Archive for junho, 2006

O Quarto Mal Amado (ou Como o Amor é)

junho 29, 2006

Sou um ser solitário de poucas palavras, e se houvesse como mostrar como é o que sinto, você não aguentaria em seu peito todo esse peso.Sua boca se distancia da minha por poucos centímetros,mas nossas almas têm a distância de um abismo.Sua pele é quente e reconfortante, e seus olhos brilham como diamante, mas essas pedras preciosas eu não posso ter jamais.E seu corpo?o que dizer do que mais desejo no mundo?
Sou um ser abandonado à sorte, um pobre vagabundo.
O que fazer para te ter ao meu lado, segurando minha mão?Entrar em coma?Chamar a morte?Se assim o for farei, pois ela se tornou minha amante quando me deixaste só. Fui do pó ao pó e sei que vivi cada minuto por ti.
Sou um ser patético, um mero reflexo de mim.Já fui Rei dos reis e dono de todos os jardins.Já fui cientista e descobridor, mas a maior descoberta foi a do amor.
O amor que metralhou meu orgulho e minha honra, que me acabou com os preconceitos.O amor que me tornou essa sombra e que me fez implodir o peito.
Descobri tal perigo ao aproximar-me da bela menina que passeava no parque.
Pelo amor criei mundos, brincadeiras e doces.Criei cirandas, crianças e flores.E por causa do amor abandonei o paraíso.Troquei-o por teu sorriso de bela e inocente moça.
Pelo amor me abandonei,e o trono desertei.Pelo amor me dei a ti e de ti nada ganhei.Por amor eu me perdi em minha mente conturbada, me torturei com pensamentos e engolindo palavras.Fui morrendo a cada momento, me devorando pedaço à pedaço,fui sumindo de tempo em tempo, apagando cada parte de mim e de ti.
Sou criatura vil e fria, perigosa.Tudo o que fui sumiu e de ti só sobrou uma rosa.

Somos todos devassos

junho 17, 2006

Já participei de inúmeras festas, mas nenhuma como essa.Passaram-me um copo de cerveja, coloquei ele na mesa à minha frente, não vou beber disso!Tem alguma coisa branca misturada ao dourado.O cheiro dos bêbados falando merda era enojante.De suas bocas nada mais saía além de merda, rala, dura, fedida, vomitada, cuspida. Vomitaram em mim:
“E aí cara, curtindo a festa?”
“Só…”
Não havia mais o que falar com aquele lixo humano.Provavelmente ele bebeu tanto que não lembra de nenhuma mina que pagou um boquete pra ele hoje.Foram três devassas, eu vi todas elas.Sim, vadias, devassas, putas, cheias de sensualidade e vontade de dar.Só se vê desse tipo de mulher nessa festa, uma orgia.Se eu tivesse um copo de vinho, brindaria ao deus Baco e participaria do ritual.
Minha garota tá no banheiro.Se maquiando?Talvez mijando?Dando?Talvez…ela bebeu essa noite e quando mulher bebe fica dando à toa.Uma vadia senta do meu lado, tem lábios grossos e suculentos, eu os beijaria agora se não tivesse visto essa mina chupando 5 caras diferentes desde o começo da festa.Eis o que faço:
“Daê gata…”
“Oi.” disse com um olhar bebâdo e um sorriso sapeca.
“Que tal uma cerva?” digo levantando o copo que eu deixei na mesa e oferecendo a ela.É o copo gozado.
“Valeu.”
Ela toma tudo de uma vez, engole sem nem sentir o gosto do esperma misturado, já deve ter se acostumado com tanto caralho naquela boca gostosa.Enquanto ela virava o copo de um jeito nada sensual, eu olhava seu corpo sexy e malhado.Fazia o estilo colegial inocente.Baby look e saia.Ah…as inocentes são as melhores.E se usar óculos melhora tudo…eles deixam as mulheres com ar inteligente.Femme Fatale.
Depois de acabar com a cerveja, ponho minha mão na sua coxa.Ela entende a mensagem.Levanto-me e ela vem atrás.Vamos para um canto escuro e discreto da festa, onde ninguém poderá nos ver, e me torno o 6º da noite. Depois de um chupisco muito legal, gozei tudo na boca da vadia, ela guardou direitinho e foi cuspir no banheiro como se nada demais tivesse acontecido e minha porra não estivesse em sua boca.
Voltei para a sala, sentei onde estava e esperei pela minha mina, que ainda estava no banheiro.Banheiro.Putaquepariu!Ela vai descobrir!Aquela puta vai cuspir minha porra e dizer quem foi que gozou tão forte na garganta dela que a fez engasgar!Minha mina vai descobrir…
E lá vem ela.Jeito calmo, sexy, tinha um belo rosto.Dou um beijo nela.Gosto estranho…porra!Gosto de porra!Mina vadia chupadora de caralho!Que merda!
Ajo normalmente, não vou esquentar…Afinal, somos todos devassos.

