a casa.

fevereiro 6, 2010

estamos fugindo deles desde que tudo isso começou, há sete meses. não sabemos como e nem o porquê. é como nos filmes e os menos preparados se vão primeiro. é uma piada da natureza que nos faz enxergar que realmente só os mais aptos sobrevivem, a prova de que darwin estava completamente certo. os criacionistas e outros crentes foram os primeiros a morrerem, rezando dentro das igrejas que estavam despreparadas para aguentar os ataques. eles falavam alguma coisa sobre o fim dos tempos e que o livro sagrado dizia tudo. mas se realmente dizia tudo, não eram eles que deveriam estar aqui, contando a história, e não eu? acho que isso é uma das mais lindas ironias já vividas por mim. depois que os mais fracos foram eliminados – e foi tudo tão rápido que contar o que ocorreu de verdade é impossível, só dá para imaginar que alguém infectou alguém que infectou alguém e como tudo isso é muito fácil de ocorrer – uma simples mordida -, logo todos estavam infectados. era difícil viver lá fora, no começo principalmente. posso dizer que os que estão aqui dentro, na casa, são os dez maiores sobreviventes que já conheci, criaturas espertas nas qual eu deveria confiar, mas não confio. e não o faço simplesmente porque seria uma estupidez sem tamanho fazê-lo. de todos que aqui compartilham um teto, nessa mansão onde nos escondemos de todos lá fora e nos sentimos seguros por causa dos muros altos de pedra e um portão de ferro blindado, eu conhecia poucos e não o suficiente para saber o quanto minha vida importa para eles. afinal de contas, depois de perder todos os amigos e família, perder um conhecido não faz diferença.

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estamos todos mortos. não faz diferença se sobrevivemos a tudo o que passamos. estamos todos mortos, é nosso destino, não dá para escapar, eu sei disso, tenho certeza. essa casa não conseguirá ser um local seguro para sempre, há muitos deles lá fora e mesmo havendo poucos de nós aqui, a comida não durará para sempre. eu olho para o rosto desses desconhecidos e penso qual deles irá enlouquecer primeiro, qual irá, no meio da noite puxar uma faca e matar a todos nós, qual irá pensar que dividir a comida não é mais um ato de solidariedade, mas apenas um ato de suicídio. me pergunto todas as noites onde está o deus por quem eu rezava, por que diabos ele não faz alguma coisa agora e nos salva todos. minha mãe costumava dizer que não devemos deixar para deus o que podemos fazer, mas acho que agora eu não posso fazer nada a não ser temer. e onde ele está? ele não desce dos céus soltando bolas de fogo e relâmpagos nesses monstros que nos espreitam lá fora. nada disso. assisti a minha mãe ser devorada pouco depois dela rezar para que deus nos protegesse dentro de casa. mas numa tentativa de fuga de casa, pouco antes de eu encontrar a todos que aqui estão e chegar nesse lugar, ela foi mordida pelo meu irmão. desde então eu tenho me perguntado se todo o tempo que gastei idolatrando e orando, sendo uma boa serva do senhor, serviu de alguma coisa.

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estou feliz por ter achado todas essas pessoas, assim eu não me sinto tão sozinho. sinto falta da mamãe e do papai. se não fosse pela minha mana mais velha eu não estaria aqui hoje. me sinto bem porque aqui dentro a gente pode esperar enquanto tudo lá fora se acalma e volta ao normal. tenho saudades de brincar com alguém, minha irmã nunca brinca comigo, ela sempre está preocupada com alguma coisa e nunca tem tempo pra mim. não tem mais ninguém para brincar aqui dentro, é um saco. queria ir lá fora pra poder correr no jardim e jogar bola, mas todo mundo diz que é perigoso demais. aqui dentro é muito chato, não tem energia, então não tem videogame, nem tv, nem computador, nem nada! quando chega a noite tudo fica escuro e, quando vamos dormir, ouvimos o barulho lá de fora, que vem dos muros, não é legal, me dá muito medo. minha irmã disse para eu não ter medo porque alguma hora eles iam sair dali, mas eu acho que ela está mentindo, às vezes eu penso que a gente nunca vai sair daqui.

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eu olho para ele e fico pensando em tudo o que ele nunca vai ter. ele nunca vai dar um beijo, nunca vai fazer sexo, nunca vai poder crescer e passar pelas coisas que as pessoas normalmente passam. desde que tudo isso começou, sabe-se lá como, eu tenho tentado salvar nós dois. foi quando encontrei esse pessoal, eram menos quando me juntei a eles, depois fomos crescendo e chegamos a quase quarenta pessoas, mas ao longo do caminho fomos os perdendo para aquelas coisas. há um cara aqui dentro que me assusta, ele já estava no grupo quando eu me reuni. sempre noto que ele fica me olhando estranho com seus olhos injetados no rosto magro, a barba por fazer, o cabelo branco e escasso, ele deve ter uns cinquenta e poucos anos, a idade do meu pai, talvez, mas aparenta ser bem mais velho devido o mal cuidado que é tão comum entre todos aqui os sobreviventes, que largaram mão de coisas como aparência para se importar mais com continuar respirando. procuro me afastar dele o máximo possível, interagindo apenas quando necessário, mas não sei até quando poderei continuar assim. um dia, quando não conseguia dormir, deitada ao lado do meu irmão, notei que ele estava parado no escuro ao lado da porta. ele estava com as mãos dentro da calça, ou foi essa a impressão que tive com a pouca luz que vinha das velas na casa. não comentei nada com ninguém sobre isso, mas acho que devia, só não sei em quem confiar.

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é quase o décimo dia de todos nós aqui na casa. os dias aqui dentro têm sido fáceis se compararmos com a situação lá fora. não há sinal de energia elétrica desde o segundo mês do ocorrido e a água é pouca, mas suficiente para mais dez dias, no mínimo. a comida é bastante, havia um belo estoque aqui dentro, é uma casa rica, de algum político influente. chegar aqui foi fácil, o problema vai ser sair com todos os monstros do lado de fora. mas espero que demos um jeito nisso até quando for completamente preciso. talvez pulemos os muros para o vizinho e eles nem notem, talvez ao fazer isso nos condenemos à morte. pensaremos em algo, se chegamos aqui, somos espertos. antes de ontem houveram alguns problemas na casa. uma discussão entre uma garota de seus vinte e poucos anos com um cara um tanto esquisito. ela dizia que ele estava a seguindo para todo o canto com um olhar estranho e disse também que já havia pego ele se masturbando enquanto olhava para ela durante uma noite. havia um homem de bigode, de cerca de quarenta anos, que apoiava ela, dizendo que ele não devia fazer uma coisa assim e que todos nós aqui dentro deviamos tentar uma convivência harmônica porque só tinhamos uns aos outros. depois disso tentei conversar com o homem que foi acusado, mas ele só fez me olhar e sair de perto. uma mulher viu o ocorrido e disse para deixar para lá, cada um com seus problemas, logo todo mundo estaria morto.

