Archive for junho, 2008

luz. (para S.)

junho 29, 2008

era uma vez uma garota que fazia as coisas terem sentido. e não só terem sentido, mas brilharem e fazer com que elas transmitissem esse brilho adquirido a outros, fazendo com que o mundo inteiro se iluminasse só pelo fato de ela existir. essa garota existia para iluminar vidas e guiá-las para o melhor. e era só isso que ela queria da vida, tanto para ela quanto para seus próximos e, talvez até, para todo o mundo – já que seus raios chegavam a atingir pessoas que nunca sequer a viram.
essa garota tinha um sorriso lindo, daqueles que mais ninguém no mundo inteiro poderia ter, como é a palavra…único. é isso. ela tinha um sorriso único e nada, aparentemente poderia apagar esse sorriso tão lindo (o que não era bem verdade, como puderam ver uns poucos cidadãos durante poucas horas que eles esperam nunca mais se repetir). quando ela sorria, seus pequenos olhos acendiam com uma chama que…bem…eu falei demais de fontes de luz, mas é que essa garota é como uma estrela. bem…imagine uma estrela no céu. imagine o sol que é a única estrela encontrada até agora que tem um planeta com vida orbitando a seu redor. pois bem. essa garota era o sol. e havia vida que precisava do calor dela, do brilho dela. é por isso que tanto se fala se luz quando se fala nela, porque ela é o sol, só que muito mais importante, porque o sol só tem a terra orbitando, e nela há planetas e planetas e planetas e planetas. cada um com vida inteligente, interessante, talvez até necessária. e a chama de seus olhos era a chama que fervia o núcleo desses planetas, que fazia cada um deles perceber que mesmo quando não valia a pena girar ao seu redor para gerar um dia e uma noite e fazer a vida seguir em frente, valia a pena sempre estar ali perto dela se aquecendo no conforto dos seus braços e palavras e olhares.
essa garota tinha sonhos maravilhosos. sonhos que pessoa nenhuma no mundo seria capaz de dizer que não são belos. até porque pessoa nenhuma no mundo poderia sonhar tão belamente quanto ela. ela sonhava das coisas mais simples – príncipes de reinos distantes prontos para salvá-la desse mundo que ela sabe que não é bom, mas mesmo assim sabe que vale a pena – aos mais complexos de todos – vidas salvas, filhos, casamento -, sonhos e mais sonhos e mais sonhos que têm perdido seu espaço no hall de sonhos mais sonhados, mas que ela mantém em em seus devidos lugares porque ela sabe das coisas que valem a pena, porque ela sabe o que é certo, o que é bom para si, sabe também o que é errado e o que é ruim para si, ela sabe das coisas que muitas pessoas passam anos e anos e anos, e vidas e vidas e vidas sem nunca perceber, mas ela foi capaz de ver e, muitas vezes sentir na pele, todas essas coisas (porque para saber das coisas, deve-se tomar consciência e, às vezes, isso acontece das piores formas possíveis).
essa garota também amava. amava porque sabia que sem o amor é imóssível seguir iluminando vidas, sem o amor é impossível até mesmo escrever esse texto. ela sabia que se não houvesse isso, o amor, tudo o isso não estaria aqui. e era por isso que ela amava, porque queria que as coisas estivessem onde estavam, mas ela também queria que muitas mudassem, ela queria que seu amor fosse o suficiente para que todo o mundo fosse de um jeito bom como ela sempre quis em seus sonhos (porque ela também sonhava, às vezes, com o mundo perfeito), mas ela sabia que, por mais amor que houvesse, por mais forte que ele fosse, não conseguiria agir para mudar tanta coisa num mundo como o que ela vivia. e ela queria, queria muito que todos soubessemos que o que já falaram e já cantaram era a mais pura verdade, ela adoraria que o mundo aceitasse que ele poderia viver bem só com o amor. mas ela sabia que isso era impossível, o amor, por mais eterno, mais forte, mais lindo que seja, não consegue mudar tantas pessoas. porque havia pessoas no mundo dela além dela e das pessoas que a cercavam. havia pessoas demais. e pessoas são diferentes demais. pessoas demais, diferenças demais…no fim de tudo nada nunca dá do jeito que devia.
essa garota, um dia, cansou de as coisas não serem nunca do jeito que ela queria. cansou de seus sonhos serem frustrados por pessoas iguais a ela, que deviam ajudar seus sonhos a se tornarem realidade, mas não o fazem, apenas atrasam e atrasam e atrasam, enquanto dizem que, mais tarde vão ajudar a fazer aquela coisa que ela pediu há séculos e que ela aceitou que ele nunca faria e por isso fez tudo sozinho, porque fora seus planetas, seus amigos de verdade, ela não podia contar com a ajuda de seres que prometiam se unir a ela mas nunca cumpriam a palavra. uma dia ela cansou de tudo isso e resolveu mudar. resolveu que ia ser indiferente a boa parte das coisas, resolveu que ser a boazinha não era bom para ninguém, especialmente para ela, e ela viu que deveria ser do jeito que ela sempre pensou que não deveria ser. arrumou suas coisas, falou a seus planetas de seus planos, falou que nunca iria de fato embora, que haveria ali uma marca, um espaço para ela, quando ela voltasse, em cada um de nós e foi.
eu, que estava perto, fui sentindo aquele calor, aquela luz aumentando, e me abraçou. abraçou-me e tomou-me, atraiu para si os planetas mais próximos, para torná-los parte de si. abraçou cada um de nós, amigos, planetas, sorriu seu lindo sorriso uma última vez e foi prometendo voltar. voltar não se sabe quando, não se sabe como, voltar para que nós todos nos encontrassemos mais uma vez e sorrissemos com as coisas da vida, do universo e tudo mais. ela se foi numa supernova duma tarde de outubro. estaremos esperando e esperando sempre prontos para orbitar ao redor dessa estrela maravilhosa.

