Archive for outubro, 2009

estrela solitária.

outubro 29, 2009

é escuro e é noite e é uma das mais quentes do ano. uma daquelas em que as nuvens começam a se tornar densas no céu, preparando-se para desabar sobre todos, e abafam tudo o que está sob elas e escondem tudo que há acima delas. existem muitas noites assim, essa é só mais uma e eu poderia dizer que é nela que nossa história acontece, mas não é. há um homem de feições leves sentado num canto de um bar, o mesmo canto de todo dia, ele transmite, em seus traços, mesmo com a barba constantemente por fazer e o cabelo sempre precisando de um corte, um ar de confiança que contagia a todos que o vêem. é ali, em seu canto, que bebe até começar a ver embaçado, até começar a esquecer, até quase não suportar o peso de sua própria cabeça e quase cair no sono. mas ele nunca dorme. sempre sai do bar sozinho, depois de assistir a cada um de seus amigos ir embora – nenhum deles chega ali com ele, nenhum sai dali com ele – , cada rosto desconhecido entrando e saindo pela mesma porta pela qual ele sai caminhando enquanto o dono do bar gira suas chaves e tranca sua porta. no entanto, não se sabe o que ele faz enquanto o sol passeia pelo céu e as portas do local que lhe parece o lar estão fechadas. as pessoas, sempre elas, falam sobre os seus possíveis refúgios. essas pessoas falam demais, sempre, e essa é uma mania odiável que não parece estar nem um pouco perto de ser abandonada.

entre passos trôpegos nas idas e vindas do banheiro, o homem interage com os clientes do local contando casos engraçados de sua vida e piadas a todos que estiverem dispostos a ouvir. se apresenta a desconhecidos com cerimônia e pompa, meneando a cabeça para os homens e flertando com moças, que riem com seus galanteios e, depois de algumas recusas, conta histórias sobre suas amantes e suas grandes glórias do passado (um número surpreendentemente elevado para um homem que vive como ele vive, entre a escória da cidade, sempre bêbado). conquista muitos assim, com sua espontaneidade e alegria, conseguindo algumas doses de bebida na conta de quem oferecer. no entanto, ele nunca pediu a ninguém que lhe pagassem a bebida e, por muitas vezes, recusava que o fizessem, mas depois de insistirem por algum tempo com seus “ora, vamos”, “por favor”, “não me faça essa desfeita”, aceitava de bom grado. quando estava de bom humor dizia que queria celebrar com todos, isso acontecia mais ou menos uma vez a cada dois meses, e todos sabiam o que isso queria dizer: as bebidas daquela noite, para quem estava sentado com ele em sua mesa, seriam na conta dele. sempre foi uma dúvida constante, daqueles que sabem um pouco de sua situação, como ele arranjava o dinheiro para pagar por suas bebidas. ele ria, chamava o questionador de criança tola e dizia que era tudo muito simples e que ele nunca estava devendo nada a ninguém e que, na verdade, o dono do local devia a ele alguns favores e não havia ainda álcool no mundo que chegasse perto de pagar sua dívida. apesar dessa dívida que alegava que o dono do estabelecimento tinha para com ele, pagava sempre tudo o que consumia. todos duvidam do que ele falava e espalha-se por aí que ele é herdeiro de algum milionário desconhecido que deixou todo o seu dinheiro para ele. havia sempre, em seu bolso, dinheiro para saldar sua dívida no fim de cada noite. e não importava quão grande fosse a conta, havia sempre o suficiente para uma generosa gorjeta. perguntávamos a ele se ele não tinha medo de ser assaltado ao sair de casa com todo esse dinheiro no bolso (todos viam quando ele abria a carteira e tirava uma nota de cem do meio de, no mínimo, outras cinco) e ele dizia que não tinha medo de nada por ali e que ninguém iria se envolver com ele. advertiamo-lhe que o mundo estava mudado, que as coisas no seu tempo eram diferentes e que hoje em dia não dava mais pra andar por aí tão seguro de si. acho que tudo o que lhe dizíamos, no entanto, soava para ele como piada, porque ele ria e tomava um gole de sua bebida.