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já houve a primeira baixa aqui dentro. hoje, quando fizemos a distribuição de comida pela manhã, percebemos que um casal havia sumido pela noite. começamos a desconfiar uns dos outros. não sei quem os outros acham que fez isso, mas eu acredito que tenha sido o homem acusado de perseguir uma outra garota aqui na casa. ele é bem estranho e tem umas atitudes suspeitas. não sei o que aconteceu com os dois, não encontramos corpos na ronda pelos jardins da casa, mas encontramos umas pegadas nos fundos, levando até a casa ao lado. foi por causa delas que não expulsamos o cara daqui de dentro e o condenamos a morte lá fora, porque talvez o casal tenha tido a vontade de se aventurar lá, a genial idéia de cometer suicídio, porque andar no meio daqueles animais que se tornaram nossos entes queridos e conhecidos é pedir para morrer de uma das maneiras mais cruéis e dolorosas possível. eu ria de coisas ridículas como essas quando as via nos filmes e nos livros, mas agora tudo se tornou realidade e eu tenho medo porque agora acho que não exista um depois daqui, que o máximo que poderemos chamar de pós vida é o que vemos agora: esse errar em busca de seres humanos, com o único e enorme desejo de saciar a fome que se tem ao devorá-los por inteiro.

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os dias só fazem ficar mais e mais chatos aqui dentro. eu queria comer batata frita e sanduíche, queria que a mamãe me levasse na casa da vovó, onde eu passava o tempo brincando e correndo, queria que o papai me levasse para tomar sorvete. eu sinto falta de sorvete, de ver desenhos e filmes de super heróis. eu queria meus bonecos. não tem brinquedo nenhum nessa casa, e ela é tão grande. eu sinto fome de vez em quando, fome como eu nunca havia sentido antes. aqui dentro a gente só come duas vezes por dia, de manhã e de noite, aí dormimos e continuamos a escutar as coisas lá fora batendo no portão e tentando entrar. um dia desses encontraram um deles no jardim, depois de cortarem a cabeça dele, viram que ele era uma pessoa que antes estava aqui dentro. um moço legal, de bigode, que sempre conversava comigo e com a mana sobre coisas legais. ele falava sobre futebol e vôlei, fórmula 1 e outros esportes que eu gostava de acompanhar. eu falei a ele da vez em que meu pai me levou pra ver um jogo no estádio e dos gols que aconteceram e de como foi legal estar ali e ele me disse que sempre ia ver as partidas na arquibancada e que levava o radinho de pilha dele e escutava. eu perguntei a ele pelo rádio, se ele estava com ele ali para podermos escutar algum jogo lá fora e ele me disse que tinha perdido ele fazia tempo. foi o melhor dia aqui dentro, o moço ela legal e agora não está mais aqui.

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eu tenho certeza que foi ele, o cara que vivia me seguindo, tenho certeza que foi ele quem matou o seu ari. eu ainda não sei como ele fez isso e nem o porquê, mas não confio nele, nem um pouco. desde que eu falei ao seu ari, um homem muito bom, que logo encantou meu irmão com suas conversas sobre esportes, sobre o ocorrido naquela noite em que o vi se masturbando enquanto me olhava e tomou uma repreensão dele, o cara estranho tem ficado longe de mim, não o tenho visto mais, apenas nas manhãs, na hora da divisão da comida. aqui dentro, agora, somos apenas sete e um deles é esse cara completamente bizarr que me dá calafrios só de olhar. os dois sumiços da semana passada nos deixaram com um pouco mais de comida e um tanto de preocupação, desconfiei do cara, lógico. não me parece que mais ninguém aqui dentro seja capaz de fazer alguma coisa contra os outros, não nesse ponto. começamos a nos conhecer bem melhor agora e, com exceção do esquisitão, todos nos tornamos amigos, ou algo assim. desconfio até que há um casal que se formou aqui dentro. acho que não é bem amor o que eles devem sentir. na verdade, acho que eles estão juntos por causa da mistura de medo da morte com o impulso sexual que nunca abandona os animais. eu sinto falta de carinho, de sexo, sinto inveja dos dois, mas eu olho para meu irmão e penso que existem coisas mais importantes com o que se procupar agora, nossa sobrevivência vem em primeiro lugar.

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a cada dia que passa a tensão aumenta aqui dentro. há pessoas convencidas de que o fernando é quem anda empurrando pessoas para fora da casa e condenando-as à morte certa, mas não há provas o suficiente para condenarmos ele. nada aponta para ele, todos os sumiços parecem ter sido decisão de quem foi embora, suicídio, talvez não tenham aguentado a pressão, talvez tenham percebido que nunca mais na vida verão as pessoas que amam e que tudo o que eles acreditavam tenha se provado uma enorme mentira e suas psiques tenham se quebrado em milhares de pedaços e os tornado extremamente frágeis e fracos. talvez, no fim das contas eles não tivessem chegado até aqui por serem mais fortes e espertos, como eu acreditava, mas por pura sorte e acaso. sendo assim, talvez até tenha sido melhor que eles tenham ido. mas eu não sei… talvez haja mesmo um assassino entre nós e eu não consigo imaginar quem seja. talvez tenha sido até mesmo a mel… não, não acho que a mel tenha matado alguém, mesmo em seu estado abalado, não creio que ela tenha sido capaz de matar alguém. a comida está perto do fim, as refeições são cada vez mais escassas, tendo dias em que apenas comemos uma vez. todos aqui já emagreceram bastante e isso é preocupante, estamos fracos e não sei se seremos capazes de fugir daqui rápido o suficiente e com firmeza e segurança quando precisarmos.

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mais duas pessoas sumiram. agora somos apenas cinco. a quase certeza que tenho é que fernando é quem está mandando todas as pessoas para fora da casa. não sei como ele faz isso, ele não parece forte o suficiente para jogá-las através dos muros, mas se tivesse que condenar alguém, seria ele. só o vemos pelas manhãs, quando temos que dividir a comida do dia, depois ele some pela casa. quando alguém pergunta onde ele fica, responde que está na biblioteca da casa lendo alguma coisa. e é bem verdade, todas as vezes que alguém vai na biblioteca/escritório, lá está ele, sempre lendo. mas não há mais de quem desconfiar! paulo foi o único que manteve algum contato com fernando, eles conversaram bastante e acho que se identificaram. eles se respeitam e não interferem na vida um do outro, creio que é por esse motivo que ambos se dão tão bem, porque eles não parecem se incomodar com o que o outro está fazendo ou nem ao menos dar o menor valor às vidas que se perderam. para eles, talvez, tudo o que importa é que eles tenham sobrevivido até agora. mas isso tudo não passa de uma ilusão! a sobrevivência é temporária, o fim está próximo e, por mais que eu goste do paulo, por mais noites que tenhamos passado juntos tentando fazer silêncio enquanto fazemos sexo para não acordar as outras pessoas da casa, a morte está mais próxima de todos a cada segundo e nada do que fizermos vai anular isso, só temos que aceitá-la.

