Archive for maio, 2007

Indianismo

maio 29, 2007

e a festa rolava solta. já haviam falado de livros, de música, de quadros, recitaram algumas poesias e trechos de bukowski e fante, além, claro, de clarice lispector e lygia fagundes telles. agora, entre uma tragada e outra eles preservavam o silêncio que os deixa “angustiados e sozinhos, mesmo estando no meio de tanta gente”. alguns encaram o nada, outros olham para lugar nenhum e muitos simplesmente não sabem o que fazer e ficam fitando seus tênis que um dia foram all stars, mas que hoje, depois de eles perceberem que a moda de all star entrou muito na moda e um pouco porque perceberam que aquele tênis era mais desconfortável que sandália de dedo, não têm marca nenhuma porque eles não gostam de rótulos. (mas eles não dizem abertamente: não gostamos de rótulos. eles acham que isso é coisa para os seres que ainda não evoluiram ao nível deles. eles deixam isso para os emos. e eles são indies).
“mas o que são indies?” você me pergunta. um colega disse: “Indie é a abreviação de Indieota, miguxês para idiota. São seres que se acham superiores, viciados em drogas pesadas (suco de laranja)”
ele não poderia estar mais certo.

À indiferença

maio 28, 2007

“eu vim aqui hoje para te dizer tudo o que eu sempre quis dizer, mas nunca achei que teria coragem. eu amo você.”
“…”
“e toda vez que eu olho para você, eu sinto o meu coração batendo rápido e devagar, ao mesmo tempo. e eu diria milhões de coisas que os apaixonados como eu dizem, mas eu quero que você saiba, eu não sou apenas mais um cara apaixonado. eu quero tanto passar meus dias ao teu lado. e cada segundo gasto é bem gasto só por ter sido contigo ao meu lado.”
“…”
“e encarar teus olhos é como ver o paraíso perto de mim, e sonhei tantas vezes em beijar seus lábios e sentir os sabor deles…”
“…”
“mas acima de tudo sempre teve uma coisa que passava horas e horas imaginando, que eu ponderava sobre e que agora, que eu já disse tudo isso e vi sua reação, eu queria saber de você, diretamente.”
“o quê?”
“você cospe ou engole?”

As donas do mundo.

maio 27, 2007

“sabe…as mulheres seriam os seres mais inteligentes do planeta, talvez superando os golfinhos e os ratos, sem nem mencionar os homens, mas há uma única coisa que elas fazem para ficar num patamarmenos elevado que todos os exemplos citados.”
“é? qual?”
“gostar de homem.”

(agora tenho medo de elas terem descoberto como dominar a terra)

De onde vem o amor.

maio 24, 2007

“Até que você escreve bem…”
“Obrigado.”
“De onde vem a inspiração?”
“Das tripas, coração.”

O Universo

maio 20, 2007

um dia o universo inteiro esteve condensado num único ponto.
de repente, ele explodiu sem nenhum motivo aparente.
dizem que fez barulho.
dizem que ainda se pode escutar o eco da explosão do universo por aí.
chamam-na de “a música da criação”.
Dizem que dá pra ouvir na tv.
é mentira.
na verdade todo átomo do universo canta a plenos pulmões: “I WANNA ROCK N ROLL ALL NITE AND PARTY EVERY DAY”

Freud.

maio 18, 2007

“sabe, freud explica tudo isso…”
“é?”
“é…ou a culpa é da sua mãe, ou do seu pau.”

Carros

maio 16, 2007

“poxa, carro legal.”
“ah, obrigado. é um Porsche 911 Turbo. ele tem ponteiras de escape em aço inoxidável cromado, logo pintado na traseira, descanso de pé esportivo, acabamento da coluna A em couro, acabamento da luz de cortesia em couro, retrovisor interno revestido em couro, fundo do painel de instrumentos em Bege, acabamento da coluna de direção revestida em couro, caixa de fusíveis revestida em couro, acabamento interior em alumínio, 480cv a 6.000 rpm, faz 0 a 100 km/h em 3,9 segundos, e atinge velocidade máxima de 310 km/h. é demais. não é só um carro, é ‘uma nova interpretação para uma obra de arte’ bem como diz o anúncio dele.”
“porra, é foda mesmo hein?”
“é.”
“…”
“…”
“crise da meia idade, já tão cedo?”
“não não, pinto pequeno.”

Troca de piadas.

