Archive for novembro, 2009

tudo o que você conhece parte I.

novembro 26, 2009

há uma lenda contada de ouvido em ouvido que diz que as coisas não são como nós acreditamos que são. essa lenda é a maior verdade que alguém poderia carregar consigo.

antes de existir tudo o que existe, havia o nada. e o nada reinava sobre a existência, ele era tudo o que havia e existia desde sempre, até o momento em que decidiu que estava cansado demais para continuar existindo como o nada que era e resolveu que já era tempo de deixar de ser. então, o nada, sendo o que era, se tornou tudo o que existe e que se conhece, tornou-se o universo, a vida, e todas as coisas mais, cada uma a seu tempo. não foi uma experiência que se diria divina, não houve um deus que disse para se fazer a luz ou verbos se fazendo carne nem sopros quentes formando tudo. foi apenas o bom e velho nada se transformando facilmente em tudo o que existe por puro cansaço, a mais linda preguiça de existir.

então, como costuma acontecer quando nada deixa de existir, começa a haver alguma coisa. a primeira coisa que surgiu, no entanto, foi um tanto inesperada. quando se esperava que existisse uma estrela, um mundo, uma planta, uma coisa bonita como uma pintura ou até mesmo uma nuvem de poeira, veio uma explosão. não que essa explosão – bem grande, por sinal – tenha sido feia ou qualquer coisa assim, porque, pra falar a verdade, se assistirmos a uma delas de uma distância segura, podemos ver que até conseguem ser bastante bonitas. o que ocorreu, no entanto, significou o nada se tornando o tudo-que-há e espalhou por todo o canto tudo-o-que-começou-a-existir-naquele-momento. com esse fenômeno, foram criados átomos e todas as suas subpartículas. (na verdade foram criadas as subpartículas, que em conjunto formam os átomos, que se juntaram um dia e formaram moléculas, mas não agora, não ainda) um dia, na solidão da existência, átomos de hidrogênio resolveram que eram demasiado solitários em suas vidas e resolveram que ligações covalentes não eram o suficiente para eles. queriam uma união mais estável, um elo mais forte. resolveram que iriam se juntar, ser uma coisa só. e assim surgiu o hélio. a mesma seqüência se repetiu determinado número de vezes por um tempo, até que boa parte do que a população mundial teoricamente conhece como “elementos químicos da tabela periódica” surgiu.

do surgimento dos elementos até a criação das primeiras estrelas e mundos foi um pulo de poucos bilhões de anos. os elementos, em sua natureza pura, são muito solitários e buscam sempre manter-se ligados a alguém, ou outro de seus ou um diferente, formando o que são conhecidos como moléculas. um dia, n’algum ponto de entre-tudo-o-que-há, um elemento conheceu outro e, juntos, viram que eram bons, comunicaram a seus semelhantes que isolados não eram tão bons quanto unidos e que aquela ligação talvez fosse para o bem maior de todos. assim surgiram conglomerados de moléculas, formando então nuvens e terra e mares e planetas, enquanto os hidrogênios continuavam com suas atividades de se unir e formar hélio em massas gigantescas conhecidas como estrelas.

em alguns destes “planetas”, com a influência certa da geografia espacial, da radiação, calor e outras fontes de energia propícias, certas moléculas viram que só se tornariam melhores e importantes se conseguissem se reunir de forma organizada, de um jeito que tornasse possível fazerem cópias de si mesmas ou algo muito parecido, de forma com que passassem adiante no tempo alguma parte de si, ficando de certa forma “imortais”. assim surgiram as primeiras formas de replicadores, se multiplicando feito pequenas pragas invisíveis até que um dia elas se tornaram grandes demais para permanecerem como estavam e saltaram aos olhos de quem os tem. é claro que, na época, ninguém os tinha e ninguém viu tudo isso. ninguém além das próprias moléculas e átomos sabiam o que acontecia no mundo, e foi assim que tudo continuou por muito tempo.

mas é claro que, uma vez que notado o aumento considerável das chances de sobrevivência de todas caso vivessem em conjunto e que, quanto maiores os conjuntos fossem, maiores seriam as probabilidades de continuarem com sua existência como moléculas preservada, começaram a se unir cada vez mais, como nunca antes haviam pensado que ligações poderiam ser feitas, formando conglomerados mais e mais complexos entre si e até mesmo fazendo alianças com aquelas que diferiam de si por causa de suas estruturas, unindo-se numa só cooperativa em prol da sobrevivência mútua. assim, surgiu algo que gostam de chamar por aí de vida.

