Archive for julho, 2008

medo

julho 31, 2008

“eu tenho medo dos teus medos, das tuas apreensões. eu tenho medo que você tema qualquer coisa que não devia temer. eu tenho medos, claro, todo mundo tem, mas meus maiores medos, no momento, são que teus medos atrapalhem tuas decisões, que eles façam você pensar que algo que deveria fazer para que existisse um nós – porque deve haver um nós – é demasiado perigoso quando na verdade não é.”

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caminhando e…

julho 29, 2008

o sol batia em seu rosto cheio de espinhas. ele suava, suava e suava. era meio dia e ele não sabia de onde estava vindo a energia que fazia com que seus músculos se movimentassem. “finalmente esta gordura toda vai ser queimada para me dar energia”. andava com imensa dificuldade, em parte por estar machucado, em parte por ter preguiça, em parte por se sentir cansado, em parte por tentar se dividir em tantas partes que parte nenhuma dele conseguiria se sustentar se não se unisse uma com as outras. ele não era muito unido consigo.

ele tinha fome, sede, sono, preguiça, medo, ansiedade. ele tinha de tudo naquele momento, menos o que ele mais queria ter. ele queria ter a mulher que ele pensa que é a mulher de sua vida em seus braços. ele queria poder beijá-la e abraçá-la e cheirá-la e tocá-la e tê-la e saboreá-la.

mas mal sabia ele que ela, naquele momento não estava onde ele pensava que ela estava, não estava onde ninguém pensava que estaria. não sabia ele e o resto do mundo que ela não passava de algo que ele criou para poder não se sentir tão só quando chegasse em casa. alguém para ser seu objetivo de vida. ele criara uma vida para poder seguir com a sua, de tão insuportável que ela se apresentava.

não, ele não sabia que tinha tais problemas. nunca percebera que as horas que passava falando com ela onde quer que fosse eram horas faladas consigo mesmo. fala que eu te escuto e ele escutava o tom de voz dele pensando que era ela quem falava as coisas bonitas e ele escutava sua própria voz falando as coisas que ele sabia que diria sempre. porque ele dizia as mesmas coisas sempre.

ele não sabia também que enquanto andava para casa, onde sentaria na frente de um computador e ficaria ali por horas e horas e horas sem fazer nada, jogando paciência, ouvindo as mesmas músicas que já ouviu alguma vez, pensando nas mesmas coisas que pensa sempre: a vida, o universo e tudo mais.

ele não sabia de muitas coisas. não sabia que seus amigos todos estavam longe, não fisicamente, mas emocionalmente, e quem se afastou não foram eles, mas ele que os afastou, os jogou para longe com seu muro de impassibilidade.

ele era um homem que se via garoto. era um garoto que não queria crescer, não queria ser homem, queria ter sempre seus 16 anos onde não havia responsabilidades e a vida se resumia a vagabundar e bater punheta.

não que agora fosse muito diferente do que era, mas agora há cobranças. e cada vez menos tempo para a punheta.

“Come with me my love…to the sea”

julho 24, 2008

“dá a tua mão!”

“o quê?”

“é! dá a tua mão!”

as duas mãos se tocam, os dedos entrelaçam-se.

“agora vamos…”

“pra onde?”

“vamos nadar.”

“nadar?”

“é! nadar! você sabe nadar, não sabe?”

“sim, eu sei nadar. mas por que diabos você quer nadar agora? são 4 da manhã, está chovendo, fazendo um frio danado, a piscina não tem aquecedor. não é melhor ficarmos aqui?”

“eu quero nadar com você. não quero ir à piscina. quero que você me afogue no mar. vamos nadar no mar.”

“no mar…”

“é!”

“e você quer que eu te mate.”

“não…eu quero que você me afogue.”

“…você está bem?”

“melhor que nunca.”

“ainda assim você quer que eu te afogue.”

“é. quero que você segure bem forte na minha mão e nunca largue. e quero que você me afogue no mar.”

houve uma troca de olhares que…uma troca de olhares que não caberia em papel, em telas, em qualquer lugar. uma troca de olhares que nunca seria descrita com palavras sem que ficasse de fora todo o sentido daquela troca de olhares. uma troca de olhares que só se sabe o quanto é especial quando se sente o que se sentia quando se olharam. tudo o que se pode dizer é que houve uma troca de olhares.

“okay.”

“okay?”

“okay.”

