Archive for setembro, 2009

Árvore.

setembro 23, 2009

há uma árvore localizada numa esquina entre a porta do apartamento onde passo partes da minha vida sem ter vontade de chamar de lar (e às vezes quase temendo um dia tê-lo que fazer, mas logo afasto tal pensamento tenebroso de mim) e o local onde param os ônibus para me levar para a única razão de eu ter entrado nesse inferno de cidade. essa árvore não é gigantesca, não chega a tocar nos fios da rede elétrica ou do telefone, mal se diferencia de todas as outras árvores dessa cidade. suas folhas não são verdes e belas e lustrosas como as folhas da exuberante e rica flora dos trópicos, mas folhas amareladas que, muitas vezes, caem no chão, são pisoteadas, espalham seus pedaços mortos por aí. seus galhos projetam sombras não muito sólidas, não seguras, como se a qualquer minuto um raio de sol fosse capaz de atravessá-los e acabar com toda e qualquer proteção contra o calor e a luz do sol. o tronco da árvore se projeta de seu canteiro irregular, as pedras que um dia foram cuidadosamente dispostas num mosaico preto e branco no chão ao redor do buraco onde já fora possível ver terra e um pequeno caule verde – há muito, muito tempo, tempo demais para que eu saiba quando, tempo demais para qualquer um que a note ou se importe saiba – já não são mais dispostas de uma forma a deixar o chão plano como deveria. milhares de pés já pisaram naquelas pedras, há algumas pedras que não se encaixam mais, há aquelas perdidas no tempo, esquecidas no espaço entre uma passada e outra, um tropeço e outro. as pedras que viajaram da calçada para a rua, onde os carros as arrastam, onde as chuvas as lavam e levam direto para os bueiros, onde o sol jamais poderá tocá-las. junto com as pedras quebradas, vão também algumas amêndoas caídas, os frutos do suado trabalho da árvore, prontas para nunca viverem. apesar de sua aparência fraca, suas raízes, no entanto, são fortes, a parte que parece ser a mais resistente de si, capazes de quebrarem o cimento e a calçada e penetrarem no asfalto, prontas para sugar para si os nutrientes bizarros que só a cidade com sua poeira e calor e seus esgotos e poluição pode oferecer.

há uma árvore no caminho. no caminho da minha vida há uma árvore. e essa planta que poderia ter tantos odores, tantas boas fragrâncias, o perfume delicioso das rosas ou dos cravos, margaridas, maracujás, limões, tem cheiro de gente. todas as vezes que passo por ela é como se passasse ao lado de uma pessoa, porque é o fedor delas que sinto: o fedor de urina e fezes e lágrimas e suor, tudo junto e misturado, empestando aquela esquina, fazendo aquela árvore – que poderia muito bem ser um belo pé de amêndoas, aquelas que nunca são colhidas dos galhos, mas sempre estão pintando as ruas e calçadas e todos os arredores de onde quer que cresçam – ser uma árvore gente. talvez seu jardinheiro tenha sido jesus ou um dos grandes revolucionários espirituais, um dos grandes pilares das crenças ocidentais, talvez não. as amêndoas são pessoas caídas e espalhadas na área ao redor da árvore. sempre que passo por sob sua copa nem um pouco frondosa, encontro em suas raízes alguns frutos caídos, talvez esperando para serem germinados, esperando a vida crescer dentro deles para que, assim, tornem-se algo mais que simplesmente frutos caídos de uma árvore – sonhos de talvez serem eles próprios, um dia, árvores que farão seus próprios frutos e os espalharão pelo mundo como sua árvore mãe o foi -, talvez esperando que a idéia de vida simplesmente desista deles enquanto há tempo e os deixe somente como a casca para serem facilmente reabsorvidos por quem os fez. os galhos da árvore se estendem como se fossem braços buscando algo que nunca conseguem alcançar, como dedos que tateiam na escuridão por algo que não conhecem. esperança, talvez, ou apenas expressem, em sua tortuosidade o desespero e confusão da sua situação. o tronco enrugado da árvore parece o corpo de um velho trabalhador braçal, a pele dura cheia de frestas, seca e quase completamente morta, tornando-se inacreditável achar que por baixo dela corram em vasos pequenos, frágeis e finos os líquidos responsáveis por trazer a vida a toda aquela obra da natureza. as poucas folhas verdes que o sol tocava sem que as danificasse alimentavam e árvore, criavam seu alimento, sua energia, faziam suas trocas, seu metabolismo, viviam porque foram condenadas a isso.

