Archive for agosto, 2009

maria engolia.

agosto 27, 2009

era uma vez uma mulher que engolia. começou a engolir cedo. no início insistia com as coisas normais, líquido amniótico e coisas do tipo. assim que saiu de onde todas as pessoas do mundo saem e quase todos os homens passam a vida tentando entrar, começou a engolir o leite da mãe: o primeiro, mas não o preferido, e certamente não o mais consumido ao longo dos anos. o tempo foi passando e ela foi desenvolvendo suas habilidades de engolir, fazendo-o cada dia mais e mais. enchia a boca, às vezes, até não caber mais nada, até o fundo da garganta, até quase vomitar, mas não o fazia e terminava sempre engolindo tudo. enquanto crescia ia conhecendo novas coisas para se engolir, novos sabores, o doce, o amargo, o salgado, o azedo, o ácido e a adstringência. estava na entrefase menina-mulher, a chave de cadeia de muito marmanjo, o momento exato em que se descobre que a vida tem muito a oferecer além daquelas coisinhas que vinha colocando dentro de si até então, havia os prazeres e as dores e ela queria absorver tudo o que podia, havia demasiada gula em sua alma, queria engolir o mundo e estava num momento  em que acreditava ser capaz, quando a fome de vida ainda não faz engolir os pequenos regurgitados de tédio, e o estômago faz por bem embrulhar tudo numa náusea só, era uma vez uma mulher que engolia.
dias passavam enquanto ela crescia e se tornava um projeto de alguém. e em nenhum desses dias maria, porque esse era seu nome e nenhum outro nome ela teria se não esse mesmo, deixou de engolir sequer uma vez. havia em seu olhar um constante desejo, uma vontade intensa e imensa de querer aprender sobre a vida, as inúmeras formas de se devorar e se engolir. quando tinha fome, engolia os sólidos, quando tinha sede, engolia os líquidos. com ela sempre foi assim e não havia outro jeito de sê-lo. às vezes, parecia impossível saciar seus desejos, às vezes parecia não ter nenhum. a vida com ela era de extremos com apenas uma constante: o engolir. não havia disfagia (progressiva ou não) ou odinofagia que a fizesse parar de engolir. engolia todos os dias, para crescer, para aprender, para passar o tempo, para o que quer que fosse. e por entre os dias ela vagava em cima de passos tão certos quanto os vapores dos cigarros que ela fumava só por odiá-los nas bocas alheias, mas ela engolia a fumaça, nos bares todos – entre um copo de álcool e outro, enquanto ficava ébria como achava que todos deveriam sempre estar -, com todos amantes e amigos, e um dia trouxe a fumaça para si. engolia-a com uma fúria só sua, como se o mundo inteiro fosse culpado por aquela fumaça, pelo escurecimento dos seus pulmões. ela engolia outros tipos de fumaças, todos os dias, a cidade grande lhe fascinava por oferecer tantas oportunidades de engolir as coisas novas que ela tanto sonhara conhecer, explorar o desconhecido. foi na cidade que aprendeu que a vida que queria não era como em seus sonhos de menina moça, as coisas não seriam todas maravilhosas e fáceis de engolir. com o tempo passando e nada aparecendo além de pequenas rugas em sua pele, ela entendeu que o mundo era grande demais para ser engolido e que tudo o que tinha era muito pequeno. percebeu-se impotente diante de tudo o que a cercava, notou que sonhos às vezes permaneciam na terra de morfeus e de lá não se moviam e foi se decepcionando com o mundo, percebendo que não havia dignidade. sentia-se suja, havia em si uma imensa vontade de ser punida. punida para conquistar a redenção. por uma razão qualquer, queria pagar de alguma forma por tudo o que engolia. como se cada vez que houvesse engolido alguma coisa, tivesse pecado, e com seu sofrimento e a humilhação, alcançaria a redenção que buscava. queria ver seu próprio sangue jorrar, suas lágrimas cairem e se misturarem a outros líquidos viscosos, sentia vontade de engasgar, porque acreditava que se tornaria merecedora de tudo o que um dia engoliu e do que engoliria. assim, com esse desejo de autodepreciação, foi que ela conseguiu vários amantes, alguns amigos, todos prontos para explorar suas vontades de engolir, seu estranho desejo de rendição. arranjou várias cabeças, vários corpos, vários membros, grandes e pequenos, finos e grossos, e os engoliu todos, quanto mais, melhor. maria queria o mundo em sua boca, saboreá-los todos e crescer com isso.
um dia um homem que se achou amigo – amante – dela lhe perguntou o porquê daquele desejo, o que ela acreditava realmente estar alcançando ao fazer aquilo. ela tragou um cigarro, deu de ombros como quem diz que não sabe direito, apesar de saber muito bem, e disse que assim era uma forma de obter conhecimento sobre todos, entender cada um. tê-lo em sua boca era o ápice da entrega completa e do conhecimento. ela o conheceria por inteiro. como se, no que ela engoliu, estivesse a essência dele, a vida inteira que ele teve e a que terá, tudo escrito na saliva quente que ele passou para ela no começo da noite em beijos quentes, no suor salgado que ela lambeu de sua barriga ao chegarem em casa depois de uma noite fora, rindo de besteiras, de brincadeiras de amigos, de filmes bobos, no líquido esbranquiçado e de cheiro esquisito que jorrou de seu membro depois de algum tempo dos devidos estímulos, líquido esse que ela sempre faz questão de engolir, que parece explicar melhor que qualquer livro o verdadeiro significado das coisas. ela engolia tudo para poder entender tudo, mas parecia nunca funcionar, o conhecimento parecia nunca chegar da maneira que ela esperada. “talvez, apenas talvez ela esteja buscando-o das maneiras erradas”, ele pensou, mas nada disse porque gostava de vê-la lambendo-o, chupando-o, engolindo-o.
esse foi apenas um dos homens que maria conheceu. havia muitos deles. eram seu sabor predileto dentre todos os pedaços de carne que teve o prazer de conhecer. e ela gostava da carne, das carnes todas, masculinas e femininas, engolia todas e gostava de todas, bem passadas ou ao ponto, quentes ou frias, tocando-as com sua língua e deixando suas papilas gustativas explorarem bem todos os nuances dos sabores. deixava cada pedaço de carne escorregar garganta abaixo. amava as carnes todas menos as que punham em seu prato nos almoços tumultuados de domingo, de segunda a sexta-feira, e aos sábados, com o gosto de sal que lhe lembrava as peles suadas dos filmes a que ela não assistia, mas as trazia pra dentro porque era lá que elas deveriam estar, sempre, dentro dela. falsamente voraz, ela engolia a carne, devorava-a por inteiro. engolia como se não houvesse mais nenhum alimento no mundo. como se engolir fosse sua missão no mundo, engolia porque assim fora criada para fazer, desde que nasceu, desde que seu pai fecundou sua mãe, estava programada para fazê-lo. engolia porque vivia por isso e para isso, porque sem engolir, maria não existia. e, enquanto vivesse, maria engoliria.