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as pessoas continuam saindo da casa. todo mundo está procupado com isso. às vezes eu me assusto com as pessoas daqui de dentro. saudades do papai e da mamãe, muitas, queria que eles estivessem aqui comigo e com a mana. outro dia a tia mel veio conversar comigo e aí a gente ficou brincando a tarde toda. foi legal, mas não é como as coisas eram lá fora. aqui dentro ninguém parece gostar de rir, acho que isso lembra como foi boa a vida antes de tudo o que aconteceu acontecer, não sei. um dia desses eu encontrei a mana chorando num canto. eu perguntei se ela estava bem, ela sorriu, enxugou as lágrimas com as mãos e disse que sim, que tudo tava bem e que eu devia ir pro quarto. eu tava pensando comigo mesmo e percebi que nunca mais vi o moço que a mana disse que seguia ela, quando eu encontrei com ele, ele tava na biblioteca, lendo um livro sem figuras. perguntei o que ele tava lendo, mas ele só olhou pra mim e não respondeu. depois disso eu fui embora dali porque não tinha nada com desenhos legais. acho que ninguém aqui da casa gosta do moço, minha irmã diz que ele é mau e que é pra tomar cuidado com ele. eu não acho que ele seja malvado. ele só é calado, ele devia largar aqueles livros só com letras e brincar um pouco.

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os últimos dois dias foram horríveis, a comida está quase no fim e a mel morreu. encontramos seu corpo no jardim da frente ontem de manhã. seu pescoço estava quebrado e ela estava nos degraus iniciais que dão na porta. na noite anterior à sua morte, depois de transarmos, ela disse que iria lá fora pegar um ar. eu disse que era perigoso, mas não me ofereci para acompanhá-la, uma falha sem tamanho. o que parece é que ela tropeçou e caiu com o pescoço no degrau. os fatos apontam para isso, mas começo a desconfiar do meu amigo fernando. todas as vezes que anunciamos um sumiço ou morte ele não esboça nenhuma reação, não parece sentir surpresa ou medo ou raiva ou qualquer outro sentimento. completamente apático. agora somos eu, ele, o menino e sua irmã, que vivem isolados de todos no quarto deles. a comida da casa ainda vai ser suficiente para uma semana se continuarmos com uma refeição por dia, depois disso teremos que buscar outros locais. estamos aqui há quase oito semanas. e a água e comida têm rendido devido às baixas da casa, se antes eu já estava atento, agora devo zelar completamente pela minha vida.

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a tia mel foi embora agora e eu não sei o motivo, mas encontraram ela na porta da casa. eu gostava muito dela, ela brincava comigo e me contava histórias legais e me ensinava piadas engraçadas. a minha irmã está com cada vez mais medo e eu fico tentando dizer a ela que ela não precisa ficar com tanto medo porque eu protejo ela. aí ela me ri, soluça, chora e aí me abraça e fica assim por um tempo até que eu tento sair do aperto dos braços dela e dos beijos que ela fica dando na minha cara. ela fica me babando com uns beijos, eca. essas coisas me lembram a mamãe e o grude que ela era. eu sinto falta dela, mas não disso, não gostava de quando ela apertava meu rosto e essas coisas, já sou um homem, eu dizia, era vergonhoso aquilo. ela me dizia que eu ainda era o bebê dela. eu sinto falta de ser o bebê da minha mãe. um dia desses eu estava andando pela casa e vi uma revista em que o papai aparecia, senti muita falta dele e percebi que eu não lembrava da voz dele e da mamãe. eu mostrei pra a mana a revista com a foto dele de terno e gravata e ela começou a lacrimejar. acho que ela sente muita saudade deles também. queria que tudo voltasse a ser como era antes logo, está demorando demais.

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agora somos só eu, meu irmão e o louco assassino. hoje pela manhã, ao descer as escadas, vi os pés do paulo pendendo no ar, girando de um lado para o outro, uma corda no pescoço o mantinha pendurado ao lustre da sala, sua cabeça estava roxa. não consegui tirá-lo de lá. estou desesperada! tenho certeza que o homem bizarro vai nos matar assim que tiver a oportunidade e ela virá rapidamente, a não ser que eu aja primeiro. tenho que dar um jeito nele logo, não podemos ser vítimas desse lunático, tenho que salvar meu irmão, tenho que fazer isso porque é o que irmãs mais velhas fazem, porque é o que meus pais iriam gostar que eu fizesse! estou trancada com ele no nosso quarto e penso que eu devia tentar dar a ele uma vida normal, ou o mais próximo disso que fosse possível atualmente, mas não sei se serei capaz, sei que para issso tenho que fazer o monstro assassino pagar por todas as mortes que cometeu aqui dentro e deus sabe se houveram outros lá fora! e será hoje à noite, me esgueirarei na biblioteca, que é onde ele vive e o matarei. tenho que proteger meu irmão desse pervertido, salvar nossas peles e nos manter vivos.

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onze semanas nessa casa, tentando me isolar o máximo possível de todos para poder me salvar, perdendo amigos sem motivos aparentes, sentindo falta da minha família, minha esposa e filha – que se parecia muito com a garota que contou a todo mundo que eu me masturbava enquanto a observava da porta do seu quarto, mas na verdade eu estava segurando a foto da minha filha dentro do meu bolso e derramando lágrimas ao lembrar dela, que vi sendo devorada viva na minha frente enquanto eu nada podia fazer a não ser correr. tenho lido bastante para tentar entender o que está acontecendo lá fora, mas não há nada aqui nessa biblioteca que indique algum motivo para a maldição que nos acometeu. dos sobreviventes iniciais, só restaram eu, a garota e seu irmão assassino, e tenho certeza que eles virão aqui hoje. ela pensa que eu sou o matador e fará de tudo para que ela e ele se manterem vivos. devo me cuidar para sobreviver não somente a eles, mas aos predadores que esperam lá fora. o número deles já diminuiu consideravelmente, é verdade, muitos morreram de fome, muitos comeram uns aos outros, mas ainda há um número ameaçador lá na porta. hoje à noite tenho certeza que ela virá me visitar pela primeira vez. não será algo amigável, no entanto.

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minha mana mandou eu ficar esperando no quarto. ela me disse para ficar aqui dentro por toda a noite e que era pra eu não sentir medo em nenhum momento porque ela ia nos salvar e então saiu e trancou a porta, girando a chave na fechadura, mas eu já tinha achado antes uma chave extra pra todos os quartos da casa e escondi comigo, ninguém nunca achou. eu sei o que ela vai fazer nessa tentativa “heróica” de salvar a gente, sei o que ela pensa que precisa fazer. eu acho tudo isso engraçado, porque sei também que ela não vai conseguir, ela é fraca demais para muitas coisas desde que os monstros apareceram, vive chorando nos cantos, se lamentando pelas perdas que tivemos. eu sinto falta do papai e da mamãe, é claro, mas eu acho que se estou aqui é pra continuar vivendo e não vou ficar me lamentando pelas coisas do passado e nem ficar passando fome por causa de pessoas que eu nem conheço que estão acabando com a minha comida. eu mesmo devia fazer o que ela planeja. ela diz que vai me defender, vai fazer a coisa certa para nos manter vivos, mas eu é quem devia proteger ela.

