Archive for maio, 2008

Ele.

maio 26, 2008

ele, na frente dela, olho no olho, tudo pronto para a hora certa de dizer as coisas que devem ser ditas depois de tanto tempo sendo preparadas, plantadas, fertilizadas, floridas, prontas para a colheita, pronta para frutificar – ou não. ele na frente dela sendo a única coisa que ele não devia ser naquele momento, mas tem que ser porque se não for, nunca será. ele sendo ele próprio, inspirando e expirando, procurando com o canto do olho algum lugar onde sua coragem tenha se escondido. ele: mãos suadas, mãos trêmulas, mãos frias, mãos roídas,  mão desajeitadamente de dedos tronchos, dedos grossos, dedos curtos, mãos grandes segurando os finos dedos da mão quente dela. ele: suando bicas, gagejando, chegando com um papel debaixo do braço, um olhar triste de quem sabe que algo ruim vai acontecer. ele que se preparou tanto para aquele momento esá agora amedrontado. ele que treinou mentalmente aquilo desde o dia em que resolveu que aquele seria o dia em que diria tudo o que tinha que dizer porque certas coisas deveriam ser ditas, certas coisas deveriam ser esclarecidas e porque ele não agüentava mais viver na eterna dúvida, quase certeza, do não. ele que não queria mais viver na esperança falsa do impossível sim. ele que, enterrado em pessimismo, tornou-se o homem mais realista que já havia pisado naquela terra. ele que achava que não devia ser chamado de homem porque sentia-se um menino de 12 anos falando para a garota da escola que é apaixonado por ela. ele que entendia músicas agora, que sabia o que palavras que antes eram idiotas queriam dizer. ele que pedia para seu coração não bater tão rápido, que pedia para sua cabeça não doer tanto.

ele que disse que amava e queria que ela o amasse tanto quanto ele. ele que tinha tanta certeza do não que nunca parou para pensar no sim. ele que desejava tanto aquele sim, mas nunca pensou o que faria se ele viesse. ele que sonhava noites e noites que o sim significaria algo realmente grande para si, que mudaria a sua vida. ele que passava as outras noites e noites em branco pensando em como seria bom um sim. e nesses sonhos, nesses pensamentos, nunca havia visualisado nada real. ou era sonho ou utopia. o mundo sempre era lindo e colorido. ele que sabia que a vida era preto e branco não estava preparado para o sim.

ele que temia tanto o não que tremia enquanto dizia cada uma das palavras. ele que repetia palavras para enfatizar coisas que ninguém mais enfatizaria. ele que estava ali agora, depois da noite em claro, olhos vermelhos, profundos, debaixo de seus óculos de muitos graus. ele que parava palavras no meio para respirar e piscava e inspirava e engrolava a língua. ele que repetia coisas. ele que repetia coisas. ele que repetia coisas. ele que tinha as pernas moles, que tinha as pernas fracas, que tinha as pernas paralisadas. ele que estava em pé há pouco e agora estava sentado olhando nos olhos dela que sentava do outro lado da sala e ouvia tudo o que havia para ser ouvido, ou seja, tudo o que ele achava que havia para ser tudo. ele que não se sentia confortável em posição nenhuma. ele que jogou tudo o que havia para jogar naquele jogo e que no fim resolveu que era hora de fazer sua aposta final e, ou recolher o lucro, ou sair do jogo. ele jogou sua última carta e disse o que tantos outros disseram para ela, o que outros tantos dizem todo dia como quem diz um bom dia, o que poucos verdadeiramente sabem o que significa (e ele sabia, ah como sabia. ele sofria tanto por saber). ele que estava enlouquecendo aos poucos antes de tudo aquilo agora tinha certeza de que depois dali iria direto para a casa de repouso. ele que uma hora teria que terminar de dizer tudo o que queria dizer e entregar a carta dizendo: “caso não tenha ficado claro, eu escrevi um pouco do que eu sinto por você.” ele que era esquisito. ele que sabia o papel de ridículo que estava passando. ele que queria uma resposta simples: sim ou não. ele que não queria explicações. ele que não queria porquês. ele que recebeu tudo o que não queria. ele que ouviu o que tanto temia mas já via.

ele que ficou um pouco relaxado depois do não.

ele que sabia conviver com nãos.

ele que sou eu.

ele que somos nós.