texto em parceiria com Ariane. aqui está, kiddo, all done. obrigado por maria.

lonoff, graça e melo neto.

agosto 25, 2009

não há muito o que dizer. isso é mais um exercício para ver até onde eu consigo me estender sem idéias e o quanto vocês que estão me lendo conseguem me agüentar sem elas. porque eu não me rendo fácil às coisas, por incrível que pareça. e talvez tudo isso esteja extremamente fora de contexto, mas tudo há de fazer sentido alguma hora, talvez, espero. há muitas coisas na cabeça agora e poucas preocupações sérias. são quase quatro da manhã e isso não quer dizer muita coisa além disso mesmo. para alguém, tal informação pode ser preciosíssima, enquanto para mim… para mim só quer dizer que, por mais uma noite, eu consigo me manter acordado até horários em que o mundo inteiro parece dormir e só resta eu e a solidão para me fazer compania. e nós conversamos, eu e ela, sobre tudo o que se pode imaginar. nós nos falamos como velhos amigos que se encontram num bar e resolvem sentar e tomar algumas bebidas antes de cada um voltar ao seu caminho tendo trocado telefones que nunca serão discados, depois de marcar saídas que nunca acontecerão, criar planos que serão frustrados não pela falta de vontade de ambos, mas pelo simples fato de ser assim que as coisas são quando tudo é do jeito que é. um tanto confuso, um tanto repetitivo, mas é isso que faço e é assim que sou quando não estou criando uma história boba sobre alguma mulher que nunca existiu, mas que ainda assim possui um pouco ou um tanto das mais importantes damas da minha vida. eu sou um cara vazio como a madrugada.

