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Carro. (texto de fevereiro, nunca publicado, semi-revisado, mas não muito)

Novembro 20, 2009

eram 10 da noite ou coisa assim. ela entrou no bar balançando aqueles seus quadris largos de um jeito que poucas mulheres saberiam fazer. sua pele de uma tez amarelada que me lembrava café com leite, muito leite, era coberta por panos de tons claros, uma camiseta branca que deixava à vista as alças de seu sutiã também branco e uma saia longa da cor de sangue coagulado, um amarronzado meio estranho de se ver em roupas que deixava tudo com a aparência de sujo ou caindo aos pedaços. caminhava com pés leves, que arrastava mais que levantava, dizendo com sons onde estava e para onde ia por onde quer que andasse. ela era magra e alta, as pernas longas e grossas juntavam-se ali por baixo de sua cintura fina formando ancas largas. tinha pequenas mamas que poderiam caber, sem esforço algum nas palmas das mãos e, ainda assim, capazes de satisfazer qualquer homem que quisesse nelas se esbaldar. seu rosto tinha algo de não comum. ela era linda, mas não uma linda dessas ordinariamente lindas, havia um tanto de beleza nela que era indecífravel. havia tristeza e dor de uma vida escondidos por trás da negritude brilhante de seus olhos lindos, duas estrelas no meio da maldita escuridão, queimando como supernovas e me atraindo como se eu fosse um de seus planetas. seus olhos eram capazes de me sugar para dentro dela. seus lábios finos me fizeram pensar que talvez não existisse outra pessoa no mundo com lábios tão finos quanto os dela. e era basicamente tudo isso que me passava na cabeça quando ela entrou pela porta do bar, caminhou por todo ele e sentou ao meu lado no balcão, onde eu bebia sozinho. já ia pela terceira ou décima terceira garrafa quando veio e sentou sua bela bunda no banco ao lado do meu e pediu uma bebida qualquer ao garçon que trouxe rapidamente. então ela encarou o bar com uns olhos que me fizeram crer que ela via detalhes que ninguém mais seria capaz de ver. naquele exato momento eu saquei que ela sabia muito bem o que era sofrimento e uma pessoa assim a gente não pode deixar passar sem tentar puxar para nossas vidas.

“a próxima dose eu pago.” eu disse sem dirigir meus olhos aos seus. disse alto o suficiente para que ela e o garçon ouvissem. tomei um gole longo diretamente da garrafa, senti o amargo da cerveja na boca, quase o gosto da vida.

ela acenou levemente com a cabeça sem deixar claro se estava concordando comigo ou se apenas se perdeu dentro de seus pensamentos em algo mais distante que tudo aquilo. preferi acreditar que ela estava dizendo sim para mim, olhei-a bem através dos cabelos curtos e negros que lhe caiam sobre a face. fiquei encarando por um tempo até que minha garganta ficou seca e me voltei para minha bebida. não trocamos mais uma palavra até que ela terminou seu drink num longo gole, virou para o barman, levantou um dedo fino e ele não exitou em trazer a dose que prometi, mais da mesma porcaria descolorida que ela acabou de engolir. eu pensava que ela não diria nem um obrigado pela bebida ou coisa do tipo, estava calada como antes, olhando o copo ser preenchido por gelo e depois pela bebida. o silêncio entre nós dois começava a me aborrecer, há certas pessoas com quem manter o silêncio é um ato incômodo, porque ali, entre esses dois seres, há tanto potencial a ser explorado que ficar calado encarando o vazio por tempo demais parece simplesmente desperdício, não faz o menor sentido. mas naquele dia não seria eu quem diria qualquer coisa para puxar um papo qualquer, até porque papos quaisquer não pareceriam ser o suficiente para que ela me desse atenção. aquele corpão não cairia na falsa lábia que os bêbados costumam acreditar que possuem, muito menos os que costumam beber num bar de esquina qualquer. um peixe grande num rio pequeno, ela não se encaixava ali e eu, pescador de fim de semana, não tinha o equipamento necessário para trazê-la pro meu barco. faltava isca, uma boa vara, um bom anzol. ela escaparia e eu nunca mais a veria.

foi ela quem puxou assunto. virou para mim e, depois de um demorado gole em seu copo longo cheio de gelo, perguntou se eu não ia falar nada com ela. eu sorri e disse que falaria sim, mas estava me decidindo sobre o que eu falaria. não seria bom simplesmente virar para ela e falar que achava que ia chover porque isso não seria uma boa base para se construir uma linha de conversa, não tem a consistência necessária para uma boa noite de papo.

“preciso de algo que me faça parecer engraçado sem parecer idiota; inteligente sem ser arrogante. interessante a ponto de fazer você pensar…” ela não me deixou terminar a frase.

“eu quero dar pra esse cara loucamente.”

“para quem?” perguntei olhando ao redor e voltando meu olhar para ela com um sorriso de desculpa estampado nos lábios. “ok, piada errada, jogada errada. e…não, que faça ela pensar que eu sou alguém que ela não vai se arrepender de conversar porque conseguiu mantê-la sem se sentir entediada numa conversa por mais de 15 minutos.”

“e você acha que eu dou para caras que não são assim?” ela me olhava com um sorriso sacana no rosto. um sorriso que qualquer um pode ver facilmente numa atriz pornô, mas que só surte o devido efeito numa garota comum, que não trepa por dinheiro na frente de uma câmera e, até aquele momento, ela não havia se revelado como uma delas.

“todas dão. uma hora ou outra.” tomei um gole direto do gargalo.

seu sorriso morreu, ela engoliu mais da bebida, lambeu os lábios finos, agora umedecidos e resfriados pelo gelo e vodca, acho, gelada.

“por que pagou a bebida?” ela perguntou apontando para seu drink. “digo… se não quer me comer, por que pagou?” ela parecia realmente confusa.

“a verdade é que eu não consigo ver uma moça bonita e não oferecer um drink a ela. você é uma moça bonita e… eu quero sim te comer, em momento nenhum eu disse que não queria. você tem um rosto lindo que seria a moldura perfeita para o meu pau, peitos pequenos que eu adoraria passar noites inteiras sugando, um buxinho incrível que só se nota quando você senta e sua camiseta levanta um pouco por qualquer besteirinha, um movimento ou coisa assim e eu só penso em como eu adoraria mordê-lo, uma cintura fina boa de segurar e uma bunda que, meu deus, é uma das mais desejáveis que eu já vi e, devo confessar, quando você entrou, pensei: ‘essa garota tem que sentar ao meu lado e eu tenho que levá-la embora daqui. porque meus olhos precisam ver esse corpo fora desses panos, essa linda bunda nua, essa mulher de quatro, minhas mãos precisam estapear essa carne’ e, desde então, tenho pensado em como agir.”

“a bebida foi sua ação, então?”

“é…a melhor que pude imaginar. um clássico e todos sabemos que clássicos nunca morrem.” tomei mais um gole da cerveja, ela estava quase no fim e eu começava a ter dúvidas se eu conseguiria uma ereção se eu precisasse de uma naquela noite. achei que estava na hora de parar com a bebida, pelo menos por uns minutos.

“e pra onde a gente vai depois daqui?”

“pra onde o seu carro levar a gente.” eu terminei com a minha garrafa, finalmente “além do mais, não gosto de escolher lugares.”

ela riu e foi aí que, pela primeira vez, notei em seus dentes o brilho metálico tão típico em adolescentes e que nunca conseguirei me acostumar em adultas. e ela era mais velha, seus olhos me mostravam que ela era mais antiga que eu que, apesar de ostentar pêlos mal nascidos num rosto mal esculpido, não passava dos vinte e poucos anos, com poucas marcas do tempo, enquanto ela tinha toda a idade em seus olhos e não ao redor dele, como todas as outras pessoas.
saímos de lá no carro dela e eu pensei na sorte que era ela ter um carro bom já que eu, àquela altura da vida, ainda vivia de empréstimos, de amigos e táxis. ela disse que iríamos à sua casa e eu disse ótimo.

e estava ótimo. a casa dela era um apartamento, prédio alto num bairro nobre da cidade. ao ver a sala eu já sabia que ela não precisava sair pra beber em bares baratos para se envolver com estranhos e levá-los pro seu lar, seu ninho. tempos depois eu entendi o porquê de ela fazer aquilo, descobri que era algo que a excitava, o desconhecido, a estranheza do corpo novo. sua sala tinha dois sofás, nos quais esbarramos ao tentar passar, entre beijos, para outro cômodo no escuro. seguimos diretamente para o quarto, onde a luz da lua entrava através de janelas de vidro com cortinas abertas. lá fora, o mar refletia o céu negro e a cama de casal nos serviu de arena onde brincamos nus. e brincar não quer dizer fazer sexo, mas simplesmente brincar como duas crianças bobas, uma fugindo da outra, gritando enquanto tenta escapar do aperto de um, como no jogo de pega, se escondendo sob as cobertas como no esconde esconde. e isso nos rendia risadas e mais risadas. nós, vestidos com nada além de pele e pêlos, gargalhávamos sobre um colchão. morremos algumas vezes e, por breves segundos, ficamos num silêncio sério, um olhando para o outro para, logo em seguida, soltarmos um sorriso leve, calmo.

o que tivemos durou um tempo. a duração dessas coisas nunca parece ser suficiente quando  se vive seu fim. é engraçado lembrar de tudo o que aconteceu, os detalhes, porque nos faz perceber com damos valor a coisas que realmente não têm nenhum valor. é claro que sei que houveram momentos que nenhuma outra pessoa será capaz de me proporcionar, assim como sei que nunca mais farei coisas que fiz com ela, sei que há coisas que sentirei falta (o cheiro dela, meu deus, o cheiro daquela mulher e as coisas que fazia na cama…) e há coisas que me farão agradecer por não mais estar com ela. mas há riso em outras pessoas e esquecemos disso quando é nossa pele que é beijada pela chama.

foi descobrindo que não havia espaço para um nós em sua vida que tudo entrou em combustão. foi ali que descobri seu tesão pelo desconhecido, por desconhecidos, pelo novo. havia me descoberto demais para ela, entregado coisas demais e, na cabeça dela, não havia mais nada ser descoberto, eu era um livro lido e, aparentemente, ela já sabendo de todo o final, não era tão interessante assim. eu entendi, estava tudo bem, doeu, é claro, pensei que não fosse seguir em frente, pensei que fosse parar ali, estancar, mas não. segui. hoje a vida me mostra coisas que antes passavam desapercebidas a meus olhos, hoje vejo garotas no bar e elas são lindas, fabulosas. não penso mais em parecer interessante, só penso em como quero colocá-las no meu carro e ser chupado por elas enquanto dirijo até o motel mais próximo daqui para lá comê-las como se fossem a última boceta do deserto. hoje tenho um carro e não vou mais a apartamentos de desconhecidas.

