Archive for outubro, 2008

Dúvidas.

outubro 21, 2008

daqui de baixo, lá em cima parece uma estrela com seu brilho prateado. vivemos à sombra dela, da grande cidade acima de nós que todos fazem questão de ignorar, mesmo sabendo que é impossível esquecer quem está lá. porque todos estivemos ali, todo nos lembramos da beleza que há. os prédios gigantescos e as ruas onde ninguém põe os pés. nós fomos os primogênitos, cheios de graça e beleza, nós fomos capazes de tudo, criamos as maiores maravilhas que se pode imaginar. também fomos os primeiros chegar aqui, fomos nós que erguemos cada pilar dessa mancha escura, tentando sempre fazer algo melhor que o que tínhamos lá e conseguindo apenas uma versão deturpada, uma distorção, de tudo o que eramos. o lugar que construímos reflete tudo aquilo que somos agora, e lá em cima brilha a beleza para nos lembrar do que fomos e nunca mais seremos.

ainda lembro de como eram os dias lá em cima, e creio que todos os outros sejam capazes de lembrar disso também. tenho certeza que lembram. as músicas, a alegria, as festas, os deveres, e o amor. o amor é o que mantém aquela cidade flutuando acima de nós. foi quando duvidamos pela primeira vez do amor que tudo aconteceu, foi quando nos juntamos ao primeiro. o primeiro de fato. aquele que era o mais capaz de amar, tornou-se o primeiro a duvidar do amor. e nós nos juntamos a ele porque… eu não lembro bem o porquê. às vezes eu fico me perguntando o que ele disse para que nos juntássemos a ele, as palavras exatas. mas não consigo lembrar, só sei que fazia muito sentido naquele tempo. então duvidamos de tudo, do amor, do poder, Dele. e foi aí que aconteceu. todos sabem o que aconteceu.

a estrela brilhando fria no céu não é uma estrela. é o início de tudo o que é belo, o marco zero da inspiração. o local de criação de musas. é o que mais amei, e é o que mais detesto.

e é meu castigo ficar aqui por toda a eternidade, observando-a lá em cima e sabendo que jamais poderei voar até lá, que jamais verei tudo o que ela tem a ofercer para mim novamente.

tudo isso porque eu duvidei do amor.

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um cara entra no bar…

outubro 10, 2008

um cara entra no bar. cabelos raspados, olhos e pele escura. alto, roupas largas, pretas – mas não aquele preto de que já foi usado por tanto tempo que não é mais preto, mas cinza – era preto mesmo. ele caminha pelo bar, passa pela fumaceira de cigarro e senta sozinho no canto escuro. o garçon vai até ele que, nas sombras, pede que lhe traga um copo de wihsky sem gelo. todos olham para ele tentando imaginar o que aquele cara estranho, de traços fortes e duros, faria. mas ele não faz nada.

um cara entra no bar. franzino, magro como se precisasse comer urgentemente ou desmaiaria. o homem era pele e osso, parecia pequeno e frágil, do tipo que se pensa que com um vento mais forte irá desmontar. veste trapos marrons, caminha até o homem que já toma a dose da bebida pedida, aperta a mão livre dele – a mão do homem sentado parecia devorar a sua – e senta ao seu lado. chama o garçon e pede um prato de macaxeira com charque. todos olham para ele esperando que fosse morrer subitamente, que a qualquer segundo respirar seria um esforço demasiado grande para ele.

um cara entra no bar. ao avistar os dois homens na mesa, solta um sorriso amarelo. o aspecto desse homem deixa as pessoas no bar se sentirem mal, ele parece ter todas as doenças do mundo ao mesmo tempo. o sorriso dele é amarelo, seu cheiro lembra o de hospitais sem infra estrutura, onde centenas de pacientes são postos no chão e no corredor. ele veste branco e tem uma postura confiante que não combina com sua aparência. parece um homem rico usa óculos escuros de noite, se ele tirasse, todos veriam olhos vermelhos devido à conjuntivite.  seu rosto apresenta ulcerações na bochecha e rachaduras nos lábios. caminha até os dois homens, senta ao lado deles sem trocar uma palavra. com as mãos cheias de anéis dourados, tira um pedaço da macaxeira e do charque do homem que começava a comer. o homem negro toma sua segunda dose de whisky, dá uma olhada para o homem de branco, um olhar que diz: “toque meu copo e eu corto a tua mão”. o homem magro deixou o prato de lado, enojado.

um cara entra no bar. e não havia mais ninguém para contar coisas sobre ele. e não havia mais nada para vê-lo sentar com os outros e conversarem até o fim dos tempos.

quatro caras entraram num bar e mais ninguém sai.