todo o barulho que ouço é o do ventilador às minhas costas, não há músicas tocando e nem carros na rua. cada tecla sendo apertada se faz alta nessa noite, meus dedos estalam vez ou outra, meu pescoço também, minhas costas tensas começam a doer e eu preciso de uma noite longa de sono antes de seguir. eu preciso de algumas certezas que eu não sei quando terei, preciso acabar com os medos que tenho de vez em quando, acabar com um pouco de toda a dor que não existe, mas que eu teimo em criar porque é isso que eu faço: invento coisas que não existem para me atormentar. mas eu também me atormento com o passado, com as lembranças das coisas todas e as incríveis possibilidades. eu vivo pensando no que eu mais tentava evitar há um tempo: tudo o que deveria ter sido e não foi. toda a vida que não aconteceu para mim porque assim não devia ter sido, mas que um dia eu sonhei que teria. os sonhos frustrados que tive e tenho. porque não é fácil livrar-se de frustrações. elas nos acompanham onde quer que vamos, como sombras, pensamentos, como nós mesmos.

na mesa há uma caneca vazia, uma bandeja vazia, uma tela vazia. há baratas e músicas e papéis. e eu me apóio nela para escrever tudo o que eu preciso, para abrir a mente e dizer, ou ao menos tentar fazê-lo, que esse exercício de nada está indo melhor do que eu esperava.

hoje eu pensava sobre a vida, sobre como eu preciso melhorar. é necessário, para mim, investir mais em outras formas de cultura além da música, literatura, cinema e arte seqüencial. e não que eu entenda bem dessas quatro, longe de mim, não há nada no cinema que eu entenda, mas é uma boa forma de unir algumas das artes que não aprecio tanto (como o teatro) às artes que amo como literatura (bons roteiros, bons roteiros são boas palavras, boas idéias) e música. as artes plásticas se oferecem a todos como uma puta, qualquer um pode vê-las, cobiçá-las, amá-las ou odiá-las, muitos podem se comover e uns poucos podem tê-las, mas eu não consigo me comover com um sorriso pintado, uma mão esculpida. uma vez eu disse a alguém que eu não conseguia me comover com uma imagem apenas, o texto se faz fundamental sempre, a música quase sempre. sinto que preciso entender de luzes, enquadramentos, sequenciamento, tempo, preciso entender um pouco de teoria musical, preciso saber comos, quandos e porquês de determinadas coisas para crescer não só como alguém que ama a literatura e sonha um dia poder escrever alguma coisa publicável, mas como alguém, simplesmente. talvez não concordem comigo, é bem provável.

esse ano li alguns livros de um escritor americano, judeu, chamado philip roth, e achei que ele abordava assuntos de uma forma sensacional. admirei o jeito como ele conseguia fazer seus personagens extremamente humanos e cheios de defeitos e completamente carismáticos e me inspirei nele muitas vezes nos desenvolvimentos de alguns “contos” que estão por aqui. foi com um dos personagens que ele criou, o escritor e.i. lonoff, que me peguei pensando em como eu sou fraco para o ofício de escritor de verdade. eu não estou pronto para ser um solitário como a literatura precisa que eu seja, não estou pronto para me dedicar a ela e somente ela. ainda tenho sonhos demais para isso. ainda sonho um dia ir a hospitais não para visitar, mas para trabalhar, cuidando de cânceres ou sistemas nervosos ou o que quer que eu termine me tornando. há dias em que tudo o que desejo é que me descubram, que me tirem desse buraco negro literário que é a internet, sugando tudo que há e transformando tudo em coisas que ninguém entende; que me joguem, então, em folhas de verdade, pedaços de papel, espaço físico, que é o que as palavras merecem, porque elas têm força e poder e são tudo o que tenho e tudo o que todos e quaisquer um têm: palavras. mas eu acho que não estou pronto. há dias em que tudo o que quero é me dedicar só e somente à medicina, mas eu não consigo isso porque… bem… porque eu nunca consigo me dedicar inteiramente a alguma coisa. o e.i. lonoff, de roth, ídolo do zuckerman, um escritor iniciante, mostra a todos que a literatura não é para os fracos pouco esforçados e distraídos como eu. ao perceber isso sinto-me uma fraude, o que é uma piada pretenciosa, porque para achar que eu sou algo merecedor de riso devo considerar o que escrevo literatura. podem rir, podem rir.