Escuro.

Novembro 13, 2009

se ele pensasse bem e se esforçasse um pouco nisso, poderia lembrar perfeitamente da primeira vez que se sentiu verdadeiramente bem. ele devia ter pouco mais de três anos e estava na cama, dormindo um sono tranquilo. a madrugada começava a avançar e, lançando por sobre ele seus tentáculos macios e silenciosos, o ninava em suas cobertas. lembrava de sentir um leve desespero e medo tomando conta de sua mente infantil quando acordou e nada viu, mas logo se acalmou quando ouviu com clareza uma voz fria e distante, como nunca antes ouvira, lhe dizendo coisas que ele gostaria de ter guardado, mas não conseguiu. essa é a primeira lembrança de sua vida. não de um brinquedo ou uma brincadeira, não de sua mãe ou seu pai, seus avós sorrindo e lhe cercando de alegria, dando carinho e amor, mas da escuridão que o envolvera e tinha contado a ele seus segredos.

apesar do ocorrido, pode-se dizer que sua vida não foi extremamente diferente da que outras crianças de seu convívio tiveram. o que se poderia dizer dele é que era uma criança que não tinha medo de escuro. sempre se escondendo nos lugares mais escuros, onde sabia que seus colegas da escola e amigos da rua não o procurariam por terem medo da ausência de luz, medo do que as trevas podem vir a esconder, medo das fantasias contadas a todos sobre as criaturas das sombras. mas ele não se intimidava com aquelas histórias. ele sentia que as conhecia todas, não sabia de onde, não sabia o porquê, e sabia que nenhuma delas era verdade. que a escuridão era uma coisa natural, tanto quanto a luz do dia e o calor do sol. sabia que tudo o que os pais de seus amiguinhos contavam sobre monstros no escuro eram apenas histórias para enganá-las, mas ele não entendia muito bem os que levava a enganarem suas crias, por que eles queriam tanto que seus filhotes temessem algo? talvez o medo que eles próprios criaram quando eram criança, quando seus próprios genitores contavam as histórias sobre a noite e o escuro a eles, tenha crescido e agora esteja na hora de se multiplicar. o medo age como um de nós, precisa se espalhar pelo mundo. mas as histórias assim, sobre a morte no escuro, aquele que entra nas sombras e nunca volta, vêm desde os tempos em que os homens viviam em árvores e descê-las após o sol se pôr era suicídio, uma coisa que já não fazia sentido, já que as feras do mundo estavam domadas e viviam em casas iluminadas, sentadas em salas e fumando charutos, bebendo suas bebidas caras e assistindo a seus programas de televisão. seus colegas riam dele quando ele contava tudo isso, chamavam-lhe de esquisito quando ele defendia as sombras como se fossem suas amigas. por isso achava melhor não falar sobre isso e continuar brincando, enquanto ganhasse no esconde esconde, tudo estaria bem e haveria sempre motivos para sorrir.

a lembrança da voz, entretanto, era uma constante na sua vida. desde que completara sete anos, todos os dias, se perguntava se aquilo tudo aquilo havia sido real ou se fora apenas um sonho bobo de criança – um pesadelo, como diriam seus pais quando ele mencionou o estranho fato – e qual seria seu verdadeiro significado, se é que tudo nessa vida precisava de um significado. ele não sabia se isso era verdade, não acreditava muito que havia motivos bem explicados para tudo no mundo e podia jurar a todos que os maiores mistérios da humanidade ainda nem foram arranhados. quando o questionavam sobre os motivos de suas crenças apenas dava de ombros, não sabia explicar, acreditava no que acreditava porque lhe parecia lógico, óbvio, nada além disso, uma sensação de que aquela é a forma certa, apenas. mas sua infancia passou sem que a escuridão tornasse a chamá-lo para contar-lhe mais de seus mistérios.

então chegou sua adolescência e já não era mais tão fácil manter um sorriso no rosto. essa foi a fase em que mais buscara o isolamento proporcionado pela escuridão. e não era sem razão, sua pele oleosa lhe proporcionava espinhas que às vezes inflamavam e se tornavam gigantescas bolhas amareladas que tomavam seu rosto e o deformavam de maneiras que só rostos adolescentes podem ser deformados. ele teve sorte de essas serem coisas um tanto quanto normais para qualquer cidadão nesse período da vida. ele sempre presava pela discrição, o silêncio, a calma e o silêncio. não era uma pessoa difícil de lidar, não brigava com seus pais mais do que qualquer outro na sua faixa etária brigaria, não arranjava confusões no colégio e uma vez ou outra se apaixonava perdidamente por alguma garota cujo nome ele não fazia a mínima idéia. tudo normal para ele, mesmo depois da noite em que a noite falou com ele.

ele não conseguia dormir. estava na cama há três horas e meia e nada de conseguir fechar os olhos e dormir. havia pensamentos demais em sua cabeça para que ela ficasse leve o suficiente para alcançar o sonhar. sempre há, e não há masturbação que alivie certos tipos. eram exatamente esses malditos tipos que o assombravam naquela noite. claro que se ele fosse comparar seus problemas de antigamente com os de hoje em dia, ele imploraria para que todos eles voltassem, mas ele não pode fazer isso e os problemas todos parecem muito melhores vistos de longe no futuro, quando todos eles estão com uma solução óbvia esparramada na nossa frente. temia que a qualquer momento sua mãe ou seu pai abrissem a porta do seu quarto e gritassem com ele qualquer ordem envolvendo fechar os olhos e dormir. ele lembrava de invejar os adultos e sua facilidade em simplesmente se apagar de forma tão fácil, evitar os malditos fantasmas que vinham conversar. mal sabia ele que os fantasmas só fazem falar mais alto com o tempo e que adolescentes não têm verdadeiros fantasmas, não têm problemas, não têm nada com o que se preocupar além de meia dúzia de matérias escolares. foi enquanto tentava ficar atento a qualquer movimento do lado de fora do quarto que a escuridão entrou em seu quarto através de todas as brechas possíveis: porta, janela, a moldura do ar condicionado. assustou-se a princípio, mas logo se acalmou, suas lembranças, que lutavam para permanecer em sua mente como algo real, chegaram em sua mente como uma enxurrada, então pensou: finalmente.

o encontro esperado com aquela que sempre o deixara fascinado estava acontecendo finalmente e, dessa vez, ele teria idade o suficiente para fazer perguntas, para lembrar, para ter uma conversa normal com a escuridão, seja lá como uma conversa normal com ela seja.

observou, então, enquanto toda a escuridão ficava cada vez mais densa na sua frente, fazendo-o com que nada enxergasse e, ao mesmo tempo, sendo ela tudo aquilo que ele via, preenchendo completamente sua vista com sua forma aforma. o escuro não veio para ele como sempre pensara que viria: uma bela mulher vestindo roupas coladas negras, talvez feitas de vinil – um tanto fetichista, ele deveria admitir -, que criaria um trono de sombras densas e sentaria nele e, assim, pareceria que flutuaria no ar, porque o quarto todo estaria tomado pela mesma escuridão sobre o qual ela sentava; então, cruzaria as pernas sensualmente e falaria com um tom profundo e calmo, com gestos precisos e confiáveis, as coisas todas que ele esperava ouvir e que não sabia o que seriam, nem conseguia supor. mas ele logo notou que não havia uma personificação para o escuro, assim como não havia personificação para luz ou para bem ou para o mal. todas essas entidades não podem ser contidas em tão pouco espaço. então entendeu que seus pensamentos eram tolos e se envergonhou deles. aceitou que aquilo que o cegava era o que ele esperava que o fizesse desde seus três anos, desde quando tivera seu encontro com ela e fora ninado por seus braços confortáveis. aquilo era a escuridão e era com ela que ele falaria.

foi precisamente com ela que falou, com quem tivera a conversa mais importante e esclarecedora da sua vida inteira, a que mais marcou e cujos detalhes jamais serão perdidos, aquela que jamais escapará dos recônditos de sua mente; a mesma sobre a qual nunca falara com ninguém em todos os seus longos anos de vida, porque foi o que foi prometido naquele quarto envolvido pelas trevas. naquela noite ele fez perguntas – várias delas tolas e infantis, muitas delas perguntas que ele nem sabia que tinha, mas assim que as lançava percebia que sim, precisava de uma resposta para elas também – e obteve tudo o que sempre sonhou, cada confirmação ou negação de suas suspeitas, seguidas de simples e lógicas explicações, sem muita enrolação, sem a subjetividade que você esperaria de uma conversa com a escuridão. também lhe foram ditas coisas que ele não fazia idéia da existência, os mistérios que antes lhe parecia impossível terem suas superfícies arranhadas, arreganhavam-se para ele como as pernas de uma prostituta francesa muito bem paga. a conversa com as trevas, no entanto, também não era uma conversa comum – com palavras e todas essas coisas que estamos tão acostumados – havia a mistura de conceitos intrínsecos à natureza do homem com as novidades que ele ansiava por conhecer e havia, então, todo o encaixe das peças, até aquele preciso momento, soltas desse quebra cabeças que alguns teimam em chamar de vida. naquele dia, ele foi contemplado com a visão macroscópica da existência. a escuridão tomou sua mão e o levou onde apenas seletos homens tinham ido antes. então, como se tudo o que existisse fosse uma pintura, ele foi se afastando de onde estava, grudado à tela de pano, onde ele era uma pequena gotícula de tinta, e percebendo aos poucos, à medida em que se distanciava, os contornos e os jogos de luz e sombras da pintura inteira e as cores ricas e os detalhes belos daquele quadro singular até que ele conseguiu enxergá-lo em sua totalidade. e era lindo.

