Archive for março, 2008

do lado de cá.

março 31, 2008

ela tinha decidido que não o amaria mais. não responderia mais às palavras doces e juras de amor que dissesse. simplesmente porque ela havia decidido aquilo. não daria mais os bons dias que iluminavam os dias mais que o próprio sol – porque com ela, o dia mais feio pareceria lindo só por causa do bom dia que ela dizia. ela disse que havia dado tudo de si naquilo e que a consumiu demais. consumiu demais deixar que a amassem. e agora ela não quer receber mais o amor que há para ela e só para ela. só queria saber como é que se deixa algo tão belo quanto o amor morrer assim, acabar como uma vela que ficou acesa por tempo demais. é até engraçado de se pensar. do lado de cá, amar dói.

ela tinha decidido não o amar. não responderia aos chamados de amor que fazia, nunca. porque o que havia ou não era bom o suficiente ou era bom demais para se responder com amor. e ela poderia até aceitar as cartas e as juras, ouvi-las pacientemente enquanto falava como era amá-la, como era triste e feliz vê-la sorrir e como ela conseguia fazer tudo se iluminar somente pelo fato de estar no mesmo lugar que tudo. e ela faria uma cara de compaixão e talvez até dissesse que entendia – mas não, ela nunca compreenderia tudo aquilo. então ela daria um abraço, um beijo doce na bochecha ou na testa e então diria que há outro ou que ela não está pronta para o amor ou que ela ama alguém que não a ama e tudo parece ser uma mentira. tudo parece soar falso aos ouvidos. do lado de cá, amar dói.

ela havia decidido que o amaria. que lhe daria amor, que faria tudo o que fosse possível para ficarem sempre juntos, na saúde, na doença, como nos velhos votos antiquados e lindos do casamento. dividindo e compartilhando, aquela coisa toda. duas vidas e um destino. frases clichês que mais parecem títulos de novela. até Ela vir e separar. e Ela vem. e Ela separa. do lado de cá, amar dói.

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a lei.

março 29, 2008

todo homem tem o direito de entender o que quer entender e fingir que não entendeu aquilo que lhe der vontade de fingir não entender. todo homem tem o direito de simplesmente ignorar fatos para seu próprio bem. todo o homem tem o direito de esconder-se das pessoas quando não lhe convem ficar muito tempo na presença delas, porque há tempos e tempos para pessoas. todo homem tem o direito de ouvir o que quiser e não ouvir o que quiser. ninguém é obrigado a ouvir as notícias mais tristes se não quiser, mesmo que seja de tremenda importância.

“todo homem tem o direito de amar a quem quiser. tomai vossa sede de amor como quiseres e com quem quiseres.” cada um com as suas taras.

masoquistas servirão.

sobre ninguéns e alguéns especiais.

março 27, 2008

estava sentada à direita de livros, à esquerda de livros, atrás de si tinha livros. há livros por toda parte. e ela ama tudo aquilo. ama estar entre todos eles, ouvir o que todos têm a dizer, suas vidas, suas dores, seus sonhos, suas histórias, gostava até mesmo de saber de suas idéias e de seus amores. com tudo aquilo ao seu redor, ela achava que seria capaz de aprender de tudo. aprenderia a amar, a odiar, a ter paciência, a entender as pessoas e a vida. mas ninguém pode tudo isso. ninguém sabe sobre tudo isso.

e ela não gostava das pessoas. se isolava do mundo. vestia roupas que escondiam seu corpo – que não era das gostosas da playboy, mas certamente era desejável -, escondia seu rosto por trás de cabelos ou, pior, escondia os cabelos em latas de lixo. havia mil visuais para ela. e nenhum deles parecia agradá-la. e todos pareciam agradar ninguém. ninguém recebe prazer facilmente. ninguém sempre está lá rindo com ela e não dela. ninguém está sempre pronto para ouví-la e consolá-la. ninguém era seu melhor amigo. e ela achava que ninguém sempre bastaria para si. ela era uma garota de ninguém e ninguém a amaria para sempre do jeito que ela era. além dos livros, ela tinha filmes, músicas, chocolate. tudo o que achava precisar para estar sempre com ninguém.