não apenas o americano roth me faz pensar na engenharia das palavras. com a frase anterior, obviamente todos deveriam saber que joão cabral de melo neto se envolve em seus versos com o mesmo empenho do ficcional lonoff, do real graciliano. não, eu não tenho talento para passear de escritor em escritor, mas um me levou ao outro e ao outro. graça escrevia como as lavadeiras de alagoas lavavam roupas; joão cabral polia o poema como uma pedra, lonoff reescrevia a mesma frase quinze vezes. processos de aprimoramento que requerem mais tempo e paciência e amadurecimento do que tenho.

esse meu exercício é para todos que, como eu, amam a escrita, a literatura, mas sabem que não podem depender dela para suas vidas. conheço pessoas que entendem que a literatura exige dor e sacrifício, exige a lapidação que eu nunca tive paciência de fazer, pessoas que fazem pedras brilharem tanto quanto diamantes apenas com a arte do polimento. admiro-as pela paciência e gostaria de ser como elas, mas não consigo.esse texto vai para a única verdadeira polidora de palavras que eu conheço e que há tempos não leio. esse texto é um pouco para dizer que a admiro, um pouco para dizer que acredito nela, e que um dia espero crescer para me tornar alguém como ela.

Azul.

agosto 19, 2009

ela me dizia coisas que eu nem acreditava. digo… elas todas eram absurdas demais! absurdas como é absurdo, para mim, acreditar que há um ser mágico misterioso invisível que vive em todos os lugares ao mesmo tempo e que sabe de tudo de todo mundo e que inteligentemente desenhou tudo e cada coisa que existe no universo inteiro. ela dizia coisas assim! e o pior de tudo… ela não me deixava rir dessas coisas. maioria das pessoas nunca deixa que alguém que não crê ria das crenças dessa pessoa porque é um tipo de ofensa gravíssima ou coisa do tipo. mas eu sei que há certas coisas que eu acredito que outras pessoas não acreditam e, sinceramente, o fato de rirem nunca me abalou muito quanto a essas minhas crenças. às vezes, quando estou numa crise de fé, eu penso se aquilo é realmente algo correto, mas os argumentos contrários nunca foram nada além de inconclusivos, subjetivos e meras impressões. mais fácil continuar acreditando no que eu acredito que nessa nova crença. mas não envolve super seres. apenas coisas invisíveis. apesar dessas coisas todas, ela era uma garota sensasional. linda, cheirosa e peculiar. quando digo peculiar eu quero dizer estranha. estranha não só pela crença já citada, mas por outras também. ela, com seus olhos castanhos e pele morena olhava o mundo de uma forma tímida como se ela não pertencesse àquele lugar, como se não encaixasse em canto nenhum desse quebra cabeça maldito que é a vida, e teimava em dizer, como se fosse dona das verdades do mundo – como se o mundo tivesse verdades secretas guardadas a sete chaves por uma criatura mágica, dessa vez visível, para variar. não, ela não acreditava nessas coisas. alguém acredita? bem… pensando bem… alguém deve acreditar. acreditam em tudo nesse mundo. acreditam até que há muito tempo um planeta explodiu e todas as almas das criaturas migraram para a terra, onde agora habitam e reencarnam como seres humanos ou coisa do tipo. mas ela não acredita nessas coisas não. ainda bem. digo… acho que vai contra os princípios dela de crer que fomos postos aqui e descendemos de uma “mulher costela” e um cara altamente influenciado por ela que comeram um fruto que dava de uma árvore logo depois de serem tentados por uma serpente com pernas e foram expulsos do jardim que eles eram jardineiros. enfim… ela me fazia rir sempre. não apenas com suas crenças, afinal, se fosse assim não teríamos ficado um tempo juntos como ficamos. foram bons dias aqueles, sabe?  mas dias, não importa quão bons ou ruins, sempre têm vinte e quatro horas cada. eles viram outros dias e outros dias e outros dias. até que em determinada hora um deles não é tão bom assim e o outro continua no ritmo do anterior e tudo o que havia de bom não fica tão bom quanto era antes. as coisas mudam de uma forma estranha e rápida e ruim. é sempre assim. ela me fazia rir de uma forma positiva, com piadinhas que ela fazia e que eu entendia e, às vezes, somente eu entendia. nossas internas. nós adorávamos essas coisas todas. acho que era isso que nos caracterizava como éramos. se você me perguntar hoje quem foi ela eu responderei que ela foi uma série de piadas, quatro vezes quarenta e quatro risinhos e seu céu.