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das coisas (né?).

maio 25, 2008

Era Ana, Pedro, era Ana a minha fome (…), era Ana a minha enfermidade, ela a minha loucura, ela o meu respiro, a minha lâmina, meu arrepio, meu sopro, o assédio impertinente dos meus testículos.

Raduan Nassar em Lavoura Arcaica.

porque só quem já teve a experiência da idéia do amor é que sabe como é tudo isso. é que sabe que o amor não é uma flor, mas todos cheiram porque é isso que as pessoas fazem: pegam, cheiram, provam.

e eu já peguei no amor. peguei com as pontas dos meus sensíveis dedos. hoje eles não sentem mais nada.

e eu cheirei o amor. cheirei porque parecia ser bom de cheirar, parecia ter boa fragrância, porque cheiros bons são bons. e nunca mais senti cheiro nenhum depois dele, pois me destruiu cada uma das cem milhões de células olfatórias.

e eu provei do amor. o amor, quando provado é como um sushi de baiacu, se não for preparado com cuidado, pela pessoa certa, causa dor e morte. pode ser o último prato de sua vida ou pode ser o melhor que você jamais provará.

jogo.

maio 23, 2008

é tudo um jogo. o mais perigoso de todos. um jogo em que orgulho fala alto e custa caro e que o primeiro a se rebaixar tem grandes chances de perder. e ele sempre perdia nesse jogo. ele sempre acabava se rendendo pouco antes da hora, porque ele não tinha um bom timing, ele nunca sabia se era hora de admitir aquilo ou se não era hora de dizer. com ele, ou era cedo demais ou tarde demais, nunca era a hora certa. e tudo isso influencia demais nos jogos de azar.

e o amor é um jogo de azar.

ele começava sempre na defensiva, nunca acreditando nas brincadeiras, nunca achando que elas podiam ter algum sentido a mais, que elas eram apenas brincadeiras e nada mais. ele nunca foi de acreditar muito nessas coisas, além de nunca ter sido bom com os detalhes, com o que se deixa no ar. seu nariz para coisas daquele tipo era muito pouco apurado. e quando resolvia agir ou era tarde demais ou não era a hora certa ou não era a moça certa. enfim, era sempre um erro atrás do outro.

e ele amava essa mocinha…essa mocinha que era tudo para ele. era nela que ele apostaria todas as fichas na hora do jogo.

e ele apostou.

e ele perdeu.

e assim seguia…

até que um dia…

(aqui entraria toda uma história de como ele conseguiu conquistar o amor de sua vida, essa mocinha em quem ele apostara todas as fichas, sendo do jeito que ele era, mas eu gosto de ser fiel à realidade, por menos que pareça, e todos sabem que ninguém conquista o amor de sua vida sendo do jeito que se é. ser quem se é parece nunca ser o bastante.)

até que um dia ele resolveu que não fazia diferença. formou-se, construiu sua casa, montou sua biblioteca, completou suas discografias e viveu.

viveu porque não tinha mais opções. porque era isso ou morrer.

casou-se, viu sua mulher ganhando barriga, viu-a suando frio na hora do parto, uma, duas, três vezes, talvez até mais. teve filhos, criou seus filhos, ensinou o que eram as coisas que deveriam saber, mostrou os caminhos que haviam e ensinou que tudo depende de escolhas, viu seus filhos fazendo escolhas que nem sempre o agradavam, mas não interferiu em nenhuma delas. viu a mulher, mãe de seus filhos, se tornar uma lembrança. viu os filhos crescendo, casando, morrendo, tendo filhos… viu os filhos de seus filhos nascerem, viu alguns chegarem a certa idade e morreu.

morreu porque não tinha mais como viver. já tinha visto coisas demais. e uma hora, viver cansa. um hora tudo o que se quer fazer é deixar de existir.