Há três dias.

julho 21, 2008

ele havia feito de tudo. tido filhos, plantado árvores, escrito livros. havia deitado com homens e mulheres, mas a vida inteira só amara mulheres. elas dominavam seus pensamentos desde a mais tenra idade. lembrava de sua primeira mulher, a primeira que amou fora do círculo familiar – não, não falamos de incesto por aqui, falamos simplesmente da primeira paixão juvenil – a primeira que o fez ver o quão lindas são todas elas e o perigo que há em cada um de seus traços, o caminho sem volta de suas curvas, os doces pecados escondidos por baixo de seus panos. foi com ela que ele descobriu que o sabor quente da saliva tinha um preço alto, caro demais para ser pago sem dor. foi com ela que ele se tornou parte da humanidade, um homem de verdade, pois ela quebrara seu coração pela primeira vez.

depois daquilo, passou algum tempo procurando consolo em outras pessoas. qualquer pessoa disposta a dizer-lhe que tudo estaria bem logo, que o melhor a fazer é esquecer, que ela não era certa para ele servia-lhe bem. gostava do consolo das pessoas. gostava de aliviar-se com os corpos das pessoas. gostava do suor, dos cheiros, dos fluidos. gostava de tudo daquilo até que aquilo tudo deixou de fazer sentido para ele. até que ele passou a perceber que o que realmente gostaria era estar com pessoas que o tratassem bem. percebia que quando estava daquele jeito, as pessoas que realmente se importavam não existiam, que todas elas só desejavam possuir seu corpo, só queria que as possuisse. sentia que aquilo não era certo.

depois de corpos diversos, apaixonou-se novamente por uma bela mulher. olhos como mel, cabelos negros como a noite e pele branca como areia. por muito tempo pensou que fosse a mulher da sua vida. aquela que o faria querer um dia a dia. mas ele estava errado. ela nunca precisou dele. ela nunca o amou de verdade.  ela só o desejava. era apenas paixão. e não tem como manter o amor quando do outro lado só se tem paixão.

então, mais uma vez ele entrou na rotina de copos e corpos. as orgias que fazia para esquecer só poderiam ser comparadas às oferecidas ao deus baco, ou coisa que o valha. o álcool regava corpos na escuridão, a sombra nunca escondia o que deveria, havia ali sempre o desejo de ser algo mais, o desejo de todos juntos serem um ser só. mas ele nunca se sentiu assim. no meio de membros alheios, entre pernas de voluptuosas mulheres nuas, ele não sentia nada. ele era o vazio que impedia todos de serem um só. ele sabia disso. sabia disso como sabia que se caísse, a culpa não seria de ninguém além da gravidade.

então ele resolveu que não iria mais se apaixonar. que a vida seria do jeito que deveria ser: sem amores. seria saudável. não fumaria, não beberia, não se arriscaria no sexo ou no amor. teria mulher, filhos e todas as coisas que deveria ter para ser completo. não precisava de amor para isso. tantas e tantas famílias por aí se sustentam bem sem o amor. tantos filhos crêem que seus pais se amam apenas porque dormem juntos, porque conversam, porque o criam. ele iria viver de ilusões agora. ilusões de que tudo estava completo, que amava.

mas há três dias se trancou neste quarto de hotel. há três dias acoplou o silenciador na arma. há três dias não escreveu nota nenhum de despedida. há três dias está apodrecendo no canto de um quarto escuro com um tiro em sua cabeça. há três dias ninguém tem procurado por ele. sua mulher está na frança a negócios. seus filhos estão na faculdade, todos os três. ele sabia o que tinha vivido. viveu o que todos vivem: uma vida. escolheu vivê-la de uma forma que poucos tentam: sem amor.