ela tinha um céu só dela. céu não é o paraíso, mas o céu mesmo. aquela parte azul que fica flutuando logo acima das nossas cabeças, onde ficam as nuvens e essas coisas todas. era no céu que fazíamos nossas coisas, vivíamos uma vida. era nosso cantinho da paz. era bom estar no céu só com ela. no céu eu sentia a vida passando de uma forma melhor e lá vivemos os tais melhores dias que eu falei. mas antes de seguir, apesar de não ter muito mais o que falar, deixe-me explicar o que era esse céu. o céu era o seu quarto. pintado todo de azul feito um céu. e à noite estrelas brilhavam no teto. era nosso passatempo deitar na cama dela, apertando-nos naquela cama de solteiro, e contar as estrelas enquanto ouvíamos a noite contar seus segredos a nós dois. luzes apagadas, porta trancada, pais dela dormindo no quarto em frente e nós dois contando “um, dois, três.” e apontando e inventando constelações “constelação do rabo de porco; constelação da senhora penteando o cabelo enquanto cento e setenta e três gnomos bêbados a esperam para jantar”. ouvindo o som do ventilador dela, às vezes do ar condicionado, às vezes de carros acelerando, freiando, queimando pneus madrugada à dentro, ouvindo-a respirar, cair no sono, ressonar, acordar assustada com algum sonho ruim, vê-la se mover, quase me derrubando da cama, às vezes derrubando, me fazendo ir sentar na cadeira do computador e ficar ali parado simplesmente olhando enquanto ela remanchava na cama, espreguiçava-se , enrolava-se e dormia até o sol nascer e eu muitas vezes adormeci na cadeira pensando na vida e em como certas coisas são engraçadas, em como havia pessoas absurdamente lindas que acreditavam nas coisas mais bizarras, em como ela era algo no qual eu acreditava.

pode rir. pode rir dessa minha crença ridícula que eu cultivava. eu realmente acreditava nela. fui tolo, claro. hoje sei, mas à época eu só podia acreditar. você tinha que ver como ela falava, a maldita. dizia no meu ouvido coisas que hoje sinto azia só de lembrar. e eu acreditava nas tolices. acreditava que ela era bobinha e bonitinha e charmosa com todas as coisas dela. acreditava que ela era azul! azul, pela puta que pariu!  que tipo de idiota crê que está amando uma pessoa azul? acho que só eu… mas eu estava bastante errado. ainda bem, acho. eu vivia errado naqueles tempos. às vezes me faz falta lembrar dela. porque eu sei que hoje o céu ainda está lá, azulzinho e lindo como ela sempre manteve, mas agora ele não é mais o meu cantinho com ela. hoje em dia não mais conto quarenta e quatro estrelas no céu. às vezes eu sinto falta disso. sinto falta de morar no azul dela, sabe? eu sempre fui só dela, ela não foi sempre só minha, mas isso às vezes é só um detalhe sem importância. não para mim, é claro. para mim cada detalhe é mais importante que um quadro inteiro. porque… sem eles não se faz aquilo, entende? é… soa como uma das grandes besteiras que eu falo. talvez seja, mas pelo menos eu sei admitir essas cosias. tem quem não consiga, sabia? tem quem ache que é o dono de toda a verdade que existe e que ninguém mais pode acreditar em nada além do que aquele cidadão prega ser a verdade verdadeira. ela não era assim… ela ficava com raiva quando eu ria, mas nunca ficou querendo me impor nada. era uma garota tão boa, um relacionamento…engraçado…acho que tudo o que eu digo para você são as coisas das quais sinto falta. no fim, você vai me dizer que eu sofro tanto porque assim eu quero, que eu tenho problemas para resolver meus conflitos do passado e estou cheio de coisas inacabadas. mas me diz… não estamos todos nós?

