Archive for fevereiro, 2008

Barba, cabelo, bigode, sangue.

fevereiro 26, 2008

a imagem no espelho o encarava como se nunca tivesse visto aquela figura antes em sua vida recém formada. a luz brilhava forte em seus olhos e ele os cerrava para tentar não ficar momentaneamente cego. não adiantou, só pode ver que a imagem à sua frente o encarava quando sua retina se adaptou à quantidade de luz do local. estava escuro lá fora, fora dessas quatro apertadas paredes, no mundo, cruel mundo, onde pessoas matam pessoas por causas desimportantes, dívidas, alcool, drogas, homens, mulheres. lá fora a vida dormia e ele tinha que tomar cuidado para não acordá-la. encarou seu reflexo, que já o fitava há tempos. “are you talking to me?” e repetiu. taxi driver, DeNiro incrível. e quando é que ele não está? o espelho não respondeu, menos mau. abriu o armarinho imbutido, matou seu reflexo. round 1, vitória dele por nocaute. pegou seu estojo de barbear, um barbeador quase cego e fechou o armário, round 2, comecem.
a imagem que se formou não era dele, quer dizer, era, mas ele queria que não fosse, ele iria matá-la, era o que mais desejava naquele momento. abriu a torneira sem olhar para a superfície refletora. molhou uma mão, com ela, segurou um sabonete e começou a girá-lo em sua palma fechada fazendo espuma, muita espuma, bastante espuma. passou a mão espumante na cabeça, o sabonete no cabelo. fechou a torneira. com a sua mão mais hábil começou o trabalho com o barbeador. ele sempre começava da frente, porque assim não poderia parar nunca, uma vez que começasse, teria que ir até o fim com aquilo. e mesmo quando ele não estava disposto àquilo, ele ia até o fim.
enquanto passava brutalmente o barbeador na cabeça, pensava na vida, no universo, em tudo mais que pudesse pensar. era tudo o que fazia naquelas horas da madrugada. não havia mais o que se fazer, seus amigos estavam em suas casas, confortando uns aos outros através de telas luminosas, fazendo planos para o dia e sempre esquecendo da noite. ele era uma criatura da noite. sempre foi. a noite era muito mais atraente, mais sensual que o dia. afinal de contas, a noite tem seus mistérios como toda mulher. o dia não é atraente, o dia fede, sua, o dia mostra tudo o que há para se mostrar, o dia é cru e direto. por isso amava a noite. as noites o faziam pensar nas mulheres de sua vida. as que se encontraram em seus braços, exalando doces perfumes, com quem sonhara, desejara, que amara. mas nunca, nunca tivera.
pensava em tudo isso até que parou. viu o sangue na lâmina, sentiu o ardor. aquele velho lance de sentir a dor só porque viu o machucado. o corte começou a queimar, abriu a torneira, molhou as mãos, lavou a cabeça. o sangue escorreu, não havia muito o que se fazer, passou o sabonete sobre o corte para que parasse o sangramento por pelo menos um período de tempo. o suficiente para que terminasse de raspar a parte cortada. continuou seu trabalho com sua mão. podia ver sua cabeça brilhando, refletindo a luz da lâmpada fluorescente que marcava a retina.
foi para a parte de trás. a nuca. sempre teve dificuldade com a nuca. se fosse com muita vontade acabaria sangrando mais do que o planejado. lembrou de filmes do tarantino, pensou também em cavaleiros do zodíaco, em uma noite alucinante, nas paredes que sangram e riu ao pensar que as quatro que o continham agora jorrariam sangue negro por sobre ele. depois deixou tudo isso para lá e se concentrou na nuca. teria que ter cuidado para não irritá-la. deveria respeitar o formato de sua cabeça. passava a lâmina lentamente por seu contorno, passava a lâmina e em seguida a mão molhada e ensaboada. passava a lâmina e a mão, asssim, alternadamente. passou um bom tempo fazendo isso. tempo para que ele achasse que estava liso de verdade, sem cabelos. ele nunca conseguiria ver sua nuca. nem mesmo com jogos de espelhos ou coisas do tipo. nunca seria capaz de encarar perfeitamente suas próprias costas enquanto interage com ela. em fotos, tudo bem. mas em movimento a coisa toda complicava.