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o pesadelo desta noite.

junho 25, 2008

eu estava aí, com você, do teu lado. eu mal podia acreditar nisso, finalmente eu poderia tocar você, cheirar você, beijar você. mas você não deixou porque…bem…porque você ainda ia escolher entre mim e ele. ele! ele que era para você odiar e que você mantinha sempre perto! ele que havia escolhido te maltratar e não dar o amor certo para você que só merece o amor mais certo do mundo, o amor que eu tenho para te dar. e você…você ainda tinha dúvidas. eu senti, no meio do meu peito, um imenso vazio tomar conta e…não se sabe ao certo como é ter um imenso vazio dentro de si até você ver o que eu vi. até toda a esperança ser jogada longe de você com um sorriso lindo, um simples gesto, e a tensão, o medo do que iria acontecer.

e você até que estava fazendo a coisa certa, eu nunca quis que tudo terminasse como terminou para vocês, você sabe disso e…bem…para mim, terminou para o melhor porque agora eu tinha a idéia de que tinha você. mas acho que errei. acho que errei ao pensar que eu era o cara certo. essas coisas todas…depois que eu vi…depois que eu vi, senti…depois que tudo aconteceu eu…eu…

bem… não há palavras para dizer, não há maneiras para descrever.

e eu acordo assustado no meio da noite.

por favor, não faça isso comigo.

meu Pasquim amassado.

junho 24, 2008

“oi”

“oi”

“olha só…precisamos conversar.”

“sobre o quê?”

“olha o que tem em cima da mesa.”

“o que tem?”

“o que tem?!? o que tem?!?”

“é…”

“… eu sei que não é sua responsabilidade. eu sei que isso não tem nada haver com você diretamente, eu sei que eu já nem estou mais com você aqui todo o tempo que deveria estar, mas acho que isso…isso é algo que nunca devia ter acontecido. acho que isso é exatamente aquilo que eu devia ter sido avisado antes para me precaver, para que isso não acontecesse, para que não tivesse acontecido de forma alguma.”

“mas…”

“eu sei…eu sei…a culpa não é tua. eu sei que não foi você quem fez isso daí, mas se eu não falar com você para você se conscientizar que, na verdade, a culpa é tua por ter dado tanta liberdade ao ponto de chegar onde chegou.”

“na verdade, não é minha a culpa. você bagunça tudo. você não cuida das coisas. você não sabe como cuidar das coisas que acha importante e, depois que te fazem o mal, fica culpando e reclamando das coisas que aconteceram e que, se você tivesse dito, expressado, poderia ter evitado tudo.”