depois daquela noite, diferente do que se pode pensar, ele não passou a ver a vida de uma forma tão diferente da que era acostumado, mas passou a perceber boa parte das coisas que antes lhe passavam despercebidas. tudo fazia parte do grande plano do acaso. o reino do caos ao seu redor e as infinitas possibilidades começavam a se expandir em sua mente e ele era capaz de visualizar com perfeição todas as conseqüências das escolhas quando queria fazê-lo. mas percebeu que se o fizesse sempre a vida não teria a graça da imprevisibilidade que tem. então, boa parte das vezes, ele simplesmente esquecia – ou fingia esquecer, para assim se convencer de que realmente conseguira esquecer, mesmo não tendo esquecido – que era capaz de ver tudo o que queria, que sabia coisas que todos os outros não sabiam. e quando ele sentia que precisava, mais do que nunca, perceber as conseqüências futuras de seus atos – ou dos outros, dependendo dos casos – , ele buscava nas trevas seu consolo, sua paz e sua resposta.

então completou sua adolescência e passou sua vida adulta tendo conhecimentos que nenhum dos outros seres ao seu redor possuia. às vezes achava que aquilo que sabia não era de fato tão significativo assim. mas havia dias em que notava que, sem o entendimento de como toda aquela maquinaria funcionava, achava que não conseguiria seguir em frente sem perder parte importante de sua sanidade. quando era tomado por sentimentos de impotência e desespero, como ocorre com a maioria dos humanos – mesmo aqueles que entram em contato direto com as trevas, a luz ou qualquer outro dos grandes aspectos da realidade -, recorria aos mistérios a ele revelados e tentava se acalmar relembrando da pintura inteira vista de longe e de como ela era bela e fazia sentido. então tornava a seu lugar no quadro, a pequena gotícula negra que forma a sombra de uma poeira. o mínimo, o ínfimo, o quase inexistente, o detalhe importante que não poderia faltar. quando se sentia melhor, voltava à sua vida no meio de tantos outros, seguindo seus caminhos como qualquer outro seguiria.

ele se escondia nas sombras porque ali era seu lugar, seu lar, o local ao qual pertencia. era para os becos escuros que ele fugia quando queria se sentir em casa, quando precisava se sentir abraçado e acarinhado. e era  ali, pelos braços das trevas, que ele era envolvido e tudo o que sentia, preenchendo-o lentamente, até que ele sentisse uma paz de espírito gigantesca, era a escuridão. nada no mundo seria capaz de perturbá-lo quando ele se mesclava às sombras. nada poderia chegar perto de ser comparada àquilo. então ele percebia que tinha consigo tudo o que sonhava e que não precisava de mais nada. como o quadro, ele estava completo.

estrela solitária.

Outubro 29, 2009

é escuro e é noite e é uma das mais quentes do ano. uma daquelas em que as nuvens começam a se tornar densas no céu, preparando-se para desabar sobre todos, e abafam tudo o que está sob elas e escondem tudo que há acima delas. existem muitas noites assim, essa é só mais uma e eu poderia dizer que é nela que nossa história acontece, mas não é. há um homem de feições leves sentado num canto de um bar, o mesmo canto de todo dia, ele transmite, em seus traços, mesmo com a barba constantemente por fazer e o cabelo sempre precisando de um corte, um ar de confiança que contagia a todos que o vêem. é ali, em seu canto, que bebe até começar a ver embaçado, até começar a esquecer, até quase não suportar o peso de sua própria cabeça e quase cair no sono. mas ele nunca dorme. sempre sai do bar sozinho, depois de assistir a cada um de seus amigos ir embora – nenhum deles chega ali com ele, nenhum sai dali com ele – , cada rosto desconhecido entrando e saindo pela mesma porta pela qual ele sai caminhando enquanto o dono do bar gira suas chaves e tranca sua porta. no entanto, não se sabe o que ele faz enquanto o sol passeia pelo céu e as portas do local que lhe parece o lar estão fechadas. as pessoas, sempre elas, falam sobre os seus possíveis refúgios. essas pessoas falam demais, sempre, e essa é uma mania odiável que não parece estar nem um pouco perto de ser abandonada.

entre passos trôpegos nas idas e vindas do banheiro, o homem interage com os clientes do local contando casos engraçados de sua vida e piadas a todos que estiverem dispostos a ouvir. se apresenta a desconhecidos com cerimônia e pompa, meneando a cabeça para os homens e flertando com moças, que riem com seus galanteios e, depois de algumas recusas, conta histórias sobre suas amantes e suas grandes glórias do passado (um número surpreendentemente elevado para um homem que vive como ele vive, entre a escória da cidade, sempre bêbado). conquista muitos assim, com sua espontaneidade e alegria, conseguindo algumas doses de bebida na conta de quem oferecer. no entanto, ele nunca pediu a ninguém que lhe pagassem a bebida e, por muitas vezes, recusava que o fizessem, mas depois de insistirem por algum tempo com seus “ora, vamos”, “por favor”, “não me faça essa desfeita”, aceitava de bom grado. quando estava de bom humor dizia que queria celebrar com todos, isso acontecia mais ou menos uma vez a cada dois meses, e todos sabiam o que isso queria dizer: as bebidas daquela noite, para quem estava sentado com ele em sua mesa, seriam na conta dele. sempre foi uma dúvida constante, daqueles que sabem um pouco de sua situação, como ele arranjava o dinheiro para pagar por suas bebidas. ele ria, chamava o questionador de criança tola e dizia que era tudo muito simples e que ele nunca estava devendo nada a ninguém e que, na verdade, o dono do local devia a ele alguns favores e não havia ainda álcool no mundo que chegasse perto de pagar sua dívida. apesar dessa dívida que alegava que o dono do estabelecimento tinha para com ele, pagava sempre tudo o que consumia. todos duvidam do que ele falava e espalha-se por aí que ele é herdeiro de algum milionário desconhecido que deixou todo o seu dinheiro para ele. havia sempre, em seu bolso, dinheiro para saldar sua dívida no fim de cada noite. e não importava quão grande fosse a conta, havia sempre o suficiente para uma generosa gorjeta. perguntávamos a ele se ele não tinha medo de ser assaltado ao sair de casa com todo esse dinheiro no bolso (todos viam quando ele abria a carteira e tirava uma nota de cem do meio de, no mínimo, outras cinco) e ele dizia que não tinha medo de nada por ali e que ninguém iria se envolver com ele. advertiamo-lhe que o mundo estava mudado, que as coisas no seu tempo eram diferentes e que hoje em dia não dava mais pra andar por aí tão seguro de si. acho que tudo o que lhe dizíamos, no entanto, soava para ele como piada, porque ele ria e tomava um gole de sua bebida.

ninguém encontrava com ele durante o dia. alguns diziam que o viam pedindo dinheiro n’alguma esquina do centro da cidade, sentado no chão com um chapéu à sua frente. quando lhe diziam isso ele praguejava e dizia que as pessoas deviam ter mais o que fazer com suas vidas curtas e miúdas como a das moscas de frutas. ele dizia que havia pensado em abandonar tudo isso há muito tempo, por causa dessas coisas, partir para longe daqui e conhecer coisas mais interessantes. mas, ele dizia, aqui tinha os melhores drinques e as melhores comidas. e que de forma alguma ele queria cruzar com alguns daqueles seres. não sei de quem ele se referia, mas ele pareceu bem sério quando disse isso. o assunto do que fazia durante os dias nunca foi esclarecido. uma vez sentei na mesa dele e começamos a beber, só eu e ele, e conversar. contei-lhe sobre minha vida, meus dois filhos, meu trabalho, minha esposa e o amor que senti por ela e temo já não sentir e o medo do abandono e a insegurança que a vida me proporciona agora. falei-lhe do emprego e as frustrações que ele me traz, meus sonhos e esperanças todas que foram embora pela janela, achando que podiam voar e morrendo logo abaixo, depois da queda. então, depois que abri meu peito e enchi meu copo de lágrimas e whisky,  ele, um tanto afetado pelo álcool, seus olhos brilhando como os de um ébrio, me contou coisas que supostamente viu e viveu. eu não sei por que, mas tudo o que ele falava me parecia bastante real e possível – talvez fosse o álcool – , como o fato de eu estar ali respirando. ele me falou de jantares e de pessoas que não eram pessoas e me falou de como viu cidades de prata e de como a sombra dela era agoniante e desesperadora para os homens como eu (ele não se incluiu no gênero), me falou de como era a vida fora desse plano, falou-me de visitas ao deus baco, disse-me a sensação que é fazer amor com deusas e tentou me explicar alguns dos grandes segredos. fez uma lista de lugares que conheceu e que eu achava que eram lendas, mentiras criadas para encantar crianças e fazê-las sonharem com esses locais.

perguntei-lhe o que diabos ele fazia ali, no entanto. se ele havia estado em tantos lugares, por que continuar naquele mesmo bar, naquele mesmo canto, com aquelas mesmas pessoas?

ele segurou minha mão, disse meu nome e disse que era por causa de pessoas como eu. “por causa de pessoas como você, meu amigo, eu acho que vale a pena continuar por aqui, com essas bebidas maravilhosas, suportando o que vier.”

quando saí do bar naquela noite, o céu estava fechado e era escuro. ele ficou lá dentro. lá em cima as nuvens começam a ficar densas. está quente, abro dois botões da camisa e chamo um dos táxis que ficam ali na esquina. entro nele, digo meu endereço e vou embora. está abafado e quente. é impossível ver a lua ou as estrelas daqui de baixo, queria acreditar que elas também não nos vêem de lá de cima, mas elas vêem tudo.

confissão.