há uma árvore numa esquina de uma cidade. ela poderia ser mais uma árvore em mais uma esquina de mais uma cidade grande – cheia de seus atraentes outdoors e suas belezas antinaturais nos distraindo de tudo o que é natural e belo – se eu não a tivesse notado, se eu não tivesse sentido o seu cheiro, se não tivesse reconhecido que aquele era o odor que emanava não de amendoeiras, mas de pessoas. há milhares de outras pessoas que, como eu, passam todos os dias por essa árvore, a vêem, mas não entendem o significado do que enxergam, simplesmente passam por ela para seguir suas vidas, como todos, não sabendo diferenciar – ou pior, talvez nem mesmo se importando – se aquilo caído no chão, à sombra da árvore, perto da poça de urina escura, é uma amêndoa ou um homem que precisa ser ignorado para que a vida continue seguindo como sempre se seguiu até aquele momento. essa esquina acordava abarrotada com frutos caídos ao chão, frutos sobre frutos, frutos fazendo mais frutos, mas hoje em dia os frutos são cada vez mais raros ao seu redor. e é por isso que hoje eu espero. espero um dia fazer o velho caminho da árvore e não encontrá-la mais por lá. encontrar um tronco partido, vários nós vistos por dentro, contá-los-ei, saberei a idade da árvore, mais ou menos quanto tempo ela frutificou. nunca saberei, no entanto, de seus frutos espalhados por aí, se todos eles morreram onde nasceram ou se cresceram e se tornaram melhores, as poucas amêndoas não ignoradas. as poucas frutas que não caíram podres ao chão.

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“ser teu pão, ser tua comida.”

setembro 12, 2009

eu queria ser o teu desejo. sabe quando a gente acorda e a primeira coisa que a gente pensa é em como gostaria que a primeira coisa que a gente visse fosse a outra pessoa, que a primeira coisa a se sentir fosse o corpo quente ao nosso lado? pois bem, eu queria ser a pessoa que você deseja que esteja ali contigo para sentir teu olhar preguiçoso de manhã, ouvir tua voz ao acordar e rir quando você disser que está soando como um travesti bêbado. vou te dizer que nem saberia dizer, já que eu nunca acordei ao lado de um travesti bêbado e você me diz que não é com ele acordando, mas sim bêbado, apenas. e eu direi que, mesmo assim, sob essas condições, eu nunca estive com um travesti. eles nunca fizeram meu tipo. e você vai rir da minha idiotice e me perguntar qual o meu tipo. e eu vou dizer a verdade pra você e abrirei um sorriso ao te ver fechando o rosto por não me ouvir falando que “meu tipo, mulher, é você.” daí, vou tentar te beijar e você vai se levantar e se afastar de mim correndo para escovar os dentes e eu vou te seguir para tirar o gosto de sono da boca. então, no banheiro, tocamos nossas línguas de hortelã e espumamos como cães raivosos, rosnamos um para o outro só pela brincadeira e pelo prazer do riso. para mim, é sempre bom ouvir o teu riso, mulher. a tua risada ao acordar é como música boa quando se precisa, uma sinfonia inteira do beethoven, um minueto de chopin, um solo de guitarra do hendrix ou como o baixo do entwistle, a bateria do bonham, milhões de outras alusões a músicos fodas e a bandas que mandam no meu coração como você o faz. então voltamos ao quarto e ficamos por lá até criarmos coragem de ligar para algum lugar que queira nos alimentar por uma quantia módica nesse domingo preguiçoso. esperamos a comida chegar jogando baralho na cama e eu estou perdendo minha cueca quando a comida chega. você ainda está completamente vestida. você quer que eu atenda a porta nu e eu digo que não vou atender a porta nu porque isso é crime e eu não posso ser preso ainda. você ri e diz que eu sou fraco demais e eu admito que sou fraco mandando você ir para a cozinha pôr os pratos e os talheres na mesa. nos alimentamos, te pago a minha cueca e o almoço me trouxe boas mãos, consigo te deixar nua depois de algum tempo. o telefone toca algumas vezes e nós ignoramos. o tempo passou rápido demais e o faustão já diz adeus. você implorou a tarde toda para não ligar a tv, mas eu quis te mostrar como tudo aquilo era engraçado, como a tv da massa realmente consegue fazer domingos serem os piores dia da semana. eu ri do teu desespero ao ouvir o boa tarde do faustão, ri do teu alívio quando desligamos o aparelho para irmos dormir porque no outro dia teríamos trabalho, como sempre, já que a vida sempre segue do jeito sem graça de sempre. eu durmo ao teu lado pensando em como quero ser teu desejo.

