Archive for abril, 2009

Hoje é terça feira…

abril 22, 2009

“terça feira? heh. deixe-me contar umas coisas que eu sei sobre as terças feiras… são os dias mais sombrios. acredite nisso. não há vida nas terças feiras, meu amigo, tudo o que existe deixa de existir no momento em que a segunda vira terça e o sol não aparece no céu quando deveria, e as nuvens não somem nunca. se você parar suas vida para obervar uma terça feira agindo, você verá muita coisa que não queria. você coisas que os olhos humanos não foram desenvolvidos para ver, você vê a anti-luz, você enxerga a verdadeira natureza da escuridão, você enxerga todas as cores sob uma nova forma, você não consegue encontrar a vida em nada nem em ninguém, você não vê a beleza onde deveria estar e nem onde não estaria. é tudo horrendo, tudo aterrorizante, tudo pronto para se demolir sobre sua cabeça quando estiver extremamente distraído com as dores. as dores da terça feira. porque uma terça feira não é terça feira sem uma dor que seja. nas terças feiras você vê tudo borrado, você enxerga sombras do que, no dia anterior, eram pessoas como eu ou você. terças feiras são capazes de destruir tudo, acabar com esperanças e com sonhos, matar milhares deles por segundo. isso apenas no começo dela. ao longo do dia, na escuridão eterna das 24 horas, as coisas não vão melhorando. às terças você encontra o medo, a solidão, o desespero. e eles entram na tua casa como se fosse domingo, só que muito pior, porque agora elas estão a trabalho e aos domingos elas só vêm visitar. eles entram e bagunçam tudo, transformam tudo o que você tem numa zona, num mundo fantasma, numa quase vida. às terças feiras todos morrem. todos são zumbis.

só que ninguém percebe.

é por isso que estou aqui trancado, porque um dia, numa terça feira, anos atrás, os zumbis me agarraram e me trancaram aqui dentro. porque eu percebi… eu entendi tudo.”

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O veneno.

abril 9, 2009

o sol entrava por entre as frestas que a janela fechada deixava. uma jovem mulher estava sentada numa poltrona reclinável. estava sentada olhando para o tempo, que passava no relógio da parede. ela tinha seus vinte anos, cabelos negros como piche caíam trançados por sobre o ombro até que a ponta deles apontasse para seu ictus cordis. ninguém jamais diria que era a moça mais linda que havia visto na vida, mas era dona de uma beleza estranha que podeira se acostumar depois de um tempo e, com alguma paixão e um tantinho de esforço, poder-se ia chamar de linda. mas jamais a mais linda. tinha lábios inxados, olhos escuros pequenos, aumentados pelas finas lentes de seus óculos de aros grossos, e leves olheiras que lhe escureciam o semblante. cada segundo passava por suas mãos com um leve toque do indicador no braço da poltrona. cada segundo um toque. foi assim por um bom tempo.

a porta se abriu. ela continuou olhando o relógio que arrastava seus ponteiros negros pelo fundo branco. o homem que acabou de chegar fechava a porta com a chave. olhou para ela e sorriu. ela não o notou.

“que horas são, Kristina?”

ela não soube responder.

“hã? o que?”

“a hora. que horas são? você está olhando o relógio, não está?”

“sim, sim.” gaguejou ela.

o homem agora se movia em direção ao sofá, onde soltou seu corpo largo, quase gordo, e ficou a encarar a mulher, em silêncio, por um tempo.

“você sabe que precisamos conversar, não é?” disse ele de braços estendidos e se acomodando da melhor forma nas almofadas do sofá.

“precisamos?” disse sem flexionar nem um pouco o tom de sua voz, sem desviar o olhar dos ponteiros.

“sim, precisamos.” disse ele de forma séria. seu tom foi tão grave que a fez mover os olhos para vê-lo pela primeira vez desde que pusera os pés na casa há cerca de meia hora.