Outubro 28, 2009

as cartas estão guardadas dentro do guarda roupas, prontas para serem esquecidas por mim, mas nunca sendo. às vezes eu me pergunto onde estão as páginas que escrevi e mandei pelo mundo. me pergunto se elas foram esquecidas ou se existe a vontade de não mais lembrar o que elas diziam como existe aqui. mas eu lembro de muita coisa porque é assim que sou: alguém que não aprendeu a esquecer, que não gosta de esquecer, na verdade. acho que precisamos aprender a conviver com o que passou muito mais do que simplesmente fingir que nada ocorrera. já pensei muitas vezes em fazer a língua das labaredas lamber as palavras escritas naqueles papéis, os desenhos criados e pintados, cada envelope trabalhado. ainda guardo cada laço que ornamentava suas obras. espero o dia em que criarei coragem para fazer algo com elas… mostrar a alguém, jogar tudo fora, transformar tudo em cinza. e eu me pergunto que fim tiveram meus meses inteiros postos em palavras, meus pensamentos mais íntimos derramados em folhas de papel sujo por grafite. são quase uma da manhã e quem come sozinho na frente do computador pensando num patético passado de um ano atrás sou eu. quem pensa, às vezes, que há exatamente um ano, estava dedicando boa parte do seu tempo e de seus pensamentos a apenas um assunto, que se foi e não rendeu, sou eu. e sou eu quem se sente culpado por saber que não consegue fazer muito mais que textinhos de amores mal realizados, não correspondidos, fins tristes de coisas que não aconteceram porque nunca tiveram a oportunidade de acontecer de verdade. sou eu quem tenho coisas que não devia na parede, que vive com o passado no presente. seja nas paredes do quarto ou nas estantes do quarto de hóspedes ou ao lado da cama. o passado infesta minha vida. e o passado era cheio de sonhos.

sempre abro o guarda roupas e sento no chão para ver o que aquele espaço reservado para algumas tranqueiras me mostra. e é lá que estão as cartas. cartas que gostaria de reler, de pessoas que me fazem bem até hoje e algumas de quem me levou ao céu para soltar pouco depois que atingisse sua capacidade máxima. meu quarto cheira a passado e os sonhos que nele havia. hoje estava tomando banho e me veio a vontade de ser turista. sair pela cidade sem ter conhecimento de para onde ir ou que rua tomar ou onde comer uma boa comida sem correr o risco de uma grave intoxicação alimentar. senti falta das coisas que tive em janeiro: conhecer lugares novos por mim mesmo. ontem, ao brincar com minha carteira enquanto esperava por alguém, encontrei uma foto que deveria ter rasgado, queimado, matado. nela não havia um sorriso ou nada do tipo. era uma três por quatro datada do ano passado, dessas que se usa para fazer inscrições de vestibular. eu já deveria ter me desfeito dela, mas não consigo, ela está na minha carteira junto a outras fotos minhas. simbolizando uma coisa que já não existe há quase um ano. escrevo sobre uma coisa que não existe há mais tempo do que existiu. mas só escrevo porque a dor é universal e eterna, porque eu vivo do passado melhor do que vivo do presente e melhor do que especulo qualquer possível ou impossível futuro. senti uma vontade imensa de rasgar a foto ao meio e dizer que “ontem rasguei teu retrato, te matei e dormi”, mas seria uma mentira e uma coisa absurda. iria contra o que tento pregar de que não é assim que se supera as coisas, que descontar a frustração e raiva nas coisas que nos restou do relacionamento não é bom e que assim não aprenderemos nada. às vezes eu penso que ela sabe disso e torço para que ela não tenha rasgado ou dado ou jogado fora o livro que dei. no entanto, sei que ela já deve ter esquecido o que ele dizia e já não deve acreditar que aquelas palavras eram sinceras, apesar de serem. eu mesmo não acredito, hoje, em um quinto das palavras que ela me disse. mas acho que, ao escrever esse texto estou dizendo a ela para não crer nas minhas, já que prometi a ela que não haveria mais textos para ela. mas, ora, se ela ainda não percebeu que eu a enganei com isso – e eu não queria tê-la enganado, queria ter cumprido essa palavra, mas tudo o que senti foi maior que eu e, às vezes, eu precisava de inspiração d’algum lugar e isso parecia a coisa mais fácil a se fazer, como agora. preciso escrever porque há dez dias não escrevo e… esse é o assunto mais fácil sobre o que divagar: dor de cotovelo. e ela foi a minha dor de cotovelo mais recente. não sei se foi a que mais doeu até agora, sei que não vai ser a que mais vai doer na vida (queria eu que fosse, mas não, há muito o que ser machucado pela frente).

um dia conseguirei reler todas as cartas que ela me escreveu e rir de cada uma delas, da tolice que traziam e das doces mentiras, mas acho que hoje ainda não estou pronto para isso. prefiro que elas continuem onde estão, sem a luz do dia, sem meus olhos correndo por sua letra que me maravilhava por suas curvas. às vezes sinto falta de suas palavras, de sua alegria, de seu carinho. mas não de seu amor, não de amá-la. não do jeito que dizíamos. sinto falta ainda, como há um ano disse-lhe, de todos os momentos que não tive com ela, dos filmes não assistidos juntos, das tardes não passadas juntos conversando, das saidas à noite para qualquer lugar com som legal e pessoas legais. todas essas coisas que tenho com amigos, e não tive com ela, me fazem falta. assim como me fez falta há um ano o colo dela quando não podia tê-lo. quando pude tê-lo ela não quis me dar e hoje não mais o quero, fico feliz que ela tenha alguém que a faça feliz, sinceramente, feliz como ela não me deixou fazê-la, porque ela cria que eu não seria capaz. quem sabe, talvez, eu não fosse mesmo.

ménage à trois.

Outubro 16, 2009

as notas musicais são mais altas que o som da televisão. a voz sai das caixas de som dizendo que se eu quise-la ela estará no bar. eu acho que preciso dela como preciso desse texto. é um pouco superficial a minha necessidade, mas me faz bem saber que joni mitchell está ali por mim e eu estou aqui por mim também. eu preciso escrever para falar, criticar, me expressar de alguma forma porque ficar tempos sem escrever qualquer meia dúzia de palavras que me façam sentido está me fazendo um pouco de falta. muita, na verdade. dudu nobre está no jô, mas eu vou continuar fazendo como fiz por toda a minha vida e ignorar o que ele faz para seguir com a minha vida. e não é nem que eu não curta o samba/pagode que ele faz, se eu fosse ouvir esse estilo seria algo próximo da música dele que escutaria. é apenas… a falta de vontade de qualquer coisa. há dias eu não me sinto impulsionado a escutar música por horas. a ler por horas. em poucos minutos desligarei o meu player e verei alguns episódios de uma série de tv cancelada em 2002.
acho que nunca vi um filme inteiro do woody allen, apesar de ter um pôster dele dobrado em algum lugar do meu quarto (ganhei-o no ano passado de uma pessoa que, nas palavras do gabriel, “me fez bem e depois me pôs na lona.” e essa frase cai como uma luva) – resolvi desligar a tv para, assim, escutar melhor tudo o que ela tem a me dizer. – no pôster tem uma frase dele. eu não lembro qual é, sei que ela esteve pendurada na parede do meu quarto, na cidade para onde não quero retornar, por alguns meses. então, nessa madrugada em que eu não consigo pensar no que fazer, resolvi que assistiria a algum filme dele. a obra escolhida foi Annie Hall que, se não me engano, virou de alguma forma, “Noivo neurótico, noiva nervosa”. amanhã, creio, se tiver algum tempo, verei Annie Hall.
acabei de ir à cozinha e preparei um café com leite. olhei minhas opções e a pizza do jantar não parecia tão apetitosa assim… esquentá-la no microondas recém chegado do conserto não me pareceu a melhor opção. seria ótimo ter um biscoito doce ou uma barrinha de chocolate, mas não tenho. tenho, no entanto, café, leite e o adoçante que me acompanha desde os 12 anos. foi na cozinha, pensando em como warren ellis, grant morrison, neil gaiman e alan moore escrevem numa quantidade imensa, que resolvi voltar, tomar veronha na cara e continuar a escrever. não que eu esteja querendo me comparar a esses geniais filhos de umas éguas que eu admiro e invejo (warren ellis está entrando pro hall de roteiristas que eu respeito aos poucos, neil e alan fundaram esse hall e o grant me conquistou com algumas das obras quadrinísticas mais loucas que eu já li – e uma das mais lindas, All Star Superman. longe de mim chegar perto desses casas, mas é que a dica de qualquer escritor para novos escritores é: “escreva todo dia”. e eu não escrevo todo dia, cara. eu não escrevo de verdade há semanas. eu não teria sobre o que escrever todo dia e, quando me peguei pensando nisso, percebi que eu deveria realmente escrever todo dia. nem que fosse sobre a bunda de alguma garota que passou por perto de mim naquele dia e eu reparei. (há um conto parado, por sinal, vinte e oito ou vinte e nove dias da minha agenda do ano passado, sobre um relacionamento fictício pateticamente inspirado por uma garota linda dos cabelos longos e castanhos escuros, pele branca e uma bunda maravilhosamente redonda e grande e linda e de uma mancha no rosto que uma vez eu vi na fila da saraiva ajeitando a calcinha sonoramente – a onomatopéia pléc se encaixaria muito bem aqui – e depois disso comecei a encontrar com ela na faculdade. ela não faz medicina, já tentei descobrir, à distância, qual curso ela faz, mas falhei entre economia e alguma engenharia. ela é sensacional, do tipo colírio, um rosto de garota má, olhar frio e concentrado, do tipo capaz de reduzir um homem a nada se quiser. mas ela tem um macho.) meu café com leite esfriou loucamente enquanto escrevi tudo isso de uma vez, trouxe também para me acompanhar por essa noite uma garrafa de um litro e meio de água. será uma longa noite, como todas as outras da semana têm sido.
meu celular não toca desde as 18:40 e era minha mãe. antes disso ela me ligou às 14:00, 14:05, 14:10 e 15:00. antes disso a última ligação é da noite passada e era retornando uma ligação que eu havia feito para convidar uma amiga para ver um jogo num bar. o único som que ouço é o do ar condicionado. desliguei o som antes de ir à cozinha, quando me decidi que veria seriados pelo resto da noite. está claramente perceptível que eu não sou um dos seres mais decididos do mundo. eu chego a sentir falta em alguns momentos de alguma voz além das que falam na minha cabeça, aquelas que dizem: agora você deve falar sobre isso e isso e isso. até elas estão caladas ultimamente. desde pouco antes delas irem embora eu andava confuso, sentindo falta de coisas que eu não sei o que são, que talvez eu nunca tivera, mas que desejara. é a época do ano. ano passado lembro de ter sido atingido por sentimento semelhante, mas eu tinha meio que um jeito de deixar a loucura escapar sem me sentir culpado e sem ser ignorado. era bom. há tempos não escrevo uma carta que não seja um presente de aniversário e eu me sinto mal por isso, me sinto culpado por achar que não conseguirei nunca mais escrever 11 folhas de papel, frente e verso com minha letra miúda e enviar tudo num só envelope gordo pelo correio. eu temo nunca mais conseguir arrancar tanto assunto do nada como antes eu conseguia. e até nos meus versos eu vejo a repetição extrema e o cansaço. eu não consigo enxergar nada de novo neles e me entristeço e decepciono por pensar que talvez eu não consiga mais criar tiradas sagazes, fazer trocadilhos inteligentes e essas coisas que antes eu conseguia com uma certa frequência. é tudo muito estranho e bem ruim. me sinto frustrado por não sentir o tesão que meus colegas sentem por estudar o que estudamos, e sinto um medo enorme por saber que essa é a única coisa pela qual eu realmente senti tesão por toda a vida. é como passar a vida inteira querendo comer a megan fox e a scarlet johanson ao mesmo tempo e, na hora das preliminares, quando a johanson está com o seu pau na boca e a megan está mandando ver um belo oral na scarlet, ao invés de pensar que é o cara mais sortudo do mundo, você pensa que talvez devesse ter ficado mesmo com aquela menina que dizia que te amava lá na sua cidade, e não ter celebridades disputando pra ver quem vai sentar em você primeiro. é triste, muito triste.
meu café com leite que, quando preparei, estava morno devido ao leite gelado e o café não muito quente, agora está frio como a água gelada que eu trouxe para o quarto e esquentou. o tempo vai estragando tudo. a água, o café e a vida.