ninguém encontrava com ele durante o dia. alguns diziam que o viam pedindo dinheiro n’alguma esquina do centro da cidade, sentado no chão com um chapéu à sua frente. quando lhe diziam isso ele praguejava e dizia que as pessoas deviam ter mais o que fazer com suas vidas curtas e miúdas como a das moscas de frutas. ele dizia que havia pensado em abandonar tudo isso há muito tempo, por causa dessas coisas, partir para longe daqui e conhecer coisas mais interessantes. mas, ele dizia, aqui tinha os melhores drinques e as melhores comidas. e que de forma alguma ele queria cruzar com alguns daqueles seres. não sei de quem ele se referia, mas ele pareceu bem sério quando disse isso. o assunto do que fazia durante os dias nunca foi esclarecido. uma vez sentei na mesa dele e começamos a beber, só eu e ele, e conversar. contei-lhe sobre minha vida, meus dois filhos, meu trabalho, minha esposa e o amor que senti por ela e temo já não sentir e o medo do abandono e a insegurança que a vida me proporciona agora. falei-lhe do emprego e as frustrações que ele me traz, meus sonhos e esperanças todas que foram embora pela janela, achando que podiam voar e morrendo logo abaixo, depois da queda. então, depois que abri meu peito e enchi meu copo de lágrimas e whisky,  ele, um tanto afetado pelo álcool, seus olhos brilhando como os de um ébrio, me contou coisas que supostamente viu e viveu. eu não sei por que, mas tudo o que ele falava me parecia bastante real e possível – talvez fosse o álcool – , como o fato de eu estar ali respirando. ele me falou de jantares e de pessoas que não eram pessoas e me falou de como viu cidades de prata e de como a sombra dela era agoniante e desesperadora para os homens como eu (ele não se incluiu no gênero), me falou de como era a vida fora desse plano, falou-me de visitas ao deus baco, disse-me a sensação que é fazer amor com deusas e tentou me explicar alguns dos grandes segredos. fez uma lista de lugares que conheceu e que eu achava que eram lendas, mentiras criadas para encantar crianças e fazê-las sonharem com esses locais.

perguntei-lhe o que diabos ele fazia ali, no entanto. se ele havia estado em tantos lugares, por que continuar naquele mesmo bar, naquele mesmo canto, com aquelas mesmas pessoas?

ele segurou minha mão, disse meu nome e disse que era por causa de pessoas como eu. “por causa de pessoas como você, meu amigo, eu acho que vale a pena continuar por aqui, com essas bebidas maravilhosas, suportando o que vier.”

quando saí do bar naquela noite, o céu estava fechado e era escuro. ele ficou lá dentro. lá em cima as nuvens começam a ficar densas. está quente, abro dois botões da camisa e chamo um dos táxis que ficam ali na esquina. entro nele, digo meu endereço e vou embora. está abafado e quente. é impossível ver a lua ou as estrelas daqui de baixo, queria acreditar que elas também não nos vêem de lá de cima, mas elas vêem tudo.

confissão.