as primeiras formas de vida, no entanto, não eram muito semelhantes ao que hoje vemos por aí. na verdade ainda não se podia ver muito bem o que elas eram. bactérias e coisas microscópicas – veja bem, antes elas eram invisíveis, não de verdade, mas para simplificar tudo, eram. com o passar dos anos, foram se tornando cada vez mais complexas, incorporando, através de acordos burocráticos envolvendo grupos moleculares e/ou outras semelhantes, novas funções e coisas do tipo. foi numa desses acordos que um grande número delas conseguiu um acordo que faria com que outras trabalhassem para elas produzindo alimento e energia provinda de luz solar, apenas. antes disso todas tinham que gastar o pouco de força que tinham modificando algumas das moléculas que continham para poderem obter o substrato necessário para se manterem vivas e continuarem assim por um bom tempo; agora, no entanto, muitas delas teriam quem conseguisse a energia tão preciosa para elas. a vida era boa e o trabalho era feito por terceiros. só era preciso manter as engrenagens funcionando.

depois que “o grande passo em direção à evolução”, como foi o slogan inventado na época para justificar todo o ocorrido, foi dado, o mundo sofreu uma revolução. as criaturas que não conseguiam transformar luz solar em alimento sofriam com a diferença absurda entre sua quantidade, além de reclamarem com o sistema absurdo que era a produção de substrato daquela forma: a obtenção de comida a partir da energia luminosa se dava através de uma série de reações entre moléculas, liberando muitas delas de um só elemento, que começou a se reunir a outras bactérias prometendo dar muito mais energia a elas caso uma ligação entre as partes fosse realizada, no entanto, a alimentação deveria ser provida por outras formas, já que eles não tinham como fazer isso. era uma prática já conhecida entre as produtoras de alimento, mas foi a primeira vez que tal oportunidade se abriu para aquelas que não o faziam. o número que se uniu aos elementos foi imenso, a existência em alguns cantos de tudo-o-que-existe foi alterada de forma nunca antes vista.

Carro. (texto de fevereiro, nunca publicado, semi-revisado, mas não muito)

novembro 20, 2009

eram 10 da noite ou coisa assim. ela entrou no bar balançando aqueles seus quadris largos de um jeito que poucas mulheres saberiam fazer. sua pele de uma tez amarelada que me lembrava café com leite, muito leite, era coberta por panos de tons claros, uma camiseta branca que deixava à vista as alças de seu sutiã também branco e uma saia longa da cor de sangue coagulado, um amarronzado meio estranho de se ver em roupas que deixava tudo com a aparência de sujo ou caindo aos pedaços. caminhava com pés leves, que arrastava mais que levantava, dizendo com sons onde estava e para onde ia por onde quer que andasse. ela era magra e alta, as pernas longas e grossas juntavam-se ali por baixo de sua cintura fina formando ancas largas. tinha pequenas mamas que poderiam caber, sem esforço algum nas palmas das mãos e, ainda assim, capazes de satisfazer qualquer homem que quisesse nelas se esbaldar. seu rosto tinha algo de não comum. ela era linda, mas não uma linda dessas ordinariamente lindas, havia um tanto de beleza nela que era indecífravel. havia tristeza e dor de uma vida escondidos por trás da negritude brilhante de seus olhos lindos, duas estrelas no meio da maldita escuridão, queimando como supernovas e me atraindo como se eu fosse um de seus planetas. seus olhos eram capazes de me sugar para dentro dela. seus lábios finos me fizeram pensar que talvez não existisse outra pessoa no mundo com lábios tão finos quanto os dela. e era basicamente tudo isso que me passava na cabeça quando ela entrou pela porta do bar, caminhou por todo ele e sentou ao meu lado no balcão, onde eu bebia sozinho. já ia pela terceira ou décima terceira garrafa quando veio e sentou sua bela bunda no banco ao lado do meu e pediu uma bebida qualquer ao garçon que trouxe rapidamente. então ela encarou o bar com uns olhos que me fizeram crer que ela via detalhes que ninguém mais seria capaz de ver. naquele exato momento eu saquei que ela sabia muito bem o que era sofrimento e uma pessoa assim a gente não pode deixar passar sem tentar puxar para nossas vidas.