“os dedos entrelaçados já não dão-se as mãos.”

Outubro 7, 2009

é uma cena normal, os dois de mãos dadas, dedos entrelaçados. a velha pintura que todos sabemos de cor e salteado, o casal pode ser formado por quem quisermos, nós – nós e nossas amadas, amantes, namoradas, esposas -  nossos amigos e suas digníssimas ou digníssimos, nossos familiares, pais, avós, tios, qualquer um que seja capaz de fazer um par com alguém. há alegria e cumplicidade naquela imagem, de uma forma que não se consegue apenas explicar em palavras, que é preciso sentir algum dia a vontade de segurar a mão de alguém para saber explicar. o sol se põe n’algum ponto que ninguém vê direito, mas sabemos que está na hora do crepúsculo pela tonalidade das cores na pintura. o casal usa roupas normais de um fim de tarde onde quer que estejam passeando (porque, sinceramente, isso não importa, o como estão vestidos, quantas pessoas estão ao redor, se neva ou chove, se é no brasil ou na argentina ou na argélia ou nova zelândia, a cena é igual e se repete todo o santo dia entre casais, é um simples entrelaçar de dedos.). a idéia central dessa paisagem está ali nas mãos, nos dedos. elas se tocam, eles se entrelaçam, como se as duas pessoas procurassem de uma forma simples, se tornarem apenas uma.
ele sente a vontade de estar com ela. a tarde inteira foi maravilhosa, haviam se divertido, conversado sobre tudo o que poderia imaginar ser possível se conversar com uma pessoa do sexo oposto. não! com qualquer pessoa. haviam falado de medos e certezas, de risos e lágrimas, haviam falado sobre música boa e ruim, drogas boas e ruins, livros bons e ruins. diabos! tinham falado sobre quadrinhos e discutido a diferença entre os dois maiores roteiristas do mundo na opinião de ambos (apesar dela preferir as coisas de um e ele as coisas de outro). haviam falado sobre o lirismo de um e a crítica política de outro e como ambos possuiam a incrível capacidade de serem líricos sem serem piegas e ele ainda falou sobre como ele acha que em um você consegue encontrar mais do ser humano no super herói e n’outro você encontra mais do herói no humano. falaram sobre como o cinema consegue transformar grandes quadrinhos em puro lixo (e ele era um pouco mais liberal quanto a isso. apesar de achar que muitas coisas se tornaram a maior porcaria cinematográfica que poderiam virar) e em como os grandes estúdios só querem saber da grana que os heróis geram e que pouca gente está cagando para as histórias. e ele falou sobre como hoje em dia o rock n roll não é mais tão cheio de sentimento e energia quanto nos anos sessenta ou setenta – apesar de nenhum deles ter chegado perto de viver essas décadas – e que havia poucas bandas para as quais se dar valor atualmente. e ela discordou. foi nesse ponto que ele teve sua decepção com ela, sua grande decepção: ela começou a listar bandas novas e músicas novas que ele devia escutar e ela dizia nomes que ele nunca iria aprender, bandas que ele nunca pensaria em sequer conhecer, e ela falava e falava sobre como eles eram a nova vanguarda e como não perdiam em nada para as bandas de antigamente e, num momento, ela quase arrancou seu coração ao dizer que adorava a maldita música eletrônica (ele costuma dizer que aquilo não é música, mas barulho). apesar de tudo isso, riram e se divertiram enquanto discutiam as melhores frases de seriados da adolescência de ambos e se perguntavam um ao outro qual era o melhor personagem e trocavam novas informações sobre as coisas novas que um via e o outro não e terminaram anotando um no celular do outro o nome de uma ou duas séries de comédia que o outro deveria assistir. e, n’algum momento, entre uma risada por causa de uma lembrança boba que ela trouxe ou um simples estar parado observando a beleza dos olhos dela, ele pensou em como aquelas horas todas haviam passado sem que ele notasse e em como havia tempo que não se divertia tanto com apenas uma pessoa, que há uma quantidade demasiada grande de tempo havia passado desde a última vez em que não se entediara com uma conversa de mais de quinze ou vinte e cinco minutos. eram quase cinco da tarde e ele estava ali, conversando com aquela mulher, há quase quatro horas sobre coisas que antes pensava serem impossíveis de se conversar sem esquentar a cabeça com a outra pessoa. foi enquanto a via rindo de alguma situação que ele contara – ou ela. não fazia diferença, de verdade, quem falara o que – que ele sentiu um impulso enorme de segurar aquela mão branca que se agitava à sua frente. segurá-la e entrelaçar seus dedos com os dela, talvez beijá-la e simplesmente ficar assim por um tempo. tempo o suficiente para que se sentisse bem e confortável com aquela situação. mas no exato momento em que encaminhava sua mão na direção da dela, pensou que talvez aquela não fosse a coisa certa a se fazer, que talvez ela não quisesse sua mão junto da dele, que talvez ela não achasse confortável aquela situação, que seus dedos ficariam melhores livres dos dele. então, no meio do caminho, a mão que ia certa na direção da dela, com medo da rejeição, exitou e vacilou, procurou outro caminho, um novo objetivo, um bolso da calça, um copo sobre a mesa, uma coçada inocente numa parte do corpo, uma saída estratégica de uma possível humilhação. sim, humilhação porque ser rejeitado é sempre humilhante.
ela sente a vontade de estar com ele. com ele, ela se sente à vontade de falar sobre coisas que com outros homens ela simplesmente calaria com medo de ser considerada estranha demais: seus gostos… tanto para música quanto para literatura… ela quase não se controlou quando ele, enquanto falavam sobre um dos livros favoritos dos dois recitara pequenos trechos de alguns dos capítulos favoritos dela. e sentiu que aquilo que tinham, a incrível forma como se conectavam, falavam entre si através de referências à cultura pop, só aumentava mais e mais quando passaram quase uma hora discursando sobre quadrinhos e a importância da nona arte para ambos. ela fala com ele sobre seus filmes favoritos e não recebe um “nunca ouvi falar” como resposta. muito pelo contrário, ela consegue reproduzir cenas inteiras puxando pela memória de ambos. ela sente, a cada minuto que passa, que se sentasse para assistir a um filme com ele, ouviria comentários irônicos que poderiam irritá-la, mas que, na verdade, a fariam rir no final de tudo porque ela iria perceber que tudo o que ele comentou, por mais maldoso e irritante que tenha sido, foi bem verdade e que aquele personagem tão sério, que ela adorou e achou extremamente complexo e completo, realmente é um psicólogo frustrado com sua incapacidade de ser um psiquiatra como tantos que vemos fora das telas e que ela conhecia tão bem, os velhos clichês que só a vida pode nos oferecer. com ele ali à sua frente, seus olhos castanhos que passam confiança e seu sorriso seguro, ela sentia que havia uma conexão que poucos antes conseguiram, mesmo ela sabendo que ele era o tipo de cara que preferia passar a noite segurando um joystick e apertando botões ao invés de sair para dançar com ela numa sexta à noite, ela sentia que havia um link entre eles que não podia ser derrubado facilmente, nem mesmo quando ele disse que o sentimento de verdade estava no brega, na música de amor, de corno e que quem nunca foi corneado não sabe o que é sofrer de verdade por causas do coração, ou quando ele afirmou – e aqui ela teve que engolir um pouco uma pequena regurgitada que ela deu, ao menos foi o que ela disse “okay, depois disso acho que vomitei um pouco por dentro.” – que certas boybands têm músicas boas, bem melhores do que boa parte das bandas que ela clamava serem legais e quase o estapeou quando ele abriu a boca para dizer que “cry me a river” era melhor que “kool thing”. na verdade, ela pensou em largar toda aquela conversa, pensou naquela ofensa e em levantar e se afastar daquele ser bizarro. mas ele ria enquanto assistia à sua reação. isso meio que a acalmou e a fez repensar tudo e viu que abandonar aquele cara ali por causa de uma incompatibilidade cultural não era a coisa mais inteligente a fazer, já que para cada item não compatível havia cerca de cinco ou seis que batiam com um sincronismo tão perfeito que parecia inacerditável. “por deus”, ela pensou, “esse cara sabe as melhores cenas de filmes, os melhores trechos de livros, os melhores episódios de seriados, não se pode ter tudo e querer que ele também saiba sobre as melhores músicas. isso eu posso ensinar a ele.” e se pôs a ensinar a ele que as melhores bandas do mundo eram todas aquelas que ele não conhecia. e que não era subestimando as grandes bandas que ele conhecia, mas é que todas elas eram tão antigas que soavam como uma avó cantando para ninar os netos. ela achou, no entanto, que essa metáfora o irritou um pouco. chamar led zeppelin de música de avó foi demais até para ela, que riu e pediu desculpas dizendo que a banda era simplesmente perfeita, mas que havia muitas outras coisas tão perfeitas quanto, ou até mais, fazendo turnês pelo mundo. ele pareceu realmente afetado com aquilo, tomando sua cerveja com olhos voltados para o copo e sorrisos cada vez mais contidos para ela. foi então que ela sentiu a vontade de dizer a ele que não queria que aquilo os afastasse, a vontade de se aproximar dele, segurar sua mão e deixá-la ali, junto da dele. e foi então que sentiu o medo de que isso não fosse possível devido às suas críticas musicais um tanto exageradas. medo que seus dedos pequenos nunca encontrassem os longos e grossos dedos morenos daquele homem que conhecera naquela tarde incrível. ela pensa em extender a mão e entrelaçar seus dedos com o dele, assim, do nada, objetiva como nunca havia sido em toda a vida, mas não conseguiu. sentiu que esse passo devia ser dado por ele, que se ela fizesse mostraria um interesse por alguém que não a buscou e, para ela, a ausência de busca quer dizer a ausência de desejo. para ela, ele não a queria porque não segurava a mão vazia dela entre as suas.
é uma cena normal, os dois de mãos dadas, dedos entrelaçados. a velha pintura que todos sabemos de cor e salteado. nada disso está acontecendo. nenhuma mão sente o calor da outra, o frio começa porque o sol se põe e ambos estão sentados em cadeiras distintas. a noite está chegando trazendo uma lua que míngua como os ânimos de ambos. a conversa que durou horas, toda uma tarde, está sem energia, fraca como meia dose de vodka com refrigerante quando a intensão de tudo é embriagar alguém. a festa continua para todos, todos riem, ele ri, ela ri, mas mal riem juntos como nos tempos áureos que passaram juntos. as horas passam e passam se arrastando minuto a minuto para ambos. cada segundo em silêncio, para eles, era um grão de eternidade que caia na ampulheta. antes se perdiam um no outro, olhos nos olhos, agora, se perdiam em suas bebidas até que ele diz que está ficando tarde e deve ir embora, perguntando a ela como é que ela vai embora e ela diz que vai de carona com um amigo que está planejando ficar até mais tarde. eles se despedem com dois beijos nas bochechas e um “nos vemos por aí” depois que ele se despediu de todos os outros da festa. ela o vê indo embora e se decepciona consigo por não ter se atirado pelo menos dessa vez e segurado a mão dele, feito suas mãos se encaixarem. ele caminha pela porta, decepcionado consigo pela covardia, por não ter conseguido daquela vez, e nunca, a coragem necessária para superar seus medos e suas frustrações e simplesmente ter segurado aquela mão. era apenas uma mão. o que uma mão pode significar, no final das contas?