eu queria ser o teu desejo como você é o meu. queria que você pensasse nas coisas como eu penso, de uma forma pervertida e devassa. queria que você pensasse que eu sou o único homem que você quer que estimule teu clitóris – seja com dedo, língua ou na fricção do meu pênis no teu canal vaginal -, quero que você deseje meu falo dentro de ti. ele e somente ele, porque ele pode muito bem resumir quem sou às vezes. você pode resumir qualquer homem a seu órgão sexual por pelo menos uma hora do dia sem se sentir mal por isso, você sabe muito bem disso, minha querida. alguns de nós negarão, mas eles mentem. acredite em mim quando digo essas coisas. aliás, acredite em mim sempre, porque eu não tenho motivos para mentir, porque eu acredito na verdade, doa a quem doer. você me conhece melhor que todas as outras mulheres que já tive, porque você sabe o que aconteceu depois delas, você sabe o agora e sabe o antes delas também, você sabe o tamanho do meu pau e, infelizmente – ou felizmente, até -, poucas o sabem. então, é isso que quero, meu bem, que você deseje me ter inteiro dentro de você, saborear meu sêmen e engolí-lo, mesmo que você nunca tenha engolido nada de ninguém, quero que você me peça para ejacular na tua boca para você me sentir quente descendo pela tua garganta. quero que você me deseje pelo ogro que sou, pela insensibilidade e pelas ordens e pelo desprezo que tenho por certas coisas tuas. quero que me desejes para ser teu macho, para te dominar e te deixar no chão pronta para mim. quero que você me queira para realizar comigo os teus desejos sexuais e não sexuais, para segurar minha mão e apertá-la forte quando se sentir com medo de alguma coisa qualquer – de um cachorro, uma barata, o escuro, a morte. quero que você deseje a minha mão nessas horas todas, porque saberá que serei o teu amparo e consolo e que estarei contigo para deixar as lágrimas caírem, porque todas devem cair, e enxugá-las quando for a hora certa de fazê-lo.

então, mulher, meu bem, docinho, amada, rolinho de beterraba, ou como quer que seja que você prefira que eu te chame, eu desejo ser teu desejo mais que muita coisa no mundo. desejo porque sinto que assim será melhor para nós dois. sinto isso quando fecho meus olhos e é você quem eu vejo, você quem ouço gemendo, você que quero com a boca ao redor do meu pau. é de você que eu lembro quando ouço uma música que nunca antes me lembrou alguém e ninguém ligaria aquela melodia ou letra a você, mas eu o faço porque ela é linda e triste, como você. e é também de você que lembro quando vejo um filme genial e penso que se fosse eu e você ali, eu certamente atiraria na tua testa se você fosse mordida por um dos despertos quando chegasse o despertar, em você que penso também quando vejo filmes idiotas e sinto que aquela hora e meia teria sido muito melhor gasta se você estivesse comigo assistindo àquela porcaria. quando te digo todas essas coisas, é porque todas elas foram sentidas e pensadas antes de serem expostas e ditas aqui pra você, saiba disso.

eu queria ser o teu desejo assim como você é o meu. não me leve a mal. eu sei que as coisas nunca são como deveriam ser, há muitas teorias – teorias demais – para se encaixar em apenas uma realidade. um amigo meu tem algumas idéias interessantes sobre a realidade. de acordo com ele, ela é sempre mutável de alguma forma, uma não muito boa. um dia me aprofundarei melhor nelas, talvez, hoje eu quero realmente ser o teu maior e único desejo.

o senhor do bom fim.