é tudo um jogo.

alguns têm sorte, outros azar.

“detalhes tão pequenos de nós dois…”

maio 18, 2008

porque eu ouço e reouço a mesma música que me faz pensar em como seria tudo aquilo que deveria ser e como seria se tudo aquilo que poderia ser, que deveria ser, acabasse assim do nada. e eu tenho medo dessas coisas de acabar porque tudo acaba e acabar é tão triste. e eu não chego a ter medo da morte. a morte é o fim, eu estou pronto para os fins, mas sempre dói saber que o fim de alguma coisa que você gosta tanto está tão perto… olhar nos olhos de uma pessoa pela última vez e ver que ela está chorando e fechando os olhos para você não vê-la chorando…

eu tenho problemas com a morte. tenho problemas com finais e despedidas. é sempre ruim demais para mim. prefiro não dizer nada, simplesmente seguir em frente. eu não gosto da idéia de dizer um adeus, de saber que amanhã aquela pessoa e eu não nos veremos mais. é difícil explicar tudo isso e eu não vou chegar nem perto de tentar qualquer coisa do tipo, mas quando ela vem para tirar coisas de você…dói mais do que arrancar órgãos sem anestesia. lembrar todo dia daquela pessoa ali dói, mas perceber que nunca mais, nunca mais na sua vida inteira, de agora em diante, você poderá novamente sentir seu cheiro, ouvir sua voz, sentir sua pele…

e eu acabo de lembrar do sinal que havia. aquele sinal no braço. eu não lembrava dele até agora. eu lembro que eu brincava com o sinal, que olhava para ele. lembro do cheiro perto do fim, lembro e não era bom. mas valia a pena por estar ali. e lembro do som que seus passos faziam pela casa, lembro das mudanças que sofremos para nos adaptar lembro de muitas coisas e tudo veio agora por causa da tristeza que o fim causa.

mas eu não estou triste agora, não…eu me sinto feliz por lembrar de tantas coisas. e, mesmo tendo sido vítima do choque da realidade – que é como um carro a 300 por hora batendo de frente num avião a 700 por hora -, eu me sinto bem em saber que eu tenho todas as lembranças.

eu nunca tive futuro. nunca tive o futuro nas minhas mãos, nunca soube como seria amanhã. e eu posso até saber quais são meus planos para amanhã, mas eles nunca serão exatamente como você pensa que serão. os detalhes, sempre eles, fazem tudo e você não tem controle sobre eles. você nunca tem o futuro. nunca tem o presente que passa tão rápidinho. é a velha coisa óbvia de sempre, o agora passa e se torna ontem. eu tenho repetido isso desde que eu percebi isso e isso já faz um bom tempo. a única coisa que eu tenho é meu passado, minhas lembranças. e eu fico triste com isso. fico triste por saber que só tenho elas e que elas me falham às vezes, que me fazem esquecer um timbre, um cheiro, uma cor, um olhar, os detalhes…os detalhes…

porque o que faz a vida de verdade são os detalhes que você não planeja, os detalhes que você não lembra. os malditos detalhes que são vistos depois de muito tempo observando. mas você nunca tem muito tempo para observar a vida. ela passa voando mais rápido do que os olhos possam ver.

e chega por agora. chega por hoje.