ela amaria ninguém por toda a eternidade.

até que veio alguém. alguém especial. esse alguém especial entrou na vida dela devagar. como quem não quer nada. mas todo alguém quer alguma coisa.  quer tirar você de ninguém, ou até mesmo de outro alguém e te jogar na vida. dizer: “vai, confia em mim ou você já era. ninguém te amava, mas só alguém especial pode te fazer viver de verdade.” e ele era alguém especial. ela sabia disso desde o começo. mas se negava a enxergar. depois de muito tempo amando ninguém, passa-se a desacreditar na capacidade de os seres humanos falarem a verdade, de serem bons.

esse alguém especial fazia o coração dela bater mais rápido e mais devagar ao mesmo tempo. da mesma forma que corações de jovens apaixonados podem fazer quando se apaixonam. esse é um dos sintomas da paixão. acompanha sudorese e dispnéia. ela lia muito. aprendeu isso nos livros, nos filmes também. agora via como era na vida. e percebeu que tudo aquilo que havia lido, cada pedaço de vida que havia, podia ser vivido de verdade.

naquele dia ela resolveu viver.

não largou livros, não largou filmes, mas percebeu que deveria falar com alguém especial. começou a amar. começou a sorrir e espalhar amor.

e ela fazia amar, ela fazia amor. e o amor não é como a paixão. é muito mais forte, na verdade. é quase mortal. deve-se tomar cuidado com o amor – esse é um conselho meu, não dela, que deu sorte com o amor. achou logo um alguém especial para ela – que era alguém especial para ele.

o amor crescia. seu amor cresceu dentro dela. cresceu tanto que a inchou e saiu. foi para o mundo, foi viver.

e hoje ela vive de amor. e o amor vive dela.

Da minha vez de estar com Sol.

março 25, 2008

sinto fome. sim, a imensa vontade de comer algo que me deixará mal. mas já estou mal. e sinto sono. preciso do sono da razão para dormir bem. e, quando um dia acordar – porque quero acordar algum dia -, quero poder sorrir numa boa, contar piadas, ler livros, ouvir músicas.

são quase 5 da manhã e eu tenho todas as pessoas que tive nessa vida. ninguém está aqui. e ele traz junto a querida Sol, amante de tantos, inimiga de muitos. juntos, eles são os porta vozes da loucura. e acho que eu nunca flertei tanto com o lado de lá quanto nesse momento em que sinto minhas entranhas funcionando. sinto o sangue fluin, as costas doendo, a urina enchendo minha bexiga. e a sempre presente dor de cabeça.

eu sei que o que é preciso é dormir. sei que uma boa noite de sono me fará bem e que essa sensação toda passará assim que eu tiver o que eu preciso. mas, no momento, penso que preciso dela. penso que ela será o meu consolo eternamente. eu sei que enche o saco, se eu realmente pudesse evitar, evitaria. mas o mundo só me lembra ela. a vida só me lembra ela. sempre ela. ela ela ela.

e, na rua, não há carros, não há vida. as lojas 24 horas estão fechadas, as garotas da noite estão dormindo porque já é quase dia. já é quase dia.

olho pela janela e não vejo luz. estou imerso em escuridão. densa escuridão. nada sinto além do nada, nada além do abraço frio da noite. e o leve beijo da solidão.

olhos dela.

março 17, 2008

e aqueles olhos da cor do mar da praia da avenida depois de 17 horas de chuva não saem da minha cabeça. porque eles eram tudo o que eu precisava para seguir. eles me davam a força necessária para respirar, manter-me em pé e para encará-los como se fossem tudo o que há nesse mundo, mesmo sabendo que há outros mares mais bonitos por aí.

olhos de ressaca, olhos que já viram o mundo, olhos que já enxergaram mais coisas que qualquer outro. olhos de puta, olhos de santa, olhos de rainha, olhos de mulher.

e não qualquer mulher. não. olhos dela e somente dela. olhos da cor do mar da praia da avenida depois de chover por 17 horas seguidas.

e os olhos dela me faziam desejar e me faziam lembrar de como era bom estar onde se gosta de estar. e quando eu os via, era lá que eu queria estar. com ela.