Archive for fevereiro, 2009

Era uma quinta…

fevereiro 13, 2009

o relógio mostrava 17:18 e eu estava em algum lugar indo para lá. o violão no meu colo, as pessoas ao meu redor, a revista em minha mão, as pessoas ao meu redor, o calor lá fora, o calor ali dentro, as pessoas ao meu redor… até que não mais, até que chegou minha hora, meu momento de levantar e deixar tudo aquilo de lado, de dizer adeus àquela loira linda sentada na minha frente, de dizer como eu queria tê-la beijado mais e com mais vontade do que eu não fiz. chegou a hora de descer e ir para onde eu deveria estar há um tempo.
passei onde prometi passar, encontrei com quem deveria encontrar. estávamos todos prontos para ir, três violões: dois eram carregados nas costas, um andava e tinha nome de mulher (ah, marianna) prontos para o fim de tarde que nada prometia, para a noite que nada nos dizia, para mais um dia juntos para esquecer da dor que é não esquecer das coisas que se deve esquecer. estávamos juntos mais uma vez, pela enésima vez na semana, mesmos amigos, mesma família.
quando chegamos estavam nos esperando como quem espera alguém que está para chegar: alguém de braços cruzados, escutando, alguém gesticulando enquanto fala sobre qualquer coisa cujos gestos certamente não estão relacionados. estavam os dois lá, em baixo ainda, na rua, de dia, quando chegamos caminhando calmamente, conversando, tentando identificar ao longe os vultos brancos na rua, confundindo pessoas, esclarecendo pensamentos, rindo.
dissemos bom dia, boa tarde, boa noite, nos abraçamos, nos beijamos, apertamos mãos e resolvemos que tudo aquilo estava muito repetitivo, que não havia mais rostos para se beijar, mãos para se apertar e corpos a serem abraçados. percebido isso, subimos para o local marcado, a boa e nem tão velha cobertura, de onde podia-se ver muita coisa, muitas belezas, muitas tristezas, muita vida. observamos a vida por um tempo, falamos e cantamos por outros tempos, até que resolvemos mudar, faríamos algo que não fazíamos muito, que só fizemos juntos uma vez, iríamos beber. resolvido isso, descemos, fomos ao posto de gasolina, compramos algumas latas grandes de cerveja e esquecemos que estávamos sem condições de mantê-las todas resfriadas. voltando ao prédio tomamos algumas latas e comemos. comemos porque senão nos daríamos mal, comemos porque comer é bom e todo mundo gosta.
e bebemos mais, bebemos quente. bebemos não pelo prazer de beber, mas pela obrigação de acabar com aquilo pelo dinheiro ali investido, bebemos pelo orgulho, pela vontade de não desperdiçar, porque queríamos beber e dizer que bebemos. terminamos de beber e chegaram mais pessoas, chegaram mais amigos, os mesmos de sempre, os que mais fazem falta quando não estamos com eles. e conversamos, e rimos, e tocamos mais e mais, e rimos e rimos e resolvemos que aquilo tudo não bastava, que aquele era um dia não só de beber e tocar e rir e comer, mas um dia diferente, um dia de sair para algum lugar legal. e saímos. em plena quinta feira fomos a um bar que sabíamos que tinha música ao vivo boa. fomos porque todos não queríamos que, quando chegasse determinada hora, todos fossem embora para pegar o último ônibus. estava decidido que passaríamos a noite fora. passaríamos a noite como há um bom tempo não passávamos, num lugar que não significa casa em nenhuma língua, mas que, para muitos, serve de lar. iríamos a um bar com música, mas não qualquer música, porque somos jovens com exigências de velhos, somos aqueles que percebem os detalhes, que ouvem as músicas que tocam no som dos shoppings e falam: “cara, essa música é muito boa.” ou “como alguém gosta dessa música?” somos nós que tratamos detalhes como coisas triviais, que nem notamos em quão detalhistas e perfeccionistas somos em relação não somente à arte, mas à vida e todas as bobagens que vêm inclusas no pacote que assinamos quando resolvem que vão nos meter no mundo.
já conhecíamos a banda. quando chegamos lá, estavam quase começando a tocar para um público não maior do que as reuniões que fazíamos nas coberturas dos prédios ou nos terraços dos prédios, ou em casas, ou em qualquer lugar que resolvessemos nos encontrar. não tinha muita gente, o que deixou o ambiente ainda melhor, porque pessoas desconhecidas se apertando umas com as outras é algo que todos poderiam viver sem (exceto quando é aquela gostosona que você vê e pensa que tem que se esfregar nela em algum momento da sua vida). sentamos em uma mesa boa, de onde veríamos todo o show (ou seja, sentamos na mesa que ficava praticamente em frente ao palco, onde poderíamos gritar qualquer pedido de música e ser ouvido), pedimos comidas, bebidas e mais bebidas e mais bebidas. até que, uma hora ou outra, o show acabou, o bar iria fechar e não teríamos para onde ir naquela já madrugada perdida. foi aí que ela, que havia anteriormente cedido seu teto, agora nos cedia seu terraço. pegamos um táxi, mas não antes de eu gritar algumas besteiras sobre as coisas da vida. lá resolvi que deveria ligar para alguém e não faço a menor idéia do porquê disso, talvez alguém tenha me ligado e isso tenha me lembrado que eu tinha um celular e que poderia falar com as pessoas bêbado. ótimo. fi-lo. falei, falei, falei até que chegamos no local onde desceríamos, compraríamos mais bebidas alcóolicas e rumariamos para nosso destino: o terraço. compramos as bebidas, falei merda, disse que faria coisas que em sã consciência não faria (tudo bem que nem bêbado eu fiz, porque sabia que era algo a se respeitar aquela vontade de que eu não fizesse isso, meu superego ainda não estava totalmente arregaçado).
depois da terceira garrafa as coisas começam a perder cronologia, ordem. lembro de boa parte das coisas que fiz e não fiz e disse e não disse. outra boa parte eu não lembro. da boa parte que lembro, algumas partes me fazem pensar que foi tudo um sonho e que não fiz o que fiz, mas fiz. fiz sim. não me arrependo do que fiz ou deixei de fazer, me renderam boas risadas e nada de hospitais dessa vez. e foi com uma das besteira que me renderam risadas que eu notei o quão bêbado eu realmente estava. acho que foi na praia. sim, eu lembro de areia. (fomos parar na praia depois da terceira garrafa de vinho. depois de soltar adjetivos para e sobre as irmãs da amiga que cedeu o terraço. e depois de o sol ter nascido.) lembro do sol. lembro dela escapando, dela virando o rosto para um lado – foi aí que eu pensei: “cara, estou muito bêbado!” -, para o outro – e eu pensei: “eu tenho que parar com isso!” – e eu dizendo qualquer coisa que pareceu tragicômica para nós, lembro de ter segurado seu rosto e feito o que eu nunca tinha feito sóbrio, o que eu não devia ter feito bêbado, muito bêbado. mas fiz. foi divertido.
da praia para casa foi um caminho tronxo, envolveu um desvio de 4 horas na casa dos meus amigos onde minha quinta feira acabou porque dormi, sujei a cama de alguém de areia, muita areia, depois fui para casa e sujei a minha cama de areia, muita areia. e, quando acordei, pensei que a coisa mais estúpida da noite realmente foi ter ido à praia no fim de tudo, onde acabei com areia por toda roupa, por toda cama, por todo o corpo. e eu posso dizer que comer areia não é tão legal assim. acordar foi… normal. a fome matinal das 4 da tarde, a dor de cabeça que vinha pela primeira vez com a ressaca, a sensação de que o mundo inteiro está girando e a incrível falta de fome. uma vontade generalizada de não existir, preguiça de simplesmente ser alguém. ressaca é isso, só que com dor de cabeça, muita dor de cabeça.