“ora, não me venha você com isso de que eu não sei cuidar das minhas coisas. eu sempre sei como estão minhas coisas. sempre sei como cuidar para que elas estejam sempre nos lugares mais próximos para quando eu mais precisar delas. e olhe para isso…olhe! eu sabia muito bem onde estava. estava tudo seguro! e agora…agora…agora está apodrecendo! você tem noção do quão importante isso era para mim? claro…não devemos dar valor só para essas coisas, mas…olhe só…olhe só…eu cuidei para que tudo crescesse certo, para que chegasse no ponto certo, para que eu pudesse, no exato momento, ter o que queria sem passar por maiores dificuldades e agora…agora está tudo amassado.”

desabafo (ou momentos de agonia, desespero e falta de criatividade).

junho 22, 2008

música. hoje vamos falar de música. de como ela é incrivelmente importante para a vida. de como ela faz os tons de cinza parecerem coloridos. vamos falar de como alguns poucos acordes podem fazer você dizer coisas que nunca pensou que fosse capaz de dizer. vamos falar de como é lindo tudo isso e como a música certa, a pessoa certa, e mais algumas coisas certas podem fazer toda uma vida valer a pena. vamos falar da música que desperta as mais diversas emoções. vamos falar dela também. falaremos de como lágrimas podem fluir…sim…vamos falar de tudo isso. mas no momento só consigo pensar nela, na música certa para ela, no filme certo para ela. nela nela nela. queria escrever sobre ela, mas não deu. queria escrever sobre música, mas não deu. e termino falando de nada. termino sendo confuso e insuficiente. termino sendo eu mesmo quando eu mais queria ser outra pessoa – mais bonita, mais inteligente – só para impressioná-la. porque eu queria tantas coisas dela. tantas coisas dela que ela nem saberia como começar, que eu nem saberia como pedir. queria tantas coisas…tantas coisas…mas nada mais importante que o amor dela.

Ato final.

junho 20, 2008

“eu não queria te ferir. eu não queria que nada disso acontecesse” ele disse enquanto caminhava na direção dela. “eu não queria que fosse desse jeito. mas, aparentemente eu não tinha querer. você é quem mandava em tudo tão brilhantemente. a maestra dessa grande ópera. a diretora dessa tristemente hilária tregicomédia. era você quem tinha tudo sob controle.” ele disse olhando para ela e vendo o medo estampado em seus olhos. “até que eu, já fora da vida, em Hades, me vejo inquieto com a eternidade de pensamentos à minha frente. eu, que era contido pelos fios que você controlava tão perfeitamente com sua habilidade de mestre dos bonecos, quando me vi sem tuas mãos para me guiar, perdi o controle. foi ali, entre um pensamento de desesperança e um de desespero que percebi que fui jogado de lado, abandonado, retirado de cena, antes mesmo do meu fim, do grand finale.” ele se aproximava mais e mais. atrás dela havia a parede que ele esperava encontrar, não deveria haver espaços entre os dois. não mais que o suficiente para que ela o visse no fundo dos olhos, para que a alma dela visse as coisas que fez a ele. “olha só…” disse ele olhando para os lados e abrindo os braços como quem dizia que não havia mais ninguém além dos dois “não há mais ninguém aqui que não seja nós dois. e eu te conheço, cada canto do teu corpo. e você me conhece, cada canto do meu corpo.” e ele falava isso perto dela, olho no olho, ela sentia o hálito quente dele, ouvia a respiração firme dele, sentia o ódio em cada palavra, a acidez do ódio que só se encontra em ex amores, se é que isso existia. “estou aqui hoje para minha última cena que é, na verdade, nosso último ato. depois disso não há mais isso ou aquilo. depois disso é o fim. as cortinas se fecham e…quer saber…não haverão aplausos. não vai ter ninguém na platéia assistindo a tudo o que deveriam assistir. é assim que vai ser nosso fim. só nós dois. nós dois sós, de alma nua, frente a frente, e você pede perdão e me jura amor. jura amor porque você pensa que é o que quero.” e ele ri. ri alto. ri loucamente, gargalha até ficar sem ar. rosto para cima, um momento sem encará-la. e ela pensa que ele tem medo. ela pensa que ele vai deixar tudo aquilo de lado e simplesmente pedir desculpas por tudo aquilo, todo o susto que causou. mas ela está terrivelmente enganada. a risada foi algo que ele não pode conter. “estaremos os dois juntos, você sabe. juntos para sempre e sempre. porque eu gosto da idéia de para sempre com você. porque eu estive nos piores lugares que jamais poderias imaginar e voltei aqui, só para te levar comigo para lá.” abraçou-a. seus braços fortes apertaram forte, sentiu que algumas costelas foram quebradas então jogou-a fortemente contra a parede e beijou-a longamente. ela tentava resistir, tentava esquecer a dor. mas ele, segurando-a pelo pescoço enquanto passeava com sua língua em sua boca não a deixava soltar-se. foi assim até o fim. até que ela parou de se mexer. até que ele deixou o beijo de lado com um sorriso. até que o corpo dela caiu para o lado e ele a acomodou no colo e alisou seus cabelos. até que a polícia chegou depois que foi chamada por alguém que viu ao longe um homem e uma mulher num beco. a mulher contra a parede, o homem segurando o pescoço dela. até que estavam os dois mortos no corpo e na alma. por toda a idéia de eternidade que há.