Árvore.

Setembro 23, 2009

há uma árvore localizada numa esquina entre a porta do apartamento onde passo partes da minha vida sem ter vontade de chamar de lar (e às vezes quase temendo um dia tê-lo que fazer, mas logo afasto tal pensamento tenebroso de mim) e o local onde param os ônibus para me levar para a única razão de eu ter entrado nesse inferno de cidade. essa árvore não é gigantesca, não chega a tocar nos fios da rede elétrica ou do telefone, mal se diferencia de todas as outras árvores dessa cidade. suas folhas não são verdes e belas e lustrosas como as folhas da exuberante e rica flora dos trópicos, mas folhas amareladas que, muitas vezes, caem no chão, são pisoteadas, espalham seus pedaços mortos por aí. seus galhos projetam sombras não muito sólidas, não seguras, como se a qualquer minuto um raio de sol fosse capaz de atravessá-los e acabar com toda e qualquer proteção contra o calor e a luz do sol. o tronco da árvore se projeta de seu canteiro irregular, as pedras que um dia foram cuidadosamente dispostas num mosaico preto e branco no chão ao redor do buraco onde já fora possível ver terra e um pequeno caule verde – há muito, muito tempo, tempo demais para que eu saiba quando, tempo demais para qualquer um que a note ou se importe saiba – já não são mais dispostas de uma forma a deixar o chão plano como deveria. milhares de pés já pisaram naquelas pedras, há algumas pedras que não se encaixam mais, há aquelas perdidas no tempo, esquecidas no espaço entre uma passada e outra, um tropeço e outro. as pedras que viajaram da calçada para a rua, onde os carros as arrastam, onde as chuvas as lavam e levam direto para os bueiros, onde o sol jamais poderá tocá-las. junto com as pedras quebradas, vão também algumas amêndoas caídas, os frutos do suado trabalho da árvore, prontas para nunca viverem. apesar de sua aparência fraca, suas raízes, no entanto, são fortes, a parte que parece ser a mais resistente de si, capazes de quebrarem o cimento e a calçada e penetrarem no asfalto, prontas para sugar para si os nutrientes bizarros que só a cidade com sua poeira e calor e seus esgotos e poluição pode oferecer.

há uma árvore no caminho. no caminho da minha vida há uma árvore. e essa planta que poderia ter tantos odores, tantas boas fragrâncias, o perfume delicioso das rosas ou dos cravos, margaridas, maracujás, limões, tem cheiro de gente. todas as vezes que passo por ela é como se passasse ao lado de uma pessoa, porque é o fedor delas que sinto: o fedor de urina e fezes e lágrimas e suor, tudo junto e misturado, empestando aquela esquina, fazendo aquela árvore – que poderia muito bem ser um belo pé de amêndoas, aquelas que nunca são colhidas dos galhos, mas sempre estão pintando as ruas e calçadas e todos os arredores de onde quer que cresçam – ser uma árvore gente. talvez seu jardinheiro tenha sido jesus ou um dos grandes revolucionários espirituais, um dos grandes pilares das crenças ocidentais, talvez não. as amêndoas são pessoas caídas e espalhadas na área ao redor da árvore. sempre que passo por sob sua copa nem um pouco frondosa, encontro em suas raízes alguns frutos caídos, talvez esperando para serem germinados, esperando a vida crescer dentro deles para que, assim, tornem-se algo mais que simplesmente frutos caídos de uma árvore – sonhos de talvez serem eles próprios, um dia, árvores que farão seus próprios frutos e os espalharão pelo mundo como sua árvore mãe o foi -, talvez esperando que a idéia de vida simplesmente desista deles enquanto há tempo e os deixe somente como a casca para serem facilmente reabsorvidos por quem os fez. os galhos da árvore se estendem como se fossem braços buscando algo que nunca conseguem alcançar, como dedos que tateiam na escuridão por algo que não conhecem. esperança, talvez, ou apenas expressem, em sua tortuosidade o desespero e confusão da sua situação. o tronco enrugado da árvore parece o corpo de um velho trabalhador braçal, a pele dura cheia de frestas, seca e quase completamente morta, tornando-se inacreditável achar que por baixo dela corram em vasos pequenos, frágeis e finos os líquidos responsáveis por trazer a vida a toda aquela obra da natureza. as poucas folhas verdes que o sol tocava sem que as danificasse alimentavam e árvore, criavam seu alimento, sua energia, faziam suas trocas, seu metabolismo, viviam porque foram condenadas a isso.

há uma árvore numa esquina de uma cidade. ela poderia ser mais uma árvore em mais uma esquina de mais uma cidade grande – cheia de seus atraentes outdoors e suas belezas antinaturais nos distraindo de tudo o que é natural e belo – se eu não a tivesse notado, se eu não tivesse sentido o seu cheiro, se não tivesse reconhecido que aquele era o odor que emanava não de amendoeiras, mas de pessoas. há milhares de outras pessoas que, como eu, passam todos os dias por essa árvore, a vêem, mas não entendem o significado do que enxergam, simplesmente passam por ela para seguir suas vidas, como todos, não sabendo diferenciar – ou pior, talvez nem mesmo se importando – se aquilo caído no chão, à sombra da árvore, perto da poça de urina escura, é uma amêndoa ou um homem que precisa ser ignorado para que a vida continue seguindo como sempre se seguiu até aquele momento. essa esquina acordava abarrotada com frutos caídos ao chão, frutos sobre frutos, frutos fazendo mais frutos, mas hoje em dia os frutos são cada vez mais raros ao seu redor. e é por isso que hoje eu espero. espero um dia fazer o velho caminho da árvore e não encontrá-la mais por lá. encontrar um tronco partido, vários nós vistos por dentro, contá-los-ei, saberei a idade da árvore, mais ou menos quanto tempo ela frutificou. nunca saberei, no entanto, de seus frutos espalhados por aí, se todos eles morreram onde nasceram ou se cresceram e se tornaram melhores, as poucas amêndoas não ignoradas. as poucas frutas que não caíram podres ao chão.

“ser teu pão, ser tua comida.”