You’re just too good to be true. (ou de como ela é boa demais para ser verdade e me faz escrever e roubar o que escrevi dela.)

maio 12, 2008

“Ele é bom demais pra ser verdade por ir dormir quando eu estou acordando ou por me fazer acordar quando estiver indo dormir. Ele é bom demais por morar num enorme casarão onde os sonhos só têm vez e a vida, não. Ele não é verdade por ditar o ritmo da minha fala e por limitar excentricidades, por não gostar de poodles e ser homem de uma letra só, às vezes duas. Ele é bom demais para ser verdade por perguntar insistentemente como as coisas vão sem querer, de fato, saber. Bom demais por não ser loiro e nem moreno, ser algo como o meio e pertencer a mim. Bom demais por falar manso com vozes enfurecidas e por chegar em casa sempre na hora certa, sempre com ares de pensei-em-você-o-dia-todo e sempre pronto para exigir massagem nos pés. Bom demais por gostar de massagem nos pés.”

E ela é boa demais para ser verdade porque ela tem um sorriso que ilumina meu dia e minha noite. Boa demais para ser verdade, boa demais para ser minha, só porque tem o corpo mais quente, só porque é melhor que qualquer cobertor, que qualquer aquecedor. Ela é boa demais para ser de verdade porque não há verdades como ela no mundo. O mundo é mau. O mundo é mentiroso e ela é simplesmente boa, boa em essência, boa demais simplesmente para existir. Por isso, às vezes, penso que ela não existe. Só porque ela é muito boa.

“Ele é bom demais pra ser verdade por despreocupar-se com todas as coisas que não merecem preocupação, tipo a bolsa de valores ou a quantidade de sal da comida. Ele é bom demais por viver de clorofila, chás, sucos, folhas e toneladas de carne vermelha. Ele não existe por ser contradição, por ser o inverso do que realmente é e por apaixonar pessoas sendo do avesso. Ele é bom demais por ser alto alto e muito alto e por ter o poder de não me machucar sempre que me abraça e me obriga a olhar pra cima, pros olhos dele. Ele é falácia por ter olhos pequenos e ameaçadores, assim como os meus e por sorrir demais em noites de valsa.”

Ela é boa demais pra ser verdade simplesmente por existir. E mesmo que ela resolvesse deixar de fazer isso continuaria sendo. Porque ela tem aquele jeito só dela de dizer as coisas que quer dizer, com vergonha, sem vergonha, do jeito que bem entender. Ela é boa demais para ser verdade porque tem todas as manhas e todas as manhãs. E tem todas as horas só para ela. Ela é boa demais para ser verdade porque ela lê para mim os livros que lê, canta para mim as músicas que ouve, fala comigo as palavras que pensa. E o mais importante de tudo é que ela é boa demais para ser verdade porque ela gosta de mim.

“Ele ainda gosta de valsa. Ele prefere as danças fáceis que exigem apenas proximidade e nenhuma habilidade excepcional com assuntos de baile. Mas ele dança, ainda que pouco. Ele dança e faz piadas inteligentes enquanto isso. Tem sempre as melhores referências e sempre guarda um bom comentário na segunda gaveta do criado-mudo. Ele me faz perceber o que é leveza e me faz usar construções estranhas como bom de estar junto, bom de ouvir, bom de ver, bom de assistir, bom de obedecer, bom de seguir, bom. Ele é bom, bom em essência. Ele é base, ele é o começo de todas as coisas boas que Deus sequer pensou em botar no mundo.

Ela gosta do que eu gosto e gosta do que ela gosta e me atura mesmo eu não gostando do que ela gosta. Ela é boa demais para mim ou para o mundo porque ela senta na frente da janela para olhar a chuva cair e me liga pra dizer que a chuva está caindo de uma maneira engraçada e que, se você se distrair por um momento, você poderia pensar que está chovendo de baixo para cima. E ela tem essa imaginação fantástica que me faz querer sorrir e só. E é por isso que ela é boa demais para ser verdade, porque ela me faz querer sorrir sempre. Sorrir apesar de tudo, apesar do mundo. E, além de sorrir, ela me faz cantar, dançar, pular, correr. E ela mora em cada um dos detalhes de tudo o que há. Por isso eu a vejo em todo o lugar. Ela é boa demais para ser verdade porque ela existe em todo o lugar só para mim.

