de ter escolhido um cavalinho rosa, enquanto seu avô ficou do lado de fora, observando-a. ela o chamara para dar as voltas no brinquedo, mas ele apenas disse “querida, o vovô está velho demais para o carrossel. se ele for, quando sair ele cai tonto. vou ficar aqui te olhando, tá bom?” ela disse que estava tudo bem. foi no meio da sétima volta que seu avô caiu no chão, na oitava a multidão se amontoava e fazia barulho, na nona gritaram por uma ambulância, na décima ela pôde ver, finalmente, o motivo de tudo aquilo. o brinquedo não parou, ela não podia fazer nada a não ser cavalgar o brinquedo enquanto seu avô era levado numa maca para uma ambulância. ela gritou por ele e foi aí que a máquina parou e ela conseguiu correr até o carro onde ele estava. perguntaram quem era ela, então disse que aquele homem era seu avô e que estava no brinquedo e queria saber onde ele estava e se ele estava bem. lembra de ter explicado o endereço da casa onde morava com os pais e os avós maternos. levaram-na para lá e conversaram com seus pais. o enterro foi no outro dia pela manhã. estava nublado.

quando ela tinha onze anos, enquanto brincava com o vizinho, sangrou entre as pernas e teve que parar a brincadeira porque, de acordo com sua mãe, havia se tornado uma mocinha. ela não havia pedido por aquilo, ela não queria ser uma mocinha, não agora. naquele exato momento ela só queria ir para a porta de sua casa continuar a brincar com seu amiguinho. sua mãe lhe explicara tudo o que precisava sobre como utilizar o absorvente e sobre o que aquele sangramento viria todos os meses. daquele momento em diante descobriu sobre a responsabilidade que carregava e, apesar de não ver o sangue novamente por uns três meses depois daquela primeira vez, entendeu que agora não era apenas uma criança que brincava inocentemente no jardim enquanto seu vizinho, que corria com ela, tentava espionar debaixo de sua saia. estava se desenvolvendo e se tornando uma mulher de verdade, uma daquelas com pêlos no púbis, gordura nas ancas, mamas desenvolvidas para que fossem capazes de lactar quando tivessem a necessidade de fazê-lo.  foi nesses tempos que entrou em contato com sua sexualidade, que descobriu o prazer que seus dedos poderiam lhe proporcionar. e entendeu que para olhar debaixo de sua saia seu vizinho tinha que lhe oferecer muito mais do que simplesmente algumas horas de risadas e brincadeiras de pega e esconde esconde na rua vazia.

quando ela tinha treze anos, arranjou um namorado com o qual passava horas beijando na sala da casa dele enquanto a mãe dele cuidava da casa e seu pai estava no trabalho. ela fazia primeiro ano do colegial, ele fazia cursinho pré-vestibular. um dia chegou para visitá-lo depois da aula, ele ainda não havia chegado, quem abriu a porta foi seu pai que disse a ela que ele tinha uma consulta com o dentista marcada, mas que logo chegaria e que não havia problema em esperar por ele ali. explicou também que aquela era uma tarde diferente das outras, já que ele estava de folga e a mulher estava na casa da mãe porque houveram alguns problemas. ela sorriu timidamente e disse que esperaria na sala. ele ligou a televisão, entregou o controle para ela e disse que ia tomar um banho. pouco tempo depois ele volta à sala enrolado numa toalha verde musgo, pergunta se está tudo bem. ela diz que sim, sorri timidamente. ele senta ao lado dela no sofá, a toalha se solta do lado, mas não revela nada. ele olha para ela bem fundo nos olhos, enquanto ela desvia o olhar para a televisão que passa alguma propaganda de ralador de verduras. então ele começa a dizer que ela é uma garota muito bonita, que seu filho é um garoto de sorte por ter encontrado uma belezura daquelas e que ele mesmo, nos tempos antigos, gostaria muito de ter encontrado uma moça linda como ela. ela baixou os olhos, disse um obrigada baixinho e se afastou um pouco dele. então ele disse que a queria tanto, que desde que ele a viu entrando na sua casa pela primeira vez ele a desejou e que o filho dele não merecia ela. então a agarrou e enfiou a língua em sua boca, a toalha abriu e revelou o pênis ereto. ela ficou impressionada com aquilo. impressionada e assustada. o medo tomava conta dela e quando o homem veio para cima dela, para baixar suas calças e calcinha e enfiar o membro em seu sexo virgem, ela se surpreendeu quando, ao invés de um grito sair de sua boca, ela apenas disse sim e sim e sim.