setembro 8, 2009

“há uma história para essa fitinha. eu vou te dizer toda ela porque você me perguntou sobre. acho que você merece muito bem saber sobre isso. a ganhei do meu avô quando eu era uma criança de sete anos de idade – isso faz com que ela esteja amarrada ao meu pulso há quase vinte anos – e, desde então, tem se enrolado e enrolado no meu braço, mas de forma alguma estourou. era uma tarde de março quando ele chegou de viagem depois de duas semanas entre a bahia e o rio de janeiro. fui ao aeroporto com meu pai para buscá-los: ele, minha tia e minha avó. eu sempre adorei ir ao aeroporto. tanto pela estrada que leva até ele quanto pelo resultado da viagem: ver aquelas máquinas gigantescas que, como se por magia, se erguiam no ar e sumiam entre as nuvens. os aviões sempre me fascinaram, talvez por isso eu tenha desejado por um tempo largar tudo o que conquistei para tentar a vida como piloto de avião, algo inusitado. nunca conheci um piloto de avião por aqui. não sei de nenhuma família cujo filho entrou para a escola de aviação de alguma das grandes empresas aéreas do país. a sorte foi que notei a estupidez que seria e larguei a idéia pouco tempo depois de ela ter surgido. meu pai dirigia o carro da minha tia naquele dia, eu ia no banco de trás por ser pequeno demais para andar na frente. quando estacionamos fomos para o portão de desembarque, onde me deixaram esperando pelos meus avós na parte restrita. lá eu podia ver os aviões de uma forma muito melhor. brancos, ostentavam seus símbolos pelos ares, onde ninguém os via, e os trazia para a terra, que era onde podiam ser avistados por todos. assisti ao desembarque do avião e, de longe, avistei meu avô. alto, moreno, os poucos cabelos que tinha eram brancos e curtos. de longe podiamos ver seu bigode da mesma cor e bem feito. logo depois vinha minha avó e à frente, ajudando-o a descer as escadas uma por uma, minha dedicada tia. ele se aproximava a passos lentos e arrastados – eram assim desde que eu tinha 3 anos e ele sofreu seu primeiro derrame, as seqüelas foram poucas, pelo que lembro, mas seu caminhar nunca mais foi o mesmo, apesar de toda a fisioterapia. e eu ansiava pela presença deles, pelas novidades e pelos presentes.ao atravessarem o portão que separa a parte de desembarque da pista de pouso, corri para abraçá-los. pedi a benção a todos, como sempre fui acostumado a pedir – e até hoje, mesmo sem acreditar que deus irá me abençoar porque creio em sua divina inexistência, peço a meus familiares – e meu avô me deu um cheiro na cabeça, como era seu costume. tanto era que, até hoje, quando alguém vem me beijar, eu baixo a cabeça para que me beijem a testa ou o topo da cabeça. um costume estranho, mas que nunca saiu de mim. estávamos todos felizes por terem feito uma viagem tranqüila e sem complicações.

fomos, então, para a casa dos meus avós, onde eles contariam mais sobre as duas semana, desfariam as malas e destribuiriam os presentes. sim, eu sempre fui um menino interesseiro e egoísta. cresci e me tornei esse homem egoísta, mas menos interesseiro que quando criança. hoje em dia poucas coisas me interessam. uma delas é você. sim, é claro que você me interessa. os teus olhos brilham de uma forma diferente dos outros olhos que eu já vi e tua voz tem uma entonação bela. você consegue sempre parecer interessada em qualquer coisa que eu diga, inclusive minha ida ao aeroporto aos setes anos para pegar meus avós e minha tia, pessoas que você nem conheceu fisicamente e nunca o fará porque agora eles são apenas lembranças boas que eu carregarei comigo até onde der. e é claro que há fotos deles, mas por mais que você os veja, nunca será a mesma coisa, você nunca saberá como é ser abraçado por eles como eu soube. mas vamos voltar à minha história antes que eu me distraia demais elogiando você e sua maneira de sempre ter paciência comigo e minhas histórias sem sentido ou continuidade. minhas lembranças bestas. mas é que você pediu isso quando perguntou o que essa fitinha significava. é claro que você sabe o que é uma fitinha do nosso senhor do bonfim. você amarra e faz alguns pedidos para quando ela estourar, porque ela vai estourar um dia, seu desejo se realizar. mas dizem que se você contar esse desejo ele nunca se realizará. eu mantenho o meu trancado a sete chaves. infelizmente, não vou dizer para você antes dela pocar. sim, pocar. você sabe o que é isso, não sabe? é claro que sabe, te ensinei uma vez… é o mesmo que estourar, quebrar. a corda do violão pocou, a gente diz. enfim, a história da fitinha… chegamos na casa dos meus avós, eles tomaram banho, almoçaram porque chegaram por volta de onze da manhã e o almoço não tinha sido servido no avião. naqueles tempos havia comida de verdade no avião. não eram essas coisas de caixa e só. estava a família inteira que morava na cidade: eu, meu pai e minha tia e meus avós. meus dois primos moram longe e meu tio, na época, também. depois da refeição fomos para o quarto eu, meu avô e minha tia, foi lá que meu avô me entregou a fitinha. lembro que ele mandou que escolhesse uma cor antes de entregar a fita para mim. escolhi azul porque é uma cor bela. ele me entregou a fitinha mandando eu estender o braço e que a cada nó que ele desse nela, era pra eu fazer um pedido. ele deu três nós. ao fim do terceiro ele me disse que assim que aquela fita estourasse sozinha, meus desejos seriam realizados. lembro de todos os meu pedidos até hoje. dois já se realizaram, mas o que espero mesmo é o terceiro. mas esse… esse eu acho que está quase se realizando… espero. e o melhor… tenho quase certeza que se realizará com você.”

