Archive for julho, 2009

A Frase.

julho 29, 2009

existe uma sentença poderosa que, dita por uma mulher, pode dominar os sentimentos de um homem de forma tão selvagem que eles se tornam incontroláveis e incontíveis. algo tão forte que um homem pode chegar a verter secreções depois de ouví-la. a forma como é dita sempre é importante, é necessário prestar atenção quando ela é dita, como ela é dita, todas as expressões, o franzir de testa, o rubor de leve sob as delicadas maçãs do rosto, o leve baixar de olhos que revela uma vergonha e constrangimento que enche qualquer homem de orgulho. os detalhes fazem a cena ser mais importante ainda. para alguns ela pode parecer trivial, mais uma frase de dia a dia, algo banal como “bom dia” ou “acabei de almoçar e agora vou cochilar”, mas todos os homens sabemos que não é bem assim que funciona. muitas mulheres escutam a frase vinda de nós e, para elas, não deve fazer diferença, não desperta nelas os mesmos sentimentos que em nós. quando a tal frase atinge os ouvidos masculinos, significa muito mais que o amor de “eu te amo” dito ao ouvido como num segredo entre o casal de amantes numa noite enluarada ou qualquer desses clichês românticos de amor. o que foi dito, independente da intensidade da voz, se foi gritado com orgulho extremo ou baixinho, com uma vergonha extrema capaz de impedir de olhar nos olhos ou até mesmo de falar qualquer coisa depois disso, ou até mesmo vir escrito num bilhete de papel, dobrado e passado da mão da mulher para a do homem; não importa. o que importa é que é muito mais poderoso que um eu te amo que será repetido à exaustão, com ou sem significado real. já o que é dito por ela a nós é lisonjeiro e euteamo nenhum pode superar uma coisa assim.
eu ouvi alguns eu te amos na minha vida, devo dizer, n’alguns poucos acreditei, na grande maioria não. ainda assim, a maioria dos que quis crer, pensando que eram verdadeiros como a mona lisa do louvre, pareciam-me meras mentiras mal elaboradas se comparadas às sentenças proclamadas por aquelas poucas mulheres que abriam suas bocas e articulavam as palavras de forma não tão sensual quanto deviam ser, mas da forma precisa como deviam ser ditas. lábios se movimentando lentamente, cada fonema sendo pronunciado de forma inconfundível, cada um a seu tempo exatamente como deveria ser.
então, como se por brincadeira de algo maior que nós, a natureza da mulher, sente-se o cheiro dela. não o perfume nem nenhum desses odores artificiais de flores mortas e essências do tipo, mas seu cheiro de verdade, o verdadeiro, que vem da carne e ossos, aquele que quase nos faz sentir o sabor da mulher em questão. não há o que se fazer quanto a isso. apenas fechar os olhos e saborear a atmosfera criada.
não há nenhuma situação específica para se escutar a frase. qualquer momento ela pode ser dita. com ou sem aviso prévio, elas parecem dizer isso quando sabem que estamos indefesos, jantando, passeando, indo dormir… umas mulheres ainda nos dizem isso ao telefone numa voz sussurrada que quase se perde no caminho. outras nos dizem quando estamos deitados com elas, dentro delas, ela se inclinando, alcançando o ouvido e dizendo. não há reação. paramos e entramos em tilt. pane completa. nossos programas realizam uma operação ilegal e precisamos reiniciar pressionando ctrl alt del duas vezes. nossas cabeças explodem. e quando percebemos a importãncia daquilo, logo depois do choque inicial, nossos egos inflam e chegamos tão perto do paraíso que nos achamos deuses na terra.
depois do que é dito atingir a consciência e se fazer entender, o que deveria ser uma confidência é espalhado aos amigos de confiança – e às vezes nem tanta – dos homens em questão, numa busca por respeito por ser exatamente a pessoa que escutou o que escutou. respeito por ser quem é, e esperança de que um dia todos os amigos escutem algo semelhante para sentirem a alegria que é escutar isso das suas mulheres (ou até mesmo não sendo das mulheres deles, mas de qualquer mulher, o que é até melhor, mais inesperado).
e, no exato momento em que elas enunciam as palavras, não importa o que estejamos fazendo, perdemos o rumo. esquecemos o que estamos lendo, que música cantarolávamos, qual o nome daquela moça que você conheceu num bar um dia, como é que faz para se manter em pé e onde fica a boca para que possamos fechá-la. danamo-nos a pensar no momento. não aquele em que ela nos diz, mas o que ela executa o ato. imaginamo-na deitada na cama, sozinha numa noite quente demais para se usar muita roupa. ela usa uma camiseta e uma calcinha de algodão. nada além. imaginamos suas mãos passeando pelo corpo, explorando cada centímetro até que uma delas resolve se enfiar na calcinha, roçando seus pêlos recém aparados, escuros como a noite que a lua não toca, mas que conhecemos bem só com a imaginação, os vemos às centenas, eriçados. os dedos passam de leve por sobre eles, movimentando-os, mas se preocupam mais em alcançar o que os pequenos lábios protegem. conseguimos imaginar cada movimento, inicialmente lentos e ritmados e progredindo na freqüencia e intensidade conforme o tempo vai passando. a respiração que era calma e tranqüila começa a ofegar, sentimos – como se fosse possível na realidade sentir tais coisas – seu pulso acelerar e nos é claro o sangue tingindo sua bela face do vermelho mais intenso. seus dedos estão molhados, os olhos dilatado. ela finalmente sente que pode se acalmar, que a morte veio mas passou. há um sorriso em seus lábios. é exatamente esse sorriso que mais esperamos. é o reconhecimento, nossa recompensa. saber que abria sua boca, mordendo de leve os lábios, gemia e quase proferia palavras naquele silêncio só dela por nós é prêmio que nos é dado. não há um preço para isso. não há amor no mundo que se compare a, na nossa ausência, sem aparente porquê, uma mulher se tocar com nossa imagem em mente.
então, para que a imaginação fique completa, se torne quase real, pedimos detalhes. quando, onde, como, por quê… deus, você quer saber as coisas todas, os motivos que ela talvez não dê valor, não saiba explicar.
no exato momento em que se volta à realidade e a mulher que acabou de nos tornar deuses está na nossa frente, pensamos em como deveríamos restribuir tal gesto. dizer que também havia se tocado pensando nela, ou se ainda não o fez, irá fazê-lo assim que tiver a primeira oportunidade (masturbar-se pensando nela se masturbando enquanto pensa em você, algo completamente egocêntrico, não é mesmo?), não adianta porque as mulheres não dão o devido valor a essas coisas quando vêm de homens. então sentimos uma vontade de amá-la, tomá-la nos braços e jogá-la na cama onde passaremos a noite inteira juntos. e, no final da noite, com o sol quase nascendo lá fora, pediremos a ela para que ela se toque para que possamos assistir a tudo aquilo. ela ri. começa a brincar consigo mesma e com as sombras, quase como duas pessoas, e o que ela tocava as sombras tocavam, erguiam os braços por sobre ela, prontas para segurá-la firmemente. por instantes, pensamentos de que ela jamais conseguirá se desprender dos braços ao seu redor passam na nossa mente. um medo que jamais conseguríamos explicar e que quase nos envergonha. continuamos assistindo àquela bela cena, a mulher que se toca porque pedimos, para que vejamos como ela gosta do que está fazendo. ela nos observa, abre um sorriso sapeca, morde os lábios inferiores, geme de leve, diz nosso nome entre esses leves barulhos excitantes porque somos nós quem ela quer. não há eu te amo ouvido no mundo que supere o sentimento que nos inunda no exato momento em que nosso nome é dito entre gemidos de prazer. é como um presente de natal e aniversário acumulados e entregues num dia só. é como assistir a um universo criar vida em poucos segundos. algo gigantesco e divino.
as mulheres nunca entenderão o poder de tal sentença porque nós homens proferimo-na com tanto descaso e tanta naturalidade que a elas parece desimportante entrar no hall de mulheres pela qual um homem bate punheta, um hall em que atrizes pornôs, artistas da tv e completas desconhecidas se degladiam numa eterna briga no gel. elas jamais saberão o que há de tão especial em coisas assim, se perguntarão, talvez, por que é mais precioso que um eu te amo, se elas podem muito bem se tocar por um cara que não amam. e os homens… nós sorriremos sabendo que explicar não adiantaria, cada um sabe bem o que sente e palavras nenhuma seriam capazes de retratar a verdade. talvez elas ainda consigam relembrar certos aspectos dos pensamentos e emoções sentidas, mas não conseguiriam passar disso.
às mulheres fica o esclarecimento que a frase dita pode dominar homens como nenhuma outra pode fazê-lo. depois dela, os homens vão se derreter antes seus pés. vão te agradecer sem perceber e, pensando que são deuses, tratar-te-ão como deusas, ou ainda mais, como as criadoras dos deuses. mas tudo tem uma validade, até a divindade. depois de um tempo queremos saber se outras se tocam pensado em nós. depois de escutada uma vez, a frase precisa ser repetida, mas por outras mulheres de cabelos longos e negros, curtos e vermelhos, amarelos que batem no ombro, novas vozes, novas depilações. então, talvez, pouco depois do endeusamento, seja bom vocês nos trazerem de volta à terra dos mortais. às vezes é necessário ferir para mostrar que se importa (e só o faça se realmente se importa, se realmente nos amar. se não é o caso, nos abandone no olimpo).
traga-nos de volta à realidade, mulher, com uma mão suave e firme. como quem sabe o caminho de volta para casa, guie o menino que se perdeu. diga palavras gentis e nos mostre que podemos perdê-las se não nos agarrarmos a vocês. façam isso se nos querem, se nos amam. e, se nós as amamos perceberemos facilmente que não vale a pena outras vozes, outros rostos. mas é sempre bom se sentir como um deus.