outubro 28, 2009

as cartas estão guardadas dentro do guarda roupas, prontas para serem esquecidas por mim, mas nunca sendo. às vezes eu me pergunto onde estão as páginas que escrevi e mandei pelo mundo. me pergunto se elas foram esquecidas ou se existe a vontade de não mais lembrar o que elas diziam como existe aqui. mas eu lembro de muita coisa porque é assim que sou: alguém que não aprendeu a esquecer, que não gosta de esquecer, na verdade. acho que precisamos aprender a conviver com o que passou muito mais do que simplesmente fingir que nada ocorrera. já pensei muitas vezes em fazer a língua das labaredas lamber as palavras escritas naqueles papéis, os desenhos criados e pintados, cada envelope trabalhado. ainda guardo cada laço que ornamentava suas obras. espero o dia em que criarei coragem para fazer algo com elas… mostrar a alguém, jogar tudo fora, transformar tudo em cinza. e eu me pergunto que fim tiveram meus meses inteiros postos em palavras, meus pensamentos mais íntimos derramados em folhas de papel sujo por grafite. são quase uma da manhã e quem come sozinho na frente do computador pensando num patético passado de um ano atrás sou eu. quem pensa, às vezes, que há exatamente um ano, estava dedicando boa parte do seu tempo e de seus pensamentos a apenas um assunto, que se foi e não rendeu, sou eu. e sou eu quem se sente culpado por saber que não consegue fazer muito mais que textinhos de amores mal realizados, não correspondidos, fins tristes de coisas que não aconteceram porque nunca tiveram a oportunidade de acontecer de verdade. sou eu quem tenho coisas que não devia na parede, que vive com o passado no presente. seja nas paredes do quarto ou nas estantes do quarto de hóspedes ou ao lado da cama. o passado infesta minha vida. e o passado era cheio de sonhos.

sempre abro o guarda roupas e sento no chão para ver o que aquele espaço reservado para algumas tranqueiras me mostra. e é lá que estão as cartas. cartas que gostaria de reler, de pessoas que me fazem bem até hoje e algumas de quem me levou ao céu para soltar pouco depois que atingisse sua capacidade máxima. meu quarto cheira a passado e os sonhos que nele havia. hoje estava tomando banho e me veio a vontade de ser turista. sair pela cidade sem ter conhecimento de para onde ir ou que rua tomar ou onde comer uma boa comida sem correr o risco de uma grave intoxicação alimentar. senti falta das coisas que tive em janeiro: conhecer lugares novos por mim mesmo. ontem, ao brincar com minha carteira enquanto esperava por alguém, encontrei uma foto que deveria ter rasgado, queimado, matado. nela não havia um sorriso ou nada do tipo. era uma três por quatro datada do ano passado, dessas que se usa para fazer inscrições de vestibular. eu já deveria ter me desfeito dela, mas não consigo, ela está na minha carteira junto a outras fotos minhas. simbolizando uma coisa que já não existe há quase um ano. escrevo sobre uma coisa que não existe há mais tempo do que existiu. mas só escrevo porque a dor é universal e eterna, porque eu vivo do passado melhor do que vivo do presente e melhor do que especulo qualquer possível ou impossível futuro. senti uma vontade imensa de rasgar a foto ao meio e dizer que “ontem rasguei teu retrato, te matei e dormi”, mas seria uma mentira e uma coisa absurda. iria contra o que tento pregar de que não é assim que se supera as coisas, que descontar a frustração e raiva nas coisas que nos restou do relacionamento não é bom e que assim não aprenderemos nada. às vezes eu penso que ela sabe disso e torço para que ela não tenha rasgado ou dado ou jogado fora o livro que dei. no entanto, sei que ela já deve ter esquecido o que ele dizia e já não deve acreditar que aquelas palavras eram sinceras, apesar de serem. eu mesmo não acredito, hoje, em um quinto das palavras que ela me disse. mas acho que, ao escrever esse texto estou dizendo a ela para não crer nas minhas, já que prometi a ela que não haveria mais textos para ela. mas, ora, se ela ainda não percebeu que eu a enganei com isso – e eu não queria tê-la enganado, queria ter cumprido essa palavra, mas tudo o que senti foi maior que eu e, às vezes, eu precisava de inspiração d’algum lugar e isso parecia a coisa mais fácil a se fazer, como agora. preciso escrever porque há dez dias não escrevo e… esse é o assunto mais fácil sobre o que divagar: dor de cotovelo. e ela foi a minha dor de cotovelo mais recente. não sei se foi a que mais doeu até agora, sei que não vai ser a que mais vai doer na vida (queria eu que fosse, mas não, há muito o que ser machucado pela frente).

