Archive for março, 2009

O Sol

março 26, 2009

era sempre pelas manhãs que eu vivia. pela sensação de que a noite iria embora assim que surgisse o primeiro raio de sol a iluminar o horizonte e arrastasse todo o mal, purificasse a vida inteira. eu vivia pela esperança de que agora, com aquela insignificante, porém maravilhosa e bela, bola de fogo subindo pelo céu, o mundo seria um lugar menos sujo, menos errado, menos pecador. eu vivia por coisas erradas, mas naqueles tempos eu não sabia disso e, se sabia, era-me adorável o pensamento que eu estava errado, que o mundo podia mudar espontaneamente. eu adorava lançar sobre meus olhos fantasias, adorava viver de ilusões.

eu lembro bem do dia em que percebi que eu estava enganado, que o mundo inteiro não tinha mudança. diferente do que todos dizem por aí, não foi uma decisão minha, mas deles. eles não me queriam mais ao redor e eu não digo isso pelos milhões que falavam que não precisavam de mim. eles mostravam. cada um deles, os que me idolatravam e os que seguiam suas vidas independentemente de minha existência, mostrava em suas atitudes que não havia jeito para aquilo. foi uma tarde de terça feira e um pai havia acabado de estuprar sua filha de 10 anos num canto do mundo, enquanto naquele exato momento uma mãe afogava o terceiro filho e jogava seu corpo junto dos outros dois, num outro lugar uma outra mãe cozinhava seu bebê de 6 meses no forno e esperava o ponto de cozimento calmamente sentada numa cadeira da sala de sua casa, um menino recusa-se a fazer a lição de casa em algum país subdesenvolvido e é espancado até a morte com um cano que seu pai usaria numa construção,  uma mãe, que se dizia extremamente benévola, fazia caridade e cuidava sempre das crianças dos outros quando podia, serrou os membros do único filho, desprendeu a cabeça de seu corpo e jogou tudo numa lata de lixo. tudo isso acontecia num espaço de tempo de 24 horas, uma rotação da terra em torno de seu eixo, o suficiente para o sol purificar o mundo inteiro novamente, para que no dia seguinte mais do mesmo acontecesse e continuasse acontecendo até o fim.

naquele dia eu não me importei mais com nada e nem ninguém. a vida deles, para mim, valia tanto quanto para eles. o mundo inteiro poderia colapsar, cidades inteirar ruir, milhões de vidas acabarem, eu não apareceria para salvá-los, eu não me preocuparia. nunca mais. eles poderiam agora brincar de suas guerras sem motivos, manipular vírus e bactérias para destruir completamente as vidas uns dos outros, poderiam estuprar e matar o quanto quisessem, eles não valiam o pensamento. segui meu caminho sem que eles o obstruíssem.

um dia ouvi dizer que tudo aquilo estava prestes a acabar, milhares de cidades haviam sumido, um dos hemisférios jazia sob uma eterna nuvem cinzenta que a luz do sol jamais seria capaz de penetrar, os poucos sobreviventes que restaram viviam em comunidades reclusas e quase não havia contato entre eles. parecia o começo de tudo aquilo, da humanidade, só que sem a beleza dos dias de outrora, sem rios plácidos correndo para oceanos que refletiam belamente o céu. há o cinza, o negro, o vermelho. os mares são ácidos e não comportam mais nenhum tipo de vida, completamente infértil, as nuvens que se formam no hemisfério que recebe a visita do sol ainda amarelado são vermelhas e chovem ácido. os campos que antes cheiravam a flores hoje cheiram a enxofre, corpos decompostos são as coisas mais comuns de se encontrar nos lugares. homens se alimentam de ratos e os ratos das baratas e as baratas dos homens. o ciclo da vida continua, a roda nunca pára.

estou sentado entre escombros, as cinzas escorrem entre meus dedos, construções monumentais de concreto, aço e vidro, carne e osso, mulheres, homens, velhos, crianças, completamente irreconhecíveis, irreparáveis. vidas desperdiçadas porque eu não estava mais me importando com nada disso. porque, para mim, há muito tempo, o sol não limpa mais nada nas almas sujas de todos.

e eu nem posso dizer que me arrependo disso.