e ele achava que o problema de tudo estava no movimento. mas ao mesmo tempo era neles que a vida acontecia e ele os achava belos. acreditava que uma fotografia deveria ser tirada no calor do momento, um flash do nada, odiava as câmeras digitais por isso: demoravam tempo demais para tirar uma foto realmente espontânea sem que a mesma fique extremamente tremida. além, é claro da odiável possibilidade de ver as fotos instantâneamente. todo mundo quer ver as fotos, quer apagar as que não estão bem. querem esquecer que não são do jeito que as fotos mostram. odeiam o movimento. querem posar, paradinhos, bonitinhos, sorrindo aqueles sorrisos amarelinhos, ou até mesmo brancos como neve, mas que nunca serão os verdadeiros sorrisos, nunca serão as gargalhadas. e ele odiava aquilo.
mas ele não odiava. ele não era capaz de odiar. achava que seu ódio era especial demais para se dar para coisas tão simples quanto câmeras digitais, ou quaisquer outros objetos, simples como pessoas. era mais fácil amar. embora achasse que nunca amara realmente as pessoas que dissera amar, quanto quisera amar. pensava que a mulher de sua vida já estava definida. era ela. não havia mais como mudar, isso era triste, o destino havia decidido. mas ele não acreditava em destino e só sentia essas coisas todas por puro medo de nunca encontrar alguém por quem sentir o interesse, a vontade, o real desejo de se estar junto e só. porque para ele bastaria o silêncio se fosse o silêncio certo com a pessoa certa. e ele ria de tudo aquilo em que pensava porque sabia que não acreditava em metade do que passeava em sua cabeça.
abriu o box, girou a torneira do chuveiro e meteu a cabeça debaixo da água gelada, só a cabeça, a nuca, para limpar, tirar os cabelos que ficaram ali depois de irem embora, de serem expulsos de sua terra. deixou que a água fria descesse por um tempo, atravessasse sua cabeça, passasse por trás de suas orelhas (esse era um ponto em que teria que concentrar suas forças e habilidades para deixar liso, ficar com sua careca homogênea), descesse por suas bochechas, chegando até a seu queixo e ameaçando molhar seus ombros. a água parou de descer pelas dezenas de orifícios do chuveiro. segurando a toalha, passou-a em alguns pontos de sua cabeça. ensaboou as mãos e o que sobrava dos cabelos e voltou à guerra.
ardia cada vez mais e passava a lâmina com cada vez mais vontade, queria arrancar o coro cabeludo, ao menos é o que parecia querer. com mais pouco tempo daria uma ratada e o sangue jorraria calmamente de sua cabeça e deixaria o barbeador com uma leve fita vermelha e o cheiro de ferro logo estaria no ar. ele podia sentir o gosto, abriu a torneira e deixou jorrar, estava perdendo a paciência. estava quase no fim, precisava aguentar, mais um pouco de paciência e tudo estaria terminado e só teria agora que suportar os caroços que apareceriam em sua nuca, como sempre apareceriam quando passasse a maldita lâmina. pele sensível de merda, era tudo o que podia pensar. com mais três movimentos deixou o topo da cabeça liso de brilhante. o problema realmente seria a nuca. o que fazer para que não saísse de lá extremamente mutilado e com mais cicatrizes do que um soldado recém chegado da guerra. procurou fazer com calma, gentilmente, mas não tinha mãos para isso. depois de muito tentar deixar a nuca lisa como papel, ou o mínimo peluda, ele desistiu de ser carinhoso consigo mesmo e, sem se preocupar com o depois, passou rapidamente o barbeador na área que faltava. não adiantou de nada. estava desesperando. passou mais uma vez, de cima para baixo, de baixo para cima, várias e várias vezes até que sentiu que a área estava sangrando mais do que o necessário, mais do que queria. decidiu que estava na hora de terminar com aquilo.
olhou para o rosto barbado no espelho, passou água na lâmina para tirar o sangue e o cabelo e passou nas penugens das bochechas: direita e esquerda, da orelha ao queixo, com pouco tempo estava com a cara quase lisa. quase lisa. tinha gente que dizia que ele era cara lisa, cara de pau, canalha, coisas assim. ele piscou e balançou a cabeça. bateu o barbeador na pia, um tufo de pêlos caiu nela. passou a água na lâmina, passou-a no queixo, em todas as direções. estava pronto. pronto. terminado. não precisava mais passar um tempo ali a se cortar, a sangrar. foi para baixo do chuveiro. a água bateu fria em sua careca quente e ensanguentada. ensaboou-a. lavou-se por completo, livrou-se do cabelo e do sangue e foi dormir. o sol já estava quase nascendo lá fora. raios de luz fracos tentavam atravessar a cortina do seu quarto.
durante o dia, sonhou que a mulher de sua vida participava de uma orgia e que ele assistia àquilo tudo sem poder fazer nada para impedir. acordou suando. preocupado, triste e de pinto duro.