um dia conseguirei reler todas as cartas que ela me escreveu e rir de cada uma delas, da tolice que traziam e das doces mentiras, mas acho que hoje ainda não estou pronto para isso. prefiro que elas continuem onde estão, sem a luz do dia, sem meus olhos correndo por sua letra que me maravilhava por suas curvas. às vezes sinto falta de suas palavras, de sua alegria, de seu carinho. mas não de seu amor, não de amá-la. não do jeito que dizíamos. sinto falta ainda, como há um ano disse-lhe, de todos os momentos que não tive com ela, dos filmes não assistidos juntos, das tardes não passadas juntos conversando, das saidas à noite para qualquer lugar com som legal e pessoas legais. todas essas coisas que tenho com amigos, e não tive com ela, me fazem falta. assim como me fez falta há um ano o colo dela quando não podia tê-lo. quando pude tê-lo ela não quis me dar e hoje não mais o quero, fico feliz que ela tenha alguém que a faça feliz, sinceramente, feliz como ela não me deixou fazê-la, porque ela cria que eu não seria capaz. quem sabe, talvez, eu não fosse mesmo.

ménage à trois.

outubro 16, 2009

as notas musicais são mais altas que o som da televisão. a voz sai das caixas de som dizendo que se eu quise-la ela estará no bar. eu acho que preciso dela como preciso desse texto. é um pouco superficial a minha necessidade, mas me faz bem saber que joni mitchell está ali por mim e eu estou aqui por mim também. eu preciso escrever para falar, criticar, me expressar de alguma forma porque ficar tempos sem escrever qualquer meia dúzia de palavras que me façam sentido está me fazendo um pouco de falta. muita, na verdade. dudu nobre está no jô, mas eu vou continuar fazendo como fiz por toda a minha vida e ignorar o que ele faz para seguir com a minha vida. e não é nem que eu não curta o samba/pagode que ele faz, se eu fosse ouvir esse estilo seria algo próximo da música dele que escutaria. é apenas… a falta de vontade de qualquer coisa. há dias eu não me sinto impulsionado a escutar música por horas. a ler por horas. em poucos minutos desligarei o meu player e verei alguns episódios de uma série de tv cancelada em 2002.
acho que nunca vi um filme inteiro do woody allen, apesar de ter um pôster dele dobrado em algum lugar do meu quarto (ganhei-o no ano passado de uma pessoa que, nas palavras do gabriel, “me fez bem e depois me pôs na lona.” e essa frase cai como uma luva) – resolvi desligar a tv para, assim, escutar melhor tudo o que ela tem a me dizer. – no pôster tem uma frase dele. eu não lembro qual é, sei que ela esteve pendurada na parede do meu quarto, na cidade para onde não quero retornar, por alguns meses. então, nessa madrugada em que eu não consigo pensar no que fazer, resolvi que assistiria a algum filme dele. a obra escolhida foi Annie Hall que, se não me engano, virou de alguma forma, “Noivo neurótico, noiva nervosa”. amanhã, creio, se tiver algum tempo, verei Annie Hall.
acabei de ir à cozinha e preparei um café com leite. olhei minhas opções e a pizza do jantar não parecia tão apetitosa assim… esquentá-la no microondas recém chegado do conserto não me pareceu a melhor opção. seria ótimo ter um biscoito doce ou uma barrinha de chocolate, mas não tenho. tenho, no entanto, café, leite e o adoçante que me acompanha desde os 12 anos. foi na cozinha, pensando em como warren ellis, grant morrison, neil gaiman e alan moore escrevem numa quantidade imensa, que resolvi voltar, tomar veronha na cara e continuar a escrever. não que eu esteja querendo me comparar a esses geniais filhos de umas éguas que eu admiro e invejo (warren ellis está entrando pro hall de roteiristas que eu respeito aos poucos, neil e alan fundaram esse hall e o grant me conquistou com algumas das obras quadrinísticas mais loucas que eu já li – e uma das mais lindas, All Star Superman. longe de mim chegar perto desses casas, mas é que a dica de qualquer escritor para novos escritores é: “escreva todo