Archive for janeiro, 2009

Aquela noite.

janeiro 27, 2009

estava escuro naquela noite. eu não lembro de muita coisa além disso. estava particularmente escuro naquela noite. e era estranho exatamente porque eu tinha certeza que na mesma hora do que seria ontem havia uma lua cheia no céu. mas eu nunca fui bom com as fases da lua, poderia estar pensando que o que havia sido há dias tivesse sido ontem. o tempo sempre me prega peças desse tipo. o tempo sempre me engana com tudo. minutos de espera, de silêncio, sempre parecem horas. horas de alegria sempre parecem segundos. é tudo uma grande piada do tempo.

menos aquela noite.

naquela noite sem estrelas – o que eu achei normal já que estávamos na cidade e cidades nunca tem as estrelas certas, aquelas que brilham em céus – estávamos juntos, como sempre estamos, estávamos – ainda não estou acostumado a tratar as coisas que eram cotidiano como passado – quando percebemos um brilho estranho vindo de dentro de uma casa. como bons curiosos, fomos ver o que estava acontecendo, que luz era aquela que não parecia ser de televisão ligada nem te qualquer tipo de lâmpada.

há, na mente humana, algum dispositivo especial para esses momentos, para bloqueá-los, para jamais lembrarmos do terror do momento. eu não lembro de muita coisa, mas há certas coisas que são impossíveis de esquecer. é impossível esquecer aquele som, aquele grito de agonia, horror. é-me impossível esquecer as expressões congeladas e o corpo ainda quente caindo no asfalto frio. e é impossível esquecer de como senti minhas pernas mandando em mim. elas gritavam corra, corra, corra. e eu corri.

eu não esqueço da dor, não esqueço do calor, não esqueço do horror. eu não lembro de mais nada além disso.

e que estava escuro, inexplicavelmente escuro.

Daqui de cima.

janeiro 26, 2009

daqui de cima eu vejo a vida de um jeito que ninguém mais vê, vejo tudo como se as coisas fossem do jeito que são, mesmo quando não parecem. daqui de cima eu vejo uma vida estranha tomando formas estranhas. vejo homens nascendo e crescendo e vivendo e amando e sofrendo e chorando e sorrindo  e morrendo e morrendo e morrendo. homens morrem de várias formas, todos os dias, ininterruptamente. morrem e morrem e morrem e cansam de morrer e morrem e morrem e morrem.
daqui de cima não há morte, não há vida. tudo o que vejo daqui são idéias de tudo o que seria. daqui de cima nuvens se amontoam em nuvens, homens vivem em suas colônias a céu aberto, montanhas sobem e tentam nos alcançar, homens sobem em montanhas para tentar nos alcançar, homens criam máquinas para nos alcançar, sobem aos céus, vão ao espaço, percebem-se como o nada que são, voltam ao chão, vivem suas vidas medianas, entregam-se a trabalhos que nada constroem, a vidas que nada importam, a objetivos que nada significam, alguns brilham por um momento como um palito de fósforo sendo aceso no meio de uma chuva. acende uma faísca e apaga rapidamente. daqui de cima rios cortam planícies, planaltos, oceanos inteiros apresentam vidas sobre eles, sob eles, neles. daqui de cima a gente pode ter boas surpresas com o todo, com o tudo o que há. e não há muito como explicar como é daqui de cima.
aqui em cima estamos sós, estamos todos juntos, estamos cada um por si e todos por cada um. daqui de cima a vida parece fazer sentido, parece ser mais fácil de se viver. daqui de cima as aparências enganam.

O começo.

janeiro 24, 2009

era um dia comum como todos os outros dias até aqueles e como todos os outros que viriam depois. era um dia qualquer de um ano que parecia ser qualquer, mas não… um ano para se lembrar. aquele seria o ano em que tudo o que teria que começar algum dia começaria. era um dia que hoje em dia não saberíamos dizer o que teve de especial, mas que sabemos que foi especial.

éramos cinco jovens esperançosos, cinco crianças aprendendo a viver da pior maneira que se poderia aprender a viver: vivendo. éramos cinco e hoje somos mais. mas hoje não falaremos sobre hoje. hoje lembraremos daquele dia em que os cinco se entenderam. porque havia ali quem se conhecia há mais tempo, mas a conexão começou ali, naquele dia, com as piadas, com a ignorância, com a vontade de se divertir com a imaginação.

foi naquele dia que conhecemos o que nos uniria. foi naquele dia que nascemos como somos. o começo de uma era.