A verdade é que…

julho 4, 2008

temos uma vontade de saber a verdade. a verdade acima de tudo. apenas a verdade. os porquês das coisas. porque tudo nos intriga, tudo nos deixa querendo saber mais e mais e tudo o que acontece deve ter uma razão. e é isso que queremos saber. é exatamente a resposta que nos satisfaz. e não importa o quanto machuque, não importa se vai arrancar nossos corações, destruir nossos cérebros, queremos saber a verdade, o porquê.
não é que tenhamos essa imensa vontade de sofrer e sofrer e sofrer. sofrer todo mundo sofre. é a coisa mais comum do mundo, isso de sofrer. sofrer não torna ninguém especial, apenas os deixa comuns. queremos a verdade para sofrer menos, porque há algo que pode nos fazer mais dano do que uma verdade que explode e destrói tudo e é a imaginação. a imaginação tem a incrível capacidade de destruir as coisas que nem o tempo seria capaz de destruir. ela pode derrubar pessoas que se manteriam bem por toda a eternidade, mas vem a imaginação e destrói as bases de tudo.
a verdade é tudo o que queremos, para sobre ela construirmos uma coisa sólida. verdades nunca destroem coisas, o medo dela sim. o medo da verdade é algo que não temos, é algo que desprezamos. alguém que tenha medo da verdade não é alguém digno, não é alguém que mereça mais do que um castelo construido na base da imaginação. pronto para ruir quando ele menos esperar.
eu preciso da verdade, preciso dela acima de tudo, preciso dela como preciso do ar, a verdade é a coisa mais interessante do mundo e é atrás dela que corro, sempre.
a verdade é que somos viciados na verdade. só ela nos dá o prazer que precisamos. e precismos do prazer. do prazer para seguir em frente com o que quer que seja que tenhamos que seguir em frente. precisamos da verdade, de cada detalhe da verdade, cada lasquinha de verdade, para nós. e nós nos apegamos a ela, à verdade, tanto que não queremos deixá-la ir embora. tanto que não acreditamos que haja alguém que não precise dela tanto quanto nós.
a verdade é teu sorriso, teus olhos, tua boca. a verdade são tuas orelhas e tua voz. a verdade é teu corpo, tua pele, teus cabelos, a verdade é o que acontece por dentro de você, teu coração, teu fígado, teu pâncreas, a verdade é teu útero se preparando todo o mês para adaptar a tua verdade a uma nova vida, a verdade é cada giro do teu cérebro, cada um deles. a verdade é o que te faz. e é o que me faz viver.
a verdade é você longe de mim e eu pensando e pensando e pensando em estarmos juntos. e estamos juntos.
a verdade é que um dia você vai estar comigo e eu com você. e estamos juntos.

“No dia mais claro…”