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“quando você me disse adeus…”

fevereiro 1, 2009

você me disse adeus como quem diz que vai na esquina. e, de fato, foi. lembro de como seu corpo ao meu lado era confortável, como seu abraço era bom e como seu sabor me satisfazia, me enchia, me dava prazer. hoje eu não sinto mais nada daquilo. hoje só existem copos vazios ao redor, e em nenhum deles encontrei a alegria que era te ter.

você foi embora como quem dá um beijo na mulher, abre a porta e vai ao trabalho. e foi assim que eu me lembro de ter sido. você saindo de casa com tua barba crescida, porém bonita, que sempre me espetava a bochecha, com teus olhos profundos e escuros, com teus cabelos curtos, unhas roídas. e eu lembro dos sons, da gravata esvoaçando, do baque do teu corpo que, ao invés de vir de encontro ao meu, ia mais rápido que o normal em direção ao asfalto. hoje eu tenho os corpos que  quiser na cama, mas nenhum deles é tão quente como o teu, nenhum deles cheira a você.

você foi embora como quem pensa em voltar. e ninguém nunca saberá se, naquele dia, você realmente voltaria, quais eram tuas reais vontades, teus sonhos, teus medos. você se foi sem dizer um adeus digno de uma vida compartilhada e nunca mais nos despimos, nos despedimos. hoje eu tenho os homens que quiser, mas nenhum deles tem as vontades que o homem que eu quero tem. e ninguém nunca terá tuas vontades, amor.