“é… precisamos. então, vamos conversar.” ela se virou para ele. agora ambos se encaravam. “sobre o que você quer falar?”

um silêncio que dizia a verdade pairou entre os dois por segundos. constrangedores e amedrontadores segundos. até que ele falou.

“por que você não morre?”

ela não se abalou com a pergunta absurda.

“o que você quer dizer com isso? acho que não tenho idade para morrer ainda. mal completei vinte e um.”

“você bem entendeu o que eu quis dizer.” ela realmente havia compreendido. “eu digo… com tudo o que eu te dei, com os litros e litros de coisas que eu te dei… como é que você ainda não morreu?” ele fazia aquelas perguntas como quem perguntava o que ela havia tomado no café da manhã.

“eu não sei.”

“lógico que você sabe. o que eu te dei, mulher, faria muita gente morrer, acabaria com a raça de muita gente ruim. mas você está aí de pé. firme como uma rocha, olhando as horas como quem não tem mais nada para fazer. esperando algo que nunca vem.”

“acho que o que eu tanto esperava chegou, finalmente.”

“então era isso?”

“era sim.”

“engraçado… eu pensei que eu fosse te pegar de surpresa. mas acho que quem foi surpreendido fui eu. todo dia eu chegava em casa esperando encontrar teu corpo caído em algum cômodo da casa. então eu diria à tua família que eu te encontrei assim quando cheguei. e todos lamentariam e chorariam. e eu choraria muito porque sentiria demais a tua falta. e diria que nunca mais amaria alguém como você e que você era a mulher da minha vida. tua família teria pena de mim, meus amigos teriam pena de mim, eu teria pena de mim, me enganaria com toda essa bobagem de você ser a única na minhda vida. depois seguiria minha vida, depois do luto, depois da dor. eu lembraria de você como uma das melhores coisas da minha vida. quando você morresse você deixaria de ser a mulher que acorda descabelada e com mau hálito para se tornar a mulher que acordava linda todos os dias e tinha a boca com gosto de hortelã sempre, não importando a hora do dia. você deixaria de ser um ser humano que amei pra ser a coisa mais perfeita que amei. seria uma lembrança, uma idéia. é claro que eu nunca mais poderia sentir o teu cheiro e eu sentiria falta das nossas trepadas, mas certos sacrifícios precisam ser feitos. além do mais, o luto poderia me arrumar umas mulheres descartáveis. então, por que é que você não morre depois de todo o amor que eu te dei?”

“porque ele não é forte o suficiente para matar. e nem se você me desse todo o amor que tem, seria capaz de causar algum efeito. tudo o que você tinha e me deu era demasiado fraco. e era até doce, sabia? você me envenenava com o teu amor pensando em me matar e eu sentia o gosto doce na minha boca. mas ele nunca foi o suficiente para o que você planejava. por isso eu não morri, por isso que ninguém jamais vai morrer do teu amor. porque ele é fraco. é como suco de uva.”

“suco de uva?”

“nunca embriagará como vinho, mas tomamos quando queremos ter certeza que não faremos alguma besteira. o teu amor, para mim, foi diversão. algo para me assegurar que jamais faria alguma besteira. agora vá, saia daqui antes que eu tenha que te dar o meu amor.” ela apontava para a porta pela qual o homem havia passado há algum tempo. ele entrara por ela aparentando seus vinte e poucos anos, mais que os dela, o cabelo curto, a barba por fazer. agora ele recebia a indicação de sair por ela. levantou seu corpo que agora parecia ter o dobro do peso, seu rosto parecia mais marcado por aqueles minutos de conversa que pelos anos de vida. tinha agora quase 40 anos. não havia mais nada para falar entre os dois e a pergunta que tinha fora respondida de forma sincera. ele era fã da sinceridade, doesse a quem doer. e sempre era nele que doía.

“adeus, mulher.”

“adeus, Marco.”

nunca um adeus foi dito com tanto alívio por um casal.