quando ela tinha dezessete anos, fez uma viagem para o exterior. passou cerca de um mês passeando, aprendendo sobre novas culturas, enriquecendo sua alma e seu conhecimento quanto a diferentes e inúmeros prazeres. descobriu novos sabores e experimentou coisas que antes só havia visto em filmes, comidas, pessoas, posições, de tudo. seria uma viagem para ser quem ela era verdadeiramente e ainda mais, extrapolar os limites do auto conhecimento e se tornar algo maior que si mesma, estava prona para se tornar quem ela nunca havia sido antes perto de todos que, de certa forma, deixavam-na acanhada e um tanto desconfiada, apreensiva de se soltar. na primeira noite subiu para seu quarto com um homem que havia conhecido no início da noite no clube em que iriam comemorar aquele início bem sucedido de férias. ela voltou para a festa uma hora e meia depois, onde encontrou outro homem, um mais novo, dessa vez, um que lhe apetitou os olhos e subiu novamente ao quarto. fez sexo com mais um desconhecido além desse segundo naquela noite. dividindo quarto com ela havia uma amiga, pronta para encobrir tudo o que fosse preciso para que não desconfiassem das coisas que fazia. nas semanas seguintes, seguiu com a média de três parceiros por noite, algumas vezes simultaneamente – experimentou anal e, um dia depois, d.p. -, às vezes separados, às vezes subia também com alguma garota. quando retornou e seu pai perguntou sobre a viagem ela disse que foi uma boa viagem, que pensou muito neles e passou boa parte do tempo orando pela saúde de seus pais, de quem sentia muita saudade.

quando ela tinha vinte e dois anos, estudava psicologia numa das melhores faculdades do país, suas notas eram as melhores da turma e já havia publicado um artigo acadêmico sobre o comportamento sexual de jovens adultos e adolescentes e a influência da pornografia na sexualidade do ser humano. se formaria com louvor e já planejava sua tese de mestrado. havia se tornado uma mulher fabulosa não somente intelectualmente, mas fisicamente. suas medidas eram capazes de fazer as mulheres que saem em revistas masculinas se sentirem meras crianças perto dela, sua pele parecia ter sido tratada num programa de computador e colocada sobre sua carne, seu caminhar era firme e sensual, seu cabelo emanava um cheiro bom, sempre, de canela e mel, sua boca era carnuda e sua voz era delicada etranquilizadora. era querida por todos: seus professores a admiravam, seus colegas e amigos idolatravam, suas colegas e amigas a invejavam, sua mãe e seu pai morriam de orgulho. ela era uma garota de futuro, seria uma das grandes referências da psicologia dentro de anos, seria famosa e rica e tudo isso graças a sua inteligência.

quando ela tinha vinte e três anos, tirou um ano sabático, um período de tempo em que todo o seu trabalho acadêmico estacionaria e ela se dedicaria, finalmente, a seus projetos deixados na gaveta por tempo demais. ansiava por tudo aquilo. já havia feito as ligações e falado com as pessoas certas, tinha conhecido alguém do meio que queria trabalhar. agora ela sentia os holofotes quentes da iluminação do estúdio ofuscando seus olhos, estava sentada no chão de um set de gravação, o ar condicionado ligado no máximo fazia os bicos dos seus peitos nus se eriçarem, mas isso era desnecessário. havia cerca de vinte homens ao seu redor, sendo cinco da equipe de gravação e os outros quinze atores com seus membros em suas mãos prontos para serem engolidos por ela, um de cada vez, dois por vez, três, quantos conseguisse. montara cada um deles como se fosse uma amazona poderosa, a rainha de todas elas, cavalgara cada um como as valquírias fazem nas batalhas quando vão curar os guerreiros. ao seu redor todas as lanças apontam para ela, desarmaria todos e se alimentaria deles, tornar-se-ia mais forte. então, ao sentir o primeiro jato quente tocar sua língua, ela sorriu lembrando da primeira vez que saboreou daquele líquido espesso, sorriu de prazer, sorriu para os quinze que gozariam sobre ela, sorriu para os cinco da produção, sorriu para a câmera e para o mundo que a via do outro lado das lentes. sorriu para seu pai, sua mãe e seu avô. sorriu com alegria, com gozo, com desdém, sorriu porque precisava e porque amava tudo aquilo. sempre se perguntava como alguém poderia não amar aquilo.

Anúncios

não adianta.

janeiro 19, 2010

às vezes você vai se olhar no espelho e, ao mirar sua imagem refletida, vai tentar fingir confiança e dizer para si mesma: “eu já não penso mais nele.” então, perceberá que ao fazê-lo você está pensando em mim e todas as lembranças possíveis de vir à tua cabeça virão. aí você quase irá chorar porque nota que todos esses meses que você lutou para não sentir minha falta foram em vão e que agora você se sente mais só do que nunca. as lágrimas começam a brotar no canto dos olhos da imagem no espelho e escorrem pela sua bochecha lentamente até que você toma coragem e as enxuga com a palma da mão. ao sentar na cama atrás de ti, tornas-te inconsolável e cai no choro incontrolável. apóias o rosto nas mãos e os soluços tomam teu corpo, que se agita como uma epilética. deitas na cama.

ao fechar os olhos, no entanto, você sente o familiar cheiro das flores que eu te trazia todos os dias e que você colocava no criado mudo que ficava à cabeceira da nossa cama, que agora é só tua. então você vira a cabeça, esperançosa, em direção ao móvel onde deveria haver o vaso, mas você não encontra nada: sem lírios, sem cartão que diz que eu te amo, sem o porta retrato com a foto de nós dois abraçados na beira de um lago congelado, completamente agasalhados, rosto com rosto, sorrisos gigantescos dados para aqueles teus amigos que faziam alguma piada. você, não enxerga nada disso, apenas vê as horas: 23:42.  você resolve levantar porque a cama começa a te trazer todas as recordações que você não queria ter nesse momento e você quer fugir delas.