do lua e da sol.

junho 19, 2008

olhando a foto dela. aquela foto que ela fez só para ele. olhando ela e pensando em como ele seria feliz com ela ali a seu lado. pensando nas coisas que fariam entre paredes e fora delas. pensava em como seria pouco todo o tempo que teriam juntos pensava em como ele poderia estar com ela ali, com ele, segurando sua mão, ajudando ele a sobreviver. mas não, ela não estava.
a cama balançava levemente com os movimentos que ele fazia, rangia baixinho, quase inaudível. o único som que se ouvia era o barulho de carros. carros buzinando, carros cheios, carros vazios, carros que sozinhos são silenciosos, mas que são uma bomba de som nas mãos de homens.
ele estava com saudades. sentia um imenso vazio em si e, por causa disso, enchia o mundo de saudades. sempre e muito. o mundo inteiro estava cheio das saudades dele. seu quarto estava escurecendo, suas coisas jaziam no chão sujo. suas coisas sujas de tanto tempo, porque o tempo suja as coisas. o tempo deixa mais marcas que ferro em brasa na pele nua. tudo ali naquele quarto estava sujo pelo tempo. o tempo fedia, no quarto dele, parecia começar a apodrecer. entre cuecas sujas, calças sujas, camisas sujas, meias sujas estava a alma suja dele pensando nela.
ela que não estava com ele. ela que nunca sairia de onde estava. ela que nunca estaria ali.ela que nunca existiu, nunca existiria, nunca existirá. ela que nunca deixaria de existir. ela que não era real, não era de papel, não era digital.
olhando a foto dela o tempo todo. a foto que ela tirou só para ele. aquela foto dela sorrindo um sorriso lindo que nunca existiu. branco como o mais puro branco. e ele encarava o pedaço de papel onde havia a foto de coisa alguma, a foto do vazio e, contemplando sua imensidão, derramava lágrimas e lágrimas de saudade no lençol sujo, manchado de tudo o que pode manchar. ele fechava os olhos e a via em sua cabeça. e via toda a perfeição de tudo aquilo antes de haver o tudo. e ele, então, via ela.
ela que era a utopia da utopia. a prefeição criada por alguém perfeito. ela que era a personagem mais querida de um livro há muito escrito. ela que já via visto de tudo com olhos que nunca viram nada. ela que…ela que… ela que deixa todos sem palavras, sem pensamentos, sem amores que não ela.

O pôr do sol.