a última carta a Ela.

julho 23, 2009

é assim porque tem que ser. não há nenhum outro motivo para as coisas. é preciso que seja assim, não há como mudar. faz parte das coisas da vida. como o billy pilgrim. “coisas da vida”. poucos de vocês saberão de onde ele é e o porquê de eu escolhe-lo, talvez nem eu saiba direito dessas coisas, mas aqui está, escrito com minhas palavras, minhas mãos, meu lápis – porque eu nunca consegui abandonar essa mania de grafite. não sei como se escrevem testamentos verdadeiros. na verdade, isso não é um testamento. é apenas uma carta aberta aos vivos. espero que estejam todos confortavelmente sentados e os que estão em pé, por favor me desculpem pela falta de espaço. escrita por mim hoje, na madrugada do dia tal do ano tal, sem nenhum conhecimento de quando minha morte vai chegar, apenas pela diversão de ter o que escrever. pobre daquele que sabe e vive com medo, vive apressado, vive sabendo. todos sabem que o saber é o verdadeiro perigo do mundo. conhecimento é a arma mais usada para a autodestruição.
espero ter chegado a idades mais avançadas que a atual. por incrível que pareça, eu quero envelhecer mais ainda e sofrer ainda mais as conseqüencias da última grande piada da vida. espero que minha mulher esteja bem se não estiver morta. e sei muito bem que ela sabe o que fazer hoje, já que eu não posso guiá-los e entretê-los no meu funeral. espero que meus filhos, os dois, tenham netos, assim terei bisnetos na época da minha morte.
lembro do nascimento de todos. o menino nasceu no segundo ano do nosso casamento, depois que Ela parou de usar as pílulas e estávamos em empregos estáveis e viviamos uma vida confortável. do jeito que pode parecer completamente entediante para boa parte das pessoas, especialmente os jovens que sempre acham que viver a vida é se arriscar todos os dias, mas que para mim – e espero eu para Ela também – foi a realização de um sonho. ele nasceu numa quarta feira, às 16:43. a obstetra foi uma colega de turma, uma das poucas com quem eu ainda mantinha contato depois de formado. chovia e era março. ele veio fechando o verão. foi o que alguns disseram. alguns são bregas e caem em clichês, mas eles não deixam de ser verdades. depois do verão, como todos sabem, veio o outono. como estamos onde estamos – e espero morrer onde tanto pedi para morrer, senão tudo isso estará errado e meus planos falharam. abortar plano, abortar plano – outono não existe, nem primavera, e mal existe um inverno. existe a estação das chuvas e a estação do sol. ambas têm dias quentes e noites que entremedeiam o quente e o confortável. o menino saiu a cor da mãe, os olhos do pai. levamos ele para casa.
um ano e meio depois, o menino cabeludo a andar e falar pela casa, aproveitamos uma noite em que a avó materna tomou conta dele para que eu e Ela pudessemos relaxar e fizemos a menina. ela saiu depois de nove meses, auxiliada pela minha amiga, num sábado de sol no meio de agosto, às 10:07. era linda como um raio de sol atravessando um prisma. ela parecia pegar o melhor de nós dois: era a cara da mãe e graças aos bons genes, quase nada ruim do pai. lembro dos dois crescendo belamente. das brigas estúpidas por causas bestas. lembro muito bem do dia em que a menina quase arrancou um pedaço do braço do menino com uma dentada. o menino chorou por toda a noite e a menina, com a boca ensangüentada, foi colocada de castigo por um mês. depois disso eles se aproximaram, por mais incrível que pareça. tornaram-se amigos, aceitaram o fato de serem irmãos.
lembro de quando conheci a mãe deles. ela vinha linda do trabalho. usava suas roupas normais e eu a vi e pensei que jamais conseguiria dizer a ela o quanto ela era a melhor visão que eu tive naquele inferno. quase não falei isso, mas tomando coragem de não sei de onde, sentei ao lado dela e disse que ela era provavelmente a pessoa mais interessante daquele lugar e que eu adoraria conhecê-la. acho que nunca passei tanto tempo conhecendo uma pessoa. isso foi há mais de 35 anos, mas lembro de como seu cabelo negro caiu sobre os seus olhos por um tempo e você teve que ajeitá-los para melhor me olhar nos olhos e foi aí que eu pensei: ok, acho que ela não deve achar que eu sou um maluco qualquer abordando-a, acho que ela realmente está ouvindo o que estou falando. falei pra você sobre o que eu fazia, o que estudei, onde comecei a trabalhar e essas coisas que você não sabia. você me falava das tuas coisas e começamos a nos conhecer naquela noite. foi bom. com o tempo, é claro, fomos nos conhecendo mais e mais. descobri teus medos e você os meus. e nos dissemos coisas para afastar tais medos: “quando vier o despertar, é claro que eu protejo você.”; “sim sim, se você começar a ficar demente eu te ajudo a se matar.” nós sabiamos exatamente o que falar um para o outro, sabíamos que presentes dar, que frases escrever nas dedicatórias. quais nossos ficcionistas favoritos, as bandas favoritas, os poetas favoritos. sabíamos de todas as besteiras que pouca gente consegue saber sobre seus parceiros mesmo depois de anos de casados. e sabíamos dessas coisas antes mesmo de casar. eu fiquei chocado por você não ter lido certas coisas e você ficou chocada por eu não ter lido outras e, juntos, lemos cada um suas coisas, formamos nossa biblioteca. cada um com seu trabalho, ambos compartilhando as paixões. foi depois de dois anos juntos que eu escrevi um pequeno discurso sobre como era maravilhoso estar com ela e sobre como era ela quem me dava esperanças para sustentar todas as minhas maiores vontades e torná-las realidade. e que não estar com ela era sentir medo, fraqueza, e meu corpo suava e esfriava. era ela quem trazia calor à minha vida. e foi assim que eu a pedi em casamento. até hoje ela diz que lembra de cada palavra que eu disse, mas eu não acredito nisso.