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deixei meu irmão trancado no quarto para protegê-lo, para que ele não veja o que farei para nos manter vivos por um tempo que pode ser curto demais ou longo o bastante, eu não sei. eu disse a ele que logo logo tudo isso iria passar e que poderíamos voltar a viver lá fora. eu me entristeço por ter que contar uma mentira dessas a ele, mas eu não sei como manter as esperanças sem mentir descaradamente. acho que mesmo ele já percebeu que as coisas não vão melhorar pra a gente e que nada vai voltar a ser o que era antes. se não fosse por ele, talvez eu já tivesse me matado há muito tempo, talvez eu nem tivesse chegado aqui. ele tem me dado a força que preciso. ó, deus, eu preciso conseguir terminar com tudo isso agora. dê-me forças, ó senhor, para conseguir pegar esse assassino e enviá-lo direto para o inferno.

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a noite passada foi extremamente confusa. estava decidida a dar um fim na vida do homem que eu acreditava ser o monstro assassino de todas as pessoas da casa. cheguei ao local onde ele passou quase todas as horas da nossa estadia nesse lugar, a biblioteca, pouco depois do sol se pôr e a escuridão dominar a casa. na minha cabeça eu pedia forças a qualquer entidade sobrenatural capaz de me apoiar nessas horas, mas agora acho que tudo o que fiz foi bobagem, rezar tanto foi em vão. quando abri as portas do aposento em que ele se encontrava, avistei-o lendo algum livro à luz de velas, olhou-me quando entrei pela porta, mas parecia não se preocupar com minha presença ali. aproximei-me dele devagar, segurando firmemente a faca com que pretendia assassiná-lo. tentarei reproduzir com o máximo de precisão o que houve lá dentro, por mais confuso e irreal que tenha me parecido.

“venha, se aproxime.” ele me disse sem levantar o olhar, que se mantinha nas folhas do livro. falou comigo com uma calma que me deixou mais nervosa por estar ali, faca na mão, pensando em fazê-lo sangrar até a morte. então fechou o volume que tinha em mãos e dirigiu o olhar para mim “sente-se e diga em que posso ser útil a você.”

eu simplesmente não pude acreditar no que ele estava falando! ele achava que poderia ser de alguma utilidade para mim! não pude me conter e sorri. um riso amargo que naquela luz deve ter feito eu parecer alguma louca.

“ser útil?” eu perguntei num tom de voz que eu mesma estranhei. era arranhado e esganiçado. “em que você pode ser útil, seu assassino!? você pode ser útil morto!” e avancei para cima dele, que pulou para trás numa esquiva rápida para a idade dele. a verdade é que eu nunca ataquei alguém e devo ter sido lamentável ao fazê-lo, de forma que um velho poderia ter feito o mesmo que ele fez. a luz de vela bruxuleava, quase ficamos sem ela com o meu ataque irracional.

“vamos pensar um pouco…” ele disse estendendo as mãos espalmadas na minha direção, tentando me dizer para ter paciência “você acredita que eu tenha acabado com todos que estão aqui na casa, não é mesmo? você acha que eu os condenei à morte um por um de várias formas, não é?” ele me dizia isso como se houvesse um outro que poderia ter feito aquilo, como se não fosse óbvio que entre os três sobreviventes ele seria o único capaz de fazê-lo.

“não há nada a ser pensado, seu assassino! você matou todos eles! e o que eles fizeram a você? te ajudaram a se manter vivo enquanto todos ao redor estavam morrendo! você se aproveitou da boa vontade de todos e da cooperação e matou todos quando achou que nenhum deles lhe servia mais de alguma coisa! você foi um porco louco e egoísta! e agora vai pagar por tudo o que fez no inferno!” mais uma vez eu pulei para cima dele com a faca em punho, mas ele conseguiu segurar minha mão. caimos no chão, ele por cima de mim, tentando me separar da faca. com a luta no chão, ele tentando me desarmas e eu tentando me manter com a faca – e falhando – o pé de um de nós bateu na mesa onde a vela estava, fazendo-a cair no chão e se apagar. naquele momento, a única fonte de luz no aposento provinha da fraca lua que se mantinha no céu lá de fora.

“você não entende que eu não fiz nada disso que você diz que sou culpado? não percebe que nós dois somos inocentes e logo seremos vítimas? não entende que” ele foi interrompido por uma pancada recebida na cabeça, que o fez rolar para o lado e urrar de dor. olhei para meu salvador e era meu irmão. do alto de seus sete anos, havia me salvado das mentiras do assassino, que começava a se levantar ao meu lado, e garantido nossa sobrevivência. tateei pelo chão em busca da faca para poder terminar com o que pretendia, mas fui distraída pelo grito do meu irmão, que acabara de cair no chão, largando o pedaço de madeira que trazia consigo e sendo puxado pelo louco.

“largue ele!” ordenei. o homem naquele momento agarrava meu irmão, que gritava alto, agitando as pernas no ar, impossibilitado de se movimentar.

“você não entende.” a voz dele estava fraca “você não entende que o verdadeiro assassino o tempo todo foi seu irmão…”

eu não podia acreditar no que ele estava falando. como podia ele acreditar que uma criança teria matado todos da casa? como ele poderia pensar que um inocente menino poderia ter feito isso?

“você é louco! louco! não tente pôr a culpa no meu irmão! ele estava comigo todo o tempo! quem matou todos foi você e agora tenta dizer que foi uma pobre criança? seu monstro! largue ele agora!”

ele continuava segurando meu irmão com força, enquanto este se debatia em seus braços nas tentativas de escapar do apresamento.

“entenda, menina, que o verdadeiro mal aqui é ele! foi ele que, usando a aparente inocência, trouxe a morte e maldade para dentro do nosso local seguro. foi ele quem fez tudo isso! não deixarei que você morra tentando salvar o verdadeiro monstro aqui. não deixarei que essa criatura vil escape ilesa, sem pagar as consequências de seus atos! ele deve morrer para que assim nos salvemos, entenda que eu nunca fiz mal a ninguém, perceba que ele foi o arquiteto de todo esse plano.”

“cale a boca! cale a boca!” parti para cima dele para tentar liberar meu irmão, mordi-lhe o braço, fazendo-o urrar de dor e liberar o pequeno de seus braços. “corra, mano! corra!”

meu irmão não correu, ele pegou a faca que estava aos seus pés e enfiou na barriga do homem que tentava lhe imobilizar novamente. fiquei parada, só olhando aquela cena: um menino de oito anos enfiando uma faca num homem.