junho 10, 2008

encostado em uma árvore, braços cruzados, observava as crianças brincando e cantando. até que ela chegou. subia com dificuldade a ladeira. ela, linda como sempre, agora não trajava mais as roupas que ele lembrava. nada de saia estampada, camiseta branca e sandália rasteira. não. provavelmente isso fazia parte dela com ele e ela já não era daquele jeito havia um tempo. ela havia escolhido não ser. vestia negro: vestido e salto alto, que vez ou outra ficava preso entre pedras.
até que ela chegou à sua frente e ele sorriu. sorriu aquele sorriso que ele sabia que teria que vir. descruzou os braços. ele havia pensado demais em tudo aquilo. havia calculado minimamente cada passo, pensado e repensado em tudo, absolutamente tudo. e o sorriso e as palavras de boa vinda estavam ali para fazer tudo dar certo.
“minha querida raquel”
ela o encarou. séria. olhos nos olhos. o verde dos olhos dela faziam com que sua boca ficasse molhada, ansiava por aquilo. era agora, era agora.
ela reclamou de alguma coisa. ela sempre reclamava de alguma coisa. “você não está fazendo certo” “você não chegou na hora certa” “você parece uma criança” “você não é bom para mim” “você só me faz perder a paciência”. ela era especialista em reclamar.
“Vejam que lama. Só mesmo você inventaria um encontro num lugar destes. Que idéia, Ricardo, que idéia! Tive que descer do taxi lá longe, jamais ele chegaria aqui em cima.”
abriu o sorriso. o sorriso fazia parte daquilo tudo. o sorriso era a arma fatal. ele comentou sobre a roupa que ela vestia. falou de como quando eles estavam juntos ela não se vestia tão elegante, ela não parecia se importar com todas essas futilidades e superficialidades. mas o que ele não percebeu é que todas elas dão valor a essas coisas.
e ela reclamou. mas, antes de ela terminar suas reclamações, a tomou um braço rindo. disse seu nome com um ar de: “ok, meu bem, ok.” disse a ela como ela estava linda. disse como ela não havia mudado, como ela agora tinha novos trejeitos que só exaltavam ainda mais sua beleza, disse que sentia falta do perfume dela. era hora se ser sincero, ele sabia que naquele jogo havia hora de mentiras e horas de verdades e que um bom jogador sabe a hora exata de contar a coisa certa. ele havia estudado por dias, semanas, meses até! ele poderia dar aulas de tudo aquilo. e em cada aula ele enfatizaria o uso de um artifício que serve para conquistar a confiança e deixar qualquer escudo mais fácil de se penetrar: o sorriso.
então, para variar, ela reclamou. mas, antes, acendeu um cigarro.
ele explicou a ela sobre o lugar, sobre como ali os vivos e os mortos todos desertaram, de como não havia ali nem mesmo um fantasma para contar a história do lugar. apontou para as crianças e falou de como elas brincavam entre cinzas sem saber que um dia homens e mulheres estiveram enterrados ali, onde seus belos pezinhos tocavam e se sujavam. falou que queria que ela visse uma coisa. uma última coisa, uma coisa linda. o pôr do sol.
e, antes de ela reclamar, soprou fumaça de seu cigarrinho no rosto dele. então ela sorriu e reclamou. reclamou do cemitério, reclamou dos planos, reclamou do pôr do sol, reclamou dele, reclamou do que ele fez ela passar para, no fim, fazer algo tão idiota quanto ver o pôr do sol. porque, para ela, ver uma das mais belas cenas que um homem pode ver, nada mais é do que pura idiotice.
e ele explicou, pacientemente – porque paciência faz parte do plano. ele previra cada reação dela. ele a conhecia como à palma da sua mão -, que o dali era o mais lindo do mundo, que ela nunca esqueceria, que ele estava sem dinheiro, que o lugar onde morava não era propício devido a uma velha chata e inconveniente.
e ela reclamou e disse que poderiam ter ido a um bar, bebido alguma coisa na conta dela. mas ele se recusou porque seria pago com o dinheiro dele. ele sabia que ela não trabalhava. não trabalhara um dia no ano em que os dois passaram juntos, não trabalharia agora que estava com um homem de posses.
e mais uma vez ela reclamou. e explicou que corria um risco enorme de estar ali, que seu novo homem era ciumentíssimo, que ele podia ter olhos em todo lugar, falou e falou e falou. mas ele não ouvia nada. já sabia de tudo aquilo.