“é?” ela perguntou curiosa com as mãos passeando sobre os braços dele até tocar na fita velha e enrolada. foi aí, então, que ela estourou e ele sorriu. ela fez um olhar de espanto, como se tivesse feito uma coisa horrível, como quando se quebra um jarro da avó e ninguém está vendo e não se sabe o que fazer. “e o que você pediu?”

ele se aproximou dela, deu um abraço e lhe disse ao ouvido.

“pedi pra ser feliz.”

A primeira vez. (texto de 04 de maio de 2009, 3:11 a.m.)

setembro 1, 2009

a chuva caindo lá fora me traz hoje lembranças da primeira vez que eu a vi. era uma noite escura e eu havia passado muito tempo preso num lugar desconhecido, esperando uma curta estiada, uma breve trégua nessa luta dos céus, para que eu pudesse fazer meu caminho pela rua. trovões e relâmpagos cortavam a noite, tornando-a turbulenta e revelando formas que as sombras escondem. eu estava molhado, minhas roupas grudavam no corpo, revelando tudo o que sempre tento esconder: o peitoral mal definido, quase ginecomástico e a barriga protuberante. mal enxergava um palmo na minha frente, com ou sem óculos, não fazia a menor diferença naquela noite, porque as gotas se acumulavam nas lentes de resina, atrapalhando a visão quase tanto quanto os três graus de miopia e o astigmatismo que me faz ver a vida através de uma névoa constante que teima em esconder e distorcer as formas das pessoas e objetos.

a chuva escorria pelo meu rosto de traços toscos e irregulares, acumulava-se de alguma forma na minha barba rala que crescia naqueles tempos e adicionava uns poucos anos às minhas feições. era uma noite ótima para se passar em casa, deitado na cama com um bom livro, uma boa música, uma boa comida, uma boa bebida, uma boa mulher. era uma noite para se perder entre as cobertas e só se encontrar no sonhar. eu poderia dizer que foi assim que a conheci. poderia confessar que foi dessa maneira que a vi pela primeira vez: nos sonhos que tive em noites como aquela. mas eu não falo disso. seria mentira. na verdade, dizer que conhece uma pessoa sem conhecer o cheiro e o sabor de sua pele, a cor e o brilho de seus olhos e a elegância e o charme de seu caminhar é contar mentiras a quem quiser ouví-las ou lê-las. eu não faço dessas coisas. enganar é juntar-me a tantos que não quero ao redor. falo aqui da verdade, da noite chuvosa em que me molhei por inteiro (e comigo estava parte do que sou, parte da minha casa, parte das coisas que deixei para trás para ali estar) , de quando senti seu cheiro pela primeira vez (e o cheiro dela me marcou como poucas coisas marcam um homem, como poucas mulheres conseguem assinar na memória de um homem), de quando soube que sua pele era salgada de verdade, apesar de tudo o que chamávamos um ao outro, seus lábios eram salobros como a água dos rios onde me banhava nos fins de semana longínquos da minha infância.

antes daquela noite, que se parece com a que temos agora lá fora, eu não conhecia nada dela além de sua voz. antes daquela noite ela era uma idéia. há algo a ser tocado além da voz e seu olhar paralisado a milhares de quilômetros de mim. então, aqueles olhos vívidos estão agora a poucos centímetros de você, brilhantes, cheios da água que não transborda porque ainda não é a hora, mas que alguma hora certamente será. há algo em ser tocado por um olhar que nos faz pensar. digo… quando se olha pela primeira vez, ao vivo, alguém que só nos vinha em sonhos e se é olhado em retorno… deus, eu quase chego a acreditar. não há sensações semelhantes para se comparar e me fazer claro.