dia”. e eu não escrevo todo dia, cara. eu não escrevo de verdade há semanas. eu não teria sobre o que escrever todo dia e, quando me peguei pensando nisso, percebi que eu deveria realmente escrever todo dia. nem que fosse sobre a bunda de alguma garota que passou por perto de mim naquele dia e eu reparei. (há um conto parado, por sinal, vinte e oito ou vinte e nove dias da minha agenda do ano passado, sobre um relacionamento fictício pateticamente inspirado por uma garota linda dos cabelos longos e castanhos escuros, pele branca e uma bunda maravilhosamente redonda e grande e linda e de uma mancha no rosto que uma vez eu vi na fila da saraiva ajeitando a calcinha sonoramente – a onomatopéia pléc se encaixaria muito bem aqui – e depois disso comecei a encontrar com ela na faculdade. ela não faz medicina, já tentei descobrir, à distância, qual curso ela faz, mas falhei entre economia e alguma engenharia. ela é sensacional, do tipo colírio, um rosto de garota má, olhar frio e concentrado, do tipo capaz de reduzir um homem a nada se quiser. mas ela tem um macho.) meu café com leite esfriou loucamente enquanto escrevi tudo isso de uma vez, trouxe também para me acompanhar por essa noite uma garrafa de um litro e meio de água. será uma longa noite, como todas as outras da semana têm sido.
meu celular não toca desde as 18:40 e era minha mãe. antes disso ela me ligou às 14:00, 14:05, 14:10 e 15:00. antes disso a última ligação é da noite passada e era retornando uma ligação que eu havia feito para convidar uma amiga para ver um jogo num bar. o único som que ouço é o do ar condicionado. desliguei o som antes de ir à cozinha, quando me decidi que veria seriados pelo resto da noite. está claramente perceptível que eu não sou um dos seres mais decididos do mundo. eu chego a sentir falta em alguns momentos de alguma voz além das que falam na minha cabeça, aquelas que dizem: agora você deve falar sobre isso e isso e isso. até elas estão caladas ultimamente. desde pouco antes delas irem embora eu andava confuso, sentindo falta de coisas que eu não sei o que são, que talvez eu nunca tivera, mas que desejara. é a época do ano. ano passado lembro de ter sido atingido por sentimento semelhante, mas eu tinha meio que um jeito de deixar a loucura escapar sem me sentir culpado e sem ser ignorado. era bom. há tempos não escrevo uma carta que não seja um presente de aniversário e eu me sinto mal por isso, me sinto culpado por achar que não conseguirei nunca mais escrever 11 folhas de papel, frente e verso com minha letra miúda e enviar tudo num só envelope gordo pelo correio. eu temo nunca mais conseguir arrancar tanto assunto do nada como antes eu conseguia. e até nos meus versos eu vejo a repetição extrema e o cansaço. eu não consigo enxergar nada de novo neles e me entristeço e decepciono por pensar que talvez eu não consiga mais criar tiradas sagazes, fazer trocadilhos inteligentes e essas coisas que antes eu conseguia com uma certa frequência. é tudo muito estranho e bem ruim. me sinto frustrado por não sentir o tesão que meus colegas sentem por estudar o que estudamos, e sinto um medo enorme por saber que essa é a única coisa pela qual eu realmente senti tesão por toda a vida. é como passar a vida inteira querendo comer a megan fox e a scarlet johanson ao mesmo tempo e, na hora das preliminares, quando a johanson está com o seu pau na boca e a megan está mandando ver um belo oral na scarlet, ao invés de pensar que é o cara mais sortudo do mundo, você pensa que talvez devesse ter ficado mesmo com aquela menina que dizia que te amava lá na sua cidade, e não ter celebridades disputando pra ver quem vai sentar em você primeiro. é triste, muito triste.
meu café com leite que, quando preparei, estava morno devido ao leite gelado e o café não muito quente, agora está frio como a água gelada que eu trouxe para o quarto e esquentou. o tempo vai estragando tudo. a água, o café e a vida.