então ele explicou que ele havia escolhido aquele lugar exatamente por ser ali um lugar que ninguém os veria, perfeito para aquilo que ele queria com ela, perfeito para o pôr do sol, perfeito para os dois. e ele explicava tudo isso carinhosamente, pacientemente, como se fosse para uma criança, para sua filhinha, como se ele tivesse a experiência de uma vida inteira enquanto ela estava no alto de seus poucos vinte e poucos anos. ele abriu o portão que os levaria até onde ele queria, se afastando para dar passagem para ela.
e ela, toda cheia de reclamações, falou que ia vir um enterro, e que ela não suportava enterros. mas, logo, ele explicou que não havia ninguém ali para ser enterrado, que o cemitério não recebia novos corpos há séculos e séculos.
ele deu o braço para ela, ela segurou e, juntos, seguiram por entre o mato que cobria tudo.
passaram por um anjo decepado e ela fez alguma reclamação. mas ele nem ouviu. beijou-lhe a mão.
“você prometeu dar um fim de tarde a este seu escravo.”
e ela reclamou. falou que fez mal, que não quer arriscar a viagem ao oriente que seu homem lhe prometeu. perguntou a ele se já ouvira falar do oriente. “que tipo de ser bizarro nunca escutou falar do oriente?” ele pensou. mas logo abriu um sorriso.
“eu também te levei um dia para passear de barco, lembra?”
ela encostou a cabeça em seu ombro e o chamou de tantã, como se não conseguisse entender que, para ele, o passeio de barco o marcou porque foi o dia em que ele percebeu que ela era Ela. o dia em que ele resolveu viver e respirar por ela. o dia em que ele percebeu o verdadeiro significado da palavra amor. e ele agora, ali, com a cabeça dela em seu ombro, ouvia suas reclamações. reclamava do ano que passaram juntos, do único ano da vida inteira dele que ele achou que valeu a pena. ela, agora, ria do passado, zombava da única coisa que lhe restava. ele sabia que aquilo deveria ser feito. sabia muito bem. desde o momento em que ela ligou para ele chamando-o para vê-la, desde quando ele a viu sentada naquela mesa, naquele café, com aquele olhar de…aquele olhar de…ele não sabia dizer que tipo de olhar era aquele, mas, certamente era o pior tipo de olhar que poderia existir. era o pior olhar que ela poderia ter-lhe dado. as piores palavras, as que mais doem, as palavras de despedida. dizendo que não dava mais, dizendo que não agüentava mais, que achou alguém que a amaria de verdade (como se ela soubesse o que é amor. a única coisa que ela ama é o dinheiro). e ela disse tudo aquilo enquanto tomava calmamente um café. e o café deveria ter esfriado depois daquelas palavras, o mundo congelou depois daquilo. e, desde então, ele só tem pensado nisso. na hora certa de se fazer isso. procurou lugares, um atrás do outro, visitou-os todos, até que encontrou o cemitério. até que decidiu que ali era o lugar perfeito para tudo aquilo.
ele sorriu. sorriu porque tinha que sorrir, mas por dentro não havia nada sorrindo. por dentro ele queimava, estava destruído, começava a pensar se não teria sido melhor algo simples, algo que não precisasse do contato direto com ela, mas logo recobrou-se. “não, não” pensou “tem que ser assim. uma última conversa, uma última tarde juntos”.
“é que você tinha lido A dama das Camélias, ficou assim toda frágil, toda sentimental. e agora? que romance você está lendo agora. hem?”
era uma fuga, um jeito de fazê-la não partir mais seu coração. ela respondeu que não estava lendo nada, no momento. parou, leu um epitáfio quase apagado em uma laje despedaçada e reclamou.
ele apontou para uma laje. disse que o musgo a cobriria, depois raízes, depois folhas. disse que essa era a morte perfeita. a morte de verdade, o total esquecimento. ela, ainda descançando a cabeça em seu ombro, aconxegou-se mais. bocejou e, antes mesmo de terminar o bocejo, pôs-se a reclamar.
ele pediu para ela se acalmar, que faltava pouco até o fim, que logo logo ele estariam no ponto perfeito.
e ela reclamou.
ele explicou de como havia andado por ali tanto tempo atrás, com sua prima, sua querida priminha que não era bonita mas tinha os olhos mais vivos que o mundo poderia ter visto. e os olhos vivos o amaram. foram os únicos olhos que o amaram. e falou de como a única mulher que o amou morreu, de como todas as mulheres que o amaram morreram. ela tirou o cigarro que ele fumava da boca dele e o tragou profundamente. soltou a fumaça e junto dela algumas palavras.
“eu gostei de você, Ricardo.”
“e eu te amei. e te amo ainda. percebe agora a diferença?”