Virgínia

agosto 11, 2009

eu nunca li hemingway. você também não. esse é nosso ponto em comum e isso não influencia na nossa relação. você sabe mais coisas do que eu sobre muitas coisas da vida e eu sei outras tantas coisas sobre tantas outras coisas. mas, ainda assim, não conseguimos nos completar. você gosta das escritoras, você acha que elas sabem transmitir os sentimentos muito bem. eu gosto dos escritores e acho que eles sabem pensar nos sentimentos muito melhor. mas você não acredita que os sentimentos devem ser pensados. você acha que eles não precisam ser racionalizados e nem acha que podemos colocá-los lado a lado e mensurá-los, porque você me diz que não se mede essas coisas, que não é como se faz com altura, perímetro cefálico, cintura, coxa, busto, quadril, pau, pé. não dá pra colocar uma fita métrica nessas coisas de sentimentos e as medir para, no final, compararmos qual tem o maior. (o meu é maior que eu teu, lálálálá). você prefere as músicas que eu não dou valor, mas não por causa disso. talvez eu não goste porque você gosta tanto e certas coisas em você me irritam tanto quanto boa parte das coisas em mim irritam você. de vez em quando eu te pego escutando aquela música que eu detesto e que me faz ter nojo das pessoas que a escutam, e você conhece e canta e até ensaia uns passos de dança. uma dança maluca que você inventou só para me provocar, mas diz que não. diz que sempre gostou daquela música e que ela era muito boa para se dançar, mas eu só imagino um monte de pessoas paradas escutando até que a primeira toma a decisão sábia de se mover e sair do lugar de onde aquilo está vindo. você nunca gosta das minhas provocações e eu nunca gosto das tuas, não gosto dos teus segredos e nem você dos meus. eu gosto do teu cheiro e se eu pudesse eu te cheirava toda, até a alma. como no livro que você não leu, mas que tem um filme que você talvez tenha visto, mas eu não sei porque eu nunca te perguntei. bem…tem esse cara e ele sente cheiros e ama cheiros e perto de você eu me sinto ele. o que é um tanto preocupante porque ele é um louco que mata pessoas para tirar seus cheiros. mas isso é só depois. enfim. quando eu te cheiro eu sinto vontade de nunca parar. de inspirar até meus pulmões não agüentarem mais e aí continuar inspirando até meu nariz não conseguir captar mais nenhum odor e ainda assim continuar a te cheirar até que você preencha meu coração com o odor que emana do teu corpo quente. de vez em quando, sem você perceber – ou você percebe? – eu fecho os olhos e respiro fundo perto de você. é o mais perto disso tudo que eu disse que eu consigo chegar. e eu adoro o teu gosto. você tem gosto de flor salgada. uma verdadeira delícia que não se encontra em lugar nenhum desse mundo inteiro, mas que eu já provei porque é assim que as coisas são. eu queria que você soubesse dessas coisas, sabe? porque acho que ser sincero é a melhor coisa que uma pessoa pode fazer para a outra. é um presente meu para ti. e você sabe como eu gosto de te presentear. lembra daquele presente que eu te dei e você achou que tinha sido muito, mas muito caro e eu disse que não havia sido? foi. mas valeu cada centavo pelo sorriso que você deu, pela tua empolgação ao recebê-lo. eu tenho dessas coisas. mas tudo aqui você já sabe, porque você é a pessoa que mais me conhece no mundo, a pessoa a quem eu mais me exponho, a minha pessoa favorita do mundo todo. de todos os quase sete bilhões. você é a maior improbabilidade que existe e, por si só é um milagre, você sabe, aquela coisa toda daquele quadrinho/filme. ah, eu sempre esqueço que você não leu/viu. você prefere os dramas chorões e eu as comédias idiotas. você acha maconha legal e eu não suporto o cheiro daquilo. você me diz boa parte dos teus sonhos e eu acho que mais da metade deles não são bons, mas ainda assim acho que você deve sonhar, deve correr atrás e todas essas coisinhas que os livros de auto ajuda falam. porque se não o fizermos, quem fará por nós? lembro de um dia em que você pediu que eu lesse um livro. eu li. você perguntou o que eu achei dele e eu fui sincero. eu não devia ter sido, você ficou magoada. uma verdadeira pena, você sabe, mas é assim que as coisas são e acho que se eu um dia te passasse um livro ruim você me diria. mas eu não te passo livros ruins porque eu não os tenho. além do mais, depois de um tempo eu percebi que eu não deveria tentar te fazer conhecer as coisas que gosto, mas que deveria mais conhecer as que você gosta. por isso li livros improváveis, assisti a filmes e seriados demasiado bestas, escutei músicas ruins. para poder entender um pouco do que passa na tua cabeça. mas é claro que eu não consegui gostar de nada, nem entendi você. talvez eu não tenha me esforçado o suficiente ou talvez você não seja alguém para se entender, mas para se sentir, como você diz que os sentimentos são. você, talvez, seja um dos meus sentimentos mais intensos. talvez não. às vezes eu espero que seja, só pelo prazer de sofrer um pouco sabendo que é você quem me fará sentir como me sentirei, mas boa parte do tempo acho isso uma idiotice sem tamanho. minhas mãos doem quando escrevo à mão por muito tempo, minhas costas doem quando fico sentado por muito tempo, minha cabeça dói quando fico acordado por pouco tempo, minhas bolas doem quando não ejaculo há muito tempo, meu coração dói quando não vejo você há muito ou pouco tempo, meu coração dói quando vejo você, meu coração se enche de alegria quando você aparece, meu coração se enche do teu cheiro quando você não está comigo. e é tudo muito, mas muito estranho porque é assim que as coisas são. você não gosta do que eu gosto, não conhece maioria das coisas e parece não se interessar por elas. eu conheço boa parte do que você ama, percebo que metade ou mais não passa de lixo e que a outra metade é feita de coisas boas, mas que eu talvez não dê o devido valor a elas porque não são especiais para mim. um dia eu vou olhar pra você e pensar: “o que foi que vírginia me deu de bom, o que sobrou de especial dela em mim?” e eu não saberei responder. talvez eu fique em dúvida se foi aquele dia em que você me matou e eu ressuscitei ou se foi aquele dia em que você me mostrou aquela música, aquele texto, aquele sentimento. eu nunca saberei responder, meu bem.