“os dedos entrelaçados já não dão-se as mãos.”

outubro 7, 2009

é uma cena normal, os dois de mãos dadas, dedos entrelaçados. a velha pintura que todos sabemos de cor e salteado, o casal pode ser formado por quem quisermos, nós – nós e nossas amadas, amantes, namoradas, esposas –  nossos amigos e suas digníssimas ou digníssimos, nossos familiares, pais, avós, tios, qualquer um que seja capaz de fazer um par com alguém. há alegria e cumplicidade naquela imagem, de uma forma que não se consegue apenas explicar em palavras, que é preciso sentir algum dia a vontade de segurar a mão de alguém para saber explicar. o sol se põe n’algum ponto que ninguém vê direito, mas sabemos que está na hora do crepúsculo pela tonalidade das cores na pintura. o casal usa roupas normais de um fim de tarde onde quer que estejam passeando (porque, sinceramente, isso não importa, o como estão vestidos, quantas pessoas estão ao redor, se neva ou chove, se é no brasil ou na argentina ou na argélia ou nova zelândia, a cena é igual e se repete todo o santo dia entre casais, é um simples entrelaçar de dedos.). a idéia central dessa paisagem está ali nas mãos, nos dedos. elas se tocam, eles se entrelaçam, como se as duas pessoas procurassem de uma forma simples, se tornarem apenas uma.
ele sente a vontade de estar com ela. a tarde inteira foi maravilhosa, haviam se divertido, conversado sobre tudo o que poderia imaginar ser possível se conversar com uma pessoa do sexo oposto. não! com qualquer pessoa. haviam falado de medos e certezas, de risos e lágrimas, haviam falado sobre música boa e ruim, drogas boas e ruins, livros bons e ruins. diabos! tinham falado sobre quadrinhos e discutido a diferença entre os dois maiores roteiristas do mundo na opinião de ambos (apesar dela preferir as coisas de um e ele as coisas de outro). haviam falado sobre o lirismo de um e a crítica política de outro e como ambos possuiam a incrível capacidade de serem líricos sem serem piegas e ele ainda falou sobre como ele acha que em um você consegue encontrar mais do ser humano no super herói e n’outro você encontra mais do herói no humano. falaram sobre como o cinema consegue transformar grandes quadrinhos em puro lixo (e ele era um pouco mais liberal quanto a isso. apesar de achar que muitas coisas se tornaram a maior porcaria cinematográfica que poderiam virar) e em como os grandes estúdios só querem saber da grana que os heróis geram e que pouca gente está cagando para as histórias. e ele falou sobre como hoje em dia o rock n roll não é mais tão cheio de sentimento e energia quanto nos anos sessenta ou setenta – apesar de nenhum deles ter chegado perto de viver essas décadas – e que havia poucas bandas para as quais se dar valor atualmente. e ela discordou. foi nesse ponto que ele teve sua decepção com ela, sua grande decepção: ela começou a listar bandas novas e músicas novas que ele devia escutar e ela dizia nomes que ele nunca iria aprender, bandas que ele nunca pensaria em sequer conhecer, e ela falava e falava sobre como eles eram a nova vanguarda e como não perdiam em nada para as bandas de antigamente e, num momento, ela quase arrancou seu coração ao dizer que adorava a maldita música eletrônica (ele costuma dizer que aquilo não é música, mas barulho). apesar de tudo isso, riram e se divertiram enquanto discutiam as melhores frases de seriados da adolescência de ambos e se perguntavam um ao outro qual era o melhor personagem e trocavam novas informações sobre as coisas novas que um via e o outro não e terminaram anotando um no celular do outro o nome de uma ou duas séries de comédia que o outro deveria assistir. e, n’algum momento, entre uma risada por causa de uma lembrança boba que ela trouxe ou um simples estar parado observando a beleza dos olhos dela, ele pensou em como aquelas horas todas haviam passado sem que ele