Setembro 12, 2009

eu queria ser o teu desejo. sabe quando a gente acorda e a primeira coisa que a gente pensa é em como gostaria que a primeira coisa que a gente visse fosse a outra pessoa, que a primeira coisa a se sentir fosse o corpo quente ao nosso lado? pois bem, eu queria ser a pessoa que você deseja que esteja ali contigo para sentir teu olhar preguiçoso de manhã, ouvir tua voz ao acordar e rir quando você disser que está soando como um travesti bêbado. vou te dizer que nem saberia dizer, já que eu nunca acordei ao lado de um travesti bêbado e você me diz que não é com ele acordando, mas sim bêbado, apenas. e eu direi que, mesmo assim, sob essas condições, eu nunca estive com um travesti. eles nunca fizeram meu tipo. e você vai rir da minha idiotice e me perguntar qual o meu tipo. e eu vou dizer a verdade pra você e abrirei um sorriso ao te ver fechando o rosto por não me ouvir falando que “meu tipo, mulher, é você.” daí, vou tentar te beijar e você vai se levantar e se afastar de mim correndo para escovar os dentes e eu vou te seguir para tirar o gosto de sono da boca. então, no banheiro, tocamos nossas línguas de hortelã e espumamos como cães raivosos, rosnamos um para o outro só pela brincadeira e pelo prazer do riso. para mim, é sempre bom ouvir o teu riso, mulher. a tua risada ao acordar é como música boa quando se precisa, uma sinfonia inteira do beethoven, um minueto de chopin, um solo de guitarra do hendrix ou como o baixo do entwistle, a bateria do bonham, milhões de outras alusões a músicos fodas e a bandas que mandam no meu coração como você o faz. então voltamos ao quarto e ficamos por lá até criarmos coragem de ligar para algum lugar que queira nos alimentar por uma quantia módica nesse domingo preguiçoso. esperamos a comida chegar jogando baralho na cama e eu estou perdendo minha cueca quando a comida chega. você ainda está completamente vestida. você quer que eu atenda a porta nu e eu digo que não vou atender a porta nu porque isso é crime e eu não posso ser preso ainda. você ri e diz que eu sou fraco demais e eu admito que sou fraco mandando você ir para a cozinha pôr os pratos e os talheres na mesa. nos alimentamos, te pago a minha cueca e o almoço me trouxe boas mãos, consigo te deixar nua depois de algum tempo. o telefone toca algumas vezes e nós ignoramos. o tempo passou rápido demais e o faustão já diz adeus. você implorou a tarde toda para não ligar a tv, mas eu quis te mostrar como tudo aquilo era engraçado, como a tv da massa realmente consegue fazer domingos serem os piores dia da semana. eu ri do teu desespero ao ouvir o boa tarde do faustão, ri do teu alívio quando desligamos o aparelho para irmos dormir porque no outro dia teríamos trabalho, como sempre, já que a vida sempre segue do jeito sem graça de sempre. eu durmo ao teu lado pensando em como quero ser teu desejo.

eu queria ser o teu desejo como você é o meu. queria que você pensasse nas coisas como eu penso, de uma forma pervertida e devassa. queria que você pensasse que eu sou o único homem que você quer que estimule teu clitóris – seja com dedo, língua ou na fricção do meu pênis no teu canal vaginal -, quero que você deseje meu falo dentro de ti. ele e somente ele, porque ele pode muito bem resumir quem sou às vezes. você pode resumir qualquer homem a seu órgão sexual por pelo menos uma hora do dia sem se sentir mal por isso, você sabe muito bem disso, minha querida. alguns de nós negarão, mas eles mentem. acredite em mim quando digo essas coisas. aliás, acredite em mim sempre, porque eu não tenho motivos para mentir, porque eu acredito na verdade, doa a quem doer. você me conhece melhor que todas as outras mulheres que já tive, porque você sabe o que aconteceu depois delas, você sabe o agora e sabe o antes delas também, você sabe o tamanho do meu pau e, infelizmente – ou felizmente, até -, poucas o sabem. então, é isso que quero, meu bem, que você deseje me ter inteiro dentro de você, saborear meu sêmen e engolí-lo, mesmo que você nunca tenha engolido nada de ninguém, quero que você me peça para ejacular na tua boca para você me sentir quente descendo pela tua garganta. quero que você me deseje pelo ogro que sou, pela insensibilidade e pelas ordens e pelo desprezo que tenho por certas coisas tuas. quero que me desejes para ser teu macho, para te dominar e te deixar no chão pronta para mim. quero que você me queira para realizar comigo os teus desejos sexuais e não sexuais, para segurar minha mão e apertá-la forte quando se sentir com medo de alguma coisa qualquer – de um cachorro, uma barata, o escuro, a morte. quero que você deseje a minha mão nessas horas todas, porque saberá que serei o teu amparo e consolo e que estarei contigo para deixar as lágrimas caírem, porque todas devem cair, e enxugá-las quando for a hora certa de fazê-lo.

então, mulher, meu bem, docinho, amada, rolinho de beterraba, ou como quer que seja que você prefira que eu te chame, eu desejo ser teu desejo mais que muita coisa no mundo. desejo porque sinto que assim será melhor para nós dois. sinto isso quando fecho meus olhos e é você quem eu vejo, você quem ouço gemendo, você que quero com a boca ao redor do meu pau. é de você que eu lembro quando ouço uma música que nunca antes me lembrou alguém e ninguém ligaria aquela melodia ou letra a você, mas eu o faço porque ela é linda e triste, como você. e é também de você que lembro quando vejo um filme genial e penso que se fosse eu e você ali, eu certamente atiraria na tua testa se você fosse mordida por um dos despertos quando chegasse o despertar, em você que penso também quando vejo filmes idiotas e sinto que aquela hora e meia teria sido muito melhor gasta se você estivesse comigo assistindo àquela porcaria. quando te digo todas essas coisas, é porque todas elas foram sentidas e pensadas antes de serem expostas e ditas aqui pra você, saiba disso.

eu queria ser o teu desejo assim como você é o meu. não me leve a mal. eu sei que as coisas nunca são como deveriam ser, há muitas teorias – teorias demais – para se encaixar em apenas uma realidade. um amigo meu tem algumas idéias interessantes sobre a realidade. de acordo com ele, ela é sempre mutável de alguma forma, uma não muito boa. um dia me aprofundarei melhor nelas, talvez, hoje eu quero realmente ser o teu maior e único desejo.

A primeira vez. (texto de 04 de maio de 2009, 3:11 a.m.)

Setembro 1, 2009

a chuva caindo lá fora me traz hoje lembranças da primeira vez que eu a vi. era uma noite escura e eu havia passado muito tempo preso num lugar desconhecido, esperando uma curta estiada, uma breve trégua nessa luta dos céus, para que eu pudesse fazer meu caminho pela rua. trovões e relâmpagos cortavam a noite, tornando-a turbulenta e revelando formas que as sombras escondem. eu estava molhado, minhas roupas grudavam no corpo, revelando tudo o que sempre tento esconder: o peitoral mal definido, quase ginecomástico e a barriga protuberante. mal enxergava um palmo na minha frente, com ou sem óculos, não fazia a menor diferença naquela noite, porque as gotas se acumulavam nas lentes de resina, atrapalhando a visão quase tanto quanto os três graus de miopia e o astigmatismo que me faz ver a vida através de uma névoa constante que teima em esconder e distorcer as formas das pessoas e objetos.

a chuva escorria pelo meu rosto de traços toscos e irregulares, acumulava-se de alguma forma na minha barba rala que crescia naqueles tempos e adicionava uns poucos anos às minhas feições. era uma noite ótima para se passar em casa, deitado na cama com um bom livro, uma boa música, uma boa comida, uma boa bebida, uma boa mulher. era uma noite para se perder entre as cobertas e só se encontrar no sonhar. eu poderia dizer que foi assim que a conheci. poderia confessar que foi dessa maneira que a vi pela primeira vez: nos sonhos que tive em noites como aquela. mas eu não falo disso. seria mentira. na verdade, dizer que conhece uma pessoa sem conhecer o cheiro e o sabor de sua pele, a cor e o brilho de seus olhos e a elegância e o charme de seu caminhar é contar mentiras a quem quiser ouví-las ou lê-las. eu não faço dessas coisas. enganar é juntar-me a tantos que não quero ao redor. falo aqui da verdade, da noite chuvosa em que me molhei por inteiro (e comigo estava parte do que sou, parte da minha casa, parte das coisas que deixei para trás para ali estar) , de quando senti seu cheiro pela primeira vez (e o cheiro dela me marcou como poucas coisas marcam um homem, como poucas mulheres conseguem assinar na memória de um homem), de quando soube que sua pele era salgada de verdade, apesar de tudo o que chamávamos um ao outro, seus lábios eram salobros como a água dos rios onde me banhava nos fins de semana longínquos da minha infância.

antes daquela noite, que se parece com a que temos agora lá fora, eu não conhecia nada dela além de sua voz. antes daquela noite ela era uma idéia. há algo a ser tocado além da voz e seu olhar paralisado a milhares de quilômetros de mim. então, aqueles olhos vívidos estão agora a poucos centímetros de você, brilhantes, cheios da água que não transborda porque ainda não é a hora, mas que alguma hora certamente será. há algo em ser tocado por um olhar que nos faz pensar. digo… quando se olha pela primeira vez, ao vivo, alguém que só nos vinha em sonhos e se é olhado em retorno… deus, eu quase chego a acreditar. não há sensações semelhantes para se comparar e me fazer claro.

a chuva pingava do meu queixo e percorria o longo caminho até o chão. eu caminhava cabisbaixo, quase sem me preocupar comigo. o mundo não existia mais para mim até que a encontrei com seu guarda chuva. havia um sorriso em seu rosto. algo que dizia muito sem dizer coisa alguma. parecia muito bem me dizer “estou aqui, vem comigo que não haverá mais chuva no teu caminho, não haverá mais nuvens no teu céu, vem comigo que eu te prometo um dia seco e quente comigo.” ela sorria debaixo do seu guarda chuva, parada na esquina, esperando o sinal fechar. cheguei ao seu lado e, quando olhei bem para ela, notei que seu sorriso não era bem um sorriso, era sua expressão constante, como se tudo fosse parte de uma grande piada da qual ela sempre acha graça, mesmo quando ela sabe que não há motivos para o sorriso. por um breve momento, então, senti calor naquela noite fria. ela reparou em mim, estranho, desengonçado e feio, parado ao lado dela. viu-me como, gostaria de acreditar, nenhuma outra antes me viu. ergueu suas sobrancelhas, franzindo a testa, olhou-me nos olhos com a mesma expressão do aluno do ensino médio que tenta encontrar a solução de uma equação de segundo grau de cabeça. sem dizer uma palavra, atravessou a rua com o sinal ainda verde. não havia carros passando quando ela pôs o pé na rua, porém, quando foi minha vez, para continuar perto dela, um carro dobrou a esquina e quase me atropelou, deixando-me extremamente sujo de lama.