Anúncios

“and on a milk white neck, the devil’s mark.”

março 11, 2009

ela desceu do navio com seu já conhecido passo lento, observando o mundo ao seu redor com uma mescla de desprezo e curiosidade, atravessando todo o cais enquanto um homem que eu não conhecia, e que provavelmente ela também não, carregava sua mala logo atrás. ela estava linda vestida com aquela roupa que eu desconhecia e que lhe caia tão bem no corpo, expondo suas formas sem ser apelativa, mas jamais sendo inocente ou puritana, apenas misteriosa. eu a conhecia bem demais para me iludir com a idéia de pureza em seu corpo ou alma. ela era alguém que, apesar da pouca idade, era vivida. e digo vivida no pior dos sentidos da palavra. havia passado por mais camas que muitas das prostitutas que, à noite, ganhavam a vida fazendo o mesmo caminho que agora ela fazia por passeio. o vestido novo balançava com o vento forte que vinha do mar e o cheiro de tripas de peixe e algas quase sumiu quando ela chegou ao meu lado e abraçou-me fazendo seu já conhecido perfume levar para longe quase todo o cenário ao meu redor, levando-me para passear nas lembranças boas que seu delicioso aroma me remetia. mas, como de praxe, ela nunca se dava por completo, nenhuma parte de si. logo, se afastou e perguntou como eu estava, perguntou se senti sua falta e com um leve aceno de mão dispensou o homem que arrastava a mala pesada e me fez entender, sem olhares ou gestos adicionais, que a partir dali aquela mala era meu fardo.

seus cabelos negros e curtos, à moda que ela gostava, tornavam-na menos fêmea dependente, esculpindo em seu rosto um ar de decisão que, em conjunto com seus gestos simples e duros – quando assim os queria – fariam muitos líderes da humanidade parecerem moças indecisas escolhendo o vestido que cobrirá seus corpos na noite do baile. ela havia chegado para, mais uma vez, por ordem na minha vida. como essa fosse uma extrema desordem, um completo caos. ela se achava demasiado importante para mim e eu tinha medo de provar que não e me ver perdido em meio à sua importância. seus lábios se moviam formando palavras que eu quase não entendia, mas me esforçava o suficiente para que fizessem sentido e eu fosse capaz de respondê-las sem parecer um estúpido retardado qualquer. em determinado momento ela tomou a dianteira, quando encontrou o local onde eu estacionara o carro, e eu fiquei para trás com sua bagagem, observando-a enquanto balançava seus quadris de forma hipnotizante até chegar ao lado do veículo parado e encostar-se nele com ar de aborrecida porque eu estava ali, parado onde ela me havia me deixado.

“venha, não temos o dia todo.” ela me disse. e ela estava certa. como sempre, estava certa. nós nunca temos o dia todo para nada, especialmente para as coisas boas. e era bom observá-la.

arrastei-me com a mala até o carro, enfiei-a no porta malas. ela já estava dentro, no banco do carona, ligando o rádio para evitar qualquer possível conversa que teríamos no caminho até o apartamento. do porto até a garagem eram exatos quinze minutos que foram preenxidos pela música ruim da rádio, que ela acompanhava com os lábios sem emitir som algum. olhava a cidade pela janela fechada e a seus olhos tudo parecia incrivelmente chato, sem gosto, como comida sem sal.

chegamos no prédio e subimos os três andares de escada. não é preciso dizer que ela chegou lá em cima primeiro e que em momento algum me ajudou com o peso que eu carregava, porque, como ela havia me dito sem palavras, aquele era meu fardo e somente meu. abri a porta e ela foi direto para o seu quarto que, desde quando ela veio para cá, deixou de ser meu para ser somente dela, onde eu era sempre um visitante, um intruso.ligou o ar condicionado, deitou na cama que um dia eu chamei de minha e tirou as sandálias de salto jogando-as nos cantos, quase quebrando as poucas coisas que eu ainda tinha orgulho de chamar de minhas.