caminhas até varanda, passando distraída pela sala, para olhar o movimento. a noite é calma e isso te faz pensar que é algo bom. fecha os olhos e sente que o vento frio toca a tua pele e você se sente lavada, acha que seus fantasmas foram levados todos pra longe de você. então, ao levantar as pálpebras e o conjunto íris pupila se ajustar à luminosidade, você enxerga de longe um homem de cabelo volumoso. então sentes dentro de ti uma pontada de saudades e não faz a mínima idéia do motivo. você olha o céu, vê a lua crescente e se vira para entrar na sala. súbito, você lembra de todas as vezes que te falei de quando deixei meu cabelo crescer e usei um black power por uns meses. agora você sabe dos motivos de se sentir daquele jeito. caminhas até o sofá e liga a televisão para evitar novos pensamentos.

entre uma passagem de canal e outro você cai num daqueles que exibem pornografia em horário nobre, então, ao ouvir todos os gemidos falsos das atrizes, se lembra de todos os orgasmos que eu fui capaz de te dar sem você quase nunca pedir. então vai lembrar das nossas primeiras vezes, os primeiros beijos, as primeiras cópulas, os primeiros eu te amos e você lembra da tarde em que, depois de fazermos sexo por quase duas horas, eu virei para você e disse “eu te amo e amo e amo e alguém como eu, que te ame tanto, você nunca irá encontrar e isso não é nenhuma praga ou coisa do tipo, é apenas a mais pura constatação de fatos porque… bem… porque eu sempre amo o máximo que se deve amar, mesmo quando não se deve fazê-lo. e eu te digo isso tudo e digo que eu sou um tolo e que nesse exato momento você pode me foder como ninguém poderia fazer mais no mundo inteiro. e você pode nem acreditar em tudo o que eu digo – e nem espero que o faça – porque eu falo as coisas de uma forma diferente, estranha, semantica e gramaticalmente erradas. mas eu te digo tudo isso, meu bem, com a mais profunda e bonita sinceridade, sem a mínima ostentação. eu te amo e acho que o meu amor é o maior que se poderia haver. eu não sou um dos milhares de últimos românticos e você sabe disso muito bem porque… bem… porque eu nem sou tão romântico assim… mas é isso que eu tenho a te dizer agora, depois dessas horas entrando e saindo de você. eu te amo.”  e você vai pensar que essa foi a coisa mais linda que alguém já disse para você e que eu estava certíssimo quanto a isso, porque você sabe do esforço que fez para não dizer meu nome a todas as outras vozes que te falaram ao ouvido durante as tuas relações sexuais, sabe que elas só disseram nada perto de tudo o que eu disse, você sabe que o suposto prazer que eles te dão não é nada perto do que eu te proporcionei. então você resolve desligar a televisão e voltar para o quarto porque você precisa de uma noite de sono e não de fantasmas do passado te assombrando com esses pensamentos.

no caminho para o quarto você ouve um automóvel passando veloz na tua rua e lembra de quando você tinha aquele carro barulhento que mal se movia, mas que nos levava para onde queríamos com um pouco de vontade e um tiquinho de esforço. de repente vem à tua mente as lembranças daquele piquenique que fizemos num campo duma cidade de interior que visitamos só porque achamos que ela tinha um nome esquisito e curioso. então fomos lá e não encontramos nada além daquela vastidão campestre. lembra da textura da minha calça favorita, desbotada de tanto uso. você lembra dos sorrisos, dos carinhos, da alegria e sente falta de tudo aquilo.

então, ao entrar no quarto, você abre o teu guarda roupas à procura de algo meu. encontras um álbum de retratos antigo, que você abre ansiosa, desejando me encontrar nalguma daquelas imagens, mas em nenhuma delas estou. você sente um imenso arrependimento de ter rasgado e queimado todas as minhas lembranças físicas: fotografias, presentes, cartas. o silêncio no cômodo é quebrado pelos teus soluços. você se levanta, deita na cama com o rosto no travesseiro, que abafa teus lamentos e cai no sono, mas não sem antes pensar que na verdade, por mais que você tente, me esquecer será impossível, que embora o tempo passe e leve embora muitos dos detalhes que formam as lembranças, como cheiros e sabores, ele jamais conseguirá apagar por completo tudo o que nós dois fomos, porque sua passagem não deixa de ser um detalhe que enriquece ainda mais cada uma das nossas memórias.

nova vida.

janeiro 12, 2010

quando era jovem eu sonhava com as coisas que um dia teria na minha vida. todas as aventuras e os lugares fantásticos que eu sempre ouvi falar nas histórias contadas pelos meus pais e, principalmente, aquelas que eu escutava nos bares quando fugia de casa escondido à noite para ver os tipos esquisitos que circulavam pela cidade.