maio 9, 2007

então você se acha um cara legal, descolado, inteligente e engraçado não é mesmo? acha que tem todos os estilos e todas as tiradinhas engraçadas. se acha o verdadeiro comediante para alegrar as festas de crianças e qualquer descerebrado. mas encare a verdade, você não é um cara engraçado, sua felicidade é só um escudo para a sua tristeza, seus sonhos são mentiras mal contadas. olhar para você me dá nojo. não que eu esteja desprezando você. não, jamais faria tal coisa. estou sendo apenas realista.
ah, mas você sabe contar piadas? é mesmo? e o povo gosta das suas piadas? que bom! você sabe contar piadas de portugueses e loiras burras, sabe contar sobre bichinhas taradas e até sabe contar piadas de humor negro sobre ceguinhas, bebês natimortos e crianças africanas. sim, boas piadas. eu também sei contar piadas. quer ouvir uma? ok. aí vai.
um menino, jovem, de seus 11 anos, uma vez estava com seus colegas jogando bola. o futebol das crianças. depois do joguinho bateu aquela fome, sabe? então eles resolveram que iriam pular o muro do vizinho para pegar algumas mangas e matar a fome. o vizinho sempre foi um cara gente fina, sempre deixava eles pegarem frutas e essa coisa toda. as crianças foram. 5. pularam o muro e subiram a mangueira frondosa. o vizinho apareceu, cumprimentou as crianças. depois de algum tempo elas desceram. todas as 5. subiram o muro para voltar para casa (não queriam dar trabalho ao vizinho, mas ele insistia, tanto que havia se levantado para abrir o portão) quando o vizinho ataca uma das crianças com uma foice. atacou primeiro suas pernas, depois o pescoço e depois a cabeça. deixando exposto o encéfalo da criança. a criança urrava como um porco sendo abatido. a cada golpe ela gritava mais e mais e mais. e o vizinho sorria e a cada golpe seu sorriso se alargava, mostrando seus dentes amarelos. depois, ainda ensopado de sangue da criança, sentou-se calmamente na cadeira de balanço de onde observou as crianças na árvore e fez para si um cigarro, acendeu um fósforo e fumou.
é uma boa piada.
você não vê a graça?
ora, onde está o seu senso de humor?

finalmente.

maio 7, 2007

“A existência é aleatória. Sem padrão a não ser o que nós imaginamos depois de contemplar tudo por muito tempo. Sem sentido a não ser o que escolhemos. O mundo desgovernado não é moldado por vagas forças metafísicas. Não é deus quem mata as crianças. Nem o acaso que as trucida nem o destino que as dá de comer aos animais. SOMOS NÓS. Só nós.”
Alan Moore

não estamos aqui para culpar ninguém. sabemos que a culpa é toda nossa, dividida igualmente entre todos, como nunca se fez com a comida, com as riquezas. sabemos que não temos a quem culpar se não a nós mesmos. então culpamos as entidades cósmicas.
o diabo quem fez. pobre diabo, os demônios do inferno não devem saber metade das artimanhas que sabem os homens, não imaginam um terço das formas de tortura. eles são crianças tentando ser más, enquanto nós somos o mal encarnado.
não se deve, porém, sentir-se mal por existir. se não fosse você seria outro alguém no seu lugar. então, se você tem “pão na mão e ar nos pulmão” você pode ser considerado uma arma em potencial feliz.
então, há quem diga que deus é o cara que te pôs no mundo. se ele te pôs no mundo ele devia estar tendo uma crise de risos, porque olhe só para você…mais parece uam piada ambulante! uma bela embalagem para um produto inútil. você e mais seis bilhões pensam, um processo igual em praticamente todos. e o que te diferencia da pessoa que você odeia com todas as forças é praticamente nada. e é esse o valor que você tem para qualquer um no mundo. sejamos realistas, daqui a 200 anos ninguém vai se lembrar de você ou desse texto que está lendo agora. você pode nem ligar no momento, já que não tem planos nem para amanhã, mas um dia, quando você estiver percebendo que sua vida inteira passou e que você não fez nada com ela, você vai chorar por ser esquecida. e não haverá deus nenhum para te criar de novo. ele te jogou aqui com uma única chance, que você provavelmente vai desperdiçar.
agora encaremos os fatos, não foi deus nenhum que te jogou no mundo (a não ser que você idolatre seu pai ou sua mãe como deuses, mas eles não são). foi seu pai que numa noite ou tarde ou dia, pegou sua mãe de jeito e ejaculou dentro dela. talvez ela nem tenha gozado, talvez nem ele tenha gozado, aproveitado o prazer, talvez você seja o fruto de uma ejaculação precoce, um coito interrompido mal interrompido, uma rapidinha no elevador, sem compromisso. enfim, você não é nada importante e, por mais que digam que é, estarão mentindo para te consolar.
se tivesse sido deus que te jogou na terra, qual o motivo dele para ter feito isso? fazer você viver sua vidinha de merda, comer suas comidas, transar com suas mulheres e seus homens, encher a cara, trepar ainda mais. e depois o que? depois tomar vergonha na cara e trampar feito um filho da puta maluco por trabalho? não. deus não te fez. deus não te quis. somos filhos do caos.
nós matamos, nós roubamos, nós estupramos, nós guerreamos. nós construimos prédios e os destruímos com nossas bombas. nós pintamos quadros que não dizem nada, que não são nada, e os vendemos por preços exorbitantes enquanto milhares de pessoas morrem de fome ou alguma doença em todos os cantos. nós cantamos música alegres, que exaltam o alcool, o sexo, as drogas enquanto matamos milhares de inocentes em uma guerra contra o que é aclamado nas músicas. o homem filma filmes, onde mostra tudo o que quer, do mais extremo pornô à mais bela e sensível película. e nós escrevemos livros, centenas deles, onde falamos toda a merda que quisermos, onde dizemos estar com medo do amanhã, onde chamamos deus de filho da puta e anunciamos sua morte, onde diz-se que tudo o que existe é sem sentido, onde dizemos que deus nos colocou aqui por nada. escrevemos livros de prosa e de verso. ficção e não ficção. e escrevemos sobre nós mesmos e nossos profundos eus. talvez deus tenha mandado você para a terra para escrever um livro sobre como é se sentir deslocado no mundo. sobre como é triste se sentir sozinho no meio de tantos, ou qualquer coisa do tipo.
não.
deus não mandaria alguem para fazer tanta merda.