fechei a porta da casa, tranquei-me no banheiro, tomei banho, vesti uma calça de linho daquelas bem confortáveis e boas tanto para dormir quanto para ir ao supermercado e fui para o quarto deitar-me ao lado dela, para sentir o cheiro dela que eu tanto gostava. fiquei parado na porta do cômodo, impressionado porque ela na cama parecia alguém. alguém mesmo. mas não um alguém que eu quisesse estar, um alguém totalmente desconhecido. e, pela primeira vez em meses, eu pensei que eu não me sentia bem em estar com ela, em ser tão submisso, em não mais existir sem antes ter que pedir permissão a ela.

então decidi que seria o fim, como tantas vezes havia decidido coisas na minha vida. essa seria a última vez que sentiria seu fogo, seu cheiro bom de folhas queimadas numa primavera florida. deitei-me ao seu lado e disse ao seu ouvido que não dava mais para mim, que ali era o fim e que logo ela teria que ir embora.

mas ela me disse, sem se exaltar, sem um movimento sequer na cama, olhos fechados, que não havia decido nada daquilo e que não seria assim. que não havia me autorizado fazer tal coisa. isso foi há três anos.

hoje lembrei de tudo isso, caro amigo, porque não há mais o que ser feito. o corpo dela está frio ao meu lado e as folhas se apagaram.

“quanto mais aperta, tanto mais difícil arrancar.”

março 9, 2009

saudade é uma coisa estranha, não é? às vezes a gente sente saudades de quem acabou de dizer tchau e não sentimos de quem não vemos há anos. aí, um dia, deixamos de sentir saudades de quem deveríamos sentir para sentir de alguém que a gente nem lembrava e vem com uma profundidade que não se pode descrever com precisão. como um soco no estômago que quase faz a comida voltar, nos deixa sem ar. e a gente sente uma dor no peito que não dá pra explicar. e essa saudade é a saudade daquilo que a gente teve e nunca mais vai ter. e é quando a gente nota que nunca mais vai ter falta o ar pra gente respirar.

vez em quando dá uma coisa inexplicável que nos deixa agoniados sem saber o porquê. e é aí que a gente nota que está com saudades de algo que nunca teve, saudade de alguém que nunca conheceu, de um cheiro que nunca sentiu. sente falta da música que nunca ouviu. e é decepcionante isso porque é como se alguém esfregasse um pedaço de papel com algo escrito na nossa cara para a gente ler e a gente não consegue ler porque está muito perto e se nos afastarmos vamos para longe demais daquilo. e eu ainda acho que a gente sente saudade de coisas que não são tão boas assim. contrariando aquela premissa que só se tem saudade do que é bom. acho que todo mundo, hora ou outra, sente falta de sofrer um pouquinho, de ter motivos para chorar num canto, de ficar recluso, calado num quarto escuro, travesseiro sobre a cabeça para evitar qualquer luz e mergulhar completamente na escuridão. acho que todo mundo pensa naquela dorzinha que ele não sente mais faz tempo. no começo com um sorriso de alívio, mas aí você percebe que aquela dorzinha te fazia sentir coisas que hoje você não sente e não era apenas dor. aí seu sorriso murcha, você nota que é um tanto quanto sado-masô porque fica lembrando da dor para assim ter motivos para chorar, para se sentir bem chorando, lavando a alma. é o que acho.

acho que a saudade do que é bom é bem maior, é claro, bem melhor também, mas não é mais válida que a outra. acho muitas coisas sobre várias coisas, sabe… às vezes acho que devia parar de achar tudo isso e só seguir minha vida sem jamais achar ou desachar coisa alguma. viver calado, apático, sem jamais ter idéias sobre coisas e sem jamais me expressas sobre as possíveis idéias que tive.