julho 3, 2008

no meio do nada ele disse que precisavam conversar seriamente. Ele disse, que fique claro. “porque às vezes é necessário um pouco de conversa”,  ele se justificou.
“então…eu quero saber o que anda acontecendo.”
“acontecendo? como assim?” ela parecia não saber do que estavam falando. ela convenceria qualquer um disso, ela ganharia o troféu imprensa – melhor atriz –  o oscar até, se a vida de ambos fosse um filme, mas era apenas uma novela brasileira sobre mutante: absurda e pobre.
“bem…se você realmente não sabe do que estamos falando, isso deixa tudo um pouco mais complicado. seria mais fácil se você me dissesse: ‘também quero conversar, acho que é necessário. tem muita coisa acontendo, meu bem. e eu preciso contar para você porque senão…senão eu posso…’ não sei. eu não sei o que você pode e o que não pode fazer e é exatamente por isso que estou perguntando o que anda acontecendo.” ele olhava para ela com calma. não havia sequidão em sua voz. não havia farpas para machucá-la, ele apenas estava sendo sincero.
“eu não estou entendendo o que você quer dizer. eu não entendo o teu ponto. não sei o que você quer que eu diga, de verdade.”
“bem…ponhamos isso de um ponto que você possa entender bem. eu quero saber o que você anda pensando, quais são teus desejos, quero saber dos teus planos para o futuro. porque…bem…porque acho que você já sabe de toda a idéia de futuro que eu tenho, não sabe?”
“sei?”
“bem…meu futuro, meu bem, é você. e eu te vejo aí e penso em como o meu futuro pode ser lindo, mas aí penso em tudo o que meu futuro pode aprontar para me destruir.”
“eu nunca te machucaria, meu bem. eu te amo.”
“você me ama agora, mas até quando? até quando o teu amor será o meu amor? até quando você irá se satisfazer comigo? até que momento você vai me agüentar? até eu fazer uma piadinha que você não gostar envolvendo um pneuzinho ou coisa do tipo? porque eu vou fazer, você sabe que eu não perco uma piada. e, além da piada, seria horrível, até mesmo pior, muito pior, infinitamente, perder você. e só a idéia dessa perda, a idéia de você se cansando por causa de alguma coisa besta. porque só haverão coisas bestas, você sabe… uma privada levantada, uma toalha molhada, um completo caos organizado para mim. porque você sabe…você que vive comigo há anos e anos sabe que eu sou assim, completamente irresponsável. você sabe que tudo o que toco corre o inexplicável rsico de criar fungos e vermes. e eu quero saber…até que ponto você está disposta a ir. porque ter o teu amor agora e perder ele amanhã…isso parece doloroso demais para mim. e acho que para qualquer um isso pareceria igual.”
“eu não digo que vou te amar para sempre. porque eu não sei o que é para sempre…mas eu digo que vai ser lindo enquanto durar. eu digo que eu vou te dar todo o amor do mundo e ainda mais. eu digo que você pode sonhar e sonhar e sonhar, mas aqui, comigo, você vai ter a melhor coisa que a realidade pode te dar. e não só você. eu também terei, e terei muito mais porque estarei com você…”
“você me vem com essa idéia tão vinícius de que seja eterno enquanto dure…é tão epicurista…e isso não é a tua cara. mas tudo bem… e você me diz que não acredita no para sempre, mas me dá uma noção de eternidade que eu nunca tive. você me faz pensar que para sempre é estar com você até o fim, de agora em diante, sempre. para sempre, todo o sempre. e terminar junto de ti uma vida que, por mais dura que tenha sido, valeu imensamente a pena só pelas coisas que conquistei. as pessoas que conheci, as coisas que aprendi e você, a pessoa que amei. não que eu não tenha amado espiritualmente outras pessoas, meu bem, mas é que você…você…bem… você é mais bonita que uma refinaria da petrobrás de noite, e é mais bonita, mais bonita mesmo, não quase, mas mais, que a revolução cubana. (porque convenhamos, eu nunca fui tão chegado ao comunismo quanto você). e esse bonita eu não uso como físico apenas. não não não. eu sei e você sabe e você sabe que eu sei que há mulheres mais gostosas por aí. eu nunca escondi essas coisas de você. muito pelo contrário, eu sempre comentei com você como a bunda daquela mulher era linda ou como os peitos daquela outra eram firmes. eu sempre fui cara de pau. sempre fui sincero. e é só isso que eu quero que você faça comigo. quero que você seja o mais sincera que você pode ser. quero que me jogue a verdade na cara como quem cospe na cara de alguém que se odeia. quero que você me trate bem e mal. quero que você me diga essas verdades que me fazem tão bem.”
“você pede a verdade como se vivesse numa piscina de mentiras. mas você tem que entender que eu não sou de mentir. você tem que entender que eu construí todo um mundo baseado em verdades, e é lá que nós vivemos. é lá, longe de todas essas coisas do mundo que tentam nos corromper com mentiras e mentiras e falsidades e coisas do tipo, que nós vivemos. é lá, acima de tudo que estamos. e é você quem segura minha mão. e segurar minha mão não é para qualquer um. e beijá-las não é para qualquer um. e ninguém além de você o faz. ninguém merece tanta intimidade.”
ela pegou a mão dele, apertou-a e beijou-a. olhava fundo nos olhos dele enquanto fazia isso.
“eu não entendo o porquê disso tudo agora…” e ela falava baixo, muito baixo.
“é porque eu sou um idiota incerto. é porque eu quero que você me faça perceber que eu sou quem ama menos nesse relacionamento, porque é assim que funciona. eu sei, eu já estive aí, eu sei que, no momento em que o homem ama mais, ferrou. eu sei. e eu não quero não te amar. eu quero amar mais e mais e mais. e quero que você ame mais e mais e mais, mas eu não sei os limites. eu não sei os teus limites. eu não sei de nada. só sei que quero passar o resto do tempo com você, lado a lado. só sei que eu quero envelhecer com você. tudo o que eu quero é andar de bicicletas com você, ficar acordado até tarde e assistir a desenhos. você lembra da vovó mafalda? da tv colosso? você lembra da manchete? você lembra das coisa que éramos naqueles tempos? eu lembro de você. você sentava longe de todos. você pintava suas coisas sozinha, desenhava sozinha, brincava sozinha. você é sozinha desde o começo. eu tenho medo que você queira ser assim até o fim. eu tenho medo que você diga não a isso.”
“isso o quê?”
e foi ali que ele ajoelhou. e ela soube. e seus olhos marejaram. sabia que havia todo um juramento. sabia o que isso significava para ele e o que queria dizer para ela. sabia das responsabilidades. ela sabia aceitar as responsabilidades e, conhecendo-o bem como conhecia, sabia que, para ele, todas as responsabilidades que ele estava prestes a tomar por conta própria, aquilo tudo já era, em si, uma prova de amor maior do que qualquer outra que ela possa imaginar.e ela sabia bem o que dizer.
“no dia mais escuro, na noite mais clara…”