Archive for dezembro, 2008

“quando eu tinha 20 anos, foi um ano muito bom”

dezembro 31, 2008

eu posso dizer que foi um ano bom. eu acredito que foi um bom ano. quem melhor que eu para balancear todos os anos da minha vida e saber quais foram bons e quais foram ruins? o ano que acaba hoje foi um bom ano, apesar de tudo. as mudanças desse ano foram verdadeiramente significativas para a minha vida. e tudo pode mudar de novo, pode voltar a ser o como era, mas a ser o que era nunca voltará. há mudanças que os olhos não podem ver, há mudanças que só os olhos podem ver, e há as que nem eu mesmo sei que ocorreram. o ano passou correndo como todos os anos depois que nos acostumamos com a vida. e é tão triste admitir isso, dizer que me acostumei com a vida… ninguém devia se acostumar com ela, ela devia ser sempre cheia de surpresas e reviravoltas, sempre nos enchendo com emoções nunca antes sentidas. mas isso não seria realmente viver.

eu devo muita coisa a muitas pessoas, devo muito a amigos, porque sem eles esse ano teria sido o pior da minha vida. mas não foi. foi um bom ano. um ano de novas pessoas, de velhos convívios, de novas amizades, de velhos projetos tornando-se realidade. esse foi o ano em que projetos saíram do mundo das idéias para se tornarem reais. eu teria tanto a agradecer a tanta gente que acho melhor não falar disso e ir ao mais importante dessa carta: você.

você foi a pessoa que fez cada dia desse ano ter um brilho diferente, especial. e não é que você tenha feito eu seguir em frente ou nada disso, acho que eu seguiria de uma forma ou de outra, mas com você ao meu lado, as coisas difíceis pareciam valer um pouco mais a pena. é difícil de explicar, é difícil até mesmo de se sentir! e é por isso que eu sei que nenhum outro ano será como esse. nenhum outro ano terá nós dois nos falando como dois seres apaixonados no começo de uma grande paixão, nenhum outro ano terá um fim do ano com tanta expectativa quanto esse e um começo de ano seguinte tão grande quanto essa. nenhum outro ano terá você de um lado sentindo saudades e eu de outro sentindo saudades. saudades de um tempo que quase não tivemos, de momentos que quase passaram despercebidos enquanto os vivíamos. nada vai substituir as horas em que estávamos juntos. nada. e é por isso que eu sei que nenhum outro ano será como esse foi. por isso que sei que quando você encontrar essa carta e eu estiver bem longe você entenderá o que se passa comigo. porque temos um passado lindo e é melhor não estragarmos com um possível futuro escuro.

espero que você não fique tão mal quanto eu fiquei. acredito que você sabe lidar com essas coisas do coração melhor que eu… você sempre foi tão realista. e sim, eu sei que tudo isso é egoísta, pode me xingar. peço que não rasgue ou queime minhas cartas, não arranhe meus cds, não tente me esquecer. me desculpe por tudo e… muito obrigado por tudo o que você me deu, jamais poderei esquecer. e nunca esqueça que a única coisa que nós possuímos é nosso passado, foi ele que nos fez quem somos. você foi a melhor coisa do ano, meu bem. mas o ano acabou.

jambo.

dezembro 18, 2008

os lábios dela eram vermelhos e tinham gosto de jambo. jambo desses que em dezembro caem dos pés e enchem as calçadas de manchas roxas, jambo desses que vendem aos montes nas esquinas, nos sinais, jambo desses que é mais fácil de encontrar – e de comprar – que pão. mas eu nunca provei um jambo tão bom quanto ela. e por vezes eu me peguei pensando se eu mordesse bem forte, morder para arrancar pedaço, sua carne seria branca, apenas recoberta por uma fina pele vermelha que sangraria um fino fio que tingiria parte do branco, formando manchas rosas naquela suculência esbranquicada. às vezes eu falava para ela disso, do seu gosto de jambo, e ela só ria. me chamava de louco e ria. às vezes ria e perguntava se era de jambo branco e eu dizia sério: “não, do vermelho.” e ela se punha a rir ainda mais e falava que se fosse do branco tudo bem, já que não tinha gosto. mas cada um deles tinha seu gosto. e ela era vermelha, eu tinha certeza.