eu era uma criança tola, imaginativa, fantasiosa. via coisas nas sombras que nunca estiveram lá de verdade. meu pai, com cerca de vinte e oito anos, cabelos pretos e olhos quase da cor de piche, era dono de uma mercearia e minha mãe, de pele morena, olhos pretos, cabelos cacheados e um olhar de constante preocupação, cuidava da casa com minhas três irmãs mais velhas. eramos sete irmãos e eu era o mais novo de todos. nos torneios de luta de brincadeira, organizados por meus irmãos e que contava com a participação dos vizinhos e alguns primos que moravam perto, eu sempre perdia e era desclassificado logo no início. não que me faltasse massa, eu sempre fui um tanto acima do peso, mas a diferença de idade pesava muito mais do que meu corpo nessas horas e eu só consegui minha primeira vitória ao completar 10 anos. mas a essa altura as brincadeiras dos meus irmãos já não envolviam combater um ao outro no braço, mas competir entre si para ver quem conquistava as melhores garotas.

minhas irmãs sairam de casa para morarem com seus respectivos maridos. lea casou aos dezessete , quando eu tinha oito e engravidou no ano seguinte dando a luz a gemeos e morrendo após o parto. mamãe ficou sentimental por algum tempo e papai seguiu a vida e mandou que todos o fizessem porque era o que havia a se fazer; mia casou-se no mesmo ano, aos quinze anos de idade e engravidou dois anos após o casamento – achavamos todos que ela não seria capaz de gerar bebês, mas a verdade é que havia casado sem que o primeiro sangue tivesse escorrido; cassandra casou-se aos dezenove, quando eu tinha dezesseis e engravidou três meses depois da festa, dando a luz a uma bela menina. todas elas eram lindas e virgens quando saíram de casa, transpiravam inocência e beleza – e foi com elas que ficou toda a beleza da casa, enquanto eu e meus irmãos tinhamos que nos virar apenas com conversa sorrisos e um pouco de charme.

a adolescência foi um momento de certas dificuldades para mim, a língua começava a desejar seu par feminino e meu pênis se enrijecia com uma facilidade tamanha que às vezes me deixava constrangido e triste por não ter em quem introduzí-lo. mas as coisas estavam prestes a mudar. foi numa noite de quando eu tinha meus treze anos… meus irmãos mais velhos se reuniram e me arrastaram para o prostíbulo favorito deles, onde me pagaram a rameira mais barata que havia (“para que desperdiçar uma boa mulher com um garoto iniciante?” – eles disseram). foi uma noite da qual nunca esquecerei. as sensações espetaculares, aquele calor, a umidade, agradeci a todos os deuses por terem feito aquilo daquele jeito. não aguentei muito tempo e jorrei meu líquido dentro da mulher. naquela noite dormi com um sorriso no rosto. algum tempo depois daquela noite, algumas bolhas apareceram no meu membro, mas foram embora depois de algumas semanas esfregando bastante com água, sabão e vinagre de limão.

sobre meus três irmãos mais velhos, que me levaram ao local onde iniciei minha vida adulta, não há muito o que se falar. os três casaram cedo dando início a suas próprias famílias e negócios, de forma que, quando alcancei os dezesseis anos e vi minha última irmã casar, fiquei só na casa com meus pais. nessa época terminei meus estudos – da família, eu havia sido o único a apresentar algum interesse pelos caminhos do conhecimento. papai continuava com sua mercearia – se havia sustentado nove pessoas com ela, podia muito bem sustentar somente três – e mamãe agora que a casa esvaziara e o trabalho diminuira drasticamente, já não tinha mais com o que gastar seu tempo, de modo que me importunava quase todas as horas do dia. é de conhecimento geral que uma mãe, ao ver seu filho sossegado em seu canto, sente dentro de si tamaho incomodo que não consegue acalmar-se. além de estudar, eu trabalhava como mensageiro de um dos meus professores, no entanto, no meu coração, a vontade de viajar pelo mundo e conhecer tudo o que ele pode ser e oferecer se reavivava a cada dia, crescendo e se tornando maior do que a da minha infância.

certa noite, fugindo das conversas irritantes da minha mãe, encontrei refúgio na taverna que eu frequentava quando tinha cinco anos e tudo o que queria era ouvir histórias de outros lugares. quase treze anos depois, eu já não queria escutá-las apenas, minha vontade era ser parte de uma delas. estava eu tomando um caneco de cerveja quente quando um homem alto de cabelos curtos e negros e porte físico atlético-forte começou a se gabar de ter participado das maiores aventuras que qualquer um poderia imaginar. é claro que isso parece uma conversa pra boi dormir – ele começara a contá-la exatamente como contavam quando eu era criança -, mas havia algo no jeito do homem que a falava que o fazia parecer completamente confiável. talvez fosse sua capa um tanto desbotada e suas botas de viagem completamente gastas, apesar do aspecto limpo de sua pele e seus cabelos. eu não sei bem o que foi, mas ao ouvir a história do homem, levantei-me, fui para fora do bar, urinei numa das paredes de madeira do lado de fora, entrei novamente e prestei bastante atenção a ele. em determinado ponto da história, ele apresentou um amigo seu, magro, cabelos longos presos às costas, pálido e com olheiras que pareciam de alguém que não dormia nunca. ele dizia que esse era um dos seus companheiros de grupo de aventuras. observei-os bem e esperei que terminassem o falatório.

quando a história acabou, depois da minha quinta caneca de cerveja, caminhei até o homem forte que se encontrava afastado do seu companheiro. ele me olhou nos olhos e senti que estava sendo analisado. o sangue correu para minhas bochecha e isso me deixou constrangido, porque sei que ele notou. tentei falar alguma coisa, mas minha voz não saiu. ele sorriu para mim.

