Archive for setembro, 2008

Imagine.

setembro 24, 2008

imagine-se num mundo onde tudo o que você conhece não é bem o que você conhece. as pessoas que você conhece, confia, ama, todas elas não são quem você pensa que elas são. pense num mundo onde todos os segredos que você pensa saber sobre as pessoas que te contam segredos não passem de uma simples camada de poeira que você tirou com a ponta do dedo como naquele piano velho que você nunca soube tocar, mas que um dia você quis aprender e se viu atormentado pela incapacidade, pela desafinação.

imagine-se num mundo onde tudo o que você pensa que existe não existe do jeito que você pensou que existisse. um mundo onde o negro não é tão negro, onde o branco não é tão branco, um mundo sem extremos e sem meios termos, um mundo onde a escuridão não é a mera ausência de luz. um mundo onde nada é seguro e nada é certo, onde tudo o que se pode fazer é esperar e esperar até que as coisas que estão ruins piorem e as que estão boas piorem e até que tudo acabe e quando tudo acabar, será o mais próximo de ficar bom que elas vão chegar. e é quando nada de ruim acontece que todos dizem que as coisas boas estão acontecendo.

imagine-se num mundo onde não as pessoas não passam de matéria e sonham que são muito mais que isso, um mundo onde todas elas acreditam piamente serem importantes para o desenvolvimento do universo.

imagine dormir e acordar num mundo assim, cheio de horror, de guerra, de fome, de tristeza, de miséria. imagine viver nesse mundo do momento em que você nasce até o momento em que você morre e não poder fazer mais nada enquanto isso a não ser viver nele.

pare de imaginar. viva.

Coveiro.

setembro 14, 2008

as lágrimas desciam dos olhos acompanhando as curvas de seu rosto, descendo pelas bochechas até se encontrarem no traço que fazia seu queixo. nunca havia percebido o mal que eram aquela caixas de madeira. elas nunca pareceram tão ruins como agora, antes eram inofensivas, nunca pareceram com o que realmente eram.

não havia música, não havia tiro, não havia aplauso, não ali. ali não tinha um mundo, os pássaros não voavam e os sons das asas que levavam todos embora era um eco distante. era ali que o mundo se acabava e quem continuava eram os outros, aqueles que não eram o mundo, aqueles que não significavam absolutamente nada. naquele lugar só havia lugar para as lágrimas. incontidas, incontáveis, incontíveis. naquela tarde de terça o pôr do sol não queria ser pôr do sol.

as flores, cortadas e jogadas sobre o solo formando um arranjo belo, estão mortas. nada dura muito tempo naquele cinzento campo verde, logo todos serão nada, todos serão o que sempre foram e o que sempre serão. logo tudo o que seremos será o que sempre fomos e o que somos passará. logo, não haverão dias ou noites ou chuva ou seca ou frio ou calor. logo, as lágrimas secarão, os olhos secarão, as órbitas secarão. logo não haverá um eu para você ou um você para mim. as palavras nunca existiram, essas palavras nunca existirão. nunca serão ditas. as luzes serão apagadas e a festa acabará. as festas sempre acabam.

No corredor

setembro 4, 2008

ela esperava na porta de casa. esperava de braços cruzados, cara amarrada, pernas agitadas. esperava como se estivesse esperando algo; algo que não vinha, nunca viria. não havia ninguém no corredor, só ela. e há duas horas ela esperava caminhando de lá para cá no corredor. passos lentos, arrastados. se tivesse uma lata no corredor, provavelmente ela chutaria a lata e ficaria chutando-a de um lado a outro até que cansasse de chutar, pegasse a lata e jogasse na lata de lixo do final do corredor, então esperaria mais. até cansar.
mas ela não cansava. por mais impaciente que ela ficasse, por mais agitadas que suas pernas ficassem, por mais tensos que seus braços se cruzassem, com unhas a penetrar o antebraço até quase sangrar, ela não cansava de esperar. os segundos passavam arrastando as horas atrás de si, como escravos puxando pedras para construir algo maior que nunca vão usufruir. naquela noite eu não dormi olhando através do olho mágico para ela no corredor.
a noite passou, do dia veio, a vida veio ao mundo inteiro, mas para ela continuou a espera. eu não poderia trabalhar enquanto ela estivesse no corredor, esperando. eu não poderia fazer nada além daquilo. ela me prendia. havia alguma coisa nela, nos olhos que eu não enxergava através do olho mágico, em seus cabelos negros que lhe ensombreavam a face. havia algo nela, eu sabia disso. mas nunca soube o que era até ser tarde demais.
era minha segunda noite olhando-a no corredor. eu esperava pelo que ela esperava. rosto grudado na porta, olhos ardendo pela falta de sono e de lágrimas para lubrificá-los, passei outra noite observando-a. algumas horas ela encostou na parede, outra hora ela correu de um lado para outro do corredor. ela ainda não havia comido desde que chegara ali, desde que eu a vi esperando no começo de tudo. nem um sanduíche de dentro da bolsa, nem um suco, nem uma garrafa d’água. há dois dias ela não comia e não bebia. eu deveria fazer alguma coisa. e fiz. observei-a até o dia nascer e virar tarde e noite novamente.
na terceira noite de vigília, esperando que o que ela esperava viesse logo, decidi que se o que quer que viesse não viesse logo, amanhã seria um novo dia. disse a mim mesmo que hoje seria minha última noite observando-a. disse-me que amanhã seguiria minha vida, voltaria ao trabalho, ao mundo. se não vier o que quer que seja, amanhã abrirei a porta, sorrirei para ela e direi bom dia e passarei por ela como se ela fosse uma estranha – o que de fato era – e irei ao trabalho como todas as outras manhãs antes de encontrá-la. e a terceira noite passou sem que chegasse o que ela esperava. agora eu tinha que cumprir o que havia prometido. mas eu sentia medo. medo de ela me olhar e me achar estranho, medo de ela saber que eu estava ali o tempo todo, olhando-a por todo aquele tempo, observando-a em sua espera agoniante. tinha medo que ela me julgasse. mas engoli o medo. foi a primeira coisa que engoli depois de dias observando-a ininterruptamente. abri a porta do jeito que estava, a roupa amassada, as pernas acabadas, os olhos vidrados emoldurados por olheiras gigantescas.
ela me vê e sorri.
“estava esperando por você.”