“a próxima dose eu pago.” eu disse sem dirigir meus olhos aos seus. disse alto o suficiente para que ela e o garçon ouvissem. tomei um gole longo diretamente da garrafa, senti o amargo da cerveja na boca, quase o gosto da vida.

ela acenou levemente com a cabeça sem deixar claro se estava concordando comigo ou se apenas se perdeu dentro de seus pensamentos em algo mais distante que tudo aquilo. preferi acreditar que ela estava dizendo sim para mim, olhei-a bem através dos cabelos curtos e negros que lhe caiam sobre a face. fiquei encarando por um tempo até que minha garganta ficou seca e me voltei para minha bebida. não trocamos mais uma palavra até que ela terminou seu drink num longo gole, virou para o barman, levantou um dedo fino e ele não exitou em trazer a dose que prometi, mais da mesma porcaria descolorida que ela acabou de engolir. eu pensava que ela não diria nem um obrigado pela bebida ou coisa do tipo, estava calada como antes, olhando o copo ser preenchido por gelo e depois pela bebida. o silêncio entre nós dois começava a me aborrecer, há certas pessoas com quem manter o silêncio é um ato incômodo, porque ali, entre esses dois seres, há tanto potencial a ser explorado que ficar calado encarando o vazio por tempo demais parece simplesmente desperdício, não faz o menor sentido. mas naquele dia não seria eu quem diria qualquer coisa para puxar um papo qualquer, até porque papos quaisquer não pareceriam ser o suficiente para que ela me desse atenção. aquele corpão não cairia na falsa lábia que os bêbados costumam acreditar que possuem, muito menos os que costumam beber num bar de esquina qualquer. um peixe grande num rio pequeno, ela não se encaixava ali e eu, pescador de fim de semana, não tinha o equipamento necessário para trazê-la pro meu barco. faltava isca, uma boa vara, um bom anzol. ela escaparia e eu nunca mais a veria.

foi ela quem puxou assunto. virou para mim e, depois de um demorado gole em seu copo longo cheio de gelo, perguntou se eu não ia falar nada com ela. eu sorri e disse que falaria sim, mas estava me decidindo sobre o que eu falaria. não seria bom simplesmente virar para ela e falar que achava que ia chover porque isso não seria uma boa base para se construir uma linha de conversa, não tem a consistência necessária para uma boa noite de papo.

“preciso de algo que me faça parecer engraçado sem parecer idiota; inteligente sem ser arrogante. interessante a ponto de fazer você pensar…” ela não me deixou terminar a frase.

“eu quero dar pra esse cara loucamente.”

“para quem?” perguntei olhando ao redor e voltando meu olhar para ela com um sorriso de desculpa estampado nos lábios. “ok, piada errada, jogada errada. e…não, que faça ela pensar que eu sou alguém que ela não vai se arrepender de conversar porque conseguiu mantê-la sem se sentir entediada numa conversa por mais de 15 minutos.”

“e você acha que eu dou para caras que não são assim?” ela me olhava com um sorriso sacana no rosto. um sorriso que qualquer um pode ver facilmente numa atriz pornô, mas que só surte o devido efeito numa garota comum, que não trepa por dinheiro na frente de uma câmera e, até aquele momento, ela não havia se revelado como uma delas.

“todas dão. uma hora ou outra.” tomei um gole direto do gargalo.

seu sorriso morreu, ela engoliu mais da bebida, lambeu os lábios finos, agora umedecidos e resfriados pelo gelo e vodca, acho, gelada.

“por que pagou a bebida?” ela perguntou apontando para seu drink. “digo… se não quer me comer, por que pagou?” ela parecia realmente confusa.

“a verdade é que eu não consigo ver uma moça bonita e não oferecer um drink a ela. você é uma moça bonita e… eu quero sim te comer, em momento nenhum eu disse que não queria. você tem um rosto lindo que seria a moldura perfeita para o meu pau, peitos pequenos que eu adoraria passar noites inteiras sugando, um buxinho incrível que só se nota quando você senta e sua camiseta levanta um pouco por qualquer besteirinha, um movimento ou coisa assim e eu só penso em como eu adoraria mordê-lo, uma cintura fina boa de segurar e uma bunda que, meu deus, é uma das mais desejáveis que eu já vi e, devo confessar, quando você entrou, pensei: ‘essa garota tem que sentar ao meu lado e eu tenho que levá-la embora daqui. porque meus olhos precisam ver esse corpo fora desses panos, essa linda bunda nua, essa mulher de quatro, minhas mãos precisam estapear essa carne’ e, desde então, tenho pensado em como agir.”