“Eu gosto da tua saia sim…”

março 5, 2009

desde que o tempo é tempo – não! desde antes de o tempo ser chamado de tempo por quem quer que tenha colocado esse nome nele – as coisas têm sido assim. mas o engraçado é que elas sempre parecem que mudaram, sempre aparecem com novos rostos, novas vozes, novas qualidades e novos defeitos, mas sempre as mesmas. e o melhor é que eu aceito isso tudo. porque não há realmente nada que eu possa fazer para mudar o que ninguém nunca conseguiu.

são sempre as mesmas cenas que se repetem feito uma música boa no repeat. e elas seguem assim porque nós escolhemos para ser assim. tudo tem o seu devido fim. a música bonita não continua infinitamente, apenas se repete. a imagem comovente não vai mudar, as paisagens dos quadros permanecerão sempre com suas cores, suas luzes, seus nuances, um quadro do nascer do sol nunca terá a beleza do poer porque não foi feito para isso, ele sempre repetirá aquele mesmo período entre as quatro e meia e seis da manhã. é sempre a mesma falta de emoção, a falta de fé.

não há piadas que me contem que me façam rir, não há assunto que me tome o interesse, que me faça querer gastar meu tempo, minha saliva, minhas vontades com. não há pessoas que me façam crer que tempo com elas não seja tempo perdido. não há risada e não há pranto, não há prazer nem dor. tudo é fora de mim.

e tudo o que poderia existir não existe porque acabaram antes mesmo de um possível começo. estranho pensar em tudo isso, porque me dá vontade de falar com alguém, ligar para alguém e lamentar a falta de sentimentos, lamentar essa apatia. dá vontade de chorar pra alguém sentir pena de mim, me olhar e dizer que vai me salvar, que vai me amar ou qualquer besteira assim – porque eu sei que seria mentira, sei que não há alguéns para alguéns, que ninguém ama ninguém e, principalmente, que nossa salvação só depende de nós mesmos. quero algo que me faça viver. tendemos a procurar esse algo em outras pessoas. é um erro, um dos belos, mas ainda assim errado. algumas horas, a vontade que dá é só a de poder sorrir. sem medos, apenas abrir os lábios e mostrar os dentes sem parecer uma careta de nojo, sem parecer um grunhido de ódio.

eu quero uma mulher ao meu lado para cheirar seus cabelos, lamber sua pele, sua língua, seu sexo, para dizer que ela está linda sim do jeito que ela está e que mais bonita que aquilo só de quatro e rir da minha própria piada – que é tão verdadeira que é melhor fingir ser falsa – enquanto ela faz uma cara de ofendida e morder sua barriga, beijar sua boca, olhar seus olhos. quero uma mulher para me divertir na cama não só com sexo, mas com conversas. porque eu quero tanto seu corpo quanto sua alma. quero olhá-la enquanto ela se veste para ir embora, coloca sua maquiagem, seus pós, seus batons. quero dizer que a saia dela é legal, que eu gosto, que ela tem que deitar ao meu lado e tirá-la imediatamente porque as roupas não servem mais para nós dois. quero, para mim, o que todos chamam de amor, para que eu saiba, finalmente, se é realmente tudo isso que os outros falam.

quero desligar o som quando ela for embora para que eu assista a qualquer merda na tv. porque não há música que chegue aos pés de tudo o que passamos e na tv está o alívio, está a falta de informação e a incrível capacidade de desestimular o raciocínio. eu quero dormir quando ela vai embora e acordar no meio da madrugada, enquanto passa algum programa tosco no canal que me fez dormir, pronto para uma vida de verdade, seja lá o que isso queira dizer. eu quero tudo isso porque eu sempre tenho muitos quereres, porque é o melhor e é a única coisa que posso fazer. quero viver, quero ver, quero crer.