lembro de quando o menino passou no vestibular e saiu da cidade em que estavamos morando. Ela chorou como se tivesse perdido um pedaço da alma. dois anos depois foi a vez da menina. ficamos sozinhos pela primeira vez em quase 20 anos de casados. não sabíamos o que fazer com o peso daquela ausência. os dois filhos estavam vivendo a vida como maiores de idade, responsáveis por si mesmo, noutras cidades, com outras pessoas. foi nessa época que o menino engravidou a mocinha com quem namorava desde os tempos de colégio e que se mudou com ele quando ele se mudou, porque passaram juntos no mesmo curso e essas coisas. o menino estava seguindo os passos da mãe na carreira, já a menina seguia meus passos como eu sempre disse para ela não fazer, mas ela puxou o meu temperamento e quando quis quis realmente. era uma jovem esperta, inteligentíssima, de verdade, e disciplinada. a mãe foi a melhor influência nessas horas, porque todos aqui sabem como eu sou indisciplinado e preguiçoso. ou era, vão mudando os tempos verbais para adaptar ao atual momento em que lêem a carta.
meu primeiro neto nasceu numa madrugada escura de junho, às 2:32. mais uma vez com minha colega. minha nora pariu o garoto e quase não agüentou. salvamos a vida dela por muito pouco. isso faz 13 anos. há 8 anos nasceram as gêmeas do menino. já não foi minha colega quem as segurou pela primeira vez. minha colega precisou do meu auxílio há 12 anos. diagnosticamos um câncer de pâncreas. ela não resistiu muito tempo. quem fez o parto foi a menina minha filha, que estava terminando a faculdade e quase casando com o marido dela. acho que tivemos sorte com as escolhas dos nossos filhos. nunca tivemos problemas com eles. eu poderia falar sobre os dois e falaria muito bem de cada um. eles têm meu carinho e meu respeito.
eu lembro de uma noite na cama com Ela. foi há pouco tempo para mim. estávamos os dois deitados assistindo a um seriado bobinho que passava na televisão. Ela disse que nunca havia visto aquele seriado antes e eu lhe disse que ele havia sido cancelado quando eu tinha 13 anos. não sei que canal resolveu desenterrar aqueles episódios, mas foi muito bom porque naquele dia Ela soube perfeitamente tudo sobre como eu queria que fosse hoje. e se vocês estão ouvindo a carta é porque ela continuou me amando e respeitou as minhas vontades. eu disse a Ela que haveria Noel Rosa e Led Zeppelin no meu funeral e Fernando Pessoa. não mais que uma hora seria sua duração. o tempo perfeito seria os onze minutos de In My Time of Dying, os três minutos e pouco, acho, de Fita Amarela e o tempo de alguém, queria que fosse Ela, recitar Quando vier a primavera do Alberto Caeiro, meu heteronômio favorito do Pessoa. além, é claro, do tempo de ler a carta. mas a carta é a parte mais desnecessária de tudo isso.
há pouco tive a iluminação. a noção de que a morte está pairando em minha vida desde quando passei da metade da expectativa de vida atual. eu não sonho com a imortalidade, seria bom, muito bom, mas eu sei que ela é impossível. quero ser, no entanto, lembrado, quero partir com a consciência de que construí coisas boas. olho para meus filhos e vejo que consegui, vejo meus netos sorrindo e brincando e sei que consegui. mas ainda há tempo para fazer mais. espero que entre o meu agora e o hoje de vocês haja muito tempo para marcar muito mais e fazer muito mais do que fiz.
acho que o pior de saber que eu vou morrer é a idéia de que Ela não estará mais comigo. sei que não sentirei mais nada, cessarei minha existência, mas pensar agora que alguma hora eu poderei não tê-la dói como doía a vida antes Dela. lembro de um dia ter visto um filme no cinema e alguém dizia como era bom ser jovem e sentir as dores da paixão. posso dizer, então, que nunca cresci e que a paixão sempre queimou em meu coração, fazendo doer sempre um pouquinho, o suficiente para saber que era aquela a dor que eu queria não parar de sentir. com Ela eu me sinto uma criança andando na montanha russa. com Ela eu ainda sinto as borboletas, que jamais entrarão em extinção, sinto a vontade louca de aparecer com centenas de balões coloridos na frente do trabalho Dela, sorrindo e perguntando se Ela está a fim de voar. quando estou perto Dela sei que todas as pequenas coisas, cada um dos gestinhos que faço, por menor que sejam, são compreendidos. quando estou com Ela eu sei que tudo vale a pena. e que não há nada de entediante em viver toda uma vida ao lado da pessoa que se ama.
essa carta é para agradecê-La por ter me dado tudo o que eu sou: pai, avô, amigo, teu marido; para agradecê-La por ter aparecido na minha vida e aceitado entrar nela. amigos, aqui está a mulher que faz uma vida inteira valer a pena. Ela é o verdadeiro significado de amor.