“a bebida foi sua ação, então?”

“é…a melhor que pude imaginar. um clássico e todos sabemos que clássicos nunca morrem.” tomei mais um gole da cerveja, ela estava quase no fim e eu começava a ter dúvidas se eu conseguiria uma ereção se eu precisasse de uma naquela noite. achei que estava na hora de parar com a bebida, pelo menos por uns minutos.

“e pra onde a gente vai depois daqui?”

“pra onde o seu carro levar a gente.” eu terminei com a minha garrafa, finalmente “além do mais, não gosto de escolher lugares.”

ela riu e foi aí que, pela primeira vez, notei em seus dentes o brilho metálico tão típico em adolescentes e que nunca conseguirei me acostumar em adultas. e ela era mais velha, seus olhos me mostravam que ela era mais antiga que eu que, apesar de ostentar pêlos mal nascidos num rosto mal esculpido, não passava dos vinte e poucos anos, com poucas marcas do tempo, enquanto ela tinha toda a idade em seus olhos e não ao redor dele, como todas as outras pessoas.
saímos de lá no carro dela e eu pensei na sorte que era ela ter um carro bom já que eu, àquela altura da vida, ainda vivia de empréstimos, de amigos e táxis. ela disse que iríamos à sua casa e eu disse ótimo.

e estava ótimo. a casa dela era um apartamento, prédio alto num bairro nobre da cidade. ao ver a sala eu já sabia que ela não precisava sair pra beber em bares baratos para se envolver com estranhos e levá-los pro seu lar, seu ninho. tempos depois eu entendi o porquê de ela fazer aquilo, descobri que era algo que a excitava, o desconhecido, a estranheza do corpo novo. sua sala tinha dois sofás, nos quais esbarramos ao tentar passar, entre beijos, para outro cômodo no escuro. seguimos diretamente para o quarto, onde a luz da lua entrava através de janelas de vidro com cortinas abertas. lá fora, o mar refletia o céu negro e a cama de casal nos serviu de arena onde brincamos nus. e brincar não quer dizer fazer sexo, mas simplesmente brincar como duas crianças bobas, uma fugindo da outra, gritando enquanto tenta escapar do aperto de um, como no jogo de pega, se escondendo sob as cobertas como no esconde esconde. e isso nos rendia risadas e mais risadas. nós, vestidos com nada além de pele e pêlos, gargalhávamos sobre um colchão. morremos algumas vezes e, por breves segundos, ficamos num silêncio sério, um olhando para o outro para, logo em seguida, soltarmos um sorriso leve, calmo.

o que tivemos durou um tempo. a duração dessas coisas nunca parece ser suficiente quando  se vive seu fim. é engraçado lembrar de tudo o que aconteceu, os detalhes, porque nos faz perceber com damos valor a coisas que realmente não têm nenhum valor. é claro que sei que houveram momentos que nenhuma outra pessoa será capaz de me proporcionar, assim como sei que nunca mais farei coisas que fiz com ela, sei que há coisas que sentirei falta (o cheiro dela, meu deus, o cheiro daquela mulher e as coisas que fazia na cama…) e há coisas que me farão agradecer por não mais estar com ela. mas há riso em outras pessoas e esquecemos disso quando é nossa pele que é beijada pela chama.

foi descobrindo que não havia espaço para um nós em sua vida que tudo entrou em combustão. foi ali que descobri seu tesão pelo desconhecido, por desconhecidos, pelo novo. havia me descoberto demais para ela, entregado coisas demais e, na cabeça dela, não havia mais nada ser descoberto, eu era um livro lido e, aparentemente, ela já sabendo de todo o final, não era tão interessante assim. eu entendi, estava tudo bem, doeu, é claro, pensei que não fosse seguir em frente, pensei que fosse parar ali, estancar, mas não. segui. hoje a vida me mostra coisas que antes passavam desapercebidas a meus olhos, hoje vejo garotas no bar e elas são lindas, fabulosas. não penso mais em parecer interessante, só penso em como quero colocá-las no meu carro e ser chupado por elas enquanto dirijo até o motel mais próximo daqui para lá comê-las como se fossem a última boceta do deserto. hoje tenho um carro e não vou mais a apartamentos de desconhecidas.