“Ele é modesto, sincero e esconde tudo atrás de uma descontração e uma falta de compromisso apaixonantes, viciantes. Ele é de uma naturalidade inacreditável, ele é do tipo de homem que te assiste andar de pijamas pela casa pensando que você é linda, que você pe indiscutivelmente a melhor mais linda do mundo. Ele não liga se te encontrar despenteada e mesmo que faça alguma piada sobre o assunto, fará a piada mais inocente e mais doce que você já ouviu. Ele é bom demais pra ser verdade por se permitir chegar perto de mim, por se permitir não ter medo e por aceitar participar de cada etapa humilhante desse eterno jogo que eu adoro jogar. Ele é bom demais pra ser verdade porque é quase melhor com hipérboles do que eu e porque é insuportável. É insuportável como quando algo brilha demais e fechamos os olhos por não suportar, é insuportável como quando algo é simplesmente bom demais para existir.”

Ela é boa demais por ser ela e ninguém mais.

“Ele é bom demais porque me faz querer ser cada vez mais, o tempo todo, em mais e mais lugares diferentes.”

Ela é boa demais porque sempre me deixa sem palavras depois do 4º parágrafo.

“Ele é bom demais porque sempre quer deixar os finais pra mim.”

sobre as não vontades e A Vontade.

maio 9, 2008

havia aqui um texto sobre um homem que vivia no presente, sabia do futuro e lembrava coisas esparsas do passado. falava de como é odiável viver o presente tendo apenas o passado na mão e uma esperança de um futuro. falava de como esse homem tinha sido condenado a ter o dom de conhecer seu futuro e poder construir seu passado vivendo seu presente. e falaria de como essa é a forma mais justa e saudável para se viver.

mas eu não tinha bons argumentos para segurar essa teoria. eu estava sem vontade de segurar esse argumento. de pregá-lo à parede como um quadro bonito. estou sem vontades. sem vontade de existir, sem vontade de levantar da cama, dizer bom dia, tomar banho, escovar os dentes, viver…estou sem vontade de pegar um ônibus ou de esperar por esse ônibus. estou sem vontade de dizer que o passado é tudo o que temos e que devemos aproveitar o agora porque o amanhã é tão incerto. e estou sem vontades de dizer que por ela eu esperarei o amanhã porque espero que o nosso amanhã nos reserve boas coisas. estou sem vontades de receber o vento no rosto e sem vontade de enxugar o rosto porque estou suando. estou sem vontade de me manter acordado e sem vontade de dormir. estou sem vontade de ler, sem vontade de aprender, sem vontade de viver. sem vontade, sem vontade.

eu só tenho uma vontade. a vontade dela. e esse texto nem era para ser sobre ela. mas ela surge e é o que há.

Agora é com você.

maio 5, 2008

“e eu sinto esse monte de dúvidas, sabe… porque você e eu sabemos que a distância fode muito com qualquer coisa que você tiver. e, como você disse e eu entendi assim, falta vontade da tua parte. e faltar vontades é até normal… faltar a vontade de sacrificar coisas… mas é isso que é a vida: saber sacrificar coisas, o que deve ser sacrificado, o que pode ser, e o que não deve, o que não pode. quando se está disposto a alguns sacrifícios está-se disposto à vida, ao amor. porque é isso que a vida é, a vida é o amor em sua forma mais crua e cruel. é o amor da forma bruta. devemos ir lapidando aos poucos.

e eu não sei. eu não sei de nada. talvez eu esteja apenas achando que todas as coisas que pensei que fossem para mim fossem para mim quando na verdade eram para outro que eu não sei quem. talvez eu seja lento demais para perceber as coisas que realmente são para mim. mas eu não sei…eu não sei…e eu não sei também se estou disposto a esses sacrifícios. não sozinho. sozinho não estou. porque antes eu sacrificava sozinho. eu me privava das coisas que podiam ser boas para mim por causa de alguém que não fazia nenhum sacrifício para mim. mas eu aprendi com meus erros, aprendi com o passado, com o ontem. pelo menos aprendi alguma coisa depois de sofrer.