listada.

julho 15, 2009

olha só, meu amor, eu podia mentir pra você pela primeira vez agora. podia dizer que eu lembro de quando você apareceu na minha vida pela primeira vez e que eu lembro que naquele dia – um dia de setembro, perto do fim do mês, pouco depois do aniversário de uma das minhas melhores amigas que você nunca conheceu porque nunca quis aceitar os meus convites – a lua cheia mandava a luz que batia em você de uma forma linda, deixando a tua pele morena extremamente desejável, mas eu não lembro. não lembro também de quando você me disse algo que me fez pensar que talvez você não quisesse realmente dizer aquilo, mas outra coisa, porque você sabe como eu sou com pessoas. eu sempre as entendo errado. eu sempre vejo mais malícia nas palavras e nas ações, especialmente nessas últimas, do que realmente existe. mas isso é uma coisa minha e você me conhece bem o suficiente para saber que eu não lembro de muitas coisas e dessa vez você não pode culpar o álcool. estou aqui provando que sou esquecido mesmo e que meu cérebro não está sendo deformado pelo etilismo. e convenhamos, minha dependência dele não existe, e já você… eu quase não consigo imaginar sem a bebida na mão e um cigarro no bico.

quando eu olho para você, e você sabe porque eu já te disse (eu já te disse tudo o que estou dizendo aqui, mas eu gosto de me repetir porque acredito que é na repetição do que foi dito que o que foi dito se mostra algo constante e não apenas algo de momento. uma vez você me disse que tinha medo quando te diziam “eu te amo” porque pensava que era só naquele momento e no segundo depois de dito ele deixaria de ser verdade, então eu costumo acreditar n’algo parecido com isso. eu tento sempre confirmar meus sentimentos. sempre deixar claro o que precisa ficar claro. porque ninguém vive bem na penumbra da vida. perde-se muitos detalhes, meu bem. você sabe, eu sei, o mundo inteiro sabe disso. os detalhes são tudo o que importam para uma verdadeira vida. sem eles é impossível se desenvolver qualquer coisa.) eu sinto uma enorme paz aqui dentro. e eu nem sei se é paz ou amor o que eu sinto, mas sei que é muito bom. sempre muito bom. e eu já te disse tanta coisa que você deve estar cansada de tantas coisas que eu ainda tenho pra dizer.

eu lembro de uma vez, quando você viajou para longe e eu fui te levar no aeroporto. no carro a gente só fez escutar música. você não me dizia uma palavra e eu não dizia uma palavra com medo de quando fosse falar interromper a palavra que você estava pensando em começar a dizer. ficamos em um silêncio que conseguiu me ferir. quando eu era mais novo eu pensava que eu sabia conviver bem com silêncios e olhares e viver apenas disso, mas eu cresci e vi que nem só do silêncio apaixonado vive o homem. que as palavras são muitas vezes bem mais necessárias que as ausências de sons. naquele dia eu te disse adeus com a triste esperança de que nunca mais nos veríamos. eu te abracei, te beijei. e você foi embora. mas voltou. não lembro muito bem de como foi a vida enquanto você esteve lá, mas não foi a pior coisa do mundo. meu mundo não pareceu menos bom nem nada do tipo. eu acho que eu só senti falta de você. eu te disse isso quando você chegou. disse que senti a tua falta, saudades até. e você me abraçou e disse que também sentiu. só que eu nunca acredito no que outras pessoas me dizem porque é muito fácil dizer as coisas, eu só acredito no que eu posso sentir. acho que com você é a mesma coisa, mas não sei.

eu tenho fé na humanidade. eu sei que é tolice, mas eu tenho. tenho porque se não tivesse, como seria? é besteira confiar em alguém, mas acho que eu sinto a necessidade de fazê-lo. e eu confio em você. confio como confio em poucas outras pessoas. e eu não vou dizer o nome das pessoas por mais que você esteja querendo saber. eu acredito no que as pessoas me dizem sobre suas vidas porque é o que elas dizem sobre suas vidas. se não elas, quem sabe mais sobre o assunto? eu tenho fé em você, meu bem. mas às vezes você me faz pensar em abandonar tudo por causa de uma coisa qualquer. eu não sei bem o quê, mas às vezes eu olho para você e não te vejo. não vejo a mulher por quem me apaixonei, a dona dessa carta, de todas as cartas que eu tenho aqui dentro para escrever. aí eu não faço idéia do que eu vejo. mas você me vem sempre linda com teu sorriso tosco de orelha a orelha que sempre me faz pensar em como você é uma pessoa linda e me faz ter vontade de rir, apenas. e eu rio para você que se sente realizada e volta a fazer o que quer que estivesse fazendo antes de me mostrar os dentes quase que num pedido para que eu te mostrasse os meus mais amarelados que os teus. porque você largou o cigarro e eu comecei. mas você vem e me diz que só fumou naquele dia e que eu fiquei com a imagem na cabeça não sabe por que. eu não sei se é verdade, mas eu acredito, porque é isso que eu faço. então, depois de um tempo te condenando silenciosamente por ter feito aquilo aos teus pulmões, eu te dei uma ou outra lição sobre os males do cigarro, mas dois ou três meses depois eu comecei a fumar um ou outro cigarro enquanto bebia uma ou outra dose de whisky. e você começou a rir e me dar as lições que eu te dava. sempre que você me perguntava por que eu fazia aquilo eu dizia que era porque o prazer do momento valia o câncer de pulmão futuro. você se calava. acho que não gostava da minha brincadeira. hoje em dia sabemos que eu não pego pesado em bebidas e cigarro. você nunca mais teve que me levar para casa e pedir para um amigo me arrastar até debaixo do chuveiro pra jogar água fria na minha cabeça.