Escuro.

novembro 13, 2009

se ele pensasse bem e se esforçasse um pouco nisso, poderia lembrar perfeitamente da primeira vez que se sentiu verdadeiramente bem. ele devia ter pouco mais de três anos e estava na cama, dormindo um sono tranquilo. a madrugada começava a avançar e, lançando por sobre ele seus tentáculos macios e silenciosos, o ninava em suas cobertas. lembrava de sentir um leve desespero e medo tomando conta de sua mente infantil quando acordou e nada viu, mas logo se acalmou quando ouviu com clareza uma voz fria e distante, como nunca antes ouvira, lhe dizendo coisas que ele gostaria de ter guardado, mas não conseguiu. essa é a primeira lembrança de sua vida. não de um brinquedo ou uma brincadeira, não de sua mãe ou seu pai, seus avós sorrindo e lhe cercando de alegria, dando carinho e amor, mas da escuridão que o envolvera e tinha contado a ele seus segredos.

apesar do ocorrido, pode-se dizer que sua vida não foi extremamente diferente da que outras crianças de seu convívio tiveram. o que se poderia dizer dele é que era uma criança que não tinha medo de escuro. sempre se escondendo nos lugares mais escuros, onde sabia que seus colegas da escola e amigos da rua não o procurariam por terem medo da ausência de luz, medo do que as trevas podem vir a esconder, medo das fantasias contadas a todos sobre as criaturas das sombras. mas ele não se intimidava com aquelas histórias. ele sentia que as conhecia todas, não sabia de onde, não sabia o porquê, e sabia que nenhuma delas era verdade. que a escuridão era uma coisa natural, tanto quanto a luz do dia e o calor do sol. sabia que tudo o que os pais de seus amiguinhos contavam sobre monstros no escuro eram apenas histórias para enganá-las, mas ele não entendia muito bem os que levava a enganarem suas crias, por que eles queriam tanto que seus filhotes temessem algo? talvez o medo que eles próprios criaram quando eram criança, quando seus próprios genitores contavam as histórias sobre a noite e o escuro a eles, tenha crescido e agora esteja na hora de se multiplicar. o medo age como um de nós, precisa se espalhar pelo mundo. mas as histórias assim, sobre a morte no escuro, aquele que entra nas sombras e nunca volta, vêm desde os tempos em que os homens viviam em árvores e descê-las após o sol se pôr era suicídio, uma coisa que já não fazia sentido, já que as feras do mundo estavam domadas e viviam em casas iluminadas, sentadas em salas e fumando charutos, bebendo suas bebidas caras e assistindo a seus programas de televisão. seus colegas riam dele quando ele contava tudo isso, chamavam-lhe de esquisito quando ele defendia as sombras como se fossem suas amigas. por isso achava melhor não falar sobre isso e continuar brincando, enquanto ganhasse no esconde esconde, tudo estaria bem e haveria sempre motivos para sorrir.

a lembrança da voz, entretanto, era uma constante na sua vida. desde que completara sete anos, todos os dias, se perguntava se aquilo tudo aquilo havia sido real ou se fora apenas um sonho bobo de criança – um pesadelo, como diriam seus pais quando ele mencionou o estranho fato – e qual seria seu verdadeiro significado, se é que tudo nessa vida precisava de um significado. ele não sabia se isso era verdade, não acreditava muito que havia motivos bem explicados para tudo no mundo e podia jurar a todos que os maiores mistérios da humanidade ainda nem foram arranhados. quando o questionavam sobre os motivos de suas crenças apenas dava de ombros, não sabia explicar, acreditava no que acreditava porque lhe parecia lógico, óbvio, nada além disso, uma sensação de que aquela é a forma certa, apenas. mas sua infancia passou sem que a escuridão tornasse a chamá-lo para contar-lhe mais de seus mistérios.