“tenha calma, amigo, eu não vou machucar você. vamos lá, fale o que quer…” ele era amigável e caloroso, me senti menos intimidado.

“b-bem, senhor.” disse eu numa voz baixa e tímida ” e-eu g-gostaria de saber se o senhor me aceitaria como acompanhante do seu grupo de aventuras.”

ele pareceu um pouco surpreso.

“ora, veja só! não recebo muitas dessas propostas.” ele coçou a nuca “dio, venha aqui!” disse gesticulando para o homem magro do outro lado da taverna. mais uma vez eu senti o sangue corando minha face.

o homem se aproximou de nós, me encarou com seus olhos cinzentos e profundos que se encontravam no meio daquelas olheiras escuras e eu senti um frio gelando minha espinha, parecia que ele podia ler cada um dos meus pensamentos.

“pois não, alter?” disse o homem com uma voz fria e calma como um lago sem vento. era a primeira vez que ouvia o nome do contador de histórias.

“bem, o jovem amigo aqui” ele colocou a mão no meu ombro e me olhou “qual o seu nome mesmo, amigo?”

“hã… meu nome é damien.” meu olhar se deslocava do homem forte para o magro e dele de volta para o outro.

“bem, o damien aqui quer se juntar ao grupo, o que você acha, hein?” ele dizia tudo com um bom humor que me fazia desconfiar que eu estivesse servindo de alguma piada para os dois. dio encarou alter e depois me olhou por um tempo, calado.

“bem, por mim tudo bem, temos que falar com a outra metade do grupo.”

“é verdade” disse alter “damien, o que é que você sabe fazer?” os olhares dos dois se voltaram para mim. a taverna inteira continuava com suas conversas altas e eu não conseguia pensar em nada extraordinário que eu soubesse fazer.

“bem… sei ler, escrever, entendo um pouco das artes da cura e da culinária, além de saber avaliar um pouco gemas e pedras preciosas – essas coisas eu aprendi em livros, não garanto muito a prática. graças aos tomos eu aprendi sobre história e geografia e tenho um pouco de conhecimento de macenaria e entendo um pouco sobre a forja de armas e armaduras, mas não sou muito bom com o manuseio de espadas. entendo de portas e fechaduras – já tive que desmontá-las e remontá-las algumas vezes na minha casa…”

“calma menino” disse alter rindo “não precisa perder o fôlego. falaremos com nossos amigos. eles estão descansando na estalagem. iremos falar com eles agora e dentro de meia hora estaremos de volta com a resposta. fique aqui.” ele sorriu para mim, encarou dio nos olhos e saiu pela porta. os olhos cinzentos pousaram sobre mim mais uma vez, de cima a baixo e seguiu o homem corpulento. estava prestes a viver a meia hora mais demorada da minha vida.

as pessoas ao redor não se importavam que minha vida poderia mudar completamente naqueles minutos por vir, tudo o que elas faziam era continuarem com suas vidinhas, bebendo, falando alto, jogando dardos no alvo pendurado na parede, perdendo dinheiro, ganhando dinheiro, gargalhando, o mundo continuava ali dentro e eu não era parte dele porque tudo poderia mudar drasticamente, e eu esperava ansiosamente por isso. tomei um outro caneco de cerveja e acabei correndo para a porta para vomitar do lado de fora. estava nervoso demais. entrei novamente e fiquei sentado numa cadeira em frente ao balcão do taberneiro. não bebi mais nada. cada segundo parecia meia hora e um século havia passado até que os dois homens voltaram a aparecer no bar, agora acompanhados por uma mulher ruiva de olhos verdes e pele bronzeada, usando um vestido leve e florido que grudava em seu corpo bem fornido e cheio de curvas e um homem careca e barbado de quase dois metros de altura que parecia algum tipo de sacerdote vestindo roupas que pareciam de dormir. os quatro se aproximaram de mim.

“damien” disse alter “esse é ostaf e essa moça linda é dara. eles são o resto do grupo.”

naquele exato momento eu não queria saber de nada daquilo, só queria saber a resposta.

“prazer, eu sou damien.” eu tentei sorrir para os dois, mas temo ter falhado drasticamente na tentativa.

“bem, damien.” disse a mulher. sua voz era suave e bela. ” soubemos que você gostaria de se juntar a nós. o que te levou a essa decisão?”

fui pego um tanto desprevinido com essa pergunta, pensei que eles fossem me dizer diretamente a resposta. eu precisava saber!

“bem, dara… desde pequeno eu sempre quis me juntar a um grupo de aventureiros e agora que tenho idade o suficiente para sair por aí – tenho dezessete anos e oito meses – gostaria de realizar esse sonho.”

“filho…” disse o homem que parece sacerdote ” você sabe que essa vida não é fácil, não é? que requer vários sacrifícios e que noites como essa, em tavernas, contando histórias, são resultado de dias na estrada, dormindo no chão duro e longe de casa há muito tempo, não sabe?”

“sim, eu sei, senhor. é exatamente isso que sempre desejei. não o chão duro, não as tavernas, mas a estrada, o companheirismo e a aventura.”

os quatro se olharam.