lembra daquela vez que fomos ao zoológico bêbados? era umas duas da tarde e você riu muito das zebras e eu ria da tua risada linda. você odiou o cheiro dos hipopótamos e disse que as girafas eram supervalorizadas. gritou para os macacos que era para eles esperarem que logo logo o planeta seria deles e nós seríamos os escravos deles. você lembra disso? espero que lembre porque essa é minha pequena vingança de todas as vezes que você perguntou se eu me lembrava de detalhes pequenos de uma noite de bebedeira inocente. “você lembra que você disse isso?”, “lembra que fez isso?”. quase fomos expulsos de lá. foi engraçado.

então, meu bem, eu não lembro a segunda vez que a gente se viu. não acredito que tenha sido naquele show em que você ficou cuidando da tua amiga bêbada que eu conhecia e de quem eu não me aproveitei porque eu não me aproveito das pessoas. e eu estava com meus amigos, que você conhecia, ou não. não sei. talvez eu tenha olhado para você como quem olha para alguém que já se viu e se está acostumado com o rosto. mas não estava. acho que ainda não estou, para falar a verdade. e espero não ficar nunca. porque assim, sempre que te olhar conseguirei descobrir algo novo e surpreendente. o manuel escreveu algo um dia. O rapaz chegou-se para junto da moça e disse:/- Antônia, ainda não me acostumei com o seu corpo, com a sua cara./A moça olhou de lado e esperou./- Você não sabe quando a gente é criança e de repente vê uma/lagarta listada?/ A moça se lembrava:/- A gente fica olhando…/A meninice brincou de novo nos olhos dela./ O rapaz prosseguiu com muita doçura:/- Antônia, você parece uma lagarta listada./A moça arregalou os olhos, fez exclamações./O rapaz concluiu:/- Antônia, você é engraçada, você parece louca.” você é minha lagarta listada. e você às vezes parece louca e eu sinto que sou o cara mais sortudo do mundo por causa disso, da tua loucura.

eu não lembro de todas as vezes que a gente se viu. eu queria lembrar e escrever essa carta até o infinito contando de todas as minhas impressões de você. mas eu não lembro. não temos todo o tempo do mundo para isso. espero que você leia a minha carta para você como um dia eu lerei a tua carta para mim. e acredite em mim, beibe. porque eu sou exatamente isso que você está lendo: um mesclado de idéias dos outros que no fim se distorcem tanto que se tornam novas e minhas, somente minhas.

até mais, lagarta.

amanda.

julho 6, 2009

amanda fodia como uma bibliotecária: calada, contida, discreta. não soltava um gemido sequer. se movia sobre meu pau, se contorcendo em silêncio. seu corpo branco pesava sobre mim como um livro pesando sobre a estante. com ela era assim: um silêncio denso que pairava sobre nós dois e que ela parecia adorar. acho que ela tentava se esforçar para não demonstrar prazer enquanto rebolava sua grande bunda maravilhosa, sabia disso quando notava sua língua umidificando seus lábios finos pouco antes de morder os inferiores de olhos fechados toda vez eu aumentava o ritmo das penetrações.

ela era viciada em arrumação, organizava e catalogava toda a casa numa ordem que só ela entendia e que não fazia sentido para qualquer outro. ela chegava na minha casa e começava a organizar as coisas que eu tinha, meus cds ela colocava por gênero e em ordem alfabética, meus livros ela separava por cores e formatos – tanto que ao final do nosso relacionamento eu não sabia onde diabos estavam alguns dos meus livros porque eu simplesmente não sabia qual a cor da lombada deles – e fazia tudo com tanta indiferença e frieza no olhar, de forma tão mecânica que, para quem a conhecia, parecia que sentia algum tipo bizarro de prazer e alegria. chego a apostar com quem quiser que ela encontrava mais diversão nisso do que fazendo sexo.

quando amanda estava vestida ninguém dava muito valor. suas roupas, por mais sensuais que às vezes tentassem ser, escondiam suas curvas, suas carnes, desvalorizavam tudo o que tinha. mas quando ela as tirava lentamente, peça por peça, revelava todo seu potencial. ó deus…poucos sabiam o quão fabuloso era o corpo escondido por sob aqueles panos, poucos a viram se despindo calmamente, observando seus seios firmes de aréolas rosadas e bicos eriçados apontando para o céu e nos dizendo que sim, era lá o paraíso.  tão raros quanto os que sabiam como era a visão dela baixando suas calcinhas nem um pouco sensuais mostrando a quase ausência de pêlos castanhos, escuros como a noite, cobrindo de leve sua púbis branca e seus lábios que foram beijados por tantas pessoas quanto há falanges nos dedos.

amanda era discreta. acho que esse era seu lema: passar despercebida pela vida, discrição sempre; ser o livro que está na estante mais distante da biblioteca, esperando que alguém vá até ele, leia o título não muito chamativo quase apagado na lombada e mesmo assim o leve para casa para lê-lo e perceber que não é o tipo de leitura que  marca vidas mas é lido e provoca algumas emoções não muito fortes enquanto o tem em mãos, mas é facilmente esquecido; o livro que ninguém discute em rodas de leitores. e tudo isso ficava claro quando amanda fodia como uma bibliotecária: silenciosa, discreta, tomando cuidado para não atrapalhar o mundo com sua existência. sem passar tesão nenhum. comê-la era o mesmo que não fazê-lo, só que fazendo.

eu lembro de amanda como lembro de uma tarde em que o sol talvez brilhasse lá fora, mas eu não vi porque estava em casa, deitado na cama sem fazer muita coisa, pensando em dormir e não dormindo, pensando em ler e não lendo, pensando em nada enquanto tudo vinha à mente de uma forma tão intensa que quase fere. e não se pode fazer nada além de ficar deitado sem sentir as coisas a não ser o tempo passando lentamente e arrastando consigo toda a vida que o mundo carrega. amanda era o livro que ela, e somente ela, amava e ninguém tinha saco de ler. fodia como a bibliotecária que adora o livro que ninguém leva pra casa.