então chegou sua adolescência e já não era mais tão fácil manter um sorriso no rosto. essa foi a fase em que mais buscara o isolamento proporcionado pela escuridão. e não era sem razão, sua pele oleosa lhe proporcionava espinhas que às vezes inflamavam e se tornavam gigantescas bolhas amareladas que tomavam seu rosto e o deformavam de maneiras que só rostos adolescentes podem ser deformados. ele teve sorte de essas serem coisas um tanto quanto normais para qualquer cidadão nesse período da vida. ele sempre presava pela discrição, o silêncio, a calma e o silêncio. não era uma pessoa difícil de lidar, não brigava com seus pais mais do que qualquer outro na sua faixa etária brigaria, não arranjava confusões no colégio e uma vez ou outra se apaixonava perdidamente por alguma garota cujo nome ele não fazia a mínima idéia. tudo normal para ele, mesmo depois da noite em que a noite falou com ele.

ele não conseguia dormir. estava na cama há três horas e meia e nada de conseguir fechar os olhos e dormir. havia pensamentos demais em sua cabeça para que ela ficasse leve o suficiente para alcançar o sonhar. sempre há, e não há masturbação que alivie certos tipos. eram exatamente esses malditos tipos que o assombravam naquela noite. claro que se ele fosse comparar seus problemas de antigamente com os de hoje em dia, ele imploraria para que todos eles voltassem, mas ele não pode fazer isso e os problemas todos parecem muito melhores vistos de longe no futuro, quando todos eles estão com uma solução óbvia esparramada na nossa frente. temia que a qualquer momento sua mãe ou seu pai abrissem a porta do seu quarto e gritassem com ele qualquer ordem envolvendo fechar os olhos e dormir. ele lembrava de invejar os adultos e sua facilidade em simplesmente se apagar de forma tão fácil, evitar os malditos fantasmas que vinham conversar. mal sabia ele que os fantasmas só fazem falar mais alto com o tempo e que adolescentes não têm verdadeiros fantasmas, não têm problemas, não têm nada com o que se preocupar além de meia dúzia de matérias escolares. foi enquanto tentava ficar atento a qualquer movimento do lado de fora do quarto que a escuridão entrou em seu quarto através de todas as brechas possíveis: porta, janela, a moldura do ar condicionado. assustou-se a princípio, mas logo se acalmou, suas lembranças, que lutavam para permanecer em sua mente como algo real, chegaram em sua mente como uma enxurrada, então pensou: finalmente.

o encontro esperado com aquela que sempre o deixara fascinado estava acontecendo finalmente e, dessa vez, ele teria idade o suficiente para fazer perguntas, para lembrar, para ter uma conversa normal com a escuridão, seja lá como uma conversa normal com ela seja.

observou, então, enquanto toda a escuridão ficava cada vez mais densa na sua frente, fazendo-o com que nada enxergasse e, ao mesmo tempo, sendo ela tudo aquilo que ele via, preenchendo completamente sua vista com sua forma aforma. o escuro não veio para ele como sempre pensara que viria: uma bela mulher vestindo roupas coladas negras, talvez feitas de vinil – um tanto fetichista, ele deveria admitir -, que criaria um trono de sombras densas e sentaria nele e, assim, pareceria que flutuaria no ar, porque o quarto todo estaria tomado pela mesma escuridão sobre o qual ela sentava; então, cruzaria as pernas sensualmente e falaria com um tom profundo e calmo, com gestos precisos e confiáveis, as coisas todas que ele esperava ouvir e que não sabia o que seriam, nem conseguia supor. mas ele logo notou que não havia uma personificação para o escuro, assim como não havia personificação para luz ou para bem ou para o mal. todas essas entidades não podem ser contidas em tão pouco espaço. então entendeu que seus pensamentos eram tolos e se envergonhou deles. aceitou que aquilo que o cegava era o que ele esperava que o fizesse desde seus três anos, desde quando tivera seu encontro com ela e fora ninado por seus braços confortáveis. aquilo era a escuridão e era com ela que ele falaria.