a chuva lá fora já parou, mas as lembranças continuam num jorro ininterrupto de imagens e sons daquela noite. imagens que sou incapaz de reproduzir em palavras ou desenhos ou qualquer outra maneira. fui amaldiçoado quando jovem. rogaram sobre mim a maldição de jamais saber como transmitir aquilo que se quer transmitir, jamais sendo capaz de compartilhar com o mundo as idéias e as lembranças da beleza que vivem na minha memória e na imaginação. aquele dia nunca estará num amontoado de palavras ou numa gravura qualquer. aquela noite e todas as outras noites repletas de beleza estarão sempre e somente na mente incapaz e falha desse que escreve.

não parece certo para mim jamais poder dizer como ela era linda e como cheirava bem e tinha tanto um gosto bom quanto um fascinante bom gosto. até hoje, seu perfume nunca ficou tão bem em outra pessoa. não me parece justo ela sempre ir embora sem que eu a conheça. não me parece justo sempre chover nas minhas lembranças. eu sempre penso no que seria se não fosse um dia de chuva, se eu não estivesse tão abatido, se ela não tivesse atravessado, se  aquele carro nunca tivesse quase me atropelado. eu sempre penso no “e se…” para não ter que viver o “mas agora…”. as infinitas possibilidades do “tudo o que podia – quase devia – ser e não foi” me fascinam mais que a entediante realidade.

a chuva não cai mais lá fora. aqui dentro ela continua, não pára, ela neva no meio do verão. lá fora está molhado das gotas que caíram e não caem mais. cada uma delas, escorrendo pelo chão, me trazem o teu cheiro. aquela foi a primeira vez que a vi. houveram outras vezes, vezes que a conheci melhor, vezes que a desconheci, vezes em que ela foi embora e uma única vez em que eu fui embora para nunca mais voltar.

mas hoje… hoje é a noite de lembrar da primeira vez.

a chuva caindo lá fora me traz hoje lembranças da primeira vez que eu a vi. era uma noite escura e eu havia passado muito tempo preso num lugar desconhecido, esperando uma crta estiada, uma breve trégua nessa luta dos céus, para que eu pudesse fazer meu caminho pela rua. trovões e relâmpagos cortavam a noite, tornando-a turbulenta e revelando formas que as sombras escondem. eu estava molhado, minhas roupas grudavam no corpo, revelando tudo o que sempre tento esconder: o peitoral mal definido, quase ginecomástico e a barriga protuberante. mal enxergava um palmo na minha frente, com ou sem óculos, não fazia a menor diferença naquela noite, porque as gotas se acumulavam nas lentes de resina, atrapalhando a visão quase tanto quanto os três graus de miopia e o astigmatismo que me faz ver a vida através de uma névoa constante que teima em esconder e distorcer as formas das pessoas e objetos.

maria engolia.

Agosto 27, 2009

era uma vez uma mulher que engolia. começou a engolir cedo. no início insistia com as coisas normais, líquido amniótico e coisas do tipo. assim que saiu de onde todas as pessoas do mundo saem e quase todos os homens passam a vida tentando entrar, começou a engolir o leite da mãe: o primeiro, mas não o preferido, e certamente não o mais consumido ao longo dos anos. o tempo foi passando e ela foi desenvolvendo suas habilidades de engolir, fazendo-o cada dia mais e mais. enchia a boca, às vezes, até não caber mais nada, até o fundo da garganta, até quase vomitar, mas não o fazia e terminava sempre engolindo tudo. enquanto crescia ia conhecendo novas coisas para se engolir, novos sabores, o doce, o amargo, o salgado, o azedo, o ácido e a adstringência. estava na entrefase menina-mulher, a chave de cadeia de muito marmanjo, o momento exato em que se descobre que a vida tem muito a oferecer além daquelas coisinhas que vinha colocando dentro de si até então, havia os prazeres e as dores e ela queria absorver tudo o que podia, havia demasiada gula em sua alma, queria engolir o mundo e estava num momento  em que acreditava ser capaz, quando a fome de vida ainda não faz engolir os pequenos regurgitados de tédio, e o estômago faz por bem embrulhar tudo numa náusea só, era uma vez uma mulher que engolia.
dias passavam enquanto ela crescia e se tornava um projeto de alguém. e em nenhum desses dias maria, porque esse era seu nome e nenhum outro nome ela teria se não esse mesmo, deixou de engolir sequer uma vez. havia em seu olhar um constante desejo, uma vontade intensa e imensa de querer aprender sobre a vida, as inúmeras formas de se devorar e se engolir. quando tinha fome, engolia os sólidos, quando tinha sede, engolia os líquidos. com ela sempre foi assim e não havia outro jeito de sê-lo. às vezes, parecia impossível saciar seus desejos, às vezes parecia não ter nenhum. a vida com ela era de extremos com apenas uma constante: o engolir. não havia disfagia (progressiva ou não) ou odinofagia que a fizesse parar de engolir. engolia todos os dias, para crescer, para aprender, para passar o tempo, para o que quer que fosse. e por entre os dias ela vagava em cima de passos tão certos quanto os vapores dos cigarros que ela fumava só por odiá-los nas bocas alheias, mas ela engolia a fumaça, nos bares todos – entre um copo de álcool e outro, enquanto ficava ébria como achava que todos deveriam sempre estar -, com todos amantes e amigos, e um dia trouxe a fumaça para si. engolia-a com uma fúria só sua, como se o mundo inteiro fosse culpado por aquela fumaça, pelo escurecimento dos seus pulmões. ela engolia outros tipos de fumaças, todos os dias, a cidade grande lhe fascinava por oferecer tantas oportunidades de engolir as coisas novas que ela tanto sonhara conhecer, explorar o desconhecido. foi na cidade que aprendeu que a vida que queria não era como em seus sonhos de menina moça, as coisas não seriam todas maravilhosas e fáceis de engolir. com o tempo passando e nada aparecendo além de pequenas rugas em sua pele, ela entendeu que o mundo era grande demais para ser engolido e que tudo o que tinha era muito pequeno. percebeu-se impotente diante de tudo o que a cercava, notou que sonhos às vezes permaneciam na terra de morfeus e de lá não se moviam e foi se decepcionando com o mundo, percebendo que não havia dignidade. sentia-se suja, havia em si uma imensa vontade de ser punida. punida para conquistar a redenção. por uma razão qualquer, queria pagar de alguma forma por tudo o que engolia. como se cada vez que houvesse engolido alguma coisa, tivesse pecado, e com seu sofrimento e a humilhação, alcançaria a redenção que buscava. queria ver seu próprio sangue jorrar, suas lágrimas cairem e se misturarem a outros líquidos viscosos, sentia vontade de engasgar, porque acreditava que se tornaria merecedora de tudo o que um dia engoliu e do que engoliria. assim, com esse desejo de autodepreciação, foi que ela conseguiu vários amantes, alguns amigos, todos prontos para explorar suas vontades de engolir, seu estranho desejo de rendição. arranjou várias cabeças, vários corpos, vários membros, grandes e pequenos, finos e grossos, e os engoliu todos, quanto mais, melhor. maria queria o mundo em sua boca, saboreá-los todos e crescer com isso.
um dia um homem que se achou amigo – amante – dela lhe perguntou o porquê daquele desejo, o que ela acreditava realmente estar alcançando ao fazer aquilo. ela tragou um cigarro, deu de ombros como quem diz que não sabe direito, apesar de saber muito bem, e disse que assim era uma forma de obter conhecimento sobre todos, entender cada um. tê-lo em sua boca era o ápice da entrega completa e do conhecimento. ela o conheceria por inteiro. como se, no que ela engoliu, estivesse a essência dele, a vida inteira que ele teve e a que terá, tudo escrito na saliva quente que ele passou para ela no começo da noite em beijos quentes, no suor salgado que ela lambeu de sua barriga ao chegarem em casa depois de uma noite fora, rindo de besteiras, de brincadeiras de amigos, de filmes bobos, no líquido esbranquiçado e de cheiro esquisito que jorrou de seu membro depois de algum tempo dos devidos estímulos, líquido esse que ela sempre faz questão de engolir, que parece explicar melhor que qualquer livro o verdadeiro significado das coisas. ela engolia tudo para poder entender tudo, mas parecia nunca funcionar, o conhecimento parecia nunca chegar da maneira que ela esperada. “talvez, apenas talvez ela esteja buscando-o das maneiras erradas”, ele pensou, mas nada disse porque gostava de vê-la lambendo-o, chupando-o, engolindo-o.
esse foi apenas um dos homens que maria conheceu. havia muitos deles. eram seu sabor predileto dentre todos os pedaços de carne que teve o prazer de conhecer. e ela gostava da carne, das carnes todas, masculinas e femininas, engolia todas e gostava de todas, bem passadas ou ao ponto, quentes ou frias, tocando-as com sua língua e deixando suas papilas gustativas explorarem bem todos os nuances dos sabores. deixava cada pedaço de carne escorregar garganta abaixo. amava as carnes todas menos as que punham em seu prato nos almoços tumultuados de domingo, de segunda a sexta-feira, e aos sábados, com o gosto de sal que lhe lembrava as peles suadas dos filmes a que ela não assistia, mas as trazia pra dentro porque era lá que elas deveriam estar, sempre, dentro dela. falsamente voraz, ela engolia a carne, devorava-a por inteiro. engolia como se não houvesse mais nenhum alimento no mundo. como se engolir fosse sua missão no mundo, engolia porque assim fora criada para fazer, desde que nasceu, desde que seu pai fecundou sua mãe, estava programada para fazê-lo. engolia porque vivia por isso e para isso, porque sem engolir, maria não existia. e, enquanto vivesse, maria engoliria.

texto em parceiria com Ariane. aqui está, kiddo, all done. obrigado por maria.