Um domingo arruinado…

junho 11, 2006

E Ela pegou sua mão.
Pouco antes havia pensado em tudo o que havia vivido até ali, pensou no que estava por vir, pensou na futura esposa, nos filhos que teriam, se viveria para ver seus netos, bisnetos, pensou em toda a alegria que teria, seria muita, seria?
Não se preocupava, afinal, não teria mais com o que se preocupar dentro de poucos minutos.Deitou-se na cama úmida, o cheiro forte subiu e entrou em suas narinas, suas costas ensatavam encharcadas, assim como o colchão no qual se deitava.A vela era a única fonte de luz, mórbida e fraca.A chama balançava de um lado para o outro, deixava o quarto da cor de ouro, ela era sedutora, traiçoeira.
Soltou a vela sob o chão molhado e cheio de papéis, a fumaça subia, a empregada iria se enfurecer com essa sujeira toda, todas as cinzas que sobrariam depois, ele não iria ajudar, mas nunca mais sujaria nada na casa.Tudo o que havia dele na casa estava naquele quarto, todas as fotos agora queimavam, queria queimar todas as memórias, todas as provas de sua existência.Se ele pudesse queimar-se-ia na mente de todas as pessoas com quem falou, queria ser esquecido, queria nunca ter existido.Aquele era um bom dia para não existir.
As labaredas começaram a queimar a cama onde estava deitado, seu travesseiro preferido era fino, o calor começou a fazê-lo suar, seu corpo gordo nunca foi fã de calor, mas era hoje o dia em que faria amizade com as chamas.Sempre as admirou, hoje se uniria a elas num belo ritual.
A dor foi insuportável quando o fogo queimou sua pele e carte,então gritou, mas seu grito não seria ouvido.Lá fora o som tocava num volume extremamente alto, ninguém notaria nada até que o cheiro de fumaça saisse pela brecha de sua porta e se espalhasse pela casa.Seria tarde demais para tentar “salvá-lo”, não que alguém fosse fazê-lo.
Seu corpo começou a pegar fogo, ele sorriu.Não viu toda sua vida passar pelos seus olhos como dizem nos filmes.Sua carne queimava, o cheiro começou a subir, o computador ao seu lado explodiu, a televisão explodiu, a pele do rosto sumia e o osso ia aparecendo e escurecendo com as chamas, as chamas que lambiam-no por inteiro, havia decidido que nada além delas ia lambê-lo.
Estava morto, mas as chamas não ligavam, continuavam fazendo seu trabalho.Ele não deixou nota de suicídio, queria que todos o esquecessem.Todos.
Agora via as chamas tomando conta do seu quarto, olhou para os restos do seu corpo, ossos, ossos, nunca pensou que se veria tão magro. Sorriu com a ironia desse pensamento.Então chorou, chorou pela pessoa que mais odiou, pelo seu maior inimigo, chorou pela pessoa que mais o conhecia, chorou porque havia morrido.E suas lágrimas caíram sobre seu corpo morto.
Não ouviu quando ela chegou, mas ali estava.Sempre esteve esperando por esse momento.
Ela se vestia de vinho, não era negro como todos diziam, mas era linda, isso não podia negar.Uma beleza estranha, mas que chamava atenção.Seus olhos brilhavam como as chamas e o chamavam.Não precisou dizer nada, apenas um único gesto.
E ele pegou sua mão.