foi precisamente com ela que falou, com quem tivera a conversa mais importante e esclarecedora da sua vida inteira, a que mais marcou e cujos detalhes jamais serão perdidos, aquela que jamais escapará dos recônditos de sua mente; a mesma sobre a qual nunca falara com ninguém em todos os seus longos anos de vida, porque foi o que foi prometido naquele quarto envolvido pelas trevas. naquela noite ele fez perguntas – várias delas tolas e infantis, muitas delas perguntas que ele nem sabia que tinha, mas assim que as lançava percebia que sim, precisava de uma resposta para elas também – e obteve tudo o que sempre sonhou, cada confirmação ou negação de suas suspeitas, seguidas de simples e lógicas explicações, sem muita enrolação, sem a subjetividade que você esperaria de uma conversa com a escuridão. também lhe foram ditas coisas que ele não fazia idéia da existência, os mistérios que antes lhe parecia impossível terem suas superfícies arranhadas, arreganhavam-se para ele como as pernas de uma prostituta francesa muito bem paga. a conversa com as trevas, no entanto, também não era uma conversa comum – com palavras e todas essas coisas que estamos tão acostumados – havia a mistura de conceitos intrínsecos à natureza do homem com as novidades que ele ansiava por conhecer e havia, então, todo o encaixe das peças, até aquele preciso momento, soltas desse quebra cabeças que alguns teimam em chamar de vida. naquele dia, ele foi contemplado com a visão macroscópica da existência. a escuridão tomou sua mão e o levou onde apenas seletos homens tinham ido antes. então, como se tudo o que existisse fosse uma pintura, ele foi se afastando de onde estava, grudado à tela de pano, onde ele era uma pequena gotícula de tinta, e percebendo aos poucos, à medida em que se distanciava, os contornos e os jogos de luz e sombras da pintura inteira e as cores ricas e os detalhes belos daquele quadro singular até que ele conseguiu enxergá-lo em sua totalidade. e era lindo.

depois daquela noite, diferente do que se pode pensar, ele não passou a ver a vida de uma forma tão diferente da que era acostumado, mas passou a perceber boa parte das coisas que antes lhe passavam despercebidas. tudo fazia parte do grande plano do acaso. o reino do caos ao seu redor e as infinitas possibilidades começavam a se expandir em sua mente e ele era capaz de visualizar com perfeição todas as conseqüências das escolhas quando queria fazê-lo. mas percebeu que se o fizesse sempre a vida não teria a graça da imprevisibilidade que tem. então, boa parte das vezes, ele simplesmente esquecia – ou fingia esquecer, para assim se convencer de que realmente conseguira esquecer, mesmo não tendo esquecido – que era capaz de ver tudo o que queria, que sabia coisas que todos os outros não sabiam. e quando ele sentia que precisava, mais do que nunca, perceber as conseqüências futuras de seus atos – ou dos outros, dependendo dos casos – , ele buscava nas trevas seu consolo, sua paz e sua resposta.

então completou sua adolescência e passou sua vida adulta tendo conhecimentos que nenhum dos outros seres ao seu redor possuia. às vezes achava que aquilo que sabia não era de fato tão significativo assim. mas havia dias em que notava que, sem o entendimento de como toda aquela maquinaria funcionava, achava que não conseguiria seguir em frente sem perder parte importante de sua sanidade. quando era tomado por sentimentos de impotência e desespero, como ocorre com a maioria dos humanos – mesmo aqueles que entram em contato direto com as trevas, a luz ou qualquer outro dos grandes aspectos da realidade -, recorria aos mistérios a ele revelados e tentava se acalmar relembrando da pintura inteira vista de longe e de como ela era bela e fazia sentido. então tornava a seu lugar no quadro, a pequena gotícula negra que forma a sombra de uma poeira. o mínimo, o ínfimo, o quase inexistente, o detalhe importante que não poderia faltar. quando se sentia melhor, voltava à sua vida no meio de tantos outros, seguindo seus caminhos como qualquer outro seguiria.

ele se escondia nas sombras porque ali era seu lugar, seu lar, o local ao qual pertencia. era para os becos escuros que ele fugia quando queria se sentir em casa, quando precisava se sentir abraçado e acarinhado. e era  ali, pelos braços das trevas, que ele era envolvido e tudo o que sentia, preenchendo-o lentamente, até que ele sentisse uma paz de espírito gigantesca, era a escuridão. nada no mundo seria capaz de perturbá-lo quando ele se mesclava às sombras. nada poderia chegar perto de ser comparada àquilo. então ele percebia que tinha consigo tudo o que sonhava e que não precisava de mais nada. como o quadro, ele estava completo.