e fez-se o silêncio. aquele tipo de silêncio que dura poucos segundos, mas para os dois, que se vêem, olhos nos olhos, dura uma eternidade. aqueles segundos em que tudo o que se quer fazer é pensar algo para dizer, mas nada vem, nada é certo, apropriado para quebrar o silêncio. o tipo de silêncio que um som, qualquer que seja, é tido como um imenso barulho incômodo. o tipo de silêncio que se sabe que só deve ser quebrado por algo do meio – um pássaro rompeu de uma árvore – estava feito.
ela reclamou que estava frio.
pararam diante de uma capela alta, coberta por uma trepadeira, abriu as portas de par em par. entrou no que disse ser a casa de seus mortos.
ela falou que era triste aquilo ali, perguntou há quanto tempo ele não ia ali. ele se desculpou por não estar tudo limpo do jeito que ela gostaria, mas era justamente por aquele local ser do jeito que era que ele gostava dali, por ser exatamente do jeito que era é que ele escolheu aquele lugar para que se tomasse cena o que estava por vir. avançaram ainda mais para dentro, para onde estavam as gavetas, passaram pelas portinhas e ele avançou até uma gaveta e fez como se fosse puxá-la. ela perguntou se as gavetas todas estavam cheias. ele sorriu. sorriu porque viu nela medo. explicou que as únicas cheias eram as que tinham foto e nome.
ela pediu para ir embora, mas ele avançou até um paredão, tirou uma caixa de fósforo do bolso de trás da calça e acendeu.
“a priminha Maria Emília. lembro-me até do dia em que tirou esse retrato. foi umas duas semanas antes de morrer… prendeu os cabelos com uma fita azul e vejo-a se exibir, estou bonita? estou bonita? não, não é que fosse bonita, mas os olhos…venha ver, Raquel, é impressionante como tinha olhos iguais aos seus.”
ela foi até perto para observar, cuidadosamente, para não esbarrar em nada. ela reclamou do frio.
ele acendeu um fósforo e entregou para ela, para que ela enxergasse, para que lesse o nome de sua querida priminha.
enquanto ela procurava ler o nome quase apagado na parede, ele ia saindo de perto dela. observou-a de longe até o momento em que ela viu que a data não batia. que ele não poderia tê-la conhecido. trancou uma das portas de ferro. ela foi até ele chamando-o de mentiroso, falando que aquela brincadeira não tinha graça nenhuma.
ele sorria. sorria porque finalmente via seu plano em prática. porque era agora que faria com que ela sofresse um pouco. um pouco, nunca chegaria aos pés do que ela fez para ele, mas, ainda assim, ele sabia que aquilo tudo valia a pena, que ele se sentiria completo depois de feito.
ela reclamou, subindo até onde ele estava parado, dizendo que aquilo não tinha graça. ele esperou até que ela chegasse bem perto, quase tocando o trinco de ferro para dar as voltas na tranca. deu um salto para trás, para afastar-se do alcance da ira dela e ainda assim poder olhá-la nos olhos, saborear sua angústia, sentir seu desespero.
“uma réstia de sol vai entrar pela frincha da porta, tem uma frincha na porta. depois, vai se afastando devagarinho, bem devagarinho. você terá o pôr do sol mais belo do mundo.”
ela balançava e balançava a porta de ferro que permanecia entre os dois, separando-os.
ela olhou para a tranca, tentando arrombá-la. era nova. ele havia posto essa nova tranca havia pouco tempo, assim que decidiu que ali seria o lugar. era forte – gastou um bom dinheiro com ela, afinal, há certas coisas nessa vida que se deve gastar por – ela não conseguiria arrombá-la nunca.
era hora de parar com os sorrisos, era hora de parar de jogos. era a hora da verdade.
“boa noite, Raquel.”
ela gritou. falou que ele iria pagar por aquilo. mandou que lhe entregasse a chave que ele rodava entre os dedos. ela berrava, ordenava, pedia, implorava até a beira do choro. era isso que ele queria. era para isso que ele ficara ali, para vê-la se tornar nada, para destruí-la e sentir o prazer por isso. porque ela o destruiu e ele nunca mais conseguiria se construir da mesma forma que era. ela matou algo dentro dele. e agora ele mata tudo que havia dela. parou de girar a chave, guardou-a no bolço da calça e foi fazendo o caminho de volta. por um tempo, tudo o que se ouviu foram seus passos movendo pedrinhas no chão, amassando folhas. até que um grito desumano fez-se ouvir acima de tudo.
por um tempo os gritos continuaram audíveis, mas, a cada passo dado se tornava mais distante, até que chegaria o ponto em que ninguém mais ouviria os gritos. e era por isso que ali era o lugar escolhido, o lugar perfeito. era por não haver ninguém que se aproximasse tanto daquele lugar, nem as crianças que brincavam de ciranda, nem curiosos procurando lugares para explorar. nem ele mesmo sabia como descobriu aquele lugar. pura sorte.
acendeu um cigarro. fez o caminho até a entrada do cemitério com um sorriso bobo no rosto que lhe esticava os lábios sobre os dentes e lhe puxava os olhos, reduzindo-os a dois pontinhos brilhantes. olhou para o sol descendo no horizonte, soltou a fumaça quente. trancou o portão do cemitério sentindo algo que pensou não ser capaz de sentir novamente: uma imensa paz de espírito.

