Archive for abril, 2007

carta clichê

abril 10, 2007

era um sábado. e foi um sábado quente. nos beijamos. o último dia dela aqui. não sei por que demorou. há tanto tempo eu queria ter feito aquilo. tocar seus lábios com os meus, sentir o gosto dela. demorou quase uma semana interia. e nesse sábado quente como o inferno, mas ainda assim confortável como o paraíso, nos olhamos e nos vimos. mas nós sempre nos vimos. sabe…eu nunca acreditei que chegaríamos a estar no mesmo aposento, mas agora estamos passando a última noite dela aqui, juntos, deitados na mesma cama, lado a lado. o som baixo toca um dos meus cds, que ela escolheu dizendo ser um dos preferidos dessa banda, e que eu comprei só porque estava numa promoção. e nós não beijamos mais. só houve um único beijo. conversávamos olhando para o teto, não precisávamos mais nos ver porque, de alguma forma, sabiamos todas as reações um do outro. e ela já viu meus livros, meus filmes, meus cds e até mesmo meu guarda-roupa. ela riu de minhas besteiras, riu um sorriso lindo e alto, e seus olhos brilharam…e seu jeito é fantástico. eu tenho vontade de nunca deixá-la ir. jamais dizer adeus. eu não quero que ela vire uma lembrança ou coisa do tipo. a memória pode te enganar e eu sei que a sensação de tê-la em meus braços como tive agora há pouco e de vê-la dormir como agora nunca mais serão tão maravilhosas em simples memórias. eu olho para o lado e vejo-a deitada na cama, o cabelo castanho escuro caindo sobre seu rosto e tocando seus lábios tão saborosos. e vejo seus seios subindo e descendo no ritmo de sua lenta respiração e sinto o perfume que sue corpo exala e nada nunca, NUNCA, vai se comparar a ele.e nenhuma flor cheira tão bem. e amanhã, quando eu deixá-la no aeroporto, falarei todas essas palavras, entregarei cartas, pedirei, até talvez implore para que ela fique. e eu sei que tudo será em vão. porque ela vai e eu não vou mais poder abraçá-la por um bom tempo. e quando o avião decolar, vai arrancar de mim uma parte muito importante. vai arrancar meu amor, meu coração.
e tudo isso mais parece um sonho do que uma descrição da verdade, um grande clichê dito por idiotas apaixonados que vivem escrevendo palavras doces para poder ter suas amadas sempre em seus braços. mas eu sei que nada disso funcionaria com você, minha querida. e só escrevo tudo isso porque é a mais pura verdade. o mundo precisa de verdades tão lindas quanto você. e você me diz que não serve para o amor. e eu também não sirvo. mas eu sei que para nós o amor serviria como uma luva. seríamos, eu e você, dois idiotas, nerds, esquisitos, anti-sociais, apaixonados. eu te amo. ó, malditos clichês.

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ele.

abril 1, 2007

ele não sentia mais nada. sua cabeça, seu corpo, suas pernas, seus braços, suas mãos, seu pinto entre as mãos. ele não sentia mais nada. nem o beijo doce da mulher com quem dorme e ele não sente o cheiro humano da podridão, que vem através do hálito quente. ele não sente a cabeça doer da ressaca, não sente a língua amargar, não sente o vômito saindo, não sente mais prazer.
e ele tenta, ele soca, dentro dela, no meio da mão, e cospe seu sêmen e não sente nada. e começa a chorar mas não sente as lágrimas descendo pelo seu rosto.
o amor havia tomado tudo. sua vida, sua morte, seu poder de sentir.
e ele não sentiu o sangue quente escorrendo pelo corte feito por ele, e não sentido, no pescoço.
e antes de morrer ele pensou que havia sentido frio.
mas só foi a geladeira caindo sobre seu corpo nu, deitado no chão da cozinha.