“mano, corra!”

ele continuou parado, observando o homem que se ajoelhava de dor. pegou a faca e enfiou mais uma vez no tórax que sujeito. ele estava frio e parecia não se importar com o que fazia, parecia que matar, para ele, era tão natural quanto brincar com seus brinquedos, parecia que tudo aquilo era uma brincadeira para ele. então eu vi em seu rosto um sorriso e um brilho maléfico em seu olhar e senti um frio na espinha que fez os cabelos da minha nuca se arrepiarem. e então pensei que o que o homem falou talvez não fosse a mentira, essa frieza toda talvez provenha do fato de já ter matado antes. ó, deus, ó deus, por que não existes? por que não existes para parar com tudo isso, para fazer as crianças não mais matarem? por quê? o homem me encarou nos olhos enquanto sangrava, enquanto meu irmão continuava a enfiar o metal frio em suas entranhas.

me esgueirei por trás do pequeno, que se fazia grande perante o homem quase morto, e acertei-o com o mesmo pedaço de madeira com que ele acertou o homem na cabeça quando pensei que ele tentava me salvar. ele caiu no chão. dei mais alguns golpes, até que a madeira se quebrou em seu corpo já deformado de tantos golpes. aos meus pés, dois corpos ensanguentados, dois mortos. só eu havia sobrevivido, então. todo o meu trabalho para salvar meu irmão havia sido em vão e ele terminou morrendo pelas minhas próprias mãos. ele, o assassino. ele, o assassino? comecei a repensar em todas as noites e as dúvidas voltaram à minha mente. talvez eu tenha errado, talvez meu irmão só estivesse salvando minha vida, talvez ele tenha feito aquilo tudo por medo de perder a única coisa que o lembrava da vida lá fora. ó deus, eu havia me tornado um monstro! então resolvi sair da casa. haveria de morrer lá fora, devorada pelos monstros.

fazia silêncio, abri os portões de ferro da casa depois de muito esforço, pus os pés na rua e não havia nada. as centenas de corpos apodrecidos estavam caídas no chão, mortos de fome. há quanto tempo poderíamos sair da casa? não sei. não encontro ninguém ao redor, nenhum movimento, nada vivo ou morto-vivo. ajoelho no chão, me arrependendo de tudo o que fiz. então, me pergunto: e agora, o que fazer? parece fácil pegar a faca que meu irmão usou e cortar meu pescoço, parece muito fácil, mas eu não sei se é isso que eu realmente quero. o sol começa a nascer. eu quero ver se ainda existe alguém na cidade, quero ser capaz de dizer que sobrevivi ao fim do mundo. é um egoísmo imenso, um egocentrismo sem tamanho, mas é a verdade. eu não quero morrer, não agora que parece que tudo chegou ao fim. então eu acho que vou seguir em frente, vou comer a comida que restou, descansar um pouco em paz, tentar não pensar no que aconteceu e seguir em frente, porque é uma nova vida num mundo novo, e eu acho que estou pronta para ele.


o eterno devir.

fevereiro 4, 2010

costumo sempre perguntar a alguns amigos (geralmente aquele mais chegados) o que eles estão lendo. é uma mania boba que eu tenho. serve para puxar assunto, além de ser uma forma de me atualizar em relação a boas literaturas. é claro que nem sempre eles estão gastando seu tempo com boa literatura (diferente de mim, só tenho boas leituras – not), mas é um preço a se pagar por ter amigos – ninguém vai ler sempre só coisas boas, nem mesmo eu. às vezes, no entanto, eu abordo algumas pessoas que não são tão amigas assim e pergunto se elas estão lendo alguma coisa boa. geralmente eu as vejo na rua lendo um livro que já li e gostei e pergunto se estão gostando. as que lêem livros que nunca li e não tenho uma vontade de ler – o que é o caso das pessoas que encontro na rua lendo a série crepúsculo -, essas eu nem falo nada. simplesmente ignoro o fato delas estarem lendo e sigo com minha vida como se nada tivesse acontecendo. (se bem que já perguntei a colegas: e esse livro aí, é bom? e devo admitir que sem nunca ler o livro sei que fala de coisas que brilham quando o sol incide sobre suas peles e que não podem namorar quando as garotinhas estão menstruadas porque sentem fome.) às vezes as respostas que recebo me dão um enorme desgosto. mas foram poucos os que me disseram que estavam lendo um livro do paulo coelho, o segredo ou outras auto ajudas e pseudo auto ajudas do tipo.

dia desses fiquei feliz por um amigo meu ter começado a maravilhosa obra de isaac asimov, a trilogia da fundação. comentamos sobre a leitura e o fato de que o doutor consegue nos guiar para um mundo fabuloso no futuro, explicar conceitos de matemática e psicologia e falar sobre política sem parecer chato e sem apelar para pares românticos ao longo da história. (e não é que asimov seja um cara insensível, muito pelo contrário. o livro, o fim da eternidade aborda a questão de romance muito bem com conceitos de viagem no tempo fabulosos – e olha que eu, pra falar bem de viagem no tempo, não é fácil. é um assunto muito delicado, esse.) falamos também das influências dele no livro, e como podemos ver na história do livro a história de uma das maiores civilizações que já deixaram registro histórico, os romanos. (depois de ler os três livros, fiquei com uma imensa vontade de ler “declínio e queda do império romano”, que foi uma das inspirações para a trilogia.) tanto ele quanto eu ficamos fascinados com o universo e conceitos criados por asimov, um autor que qualquer ser humano deveria conhecer (leis de asimov da robótica, você acha que foi quem que criou elas, hein?). pena que dele eu não li mais muitas coisas, mas seus contos são de fácil acesso e certamente estarão na minha estante algum dia.

uma boa maneira de se saber o que amigos estão lendo ou leram, sabendo assim as coisas que podem tê-los influenciados a serem as pessoas que são são os sites de relacionamento baseado em livros tais como o skoob ou o goodreads, neles você pode olhar as estantes que expoem as leituras e gostos das pessoas e revelam muito mais do que muito “quem sou eu” de outras redes sociais. é claro que esses não são locais supermovimentados onde as pessoas marcam de tudo, mas já é um bom começo de conversas com pessoas que compartilham de gostos semelhantes. alguns dos meus amigos têm cadastros nesses sites e eu aproveito para comparar nossas estantes. aqui, exporei o caso de uma das minhas grandes amigas, que é tão fascinada por livros quanto eu, ou mais, que lê tanto quanto eu, ou mais (acredito que mais) e que escreve ou escrevia coisas que, mesmo não sendo meu estilo de leitura, eram fabulosas. em sua lista de livros favoritos, há alguns que eu dou valor e há muitos outros que não dou. e vice versa. tenho certeza que para ela o guia do mochileiro das galáxias (o Guia) não marcou tanto quanto para mim, assim como eu acho os livros da lispector coisas completamente passáveis e que a profundidade de seus escritos pode ser comparado com um pires. mas não é sobre isso que quero falar. o que quero dizer com essa minha amiga é que mesmo tendo todas as incompatibilidades – cara, ela gosta de kafka, gosta gosta, e diz que o faz pelos mesmos motivos que eu digo que não o faço, porque nada acontece o tempo todo, do começo ao fim – nós dois somos amigos e adoramos, pelo menos da minha parte, discutir nossas leituras e experiências de leitura. além do mais, mesmo que as coisas que ela goste não me atraiam, admiro muitas delas e quero lê-las porque boa parte  desses livros são considerados clássicos obrigatórios da literatura mundial.