a chuva pingava do meu queixo e percorria o longo caminho até o chão. eu caminhava cabisbaixo, quase sem me preocupar comigo. o mundo não existia mais para mim até que a encontrei com seu guarda chuva. havia um sorriso em seu rosto. algo que dizia muito sem dizer coisa alguma. parecia muito bem me dizer “estou aqui, vem comigo que não haverá mais chuva no teu caminho, não haverá mais nuvens no teu céu, vem comigo que eu te prometo um dia seco e quente comigo.” ela sorria debaixo do seu guarda chuva, parada na esquina, esperando o sinal fechar. cheguei ao seu lado e, quando olhei bem para ela, notei que seu sorriso não era bem um sorriso, era sua expressão constante, como se tudo fosse parte de uma grande piada da qual ela sempre acha graça, mesmo quando ela sabe que não há motivos para o sorriso. por um breve momento, então, senti calor naquela noite fria. ela reparou em mim, estranho, desengonçado e feio, parado ao lado dela. viu-me como, gostaria de acreditar, nenhuma outra antes me viu. ergueu suas sobrancelhas, franzindo a testa, olhou-me nos olhos com a mesma expressão do aluno do ensino médio que tenta encontrar a solução de uma equação de segundo grau de cabeça. sem dizer uma palavra, atravessou a rua com o sinal ainda verde. não havia carros passando quando ela pôs o pé na rua, porém, quando foi minha vez, para continuar perto dela, um carro dobrou a esquina e quase me atropelou, deixando-me extremamente sujo de lama.

a chuva lá fora já parou, mas as lembranças continuam num jorro ininterrupto de imagens e sons daquela noite. imagens que sou incapaz de reproduzir em palavras ou desenhos ou qualquer outra maneira. fui amaldiçoado quando jovem. rogaram sobre mim a maldição de jamais saber como transmitir aquilo que se quer transmitir, jamais sendo capaz de compartilhar com o mundo as idéias e as lembranças da beleza que vivem na minha memória e na imaginação. aquele dia nunca estará num amontoado de palavras ou numa gravura qualquer. aquela noite e todas as outras noites repletas de beleza estarão sempre e somente na mente incapaz e falha desse que escreve.

não parece certo para mim jamais poder dizer como ela era linda e como cheirava bem e tinha tanto um gosto bom quanto um fascinante bom gosto. até hoje, seu perfume nunca ficou tão bem em outra pessoa. não me parece justo ela sempre ir embora sem que eu a conheça. não me parece justo sempre chover nas minhas lembranças. eu sempre penso no que seria se não fosse um dia de chuva, se eu não estivesse tão abatido, se ela não tivesse atravessado, se  aquele carro nunca tivesse quase me atropelado. eu sempre penso no “e se…” para não ter que viver o “mas agora…”. as infinitas possibilidades do “tudo o que podia – quase devia – ser e não foi” me fascinam mais que a entediante realidade.

a chuva não cai mais lá fora. aqui dentro ela continua, não pára, ela neva no meio do verão. lá fora está molhado das gotas que caíram e não caem mais. cada uma delas, escorrendo pelo chão, me trazem o teu cheiro. aquela foi a primeira vez que a vi. houveram outras vezes, vezes que a conheci melhor, vezes que a desconheci, vezes em que ela foi embora e uma única vez em que eu fui embora para nunca mais voltar.

mas hoje… hoje é a noite de lembrar da primeira vez.

a chuva caindo lá fora me traz hoje lembranças da primeira vez que eu a vi. era uma noite escura e eu havia passado muito tempo preso num lugar desconhecido, esperando uma crta estiada, uma breve trégua nessa luta dos céus, para que eu pudesse fazer meu caminho pela rua. trovões e relâmpagos cortavam a noite, tornando-a turbulenta e revelando formas que as sombras escondem. eu estava molhado, minhas roupas grudavam no corpo, revelando tudo o que sempre tento esconder: o peitoral mal definido, quase ginecomástico e a barriga protuberante. mal enxergava um palmo na minha frente, com ou sem óculos, não fazia a menor diferença naquela noite, porque as gotas se acumulavam nas lentes de resina, atrapalhando a visão quase tanto quanto os três graus de miopia e o astigmatismo que me faz ver a vida através de uma névoa constante que teima em esconder e distorcer as formas das pessoas e objetos.