madalena.

agosto 3, 2009

ela entrou no meu quarto observando tudo como vinha fazendo desde que pusera os pés no apartamento. eu havia ligado para ela há cerca de uma hora. estava esperando por ela assistindo aos programas da televisão aberta de madrugada. meu pequeno ritual masoquista. ela bateu à porta com o punho, o velho toc toc toc, nada de campanhia ou coisa do tipo. uma moça bonita. traços leves e firmes, olhos escuros, pele clara, lábios grossos, cabelos castanhos do tipo que todas as tinturas já tocaram, mas não foram extremamente fodidos por causa disso. usava uma maquiagem leve, diferente do que é o esperado para quem trabalha com o que ela trabalha. achei isso tudo muito bom, muito discreta a moça. meu quarto era o último à esquerda, depois do antigo quarto do meu irmão e quase ao lado do dos meus pais. ela percorrera os olhos por cada centímetro da sala, do corredor, quase parando para observar as fotos nos porta retratos, as lembranças de tempos que seria bom esquecer. as paredes do meu quarto são lisas com exceção de um ou dois quadros pintados pelo meu pai. ela elogiou um deles. a primeira coisa que me disse foi que o dinheiro tinha que ser pago logo. eu disse que tudo bem, gostei da atitude profissional. queria que ela continuasse assim por toda a noite, mas não foi muito assim que ocorreu. depois que lhe entreguei o dinheiro em mãos, ela o guardou dentro da bolsa que carregava e olhou minhas prateleiras cheias de livros, comentou algo do tipo “nossa você gosta de livros, leu todos eles mesmo?” e eu disse que sim, havia lido todos eles ao longo da minha vida. ela disse que gostava de ler quando tinha tempo, mas se lamentou de quase nunca ter tempo. a falação dela estava começando a me incomodar, pensei que se continuasse como estava, logo ela pegaria os porta retratos que estavam na cômoda. eu não podia estar mais certo. ela os manuseava com um certo desleixo, mas com mãos firmes, de quem sabe exatamente com que força manusear coisas frágeis. ela pegou exatamente o porta retrato que mais me embaraçava. estava lá eu criança com uma roupa escolhida pela minha mãe, fazendo exatamente o que ela mandava porque se não fosse assim eu ficaria de castigo ou qualquer coisa do tipo. eu, aos vinte e poucos anos, tinha que conviver com essa memória todo dia, porque se eu me desfizesse daquilo meus pais, provavelmente, se desfariam de mim. olhou bem a foto, enquanto fazia um paralelo entre o menino da foto e o homem que ela via em sua frente, tentando desvendar em sua cabeça o que teria acontecido nos muitos anos que separavam aquela impressão do momento atual. ela não conseguiria, eu não consigo. obviamente algo aconteceu. ela comentou algo sobre como aquela foto era fofa.
“sei, sei.” tirei o objeto de sua mão, coloquei-o sobre o móvel, com a foto voltada para baixo. “não mecha em nada. se quiser tomar um banho, o banheiro fica logo aqui.” abri uma porta que mostrava o meu banheiro. “se não achar necessário, acho bom começarmos logo.”
(uma coisa sobre mim: em todos os meus anos de vida eu nunca me envolvi seriamente com ninguém. nunca mantive relacionamentos que durassem mais que poucas semanas – acho que o maior deles durou 6. tudo acabava ou pouco antes de eu conseguir o que eu queria – e aí eram elas que acabavam – ou pouco depois de eu conseguir o que eu queria – nesse caso eu acabava para evitar um compromisso, fugir de coisas que eu não queria desde o começo, mas menti dizendo que sim, que estava querendo um relacionamento sério e essas merdas todas que os acompanham do tipo visitas aos parentes, almoços em família e tudo mais. acho que pela minha aversão a essas coisas eu sempre acabo como naquela noite, com uma completa desconhecida mechendo nas minhas coisas, querendo forçar uma intimidade que nós dois nunca iremos ter.)