se você não está disposta a sacrifícios, eu, por mais disposto e desejando fazer esses sacrifícios, (porque eu sei, no fim valerá a pena, nem que seja por cinco segundos da sua companhia) não cometerei os mesmos erros do passado.

por favor, vamos fazer alguns sacrifícios?”

“…”

domingo no parque.

maio 5, 2008

estou com muita coisa no peito para ser dita. mas para ser dita assim, para ninguém. coisa demais no peito, o suficiente para explodir em silêncio e destruir dias e mais dias meus. coisas que me fazem mecher na cama de um lado para o outro, sem sono, sem nada. coisas que simplesmente existem dentro de você uma hora e você precisa jogar para fora. restos de restos de restos de restos. que se acumulam por tanto tempo que você precisa se livrar deles para poder arranjar espaço para o novo.

e também tenho dúvidas aqui. dúvidas que me fazem ponderar e pensar. e pensar. e querer alguém para me ajudar a pensar. mas não apenas alguém, alguém que realmente se importe, alguém que me diga que devo fazer. não quero conselhos nem dicas, quero caminhos a seguir. ao menos uma vez quero alguém para me dizer: “siga o caminho dos tijolos amarelos.” porque eu sei que seguindo essa trilha chegarei a um caminho. e cara, eu queria que fosse o melhor caminho para todos. porque eu não agüento dúvidas. eu queria um pouco de certezas nessa vida. só um pouquinho e estaria bom. como certeza de que amanhã eu não vou acordar ou que vou acordar. não importa o fim, eu quero a certeza de que é o que é. nada mais de dúvidas para mim, senhor garçon. traga-me uma certeza das fortes. daquelas que descem arranhando tudo, destruindo tudo, das que descem manso e se acomodam no estômago dando a sensação de frescor e conforto. não importa!

quero deitar e dormir. na minha cama, na minha casa. quero casa, comida, roupa lavada. quero filhos na escola, esposa que me ame, trabalho que me satisfaça – não monetariamente, que satisfaça meu espírito – quero tudo o que todos querem, quero o bem estar e o conforto e a segurança das certezas. ao menos por um dia, ao menos por uma tarde. quero um domingo com a família, como dizem que os domingos deveriam ser, como eram os domingos do começo das minhas lembranças. manhãs na praia, avô, avó, tia. almoços com eles. tv com eles, quando eu não tinha gostos, quando eu gostava do que eles gostavam. sinto falta de ser a criança. sinto falta de todos os domingos bons.

agora eles me destroem, me deixam assim: gordo, sem camisa, sem sono, com calor, dor nas costas, tenso, sentindo falta de domingos, domingos! não deveríamos sentir falta dos domingos. mas eu sinto…eu sinto falta do que está comigo e do que se foi. sinto falta de quem está perto e de quem está longe. de quem está mais longe ainda mais. sinto falta do ontem e sinto falta do amanhã. porque o presente é duro demais para ser vivido.

antes de ir para a fossa.

maio 4, 2008

“antes de ir, por favor, faça uma xícara de café.”

ela ouve aquele pedido, o último pedido dele, e sente um enorme prazer em não realizá-lo. pisa firme e vai para longe sem dizer uma única palavra, sem olhar para trás e sem ter pena. porque ele não merecia a pena dela.

“…é… eu vi isso vindo…”

e ele nunca mais tomou um café tão delicioso quanto o dela. e ele nunca mais provou lábios doces como o dela. e nenhum outro carinho que recebeu na vida foi como o dela.

sentou-se na poltrona reclinável, ligou a televisão e morreu naquele domingo.