amanda escolhia os assuntos neutros: falava do tempo, do trânsito, dos programas de humor da tv aberta e de filmes melosos mezzo românticos mezzo dramáticos com pontadas de humor nos diálogos. falava de seus escritores favoritos, suas leituras mais recentes – best sellers bobos, mal escritos e sem profundidade, daqueles que lê-se em algumas horas e ela, toda orgulhosa, diz que só passou uma semana e sai recomendando a todos “muito bom” ela diz “prende a gente do começo ao fim”. sempre dizia essas coisas aos meus amigos e eu meio que me envergonhava. talvez essa seja a razão de não tê-la levado para sair mais com eles. preferia trancar-me em casa com ela, assistir a algum filme em silêncio e terminar a noite com ela silenciosamente sobre mim, ou sob mim, ou ao meu lado, ou à minha frente, não importava muito a posição, desde que fosse ela comigo ali. não era tão engraçado quanto conversar com amigos, mas nem toda diversão rende risadas. raras vezes ri com amanda.

amanda não discutia futebol, política, música, religião. qualquer assunto que pudesse irritar facilmente alguém era um assunto que seria evitado por ela. era uma mulher calma e amável, incapaz de ferir alguém com palavras. extremamente passiva e sem opinião. foi com ela que passei os três meses mais organizados da minha vida. gostava de amanda porque ela nunca fazia cena, escândalos ou sequer gritou qualquer coisa para mim. sua voz era sempre baixa e monótona. sua falta de reação ante certas coisas me irritava, mas, maioria das vezes, eu não reagia, não reclamava, nem pedia uma reação dela. nunca brigamos, nunca discutimos nada mais sério que marcas de café (ela queria x e eu fazia questão de y, terminamos comprando z). quando eu lhe disse que não sentia que estávamos indo em frente com aquela relação ela acenou e concordou, disse que também não achava que progredíamos, aceitou que a melhor solução era terminar. ela sempre concordava com o que as pessoas falavam, ou, se discordava, nunca parecia fazê-lo. nunca soube bem se ela tinha opinião própria, ela me deixava curioso. era isso que me atraía nela, e o fato dela foder calada. meu sonho era ver amanda gemendo, gritando sobre meu pau, e pedindo mais, sempre mais. mas isso nunca veio e, creio eu, nunca viria para ninguém. disse a ela para ficar despreocupada que eu nunca a traí. ela pareceu não se importar muito. disse simplesmente ok. era verdade. eu nunca a traíra. não seria capaz de fazer isso a ninguém, mas há duas semanas eu tinha conhecido uma garota e ela me atraiu. saimos algumas vezes – programas inocentes, cinema, almoço – e, quando terminei com amanda, queria saber se aquela garota fodia a foda que prometia. (estela tinha cara de quem fodia como advogada: dentro da lei, mas sempre procurando novas formas de burlá-la.)

a última vez que vi amanda foi há três semanas. ela estava no trabalho e eu precisei de alguns livros para complementar uma pesquisa. ela estava bem, me disse com sua voz baixa e calma de bibliotecária, conhecera um cara legal no trabalho. disse-me essas coisas como quem fala que comprou um carro usado. foi bom vê-la novamente, seu jeito irritantemente calmo e seu cabelo preso num rabo de cavalo tão familiar me fizeram lembrar em parte do tempo que passamos juntos. é bom saber que as coisas têm um fim.

A Dona.

julho 1, 2009

estava escuro naquela noite. eu lembro bem disso. boa parte da memória foi apagada pelo álcool, mas disso eu lembro claramente: estava escuro naquela noite. parecia que a companhia elétrica resolvera agir no bairro e cortaram a luz de todos os que não pagavam a conta (o que deve totalizar eu e dois ou três vizinhos). o fato de todos na rua estarem sem luz prova o que eu vinha suspeitando há tempos: um maldito gato de luz. eu bem sabia que não fazia sentido aquelas contas absurdas. eu mal paro em casa, como diabos poderia vir tão alta? malditos vizinhos, maldito bairro, maldita vida. lembro de ter amaldiçoado a tudo e a todos, especialmente depois que, ao me deslocar da cozinha para o meu quarto, meti a canela numa caixa de som na sala.

