era sempre pelas manhãs que eu vivia. pela sensação de que a noite iria embora assim que surgisse o primeiro raio de sol a iluminar o horizonte e arrastasse todo o mal, purificasse a vida inteira. eu vivia pela esperança de que agora, com aquela insignificante, porém maravilhosa e bela, bola de fogo subindo pelo céu, o mundo seria um lugar menos sujo, menos errado, menos pecador. eu vivia por coisas erradas, mas naqueles tempos eu não sabia disso e, se sabia, era-me adorável o pensamento que eu estava errado, que o mundo podia mudar espontaneamente. eu adorava lançar sobre meus olhos fantasias, adorava viver de ilusões.
eu lembro bem do dia em que percebi que eu estava enganado, que o mundo inteiro não tinha mudança. diferente do que todos dizem por aí, não foi uma decisão minha, mas deles. eles não me queriam mais ao redor e eu não digo isso pelos milhões que falavam que não precisavam de mim. eles mostravam. cada um deles, os que me idolatravam e os que seguiam suas vidas independentemente de minha existência, mostrava em suas atitudes que não havia jeito para aquilo. foi uma tarde de terça feira e um pai havia acabado de estuprar sua filha de 10 anos num canto do mundo, enquanto naquele exato momento uma mãe afogava o terceiro filho e jogava seu corpo junto dos outros dois, num outro lugar uma outra mãe cozinhava seu bebê de 6 meses no forno e esperava o ponto de cozimento calmamente sentada numa cadeira da sala de sua casa, um menino recusa-se a fazer a lição de casa em algum país subdesenvolvido e é espancado até a morte com um cano que seu pai usaria numa construção, uma mãe, que se dizia extremamente benévola, fazia caridade e cuidava sempre das crianças dos outros quando podia, serrou os membros do único filho, desprendeu a cabeça de seu corpo e jogou tudo numa lata de lixo. tudo isso acontecia num espaço de tempo de 24 horas, uma rotação da terra em torno de seu eixo, o suficiente para o sol purificar o mundo inteiro novamente, para que no dia seguinte mais do mesmo acontecesse e continuasse acontecendo até o fim.
naquele dia eu não me importei mais com nada e nem ninguém. a vida deles, para mim, valia tanto quanto para eles. o mundo inteiro poderia colapsar, cidades inteirar ruir, milhões de vidas acabarem, eu não apareceria para salvá-los, eu não me preocuparia. nunca mais. eles poderiam agora brincar de suas guerras sem motivos, manipular vírus e bactérias para destruir completamente as vidas uns dos outros, poderiam estuprar e matar o quanto quisessem, eles não valiam o pensamento. segui meu caminho sem que eles o obstruíssem.
um dia ouvi dizer que tudo aquilo estava prestes a acabar, milhares de cidades haviam sumido, um dos hemisférios jazia sob uma eterna nuvem cinzenta que a luz do sol jamais seria capaz de penetrar, os poucos sobreviventes que restaram viviam em comunidades reclusas e quase não havia contato entre eles. parecia o começo de tudo aquilo, da humanidade, só que sem a beleza dos dias de outrora, sem rios plácidos correndo para oceanos que refletiam belamente o céu. há o cinza, o negro, o vermelho. os mares são ácidos e não comportam mais nenhum tipo de vida, completamente infértil, as nuvens que se formam no hemisfério que recebe a visita do sol ainda amarelado são vermelhas e chovem ácido. os campos que antes cheiravam a flores hoje cheiram a enxofre, corpos decompostos são as coisas mais comuns de se encontrar nos lugares. homens se alimentam de ratos e os ratos das baratas e as baratas dos homens. o ciclo da vida continua, a roda nunca pára.
estou sentado entre escombros, as cinzas escorrem entre meus dedos, construções monumentais de concreto, aço e vidro, carne e osso, mulheres, homens, velhos, crianças, completamente irreconhecíveis, irreparáveis. vidas desperdiçadas porque eu não estava mais me importando com nada disso. porque, para mim, há muito tempo, o sol não limpa mais nada nas almas sujas de todos.
e eu nem posso dizer que me arrependo disso.