há também minha namorada, com quem gosto de brincar dizendo dos livros que gosto e que ela nunca leu que eles são formadores de caráter e que ela precisa lê-los. e não é nem que o meu caráter seja do melhores, mas é que são obras que me influenciaram tanto que uma pessoa de quem gosto tanto quanto ela deveria conhecer para ter o prazer de talvez me entender mais um pouco. ou talvez isso nem seja um prazer, mas eu tento fazer com que seja. pelo menos os livros são, na minha opinião, fabulosos. em dezembro passado eu dei a ela “os vagabundos iluminados”, do beat viajante jack kerouac, a melhor obra do cara para mim. tenho planos de dar outros livros a ela, algo do vonnegut (lê-se Matadouro 5) , já que ela já leu o Guia e, assim como eu, tem o caráter formado por quadrinhos e não vê problemas quando eu a presenteio com eles, visto que quando eu não dou livros, eu dou quadrinhos de presente. (e nossa, isso é tão fabuloso, minha namorada lê quadrinhos… só quem é meu amigo sabe o quão maravilhoso é isso. só quem gosta das hqs sabe o quão maravilhoso é poder conversar sobre quadrinhos sem ter que explicar boa parte das coisas. ela é meu orgulho.)

mas nada do que sou agora em relação a leituras teria acontecido sem a influência de duas pessoas. meu pai e minha mãe. e não é nem que meu pai leia. ele não lê, mas quando eu era criança, era ele quem mais comprava as histórias da turma da mônica para que eu lesse, era ele quem tinha uma conta astronômica por minha causa na banca de revistas do cara que veio a ser meu tio de coração, meu amigo com quem eu compartilhava livros e conversas e meu padrinho de crisma, mesmo sem que eu acredite em deus e essas coisas. meu pai sempre incentivou a leitura. já minha mãe era o exemplo. ela devorava livros. em um fim de semana de trabalho ela lia cinco livros, sempre a via com livros na bolsa ou a encontrava no quarto lendo enquanto eu via televisão. foi observando ela que peguei a paixão pelos livros, foi com o incentivo de ambos que hoje sou o que sou e como sou. e devo muito a eles e a amigos que me apresentaram autores e a autores que nunca conheci pessoalmente, mas que me apresentaram autores ainda melhores e assim vai. devo muito a cada livro que li, cada bom ou ruim, cada quadrinho bom ou ruim que li, graças a tudo isso sei ser um pouco crítico quando devo e sei ser ameno quando devo. hoje em dia sou o que sou graças aos volumes na minha estante e os que estão além dela. e acho que enquanto viver continuarei em crescimento devido a essas leituras. o que leio agora? os irmãos karamázov, clássico do russo dostoiévski e o demolidor do sensacional brian michael bendis. e você, o que lê?

e viva à eterna contrução de caráter!

A História do Declínio e Queda do Império Romano

anna lois.

janeiro 25, 2010

quando ela tinha seis anos, seu avô a levou a um passeio num parque de diversões. ela lembrava muito bem de todos os detalhes daquele dia. de como comeu algodão doce e se encheu de orgulho ao  perceber ser capaz de colocar três cachorros quentes na boca. o avô achava isso uma incrível falta de educação, mas se assombrara com aquilo. e a lembrança que ficou naquele dia foi a da cavalgada nos cavalos do carrossel. ela lembra de ter escolhido um cavalinho rosa, enquanto seu avô ficou do lado de fora, observando-a. ela o chamara para dar as voltas no brinquedo, mas ele apenas disse “querida, o vovô está velho demais para o carrossel. se ele for, quando sair ele cai tonto. vou ficar aqui te olhando, tá bom?” ela disse que estava tudo bem. foi no meio da sétima volta que seu avô caiu no chão, na oitava a multidão se amontoava e fazia barulho, na nona gritaram por uma ambulância, na décima ela pôde ver, finalmente, o motivo de tudo aquilo. o brinquedo não parou, ela não podia fazer nada a não ser cavalgar o brinquedo enquanto seu avô era levado numa maca para uma ambulância. ela gritou por ele e foi aí que a máquina parou e ela conseguiu correr até o carro onde ele estava. perguntaram quem era ela, então disse que aquele homem era seu avô e que estava no brinquedo e queria saber onde ele estava e se ele estava bem. lembra de ter explicado o endereço da casa onde morava com os pais e os avós maternos. levaram-na para lá e conversaram com seus pais. o enterro foi no outro dia pela manhã. estava nublado.

quando ela tinha onze anos, enquanto brincava com o vizinho, sangrou entre as pernas e teve que parar a brincadeira porque, de acordo com sua mãe, havia se tornado uma mocinha. ela não havia pedido por aquilo, ela não queria ser uma mocinha, não agora. naquele exato momento ela só queria ir para a porta de sua casa continuar a brincar com seu amiguinho. sua mãe lhe explicara tudo o que precisava sobre como utilizar o absorvente e sobre o que aquele sangramento viria todos os meses. daquele momento em diante descobriu sobre a responsabilidade que carregava e, apesar de não ver o sangue novamente por uns três meses depois daquela primeira vez, entendeu que agora não era apenas uma criança que brincava inocentemente no jardim enquanto seu vizinho, que corria com ela, tentava espionar debaixo de sua saia. estava se desenvolvendo e se tornando uma mulher de verdade, uma daquelas com pêlos no púbis, gordura nas ancas, mamas desenvolvidas para que fossem capazes de lactar quando tivessem a necessidade de fazê-lo.  foi nesses tempos que entrou em contato com sua sexualidade, que descobriu o prazer que seus dedos poderiam lhe proporcionar. e entendeu que para olhar debaixo de sua saia seu vizinho tinha que lhe oferecer muito mais do que simplesmente algumas horas de risadas e brincadeiras de pega e esconde esconde na rua vazia.

quando ela tinha treze anos, arranjou um namorado com o qual passava horas beijando na sala da casa dele enquanto a mãe dele cuidava da casa e seu pai estava no trabalho. ela fazia primeiro ano do colegial, ele fazia cursinho pré-vestibular. um dia chegou para visitá-lo depois da aula, ele ainda não havia chegado, quem abriu a porta foi seu pai que disse a ela que ele tinha uma consulta com o dentista marcada, mas que logo chegaria e que não havia problema em esperar por ele ali. explicou também que aquela era uma tarde diferente das outras, já que ele estava de folga e a mulher estava na casa da mãe porque houveram alguns problemas. ela sorriu timidamente e disse que esperaria na sala. ele ligou a televisão, entregou o controle para ela e disse que ia tomar um banho. pouco tempo depois ele volta à sala enrolado numa toalha verde musgo, pergunta se está tudo bem. ela diz que sim, sorri timidamente. ele senta ao lado dela no sofá, a toalha se solta do lado, mas não revela nada. ele olha para ela bem fundo nos olhos, enquanto ela desvia o olhar para a televisão que passa alguma propaganda de ralador de verduras. então ele começa a dizer que ela é uma garota muito bonita, que seu filho é um garoto de sorte por ter encontrado uma belezura daquelas e que ele mesmo, nos tempos antigos, gostaria muito de ter encontrado uma moça linda como ela. ela baixou os olhos, disse um obrigada baixinho e se afastou um pouco dele. então ele disse que a queria tanto, que desde que ele a viu entrando na sua casa pela primeira vez ele a desejou e que o filho dele não merecia ela. então a agarrou e enfiou a língua em sua boca, a toalha abriu e revelou o pênis ereto. ela ficou impressionada com aquilo. impressionada e assustada. o medo tomava conta dela e quando o homem veio para cima dela, para baixar suas calças e calcinha e enfiar o membro em seu sexo virgem, ela se surpreendeu quando, ao invés de um grito sair de sua boca, ela apenas disse sim e sim e sim.