“veja bem…” dio começou a falar “no momento nós achamos que nosso grupo está com o número perfeito.”

comecei a sentir um desânimo me assolando, tomando conta de mim por dentro, estava prestes a ruir, tinha medo que fosse chorar a qualquer momento.

“mas…” continuou ele, senti um aperto no peito quando ouvi essa palavra saindo de seus lábios “achamos que você, especialmente, poderia ser uma aquisição boa para o grupo. seja bem vindo, damien. partiremos amanhã pela manhã. esteja na estalagem quando o galo cantar com suas malas. você tem montaria?”

fiquei estupefato com a notícia. estava exultante e não sabia como reagir. fiquei parado por um tempo. a taverna inteira pareceu se calar, mas isso não aconteceu de verdade, foi apenas perspectiva.

“filho…” senti a mão de ostaf em meu ombro e seus olhos castanhos encontraram os meus “você tem montaria?”

“oh” disse eu voltando à realidade “não, não. quer dizer… meu pai tem alguns cavalos, dois ou três para fazer algumas entregas da mercearia. talvez eu possa pedir a ele um deles para que eu possa montá-lo e viajar com vocês.”

“bom. faça isso.” falou dio. “nos encontramos na ‘estalagem do sol poente’ amanhã quando o galo cantar. até mais, damien.”

“até.” disse eu, excitado com tudo o que havia me acontecido.

“tchau.” me disseram o resto do grupo, saindo da taverna todos juntos.

naquela noite cheguei em casa, arrumei minhas coisas e disse a papai e mamãe que estava saindo para conhecer o mundo. meu pai falou para eu tomar cuidado, concordou em me passar um de seus cavalos. já a mãe não foi tão condescendente, fez um pouco de manha, disse que eu estava abandonando ela, disse que eu era seu bebê e que não podia ir embora assim, mas o pai explicou a ela que já estava na idade de eu sair de casa como os outros fizeram. ela parecia inconsolável, mas eu disse que essa era minha escolha e que pela manhã estaria indo embora. voltaria quando desse e que tentaria mandar alguma mensagem para ela assim que encontrasse um serviço de mensageiro confiável. fui dormir com ela dizendo que não aprovava aquilo e que eu só queria causar desgraça a ela com esse meu mau comportamento, mas, antes do cantar do galo ela estava me acordando com um beijo e um abraço, dizedno que me amava e me entregando minhas coisas todas arrumadas na porta de casa.

cheguei na estalagem montando o meu cavalo e todos já estavam na porta esperando por mim. o galo cantou. eu sorri. disse um bom dia a todos e me falaram que rumariamos para o sul, ouviram falar de um homem que comanda um vilarejo rico com mão de ferro. o sol se levantava no leste e o galo cantou mais uma vez. era uma vida nova que se iniciava para mim naquela manhã. e eu estava pronto para ela.

o teu perdão.