os lábios dela tinham esse gosto que me lembrava minha infância e era por isso que eu gostava tanto de beijá-la. ela lembrava os tempos que nunca mais terei, me fazia pensar em toda a felicidade de antes e na de agora e ela sempre me fazia pensar no amanhã. havia algo naquela mulher…algo que me lembrava tardes de sábado, pratos de alumínio e caroços, algo que eu não sabia, não sei, nunca saberei explicar. só sei que não importava qual era a hora do dia, se era manhã logo depois de me dar um caneco cheio de chá preto (porque ela não tomava café e, por essas e outras, o meu café foi ficando cada vez mais de lado e, sinceramente, eu não ligava tanto assim.) e me beijar com sua boca que, de acordo com todas as normas do mundo, deveria ter o gosto de hortelã dos cremes dentais. eu não conseguia não pensar em outra coisa quando aqueles lábios tocavam os meus e seu gosto saltava na minha língua. cada um ia para seu lado todo dia. e, todo dia, quando voltávamos para nosso próprio lado, era o gosto de jambo que eu queria sentir na hora da janta, depois da janta, a toda hora.

jambo era a fruta da estação.

Entendeu?

dezembro 16, 2008

“(…)você me entende?”

“não, eu não entendo.”

“e é por isso que a gente não durou o tanto que podia durar.”

“E eu não vou nem ligar…”

dezembro 12, 2008

a gente mente. todo mundo mente. mas nessas horas em que fechamos os olhos e dizemos: “tudo bem, eu não ligo.” nós mentimos ainda mais. porque não está tudo bem e nós ligamos. nós ligamos muito mesmo, e por isso achamos que precisamos fingir, tentamos enganar o mundo para poder nos enganar e fingir que está realmente tudo bem. é com o “eu não vou nem ligar” soltado meio a grito e meio a choro que nós mostramos ao mundo inteiro nossa consistência frágil.

porque se você me disser que não vai mais voltar, eu vou ligar, e vou me doer e talvez até mesmo chore. mas eu não vou admitir isso ao mundo, ao mundo eu minto que não vou nem ligar, digo que encontrei algo melhor, algo que vale a pena.

e nem se eu tivesse todos os elepês do mundo, meu bem.

Notinha sobre a estranheza dos ciclos do tempo.

dezembro 11, 2008

hoje eu percebi como antes as coisas eram…estranhas. eu vivia reclamando do amor por ter um coração quebrado sempre pela mesma garota e mal consertado por outras. mas agora…agora eu reclamo do coração quebrado que eu tive e que está tão bem consertado que, quando quebrar, se quebrar, vai parecer nunca ter sido quebrado antes.

do que eu não sei.

dezembro 10, 2008

eu nem sei de como andam as coisas lá fora. sei que estamos no 64º minuto do dia de hoje e nada me aconteceu. a música que está tocando foi feita há mais de 20 anos, antes mesmo de eu ser feito. ela já viveu muito mais, ela poderia falar muito mais do que eu. mas ela não tem um computador na frente dela e não tem aquela vontade de dizer coisas que às vezes eu tenho.

e faz tempo. faz tempo que eu não fico assim, cara a cara com quem quer que esteja aí. faz tempo que eu não falo sem enrolar, sem criar situações. mas hoje…hoje algo aconteceu, algo me inspirou, algo me deu vontade de dizer: “ei, eu preciso escrever” e esse algo não é a taça de sorvete que está derretendo enquanto escrevo. não é nada disso. eu nem sei bem o que foi que me fez querer dizer algo. acho que foi a inveja que me deu ao ler algo de alguém que sabe falar de si.

eu não sei mais como falar do amor, da solidão, de como é triste a madrugada, de como a chuva lá fora é mais alta que meus headphones. eu não sei falar mais de nada. e sabendo que nada sei deveria calar, deveria desistir, deveria deitar na cama, enrolar-me nos lençóis e sonhar com o dia em que saberei falar dessas coisas, com o dia em que não terei que desistir. tudo o que me resta são os sonhos que tenho e que, logo, num segundo ou dois, podem se tornar os pesadelos que ninguém queria ter.