cheguei no quarto e me deitei na cama, pronto para dormir já que não havia mais nada o que fazer daquela noite. antes de adormecer, pus-me a pensar na vida, meio que sem querer – porque só se pensa na vida meio sem querer – já que nunca foi do meu grado parar para pensar besteiras. não lembro do que passou em minha mente. algo haver com solidão, mulheres, família, amigos e a falta de tudo isso na minha vida. foi então que ouvi um barulho vindo da rua. a vi entre a névoa que se formava na rua que dava pra minha janela e, apesar da ausência de eletricidade, consegui enxergá-la facilmente. caminhava lentamente dentro de seu vestido negro colado ao seu corpo, revelando suas curvas que os circuitos de fórmula 1. seus passos ecoavam na rua e se amplificavam no meu quarto, ou na minha cabeça, não sei bem ao certo. seus pés traçavam uma linha reta pelo chão, um na frente do outro, sempre. os quadris largos sob a cintura fina agitavam-se no ar e seu vestido parecia se seforçar para não rasgar no busto. uma delícia de mulher sozinha naquele breu. ajoelhei na cama e fiquei observando enquanto ela vinha na direção do meu prédio.
ela parou e um silêncio pesado se fez instantaneamente. eu podia ouvir meu coração batendo calmamente – cada contração, cada relaxamento – suas câmaras se enchendo e esvaziando com o sangue do meu corpo. então notei que era capaz de escutar o suspirar da mulher e notei que agora, enquanto ela erguia a cabeça como se para procurar algo, ela também podia ouvir minha respiração, bem mais pesada que a dela. senti seus olhos me encontrando ali, um homem um pouco acima do peso, sem camisa, olhando pela janela a rua, ela. senti-me compelido a encará-la, até mesmo a falar com ela. quando notei estava em pé, observando-a me olhar.
acho que seus lábios se moveram e formaram alguma palavra que foi engolida pelo som que veio, naquele momento, de algum dos outros apartamentos. ainda havia vida no mundo além da minha e daquela estranha. ela olhou para trás e, de onde antes havia ninguém, emergiu da escuridão um homem alto, careca e pálido. ele falou algo para ela, que acenou com a cabeça num gesto simples e apontou para a minha janela (mesmo podendo ter sido qualquer uma das outras infinitas janelas do edifício onde moro, eu sabia que ela apontava especificamente para a minha, onde eu estava parado, intrigado, observando os dois estranhos). o homem olhou e me encarou e, mesmo à distância, pude ver seus olhos brancos. senti um frio na espinha – algo que só sinto quando acordo e não reconheço o lugar onde estou. não é muito comum, mas já aconteceu. o bom é quando é a cama de uma mulher que vai acordar e se arrepender de tudo. o ruim é numa cela fria e um cara mal encarado dorme na cama embaixo da tua. o homem agora caminhava em minha direção, se aproximando da faixada do prédio. saí da janela. tinha de fazer algo. fui à cozinha pegar algo para me defender, apesar de não saber bem o porquê de me defender, que perigo corria, senti uma urgência de ter algo para me proteger. no escuro, tateei por algo nas gavetas. cortei meu dedo na peixeira e achei que serviria. arma clássica e clássicos não morrem, ao menos é o que vêm dizendo há um bom tempo e é o que tenho escutado desde moleque.
o que veio depois é um tanto confuso, não lembro bem. ouvi passos na escada, se aproximando cada vez mais e xinguei o vizinho que deixou os portões lá debaixo destrancados. encostei-me na parede, esperando qualquer tentativa de arrombamento. os passos continuaram, cada vez mais altos. pararam. fiquei nervoso. queria saber o que estava acontecendo lá fora. começava a pensar por que eu não tinha corrido para fora daqui, me escondido nalgum outro lugar, batido desesperado na casa de alguém. mas seria muito provável que, quem quer que eles fossem, me pegassem lá também. eu não estava a salvo em nenhum lugar, a não ser que eu lutasse e vencesse. aqui dentro, pelo menos eu tenho minha faca, é minha casa, minha arena.
nada acontecia lá fora e isso começava a me irritar. eu não sei bem o que eu queria que acontecesse, mas eu sabia que não queria que nada acontecesse, isso seria sinal da minha paranóia, talvez tudo o que eu vi foi a chegada de um vizinho novo e lá estava eu de faca na mão encostado na parede pronto para interceptar o ataque. lembro de ter pensado: por que diabos ele não arromba a minha porta? pouco antes de fechar os olhos para respirar e me concentrar no que conseguia escutar vindo do corredor. o silêncio imperava e era demasiado denso, não conseguia captar nenhum ruído vindo de fora. quando abri os olhos vi uma mulher, a mesma da rua. quase morro do coração. como diabos ela havia entrado ali? como conseguiu ser tão furtiva e tão gostosa usando esses saltos e essa roupa? ela se aproximou.
“parada aí, dona!” eu disse apontando a faca em sua direção.
“calma, docinho.” ela falou movendo seus lábios carnudos e sexies. sua voz era sensual. tanto que você só conseguia imaginá-la gemendo seu nome numa noite como aquela. senti seu perfume e minha cueca começou a ficar apertada.
“olha só, dona. eu não sei quem é a senhora” estava me esforçando ao máximo para me concentrar e minha voz não falhar e eu tropeçar nas palavras “certamente não sei o que faz aqui. por favor, me diga antes que eu faça algo de que me arrependa.”
“benzinho” ela disse tocando a ponta da faca com a falange distal do indicador. um pingo de sangue se formou. “eu vim aqui porque preciso de você.” ela tirou a o dedo da faca e chupou o sangue. “de um favor.”
a cada palavra dela eu me sentia seduzido e hipnotizado. seus lábios grossos e vermelhos moviam-se sempre de uma maneira que qualquer um podia jurar que diziam: beije-me, possua-me, farei loucuras com você.
“que tipo de favores, dona?” eu disse me controlando para não adicionar sexuais ao final da pergunta.
“preciso dos teus serviços.” o cheiro dela era insuportavelmente delicioso e sensual e mais uma inspiração e minha calça explodiria.
“meus serviços, dona? não sei de que vai te servir um oncologista alcoólatra a essa hora da madrugada. não se cura câncer do nada e um diagnóstico pode esperar mais 6 horas até o sol nascer e a primeira clínica abrir. ele não vai sofrer metástase magicamente para todos os órgãos em tão pouco tempo. além do mais… eu não sou o melhor. longe disso.”
“eu sei disso.” e não sabendo se ela se referia ao fato de saber que o diagnóstico não ia importar agora ou ao fato de eu não ser o melhor, me senti ferido. “não estou querendo os teus serviços como médico.” agora sim, ela realmente feriu meu orgulho “preciso dos teus outros serviços.” eu não sabia do que diabos ela estava falando, mas a dona havia me ofendido. só eu posso me criticar e ninguém tem o direito de reconhecer que estou dizendo a verdade. ninguém sabe de nada!
“não sei do que a senhora está falando, dona. mas gostaria muito que a senhora fosse embora. não há nada que eu possa fazer por você.”