Um beijo, um abraço, um outro adeus.

fevereiro 20, 2008
“você não precisa ir embora, você sabe não é?”
a luz do quarto batia sobre seus corpos. ele deitado na cama, debaixo dos lençóis. ela em pé, vestindo sua calça, blusa, arrumando o cabelo na frente do espelho. olha para ele no fundo dos olhos e por um momento houve um olhar de imensa compaixão, amor.
“sei…”
“então por que se levantou e se vestiu? por que você deu todos os sinais de que vai embora se sabe que pode ficar, sabe que deve ficar, para assim fazer a minha vida fazer sentido e me deixar feliz?”
estava já descoberto, sentado na beira da cama, seu membro caído entre as pernas.
“porque eu devo ir embora. é assim que as coisas são. é assim que a vida é. ninguém é a vida de ninguém, meu bem. ninguém é um sol a iluminar eternamento os céus de um apaixonado. não há mais nada a se fazer e ambos sabemos disso.”
agora ela olhava a vista, o sol nascendo por entre as nuvens, saindo do mar. uma beleza.
“fique só mais um pouco.”
ela o encarou bem fundo nos olhos.
“nesses 2 anos e meses mais que se passaram eu venho adiando isso. chegou a hora, você não acha? chegou o momento exato de não adiar mais nada. será agora.”
“mas você poderia…” disse ele num tom de súplica.
“não…não poderia.”
e ela se inclinou na cama, deu um beijo em sua testa, um beijo de carinho, de mãe, e saiu pela porta.

Um falso fim para um falso começo.

fevereiro 2, 2008

é que eu queria que esse fosse o fim, mas ele não é.

e você sabe o que é. você sabe que vem. que é a única certeza dessa vida. que é o risco que todos corremos por fazermos aquilo que gostamos: respirar, comer, beber, viver. e não há nada que possamos fazer para impedir isso. não há como parar as coisas. seria muito bom se pudesse, mas não podemos. ela é incontrolável, insassiável, implacável. há aqueles que acham tê-la vencido. mas ela sequer se preocupou com tal ser, ainda.
você pode criar campos onde passearemos depois, ou uma imensa frigideira para nos torrar. pode fazer o que você quiser. que hajam luzes brancas, luzes negras, luzes roxas e amarelas, que haja octarina e flicts, nesse lugar inventado para passarmos o tempo, nada disso impedirá as coisas de serem as coisas que são.
é chegado o grande momento, a hora pela qual todos esperam. a hora final do último salivar, e a doce e lenta última respiração.
não pense que é ruim ir embora. você passou boa parte da existência sem existir. você teve a chance de marcar o mundo com suas idéias, de escrever livros e plantar árvoes, perpetuar os genes. talvez você possa ter seus filhos, seus netos, até mesmo bisnetos. você pode ver como tudo o que aconteceu ali nunca teria acontecido do jeito que foi se não fosse por você. perceba o quão fantástico é tudo isso e o quanto você é abençoado pelo simples fato de poder estar aqui.
não, não é para se entristecer.
no fim da vida, vá embora com um sorriso no rosto para mostrar que sua vida realmente valeu a pena.
deixamos aqui a vida para seguir, porque nossa missão está cumprida.