janeiro 9, 2010

“talvez você não acredite em nada disso. e eu nem peço que você o faça, porque acho que cabe a cada um de nós escolher nossas crenças. no entanto, respeitar essa individualização de pensamentos não quer dizer que eu deva me privar dos direitos de te achar ridícula e demonstrar isso todas as vezes que eu puder, através das minhas gargalhadas e olhares – se você não acredita no que estou falando. sabe, mulher, acho que você seria capaz de me olhar bem fundo nos meus olhos com os seus, depois de toda uma noite juntos trepando feito dois animais no cio- ou fazendo amor, como você prefere chamar nossas noites de conjugação carnal – e me perguntar, enquanto estamos suados, cansados, sugando todo o ar que nossos pulmões puderem, se eu realmente gosto de você, se eu sinto o mínimo de amor por ti. você também é capaz de dizer que não me conhece nem um pouco, enquanto eu penso que você é a pessoa que mais sabe sobre mim que eu conheça. você sabe minhas vontades e meus medos, sabe meus sonhos todos e meus pesadelos. você é a pessoa que pode me reduzir a pó numa só sentença ou que pode me fazer ser menos pozinho. mas você sempre consegue me surpreender ao descrer nas coisas que falo. como se eu fosse o maior mentiroso da face da terra – eu acho  que às vezes você deve realmente acreditar que eu sou e eu não entendo realmente os motivos de você pensar isso. eu rio sempre, porque é tudo o que eu posso fazer em relação ao que você acha ou deixa de achar quanto aos meus sentimentos e pensamentos direcionados a ti. você, com seu cabelo de todas as cores, tua boca de vários sabores, me faz pensar que o louco de tudo isso sou eu, quando, na verdade, sabemos direitinho quem é. você me diz que tem medo de me perder nesses meus surtos de loucura, só que quando vamos analisar os fatos, quem foge sempre é você e eu que tenho que ir atrás, correndo descalço no asfalto quente feito um louco fugindo do hospício ou um ladrão escapando da polícia, galopando na estrada como um filme romântico clichê, esperando que haja um engarrafamento n’alguma ponte antes de você chegar na auto estrada e ultrapassar todos os limites de velocidade existentes – porque sabemos que seu pé é um tanto pesado e que  a velocidade te deixa tão excitada quanto um beijo e uma lambida no teu pescoço. você até me diz que não faz sentido eu correr atrás, já que você é quem não quer mais nada, mas se eu não for, não encontrarei mais um bom motivo para seguir a diante. é sempre assim. nada disso é justo, mas quem foi que disse que seria? o conceito de justiça foi criado por nós homens e, desde então, tentamos aplicá-lo às coisas naturais e básicas do universo, como a vida, mas quem disse que elas seguiriam tais regras e leis? quem disse que  os próprios sentimentos,  que deveriam ser subordinados a nós, já que foram criados e alimentados por nós com todos os pensamentos e esperanças que temos, o fazem? eles acabam nos subordinando a eles e nos fazendo de gato e sapato. é muito complicado explicar toda essa baboseira, por isso que eu nem ouso tentar. eu simplesmente sigo, faço sempre o que me dá na telha e termino sempre te ferindo sem querer e me ferindo porque te feri e me arrependendo por te ferir e me ferindo mais ainda para que você veja que estou realmente arrependido e que jamais foi minha intensão causar o mal inicial, mas às vezes acho que não é essa a forma correta de se fazer as coisas e você me diz que não é, que eu ajo feito uma criança, me pondo de castigo como se assim eu fosse consertar tudo o que fiz, quando na verdade termino não mudando em nada o ocorrido. mas acho que quando você me diz essas coisas todas, você percebe que meu arrependimento nos meus olhos e nos meus gestos infantis é real e consegue, de alguma forma que eu não entendo, me perdoar. entenda que essa coisa toda que temos não faz o menor sentido, é extremamente irracional, mulher, meu bem, meu amor – ou o que quer que venha na cabeça para te chamar nas horas em que estamos a sós – mas quem disse que eu preciso de razão quando tenho você? quando tenho você, é somente isso que quero ter, para sempre, você: uma vida ao seu lado, uma morte ao seu lado, o que quer que seja que venha depois, se vier algo depois, como você acredita que vem e eu teimo em dizer que não para te ver ficando rosa, vermelha, roxa de raiva e eu me por a rir, mas que na verdade eu torço para que exista, já que se assim for, estarei mais e mais tempo ao seu lado – mas, veja bem, eu não acho que haja nada esperando por nós do lado de lá. para ser sincero, eu nem acredito que tenha um lado de lá, não faz a menor diferença, no fim das contas porque eu quero que você entenda uma coisa: eu quero e vou te amar até o fim, até o universo inteiro se expandir e se encolher, até as malditas estrelas se apagarem, até o tempo conhecer a eternidade, até que o último átomo se canse de existir e se despeça de seus prótons e nêutrons e elétrons e todas as suas subpartículas que eu não conheci porque meu ensino médio só me permitiu chegar até aí. agora olhe ao redor,  veja as pessoas putas da vida dentro dos carros. está um baita calor, um trânsito infernal. olhe para mim agora e entenda o que fiz, perceba que isso só aconteceu porque foi para você. então faça esse favor para mim, mulher, e saia desse carro, suba nesse cavalo e vamos embora daqui, porque estou cansado e quero tomar um banho contigo e dar umazinha antes de dormir ao teu lado.”

 

(texto originalmente publicado aqui e aumentado no dia 9 de janeiro)

tudo o que você conhece parte II (ou, tudo o que você continua conhecendo.)

janeiro 1, 2010

em outros cantos de tudo o que há por aí, muitas coisas aconteciam. moléculas conviviam entre si em harmonia, isoladas de muitas outras diferentes, mas sem grandes conflitos. os elementos básicos, hidrogênio e hélio, que não queriam se unir a outros, permaneciam isolados em suas conhecidas comunidades, alguns deles, entretanto, aqueles que antes haviam tomado a decisão de formar planetas, disseram que precisavam de umas férias e um passeio por aí seria bom, então resolveram dissolver algumas de suas ligações, fazendo com que os corpos do qual faziam parte já não fossem mais tão unidos, indo cada um para seu canto da existência, prontos para conhecerem tudo o que pode ser conhecido até cansarem e resolverem se assentar em algum outro lugar bom para eles e se reunirem mais uma vez a outras moléculas.

nos planetas em que as associações moleculares eram estáveis, como vimos anteriormente, as alianças formadas se tornavam cada vez mais complexas, com bactérias englobando suas semelhantes e se tornando cada vez maiores e desenvolvidas, com novas funções cada vez mais difíceis de  se imaginar que um dia seriam capazes de ter, mas as pequenas danadas se mantinham bem. é claro que muitas delas falharam, e as evoluções ocorriam em períodos bem espaçados de tempo. mas a história sempre pode ser resumida a poucas palavras, como estou fazendo agora para a compreensão dessa grande lenda contada por aqueles quem têm boca e querem falar a todos que têm ouvidos e querem ouvir. e, por mais que alguém pense que esses são muitos espalhados por tudo o que existe, eles são a incrível, absurda e indignante minoria.