a faca na minha mão apontava a saída da casa. ela abaixou meu braço e pôs seus lábios contra os meus. sua língua passeava pela minha boca e sua saliva se misturava à minha. tinha gosto de laranja, os lábios, sua saliva não tinha lá muito gosto, mas matava a sede que eu não sabia que tinha. ela meteu a mão no volume que se projetava contra ela vindo da minha pelve. tremi. aquela mulher iria foder comigo. MESMO. eu soube disso na hora, senti isso na hora, mas não parei. fazia tempo desde que uma mulher, espontaneamente, sem envolvimento monetário, tocara as partes que ela começava a acariciar lentamente. esse é o ponto fraco de todo homem, mulheres: colocar a mão no pau de um homem é como uma daquelas manobras em que domadores dominam suas bestas agarrando-as pelos chifres. uma mulher que pega bem no homem sabe domá-lo, dominá-lo. a dona me tinha adestrado em suas mãos e eu faria tudo o que ela dissesse. foi assim que perdi para ela. ela me tinha nas mãos literalmente e não tão literalmente. não lembro bem dos detalhes, como já disse algumas vezes, e isso é triste porque essa é a parte da noite que todo homem gostaria de lembrar. eu tento, juro como tento, mas nunca me vem a mente mais do que alguns gemidos, a lembrança de um canal vaginal pequeno e apertado… e só. seu corpo…seu corpo era um daqueles poucos que não nos arrependemos de ver nus. era lindo, perfeito e harmônico. ela me encostou na porta e fizemos ali mesmo. quando ela enroscou as pernas ao meu redor falou, entre gemidos, ao meu ouvido com uma voz que arrepiou cada pêlo da minha nuca. eu não lembro o que ela disse. provavelmente minha condenação.
depois do sexo ela abriu a porta e o homem estava lá, parado, me olhando com seus olhos vazios e leitosos capazes de congelas espinhas. não mais a minha. eu estava relaxado, de saco e mente esvaziados. o melhor sexo da minha vida com a dona gostosa sem nome. apertadinha como uma virgem. eu disse, essa é a maior lembrança da noite, acho. ou uma das maiores. ele e a mulher trocaram olhares e algumas palavras que nunca entraram na minha mente. a voz dele…é algo que eu não faço a menor idéia de como é. mas ele tinha aquele jeito de que, ao falar, seria como se ouvíssemos ecos do passado ou qualquer coisa tão metaforicamente horripilante quanto. ele entrou na minha casa. eu disse algo do tipo “dê o fora da minha casa!” mas ele me ignorou. provavelmente eu repeti a ordem acrescentando um “filho da puta” ao final. ele continuou me ignorando, veio em minha direção e pôs as mãos ao redor do meu pescoço. começou a apertar. eu dava olhares desesperados em direção à mulher, que permanecia observando. consegui escapar dos braços daquele maníaco. a gostosa acendia um cigarro com um olhar de tédio que me deixou revoltado. procurei pela faca que larguei quando ela abriu meu ziper. estava no chão perto da porta e havia um louco querendo me matar no meio do caminho até ela. então fiz o que, creio eu, tenha sido o ato mais escroto de toda a minha existência. aquela coisa de filmes de ação: rolei no chão depois de saltar e terminei um pouco distante do objetivo. a sorte foi que aquela série de movimentos ridículos distraiu um pouco o homem e eu consegui pegar a faca a tempo de cortar seu pescoço sem levar uma porrada. o sangue jorrou num jato contínuo. sua jugular agora mandava o sangue do seu cérebro direto para o chão do meu apartamento, se misturando com o sêmen recém derramado no mesmo piso.
a mulher sorriu ao ver seu parceiro caído e gorgolejando sangue. falou que era exatamente esse serviço que ela tinha em mente. que eu tinha sido perfeito e que naquela hora devia terminar o serviço. não entendi bem o que ela quis dizer com isso, mas lembro bem de tê-la visto sorrindo e pedindo por mais e mais entre gemidos. um líquido vermelho e viscoso escorrendo entre minhas mãos e, depois disso, apaguei. quando acordei estava algemado. policiais me chamavam de filho da puta e coisas do gênero; meus vizinhos estão todos me olhando ir embora arrastado com expressões de nojo e desprezo. não sabia o que raios estava acontecendo, a noite anterior não me vem à mente.
dizem-me que eu tenho direito a um advogado que, ouço ele me dizer, é chamado de sem escrúpulos, amoral, sem vergonha, por simplesmente pegar esse caso. ele me deixa claro que não está feliz em me defender e expressa isso da melhor forma possível na sentença: “eu espero mesmo é que você apodreça e morra seu filho da puta desprezível.” eu falo que ele não precisa me defender se não quer, que outro pode fazê-lo e ele ri. me diz que ele foi escolhido pelo estado e não podia dizer não porque ele era a última escolha do estado. pensei que ele era como eu e não era o melhor no que fazia. Toda a noite me voltou à mente e eu explico a ele que o homem e a mulher invadiram minha casa, que me ameaçaram, que o cara tentou me matar e ele pergunta do que é que estou falando. que homem e que mulher eram esses que eu delirava sobre. falei da minha noite toda e ele riu mais uma vez, outra risada seca e sem humor. falou algo sobre apelar para insanidade mental, apesar de saber que molestadores e assassinos de crianças não conseguem se safar com uma desculpa esfarrapada dessas. eu engasgo e pergunto do que porra ele está falando, que crianças são essas e ele começa a sorrir, me chama de filho da puta sádico, mas fecha o rosto quando nota que eu realmente não sei do que ele está falando. então ele me deixa a par de todos os fatos: na noite anterior me armei de uma faca e uma câmera de vídeo e estripei os filhos do meu vizinho do lado, que trabalha de noite e deixa seus dois filhos, um casal, em casa, sós. a esposa morrera há 6 meses de um câncer, foi paciente minha e o homem confiava em mim e dizia aos filhos para me chamar caso algo errado acontecesse. eu nunca tive problemas com isso e aceitava de boa ajudá-lo em suas necessidades. provavelmente foi algo assim que aconteceu. bateram à minha porta, entraram – e é a partir daí que a fita começa a gravação – eu os amarrei, estuprei a menina, cinco anos de idade. depois de fazê-lo, cortei com a peixeira o pescoço do menino de três anos. molestei novamente a menina enquanto a sufocava e depois que ambos estavam mortos, esquartejei-os. estava tudo em fita. era eu e não havia como negar. eu não lembrava de nada daquilo. não lembrava de crianças, câmera, amarras… nada. lembro de mulher sensual, o homem de olhar vazio, do sussurro no ouvido, de acordar do sono com uma batida na porta, de recepcionar duas crianças, levá-las para o quarto, amarrá-las… oh deus… eu sabia que a mulher ia foder a minha vida.
estou sozinho aqui dentro. lá fora o julgamento acontece. eu espero a morte, eu a desejo mais que qualquer outra coisa, mais do que desejei a mulher de vestido negro e curvas sensacionais. desejo-a louca e intensamente. por isso pedi a meu advogado as pílulas que tenho à mão. eu sabia que ele concordaria que a morte seria ainda pouco para mim, mas falei que assim ele não teria de gastar seu tempo me defendendo. são dez comprimidos na cartela. dois deles são capazes de nocautear um homem, quatro induzem o coma facilmente, seis deprimem completamente o sistema respiratório. tenho os dez na palma da minha mão.
fecho os olhos, vejo a mulher de negro e engulo todos. espero você chegar. sentas ao meu lado, sinto tua presença, não ouso te olhar. reconheci a tua pegada quando colocaste a mão na minha virilha. tive que segurar um sorriso, sabia?
“vamos, docinho?”
“já era tempo, dona.”