quando ela tinha dezessete anos, fez uma viagem para o exterior. passou cerca de um mês passeando, aprendendo sobre novas culturas, enriquecendo sua alma e seu conhecimento quanto a diferentes e inúmeros prazeres. descobriu novos sabores e experimentou coisas que antes só havia visto em filmes, comidas, pessoas, posições, de tudo. seria uma viagem para ser quem ela era verdadeiramente e ainda mais, extrapolar os limites do auto conhecimento e se tornar algo maior que si mesma, estava prona para se tornar quem ela nunca havia sido antes perto de todos que, de certa forma, deixavam-na acanhada e um tanto desconfiada, apreensiva de se soltar. na primeira noite subiu para seu quarto com um homem que havia conhecido no início da noite no clube em que iriam comemorar aquele início bem sucedido de férias. ela voltou para a festa uma hora e meia depois, onde encontrou outro homem, um mais novo, dessa vez, um que lhe apetitou os olhos e subiu novamente ao quarto. fez sexo com mais um desconhecido além desse segundo naquela noite. dividindo quarto com ela havia uma amiga, pronta para encobrir tudo o que fosse preciso para que não desconfiassem das coisas que fazia. nas semanas seguintes, seguiu com a média de três parceiros por noite, algumas vezes simultaneamente – experimentou anal e, um dia depois, d.p. -, às vezes separados, às vezes subia também com alguma garota. quando retornou e seu pai perguntou sobre a viagem ela disse que foi uma boa viagem, que pensou muito neles e passou boa parte do tempo orando pela saúde de seus pais, de quem sentia muita saudade.

quando ela tinha vinte e dois anos, estudava psicologia numa das melhores faculdades do país, suas notas eram as melhores da turma e já havia publicado um artigo acadêmico sobre o comportamento sexual de jovens adultos e adolescentes e a influência da pornografia na sexualidade do ser humano. se formaria com louvor e já planejava sua tese de mestrado. havia se tornado uma mulher fabulosa não somente intelectualmente, mas fisicamente. suas medidas eram capazes de fazer as mulheres que saem em revistas masculinas se sentirem meras crianças perto dela, sua pele parecia ter sido tratada num programa de computador e colocada sobre sua carne, seu caminhar era firme e sensual, seu cabelo emanava um cheiro bom, sempre, de canela e mel, sua boca era carnuda e sua voz era delicada etranquilizadora. era querida por todos: seus professores a admiravam, seus colegas e amigos idolatravam, suas colegas e amigas a invejavam, sua mãe e seu pai morriam de orgulho. ela era uma garota de futuro, seria uma das grandes referências da psicologia dentro de anos, seria famosa e rica e tudo isso graças a sua inteligência.

quando ela tinha vinte e três anos, tirou um ano sabático, um período de tempo em que todo o seu trabalho acadêmico estacionaria e ela se dedicaria, finalmente, a seus projetos deixados na gaveta por tempo demais. ansiava por tudo aquilo. já havia feito as ligações e falado com as pessoas certas, tinha conhecido alguém do meio que queria trabalhar. agora ela sentia os holofotes quentes da iluminação do estúdio ofuscando seus olhos, estava sentada no chão de um set de gravação, o ar condicionado ligado no máximo fazia os bicos dos seus peitos nus se eriçarem, mas isso era desnecessário. havia cerca de vinte homens ao seu redor, sendo cinco da equipe de gravação e os outros quinze atores com seus membros em suas mãos prontos para serem engolidos por ela, um de cada vez, dois por vez, três, quantos conseguisse. montara cada um deles como se fosse uma amazona poderosa, a rainha de todas elas, cavalgara cada um como as valquírias fazem nas batalhas quando vão curar os guerreiros. ao seu redor todas as lanças apontam para ela, desarmaria todos e se alimentaria deles, tornar-se-ia mais forte. então, ao sentir o primeiro jato quente tocar sua língua, ela sorriu lembrando da primeira vez que saboreou daquele líquido espesso, sorriu de prazer, sorriu para os quinze que gozariam sobre ela, sorriu para os cinco da produção, sorriu para a câmera e para o mundo que a via do outro lado das lentes. sorriu para seu pai, sua mãe e seu avô. sorriu com alegria, com gozo, com desdém, sorriu porque precisava e porque amava tudo aquilo. sempre se perguntava como alguém poderia não amar aquilo.


não adianta.

janeiro 19, 2010

às vezes você vai se olhar no espelho e, ao mirar sua imagem refletida, vai tentar fingir confiança e dizer para si mesma: “eu já não penso mais nele.” então, perceberá que ao fazê-lo você está pensando em mim e todas as lembranças possíveis de vir à tua cabeça virão. aí você quase irá chorar porque nota que todos esses meses que você lutou para não sentir minha falta foram em vão e que agora você se sente mais só do que nunca. as lágrimas começam a brotar no canto dos olhos da imagem no espelho e escorrem pela sua bochecha lentamente até que você toma coragem e as enxuga com a palma da mão. ao sentar na cama atrás de ti, tornas-te inconsolável e cai no choro incontrolável. apóias o rosto nas mãos e os soluços tomam teu corpo, que se agita como uma epilética. deitas na cama.

ao fechar os olhos, no entanto, você sente o familiar cheiro das flores que eu te trazia todos os dias e que você colocava no criado mudo que ficava à cabeceira da nossa cama, que agora é só tua. então você vira a cabeça, esperançosa, em direção ao móvel onde deveria haver o vaso, mas você não encontra nada: sem lírios, sem cartão que diz que eu te amo, sem o porta retrato com a foto de nós dois abraçados na beira de um lago congelado, completamente agasalhados, rosto com rosto, sorrisos gigantescos dados para aqueles teus amigos que faziam alguma piada. você, não enxerga nada disso, apenas vê as horas: 23:42.  você resolve levantar porque a cama começa a te trazer todas as recordações que você não queria ter nesse momento e você quer fugir delas.

caminhas até varanda, passando distraída pela sala, para olhar o movimento. a noite é calma e isso te faz pensar que é algo bom. fecha os olhos e sente que o vento frio toca a tua pele e você se sente lavada, acha que seus fantasmas foram levados todos pra longe de você. então, ao levantar as pálpebras e o conjunto íris pupila se ajustar à luminosidade, você enxerga de longe um homem de cabelo volumoso. então sentes dentro de ti uma pontada de saudades e não faz a mínima idéia do motivo. você olha o céu, vê a lua crescente e se vira para entrar na sala. súbito, você lembra de todas as vezes que te falei de quando deixei meu cabelo crescer e usei um black power por uns meses. agora você sabe dos motivos de se sentir daquele jeito. caminhas até o sofá e liga a televisão para evitar novos pensamentos.