as já famigeradas bactérias, que agora se uniam umas às outras para um bem cada vez maior e não queriam mais ser chamadas por seus nomes, mas se designavam “células no tecido da vida”, estavam prestes a assinar um dos contratos mais arriscados da história até então: a saída de seus organismos para fora da água, já que a vida ali dentro estava oferecendo riscos demais. os organismos, que eram formados por inúmeros conjuntos desses “tecidos da vida”, responsáveis por funções que antes pareceriam mera fantasia (dividir criaturas em dois gêneros, onde já se viu? bem, agora isso era a realidade e a reprodução agora gerava maior variabilidade, algo bom para todos), competiam entre si de forma desigual e um pequeno grupo de células, responsável por novas adaptações e as grandes revoluções, começou a trabalhar nos projetos para tornar viável o plano audacioso. depois de algumas milhares de tentativas e centenas de milhares de falhas, viu-se que tudo estava pronto para ser executado. o mundo subaquático engoliu as risadas quando o primeiro ser pisou no solo fora dos oceanos. pequenos passos, diriam depois, mas importantíssimos para o que até então se conhecia como vida.

logo após o ocorrido, vários outros dos amontoados celulares resolveram se unir à nova adaptação. refinaram suas linhagens até o ponto em que estivessem todas aptas o suficiente para que as aventuras pelo desconhecido mundo, onde a luz incidia diretamente sobre eles e não sofria a refração que a água lhe causava, fossem possíveis. houve um enorme impacto sobre todos os organismos, que passaram subitamente de seres pacatos e acostumados à vida aquática a exploradores de primeira grandeza, sonhando com a desbravação da superfície iluminada do planeta que observamos com tamanho afinco. mas é claro que a novidade não agradou a todos, os tradicionais e céticos, descrentes que a evolução do planeta estaria acima deles, na sujeira da terra e barro, diziam que o melhor para todos era continuar onde estavam. escolhendo para si outras adaptações para o futuro, outros utilitários que não fossem aquelas coisas que serviam para se arrastar pela imundície, permaneceram nos mares. diziam que aquela moda estúpida não os levaria a lugar nenhum e todos eles acabariam se arrependendo daquilo tudo algum dia. eles não poderiam estar mais certos.

desse momento em diante, acompanharemos de uma distância tranquila e segura tudo o que acontece com aqueles que resolveram se arriscar no mundo seco e iluminado, onde passaram de seres pegajosos e úmidos recém saídos do oceano, para criaturas escamosas e secas, ganhando tamanho e se alimentando agora das grandes plantas que se desenvolveram na superfície do planeta sem que a observássemos, já que a ação, na botânica, não é das mais instigantes (e quando falamos anteriormente das bactérias que se alimentavam de luz, você acha que não estávamos falando exatamente de como as plantas começaram?). havia samambaias gigantescas e líquens e muitas outras coisas verdes fotossintetizantes que serviam de alimento para os pequenos organismos que começavam a diferir entre si entre pequenos, médios e grandes. depois de algum tempo alguns deles conseguiram até um pouco de pêlos e se tornaram minúsculas bolotas peludas que lutavam para se esconder já que não queriam terminar sendo a refeição de seres ligeriamente maiores. e era assim que o mundo seguia, aumentando cada vez mais a variedade de vida sobre sua superfície.

houve uma época da história da vida como ela tem sido em que, sobre a terra, reinou um tipo espetacular de organismo; assustadoramente grandes – gigantescos mesmo -, magníficos e monstruosos. foi um período difícil para os seres pequenos – que tinham, em sua grande maioria, a estranha mania de roer coisas – já que a qualquer segundo poderiam ser facilmente pisoteados ou sua vida se esvairia de seus corpos entre os dentes afiados de alguns dos animais, vamos chamá-los assim de agora em diante, de maior porte. já os gigantescos animais – viram como essa palavra funciona? – competiam entre si pela comida. havia, entre eles, aqueles que comiam somente a carne de outros e os que devoravam toneladas das plantas que os cercavam. as antigas alianças em prol das boas evoluções quase inexistiam entre os habitantes. é claro que houveram inventos revolucionários, como as asas, mas em sua grande maioria, todos pareciam se concentrar apenas em caçar uns aos outros, matar tudo que encontrarem e arrancar suas carnes de seus ossos para encher suas barrigas. instinto de sobrevivência do mais básico que foi elevado a níveis danosos, como veremos adiante.

como todo grande reinado, houveram tempos bons, de enorme riqueza e ascenção, onde o temor e o respeito é facilmente notado. mas é dos períodos ruins que devemos nos precaver sempre, coisa que não fizeram. caíram em terra por não saberem organizar sua alimentação – caçavam mais do que precisavam, deixavam sobras demais – aliado à decisão de se assentarem nesse planeta tomada por um dos nossos já conhecidos aglomerados-de-elementos-unidos-que-viajam-pela-existência-à-procura-de-um-local-bom-o-suficiente-para-descansarem. então, depois de centenas de milhares de anos como donos do planeta, eles sumiram da superfície, deixando – depois de alguns meses de escuridão e cinzas causado pelo grande pedaço de matéria-exploradora-do-tudo-o-que-há que se uniu ao planeta – tudo livre para que aquelas pequeníssimas criaturas, as quais sobreviveram roendo pequenas sementes e coisas do tipo e que antes eram assustadas demais para sair à luz do dia e explorar a vastidão ao seu redor, se arriscassem em passeios nunca antes feitos.