ela disse que tomaria um banho rápido e depois viria para mim. eu disse que ótimo, tinha separado um sabonete novo e uma toalha limpa para ela e que estavam ambos em cima da pia. ela foi para o banheiro sem fechar a porta. eu entrei e fiquei da porta observando a silhueta do seu corpo por trás do box. ela falou alguma coisa sobre susto quando me viu ali parado na porta e perguntou se eu queria começar ali. eu disse que estava tudo bem, que por enquanto eu queria que ela só terminasse o banho. ela começou a me fazer perguntas sobre meus gostos, sobre minhas músicas. eu respondia a todas elas com frieza e impaciência. mas ela continuava até que uma hora eu saí do banheiro e fui deitar na cama um pouco para poder voltar a ouvir as vozes na minha cabeça.
ela saiu do banheiro usando um robe tirado de não sei de onde, acho que ela trouxe com ela na bolsa – a bolsa que me preocupava porque eu não confiava nela e em seu jeito observador e atento, a bolsa que poderia facilmente ocultar qualquer objeto que minha mãe ostenta pela casa e que ela ache lindo demais e queira levar para ela ornamentar sua casa, seja lá onde for. abriu o robe e não usava nada por baixo. ela falou alguma coisa sobre como ia me enlouquecer e eu disse “tá, tá.” impacientemente enquanto tirava a cueca que estava se tornando apertada. ela fez aquela cara fingida de que estava vendo o maior pau do mundo, elogiou-me e chegou perto. então eu disse para ela não falar muito e ocupar a boca. ela colocou a camisinha com a boca e começou o serviço todo. tudo muito bom, tudo muito bem. até que uma hora aquela chupação toda encheu o saco e partimos para a penetração. foi aí que ela voltou a falar. e ela gemia coisas que supostamente deveriam me estimular a desejá-la mais e mais, mas não conseguia ter o efeito desejado, apenas me desconcentrando com o tom irritante de sua voz. depois que tudo terminou deitei-me na cama e, parecendo o maior dos clichês, ela perguntou se poderia fumar ali. eu disse que tudo bem, mesmo sabendo que depois teria que explicar o maldito cheiro insensando o ar e as colchas. fiquei deitado por um tempo, em silêncio, ouvindo  enquanto ela foi tomar um segundo banho. moça limpa. depois, ela saiu do banho, sentou-se na minha cama, olhou bem fundo nos meus olhos, numa tentativa de me entender. mas ela não conseguiu, jamais conseguiria. pediu para eu ligar para um táxi. prontamente liguei. ela passou mais cinco minutos no meu quarto, se arrumando, se vestindo, derrubou suas coisas na minha cama e foi arrumando como se para provar que era uma moça honesta, que não precisava roubar, que o dinheiro que eu lhe pagara era só o que ela precisava, arrumando para que tudo coubesse bem novamente na bolsa para que seu robe não ficasse volumoso demais, para que sua carteira não ficasse quase saindo e essas coisas todas. então, depois de tudo organizado, levantou-se, disse que o taxi já devia estar perto e que ia descendo. achei ótimo. levei-a até a porta, perguntei se queria que eu descesse com ela. ela disse que tanto fazia. resolvi que não deveria descer. despedi-me dela agradecendo a noite, dizendo que depois ligaria novamente para ela e qualquer coisa assim. ela sorriu ao me dizer tchau e desejar uma boa noite. eu não sorri, só lhe disse um até logo com som de adeus. entrei no apartamento, tranquei a porta, sentei na sala, onde a tv ainda estava ligada, porém muda. as imagens de um homem de bigode segurando uma arma apontada contra outro cidadão se projetava em meus olhos. mudei de canal à procura de qualquer outra coisa que não me fizesse pensar e comecei a ver um pastor falando sobre abençoar a água que está sobre a televisão.