Seiscentos e Seis

junho 6, 2006

Olhou para a mão com seis dedos e a fechou, esmagando o ar que havia nela contida como quem esmaga o ar.Sua raiva não podia ser maior, ou podia? Bem, isso não vem ao caso, não agora, deixemos outras raivas para depois, pois a que sentia era a maior que lembrava jamais ter tido.
Em qualquer outro lugar o ar se sentiria ofendido com esse gesto, mas no momento ele tinha outras preocupações, assim como você, que lê esse texto, mas tem outras coisas a fazer, e não se importou.
Ele respirava forte e suas narinas dilatavam em busca de mais ar, na verdade ele parecia sentir raiva do próprio ar, já que o mesmo fora esmagado e inalado por ele sem pena alguma.
Mas a raiva não era do ar, ele só tinha que descontar em alguém.
Será que essa seria a hora de eu inventar alguma razão para ele estar com raiva de alguma coisa e mostrar o porquê de ele estar descontando sua ira no ar?
Acho que não.
Como vocês puderam notar,ele tem seis dedos, sinal de polidactilia, que no ser humano é denominada por um alelo dominante N, mas não é comum por aí pessoas com seis dedos, então, se você tem apenas cinco, como esse que vos escreve, não se sinta um excluído e saiba que você faz parte da massa pentadigital(enquanto esses seres podem pedir o hexa para o brasil com apenas uma mão!). O fato de ele ter seis dedos, nada interfere na história ou no porquê de ele estar furioso, mas é um fato curioso e explica o porquê da primeira frase do texto.
Agora vamos à sua raiva.Sua não, do nosso personagem. Para não chamá-lo apenas de personagem, vamos dar um nome a ele? Que nome você gosta? Eu gostei do nome Chuck, e você? Bem, se não gostou do nome tens o direito de modificá-lo para que fique de seu agrado.
Chuck estava há muito tempo esperando por uma coisa especial.Uma coisa que ele só revelaria para uma pessoa e essa pessoa era a pessoa que ele mais amava como pessoa nesse mundo cheio de pessoas(afinal, se fosse para qualquer pessoa essa pessoa não seria uma pessoa especial para essa pessoa chamada Chuck ou qualquer outro nome que você preferiu colocar nele). E essa pessoa especial, ok, vamos chamá-la de Joaquina.Se você não gostar tudo bem, você tem o direito de mudar. Essa Joaquina era o amor da vida de Chuck, mas ela não sabia que era o amor da vida do menino Chuck porque o mesmo ainda não tinha dito para ela.Na verdade ela parecia saber que o menino Chuck a amava, mas fingia não saber para esperar menino Chuck se declarar.(Só por curiosidade, Joaquina tinha cinco dedos)Então menino Chuck resolveu se tornar um homem (nada de conotações sexuais por aqui, isso é um texto família e de respeito!)e tomar coragem para dizer a Joaquina que o amava. Arrumou-se com sua roupa mais bonita, perfumou-se com seu perfume mais cheiroso, e partiu para a casa de Joaquina, onde pretendia chegar e descarregar seu peito como um traficante descarrega o pente de sua metralhadora nos policiais paulistas.Diria tudo o que sentia e pediria para que vivessem felizes um ao lado do outro.Tomou o ônibus, Chuck, assim como esse que vos escreve, era estudante e não tinha dinheiro, e partiu.Foi murmurando trechos do que pretendia dizer para Joaquina durante o percurso do ônibus e quando chegou o ponto em que deveria descer, desceu.Caminhou até a casa de sua amada,na verdade era um prédio, esperou o elevador e apertou o sexto andar. O elevador subiu, subiu, subiu, subiu, subiu e subiu até que chegou o sexto andar.Olhou para o apartamento seiscentos e seis, onde Joaquina morava, e apertou a campanhia.A porta se abriu, lá estava seu melhor amigo, e por trás podia-se vê-la, Joaquina, sentada no sofá.Entrou e disse que precisava falar com ela, ela disse que precisava falar com ele.Ela disse que estava namorando, ele disse que era melhor deixar para lá o que ele ia dizer. Ela disse que era melhor ele dizer, ele disse que não, ela disse que estava bem, ele disse que não, ele olhou para seu melhor amigo, olhou para ela, olhou para a mão com seis dedos e a fechou, esmagando o ar que havia nela contida como quem esmaga o ar.