notasse e em como havia tempo que não se divertia tanto com apenas uma pessoa, que há uma quantidade demasiada grande de tempo havia passado desde a última vez em que não se entediara com uma conversa de mais de quinze ou vinte e cinco minutos. eram quase cinco da tarde e ele estava ali, conversando com aquela mulher, há quase quatro horas sobre coisas que antes pensava serem impossíveis de se conversar sem esquentar a cabeça com a outra pessoa. foi enquanto a via rindo de alguma situação que ele contara – ou ela. não fazia diferença, de verdade, quem falara o que – que ele sentiu um impulso enorme de segurar aquela mão branca que se agitava à sua frente. segurá-la e entrelaçar seus dedos com os dela, talvez beijá-la e simplesmente ficar assim por um tempo. tempo o suficiente para que se sentisse bem e confortável com aquela situação. mas no exato momento em que encaminhava sua mão na direção da dela, pensou que talvez aquela não fosse a coisa certa a se fazer, que talvez ela não quisesse sua mão junto da dele, que talvez ela não achasse confortável aquela situação, que seus dedos ficariam melhores livres dos dele. então, no meio do caminho, a mão que ia certa na direção da dela, com medo da rejeição, exitou e vacilou, procurou outro caminho, um novo objetivo, um bolso da calça, um copo sobre a mesa, uma coçada inocente numa parte do corpo, uma saída estratégica de uma possível humilhação. sim, humilhação porque ser rejeitado é sempre humilhante.
ela sente a vontade de estar com ele. com ele, ela se sente à vontade de falar sobre coisas que com outros homens ela simplesmente calaria com medo de ser considerada estranha demais: seus gostos… tanto para música quanto para literatura… ela quase não se controlou quando ele, enquanto falavam sobre um dos livros favoritos dos dois recitara pequenos trechos de alguns dos capítulos favoritos dela. e sentiu que aquilo que tinham, a incrível forma como se conectavam, falavam entre si através de referências à cultura pop, só aumentava mais e mais quando passaram quase uma hora discursando sobre quadrinhos e a importância da nona arte para ambos. ela fala com ele sobre seus filmes favoritos e não recebe um “nunca ouvi falar” como resposta. muito pelo contrário, ela consegue reproduzir cenas inteiras puxando pela memória de ambos. ela sente, a cada minuto que passa, que se sentasse para assistir a um filme com ele, ouviria comentários irônicos que poderiam irritá-la, mas que, na verdade, a fariam rir no final de tudo porque ela iria perceber que tudo o que ele comentou, por mais maldoso e irritante que tenha sido, foi bem verdade e que aquele personagem tão sério, que ela adorou e achou extremamente complexo e completo, realmente é um psicólogo frustrado com sua incapacidade de ser um psiquiatra como tantos que vemos fora das telas e que ela conhecia tão bem, os velhos clichês que só a vida pode nos oferecer. com ele ali à sua frente, seus olhos castanhos que passam confiança e seu sorriso seguro, ela sentia que havia uma conexão que poucos antes conseguiram, mesmo ela sabendo que ele era o tipo de cara que preferia passar a noite segurando um joystick e apertando botões ao invés de sair para dançar com ela numa sexta à noite, ela sentia que havia um link entre eles que não podia ser derrubado facilmente, nem mesmo quando ele disse que o sentimento de verdade estava no brega, na música de amor, de corno e que quem nunca foi corneado não sabe o que é sofrer de verdade por causas do coração, ou quando ele afirmou – e aqui ela teve que engolir um pouco uma pequena regurgitada que ela deu, ao menos foi o que ela disse “okay, depois disso acho que vomitei um pouco por dentro.” – que certas boybands têm músicas boas, bem melhores do que boa parte das bandas que ela clamava serem legais e quase o estapeou quando ele abriu a boca para dizer que “cry me a river” era melhor que “kool thing”. na verdade, ela pensou em largar toda aquela conversa, pensou naquela ofensa e em levantar e se afastar daquele ser bizarro. mas ele ria enquanto assistia à sua reação. isso meio que a acalmou e a fez repensar tudo e viu que abandonar aquele cara ali por causa de uma incompatibilidade cultural não era a coisa mais inteligente a fazer, já que para cada item não compatível havia cerca de cinco ou seis que batiam com um sincronismo tão perfeito que parecia inacerditável. “por deus”, ela pensou, “esse cara sabe as melhores cenas de filmes, os melhores trechos de livros, os melhores episódios de seriados, não se pode ter tudo e querer que ele também saiba sobre as melhores músicas. isso eu posso ensinar a ele.” e se pôs a ensinar a ele que as melhores bandas do mundo eram todas aquelas que ele não conhecia. e que não era subestimando as grandes bandas que ele conhecia, mas é que todas elas eram tão antigas que soavam como uma avó cantando para ninar os netos. ela achou, no entanto, que essa metáfora o irritou um pouco. chamar led zeppelin de música de avó foi demais até para ela, que riu e pediu desculpas dizendo que a banda era simplesmente perfeita, mas que havia muitas outras coisas tão perfeitas quanto, ou até mais, fazendo turnês pelo mundo. ele pareceu realmente afetado com aquilo, tomando sua cerveja com olhos voltados para o copo e sorrisos cada vez mais contidos para ela. foi então que ela sentiu a vontade de dizer a ele que não queria que aquilo os afastasse, a vontade de se aproximar dele, segurar sua mão e deixá-la ali, junto da dele. e foi então que sentiu o medo de que isso não fosse possível devido às suas críticas musicais um tanto exageradas. medo que seus dedos pequenos nunca encontrassem os longos e grossos dedos morenos daquele homem que conhecera naquela tarde incrível. ela pensa em extender a mão e entrelaçar seus dedos com o dele, assim, do nada, objetiva como nunca havia sido em toda a vida, mas não conseguiu. sentiu que esse passo devia ser dado por ele, que se ela fizesse mostraria um interesse por alguém que não a buscou e, para ela, a ausência de busca quer dizer a ausência de desejo. para ela, ele não a queria porque não segurava a mão vazia dela entre as suas.
é uma cena normal, os dois de mãos dadas, dedos entrelaçados. a velha pintura que todos sabemos de cor e salteado. nada disso está acontecendo. nenhuma mão sente o calor da outra, o frio começa porque o sol se põe e ambos estão sentados em cadeiras distintas. a noite está chegando trazendo uma lua que míngua como os ânimos de ambos. a conversa que durou horas, toda uma tarde, está sem energia, fraca como meia dose de vodka com refrigerante quando a intensão de tudo é embriagar alguém. a festa continua para todos, todos riem, ele ri, ela ri, mas mal riem juntos como nos tempos áureos que passaram juntos. as horas passam e passam se arrastando minuto a minuto para ambos. cada segundo em silêncio, para eles, era um grão de eternidade que caia na ampulheta. antes se perdiam um no outro, olhos nos olhos, agora, se perdiam em suas bebidas até que ele diz que está ficando tarde e deve ir embora, perguntando a ela como é que ela vai embora e ela diz que vai de carona com um amigo que está planejando ficar até mais tarde. eles se despedem com dois beijos nas bochechas e um “nos vemos por aí” depois que ele se despediu de todos os outros da festa. ela o vê indo embora e se decepciona consigo por não ter se atirado pelo menos dessa vez e segurado a mão dele, feito suas mãos se encaixarem. ele caminha pela porta, decepcionado consigo pela covardia, por não ter conseguido daquela vez, e nunca, a coragem necessária para superar seus medos e suas frustrações e simplesmente ter segurado aquela mão. era apenas uma mão. o que uma mão pode significar, no final das contas?