Obs.: As partes em itálico, assim como as personagens e a situação em que se encontram, foram extraídas do conto “Venha Ver o Pôr do Sol”, de Lygia Fagundes Telles. Aí você me fala: “mas…paraí…personagens, situação…até mesmo trechos copiados e colados! Ora, mas que ladrãozinho!”. Quero deixar claro que a idéia do conto não é plagiar o texto da autora, mas fazê-lo do ponto de vista de um narrador que sabe o que se passa na cabeça do personagem que planejou a ida ao cemitério. Se você ler o conto original e depois ler o meu, você verá que “é igual, mas diferente.”

novos sonhos.

junho 6, 2008

os ventos do sonhar dizem o teu nome o tempo todo. e o céu tem cores que nunca alguém teria imaginado: azuis, laranjas, vermelhos. os eternos tons cinzentos, que diziam que a chuva que cairia seria ainda maior do que a que já estava caindo, foram trocados pelas cores de espectro. e há arco íris cortando nuvens brancas como neve. o clima está afável, como se fosse um abraço de alguém que quer te proteger, te esquentar, te dar carinho. o sol brilha como nunca antes brilhou. porque antes ele não via razões para brilhar, antes ele sonhava em aparecer, mas tinha medo de ser apagado pelas águas que inundavam o mundo.

havia animais em grandes campos verdes. animais que não ousavam aparecer porque achavam que logo seria devorados pelos predadores que se escondiam nas trevas. achavam que seriam destruídos, fulminados por raios, transformados em pó simplesmente porque ousaram se expor à chuva constante do sonhar. todos se enterravam em suas tocas, tetavam se proteger de todos os males. e, às vezes, parecia que nada adiantava, que o mal os perseguia e que estavam fadados à morte certa no lugar onde a morte apenas visitava seu senhor maior.

e havia flores. flores que nunca puderam existir passaram a existir. flores que antes morriam afogadas, agora floresciam como deviam porque tudo estava perfeito. tudo estava certo para que elas existissem. porque elas agora eram necessárias para embelezar o sonhar. o sonhar deveria ser belo. belo como as milhares de estrelas que apareciam à noite para visitar os habitantes de lá. belo como os deuses que apareciam por ali para pensar. e tudo o que antes era errado agora estava certo, em seu lugar. havia flores no sonhar. flores amarelas, vermelhas, rosas, roxas, azuis. havia flores de cores que só existiam nos sonhos – e era por isso que elas estavam ali, ou em nenhum outro lugar poderiam estar. além de flores o sonhar tinha árvores frondosas. árvores belas, não mais aqueles troncos negros, úmidos, retorcidos, feios, sem folhas. não mais aqueles poleiros de corvos. e os corvos se foram, porque não havia mais necessidade deles, não havia mais carniça, não havia mais morte. a vida era a lei do sonhar. vida verde, amarela, roxa, vermelha, vida de todas as cores e todas as formas.

ele queria a vida boa para todos.

porque ela permitiu que ele visse que tudo aquilo deveria ser do jeito que era. e ele viu que era bom tudo aquilo porque era bom estar com ela, falar com ela, sentir seu cheiro, seu sabor, ouvir suas palavras doces e ver seus gestos simples. e, para ele, nada era mais lindo do que os leves movimentos que seu tórax fazia ao respirar, o leve subir e descer o hipnotizava e ele poderia passar horas e horas só observando enquanto ela tinha os sonhos que ele dava para ela, os sonhos mais lindos que ele já fez. e ele só olhava, porque ali estava a coisa mais linda do sonhar. deitada ao seu lado, exalando perfume, emanando seu calor tão necessário e tão forte que descongelou a estrutura do sonhar e remendou o coração dele.

e ele dava o amor para ela. e ele precisava do amor dela para ele. o amor dela, para ele, era o princípio de tudo. uma nova fase, uma nova vida, um novo Sonho.

cansado.

junho 1, 2008

eu que nunca fui o futuro da nação, que nunca fui o futuro de ninguém, nem meu mesmo. eu que vivo de lembranças e esperanças e, parecendo gordo e opulento, morro de fome, de sede, de sono. eu que tinha sonhos e pesadelos, que tinha imaginação e desejos. eu que agora sou o que sou, pensando no que fui e tendo medo do que serei. eu que sou o avesso do avesso do avesso do avesso. eu que sou amargo, sou um novo velho, um chato, sem caráter, arrogante, exibicionista, sem graça, cheio de frescuras, sem graça, cruel. eu que sou frustrado em tudo o que sonhei, em tudo o que fui. eu que nunca soube aceitar as coisas que deveriam ser aceitas facilmente e que sempre esteve pronto para amar a primeira que me desse um pouco mais de atenção. eu que vivi boa parte da vida com idealizações idiotas, percebo que agora idealizar é apenas uma forma de se enganar para esconder algo de alguém. eu, que agora suo frio, não sinto mais vontades de nada.

só de você.

que deveria ser a única vontade de um homem.