Archive for maio, 2009

A eterna batalha

maio 20, 2009

o sangue esguichou da ferida recém aberta num jato forte e uniforme – algo que lembrava mangueiras de bombeiro ao serem abertas, fazendo-nos notar a alta pressão arterial de tal criatura -, jogando hemáceas, plaquetas e quaiquer hemocompostos a mais de cinco metros do seu dono. as escamas prateadas, danificadas ao redor da ferida profunda, mostravam como sua pele era dura e somente as armas mais afiadas da imaginação conseguiriam penetrar tal couraça. o vermelho quase negro escorria fortemente, espalhando-se pelo chão formando uma poça que começava a refletir o céu e seus astros como um lago calmo e límpido, ou um rio que avançava com calma para além de suas margens. havia mais de um litro de sangue espalhando-se no chão e a mancha inicial, já não parecia distante do corpo gigantesco caído no chão.

o homem dentro da armadura chamuscada carregava o que restara de um escudo de corpo num braço e no outro, que parecia ter o antebraço quebrado ao meio, uma lança amarrada à parte do braço que estava inteira. a luta durara séculos, milênios até e, finalmente havia um vitorioso. mas tudo tinha seu preço. largou o escudo, desprendeu a lança, tirou o elmo e um rosto barbado revelou-se. havia cicatrizes por todo o rosto, pedaços inteiros onde não havia barba porque o tecido regenerado não era capaz de criar anexos como o original. seus olhos eram de uma cor fraca e opaca, difícil distinguir a cor que tiveram algum dia, verde, azul ou castanho. os longos tempos de batalha o marcaram de várias formas, apagando tudo o que um dia foi. o bravo cavaleiro de armadura brilhante agora era o dono de nada além de uma chamuscada e opaca placa de ferro sem valor. sem cavalo, morto na batalha, não era mais cavaleiro. sem damas a cortejar, não era mais cavalheiro. não lembrava como ou por que a batalha havia iniciado. era algo maior que eles dois, algo tão velho quanto o tempo, ou até mais. não fazia diferença agora que ele havia vencido a batalha, podia retornar ao lar, descansar por toda a eternidade ao lado da sua Maria, teria os filhos que a luta nunca dera, teria o sossego que a batalha lhe tirara. agora ele poderia viver tudo aquilo que não viveu devido à eternidade de luta.

aproximou-se do que restou do seu cavalo branco, os intestinos formavam um desenho macabro ao redor do seu fiel amigo, quase não se identifica que aquilo um dia caminhara por planícies belas como só eles haviam visto sob o sol que sempre os ilumina. despediu-se dizendo que cavalgariam novamente algum dia. ele queria acreditar naquilo, mas se a batalha durara todo aquele tempo, quanto tempo demoraria até que pudesse reencontrá-lo? será, realmente, que iria reencontrá-lo? as dúvidas começavam a surgir em sua mente. olhou para cima e, distante, vendo um ponto azul iluminando o céu, constatou que a caminhada para casa seria longa e solitária. pela primeira vez em mais tempo que ele pode lembrar, estará sem outro ser vivo ao seu lado.

então encarou seu eterno inimigo. suas presas ainda pareciam extremamente ameaçadoras, todos os dentes eram maiores que ele em estatura, poderiam empalá-lo facilmente, atravessá-lo como se fosse feito de ar ou qualquer coisa tão simples quanto. seus olhos, sempre com um brilho maléfico que fazia sua espinha gelar sempre que os encarava, agora estavam vazios. o ódio não aparecia mais neles. não havia mais o pavor que seu hálito quente conseguia causar, a aura de morte e terror que pairava a seu redor sumiu, tudo se esvaiu com a vida no instante em que o cavaleiro acertou o exato ponto onde suas escamas duras como aço se tornavam mais frágeis, como pedras. o sangue todo já estava coagulando, o calor da batalha já não esquentava mais nada, o corpo colossal começava a ficar realmente frio, o clima do deserto onde estavam começava a esfriar, mesmo com o sol sempre a pique.

o homem despediu-se do seu nêmesis. sentiu um enorme alívio em seu coração e um vazio gigantesco em sua alma: agora não havia um grande propósito, agora só havia o retorno ao lar, havia a vida pacata que ele sempre sonhara, agora receberia seu prêmio. havia combinado com Ele que, assim que conquistasse a batalha, receberia seu prêmio, seu ponto azul, seu lar. olhou para o céu e o viu. lágrimas brotaram de seus  olhos. enxugou-as e, quando viu, seu prêmio não estava mais lá. ouviu um relincho, o chão tremeu. uma sombra gigantesca pairou sobre ele.

só podia pensar que Ele era um grande sacana, um grandessíssimo filho da puta.

saltou para o lado antes que o fogo o atingisse, agarrou seu escudo, agora inteiro, armou-se com sua lança e, surpreendentemente, com um braço inteiro, segurou-a pronto para atacar.

pensou que uma hora Aquele filho da puta ia pagar por tudo aquilo… um dia. toda aquela tortura tem de ter um fim.

Ele não pagava por esperar.

àqueles que acreditam.

maio 1, 2009

crer é uma das coisas mais admiráveis. admiro verdadeiramente aquele que crê. não apenas o que diz que acredita. dizer que acredita é muito fácil. dizer qualquer coisa é muito fácil. posso abrir a boca a qualquer momento e dizer que acredito. dizer que perdôo, dizer que sinto muito. posso dizer qualquer coisa com meus lábios, língua e cordas vocais, posso escrever qualquer coisa com minhas mãos e os instrumentos precisos. mas acredito que verdadeiramente acreditar é difícil, quase impossível para muita gente. admiro aqueles que verdadeiramente crêem. (muita verdade e crença num parágrafo tão pequeno, mas é isso que penso.)

quando falo em verdadeiramente crer, eu falo dos extremos, falo daquele que, ante a prova de que tudo o que crê está errado, continua acreditando. admiro aquele que escolhe não perceber as coisas para se sentir bem, porque o faz somente para se sentir bem, mas cuja escolha não é tão racional assim, é movida apenas pela crença no que ele não entende, no que ele jamais entenderá. ou numa explicação que pode ser simples e fácil, mas para ele diz tudo. admiro os ignorantes que acreditam que a resposta está em uma coisa só. admiro aqueles que pegam um livro e dizem que a verdade está nele e apenas nele. independente do livro, independente das pessoas. admiro quem acredita piamente em algo que não faz sentido.

admiro, na verdade, aquele que acredita que vale a pena fazer sacrifícios por coisas que ninguém mais faria sacrifícios. admiro aquele que acredita que vale a pena morrer por coisas que não representam certezas. admiro quem acredita que não precisamos de certezas para certas coisas. admiro quem acredita que vale a pena matar por algo, vale a pena morrer por algo, vale a pena ir para onde quer que seja por esse algo. (sim, isso foi uma paráfrase quase citação de sin city e eu digo porque pouca gente notaria e quero que notem.)

admito que admiro os ignorantes, porque é deles, e somente deles, o reino dos céus. admiro-os porque eles têm a força para seguir adiante sempre. admiro-os porque jamais conseguirei ser um deles. e não é que eu não seja ignorante, é que eu simplesmente não consigo usar minha ignorância para acreditar tanto e tão intensamente em algo.

nada me interessa, em instante nenhum. nem flávio cavalcante, nem mais nada que passe na tv.