entre uma passagem de canal e outro você cai num daqueles que exibem pornografia em horário nobre, então, ao ouvir todos os gemidos falsos das atrizes, se lembra de todos os orgasmos que eu fui capaz de te dar sem você quase nunca pedir. então vai lembrar das nossas primeiras vezes, os primeiros beijos, as primeiras cópulas, os primeiros eu te amos e você lembra da tarde em que, depois de fazermos sexo por quase duas horas, eu virei para você e disse “eu te amo e amo e amo e alguém como eu, que te ame tanto, você nunca irá encontrar e isso não é nenhuma praga ou coisa do tipo, é apenas a mais pura constatação de fatos porque… bem… porque eu sempre amo o máximo que se deve amar, mesmo quando não se deve fazê-lo. e eu te digo isso tudo e digo que eu sou um tolo e que nesse exato momento você pode me foder como ninguém poderia fazer mais no mundo inteiro. e você pode nem acreditar em tudo o que eu digo – e nem espero que o faça – porque eu falo as coisas de uma forma diferente, estranha, semantica e gramaticalmente erradas. mas eu te digo tudo isso, meu bem, com a mais profunda e bonita sinceridade, sem a mínima ostentação. eu te amo e acho que o meu amor é o maior que se poderia haver. eu não sou um dos milhares de últimos românticos e você sabe disso muito bem porque… bem… porque eu nem sou tão romântico assim… mas é isso que eu tenho a te dizer agora, depois dessas horas entrando e saindo de você. eu te amo.”  e você vai pensar que essa foi a coisa mais linda que alguém já disse para você e que eu estava certíssimo quanto a isso, porque você sabe do esforço que fez para não dizer meu nome a todas as outras vozes que te falaram ao ouvido durante as tuas relações sexuais, sabe que elas só disseram nada perto de tudo o que eu disse, você sabe que o suposto prazer que eles te dão não é nada perto do que eu te proporcionei. então você resolve desligar a televisão e voltar para o quarto porque você precisa de uma noite de sono e não de fantasmas do passado te assombrando com esses pensamentos.

no caminho para o quarto você ouve um automóvel passando veloz na tua rua e lembra de quando você tinha aquele carro barulhento que mal se movia, mas que nos levava para onde queríamos com um pouco de vontade e um tiquinho de esforço. de repente vem à tua mente as lembranças daquele piquenique que fizemos num campo duma cidade de interior que visitamos só porque achamos que ela tinha um nome esquisito e curioso. então fomos lá e não encontramos nada além daquela vastidão campestre. lembra da textura da minha calça favorita, desbotada de tanto uso. você lembra dos sorrisos, dos carinhos, da alegria e sente falta de tudo aquilo.

então, ao entrar no quarto, você abre o teu guarda roupas à procura de algo meu. encontras um álbum de retratos antigo, que você abre ansiosa, desejando me encontrar nalguma daquelas imagens, mas em nenhuma delas estou. você sente um imenso arrependimento de ter rasgado e queimado todas as minhas lembranças físicas: fotografias, presentes, cartas. o silêncio no cômodo é quebrado pelos teus soluços. você se levanta, deita na cama com o rosto no travesseiro, que abafa teus lamentos e cai no sono, mas não sem antes pensar que na verdade, por mais que você tente, me esquecer será impossível, que embora o tempo passe e leve embora muitos dos detalhes que formam as lembranças, como cheiros e sabores, ele jamais conseguirá apagar por completo tudo o que nós dois fomos, porque sua passagem não deixa de ser um detalhe que enriquece ainda mais cada uma das nossas memórias.


nova vida.

janeiro 12, 2010

quando era jovem eu sonhava com as coisas que um dia teria na minha vida. todas as aventuras e os lugares fantásticos que eu sempre ouvi falar nas histórias contadas pelos meus pais e, principalmente, aquelas que eu escutava nos bares quando fugia de casa escondido à noite para ver os tipos esquisitos que circulavam pela cidade.

eu era uma criança tola, imaginativa, fantasiosa. via coisas nas sombras que nunca estiveram lá de verdade. meu pai, com cerca de vinte e oito anos, cabelos pretos e olhos quase da cor de piche, era dono de uma mercearia e minha mãe, de pele morena, olhos pretos, cabelos cacheados e um olhar de constante preocupação, cuidava da casa com minhas três irmãs mais velhas. eramos sete irmãos e eu era o mais novo de todos. nos torneios de luta de brincadeira, organizados por meus irmãos e que contava com a participação dos vizinhos e alguns primos que moravam perto, eu sempre perdia e era desclassificado logo no início. não que me faltasse massa, eu sempre fui um tanto acima do peso, mas a diferença de idade pesava muito mais do que meu corpo nessas horas e eu só consegui minha primeira vitória ao completar 10 anos. mas a essa altura as brincadeiras dos meus irmãos já não envolviam combater um ao outro no braço, mas competir entre si para ver quem conquistava as melhores garotas.

minhas irmãs sairam de casa para morarem com seus respectivos maridos. lea casou aos dezessete , quando eu tinha oito e engravidou no ano seguinte dando a luz a gemeos e morrendo após o parto. mamãe ficou sentimental por algum tempo e papai seguiu a vida e mandou que todos o fizessem porque era o que havia a se fazer; mia casou-se no mesmo ano, aos quinze anos de idade e engravidou dois anos após o casamento – achavamos todos que ela não seria capaz de gerar bebês, mas a verdade é que havia casado sem que o primeiro sangue tivesse escorrido; cassandra casou-se aos dezenove, quando eu tinha dezesseis e engravidou três meses depois da festa, dando a luz a uma bela menina. todas elas eram lindas e virgens quando saíram de casa, transpiravam inocência e beleza – e foi com elas que ficou toda a beleza da casa, enquanto eu e meus irmãos tinhamos que nos virar apenas com conversa sorrisos e um pouco de charme.

a adolescência foi um momento de certas dificuldades para mim, a língua começava a desejar seu par feminino e meu pênis se enrijecia com uma facilidade tamanha que às vezes me deixava constrangido e triste por não ter em quem introduzí-lo. mas as coisas estavam prestes a mudar. foi numa noite de quando eu tinha meus treze anos… meus irmãos mais velhos se reuniram e me arrastaram para o prostíbulo favorito deles, onde me pagaram a rameira mais barata que havia (“para que desperdiçar uma boa mulher com um garoto iniciante?” – eles disseram). foi uma noite da qual nunca esquecerei. as sensações espetaculares, aquele calor, a umidade, agradeci a todos os deuses por terem feito aquilo daquele jeito. não aguentei muito tempo e jorrei meu líquido dentro da mulher. naquela noite dormi com um sorriso no rosto. algum tempo depois daquela noite, algumas bolhas apareceram no meu membro, mas foram embora depois de algumas semanas esfregando bastante com água, sabão e vinagre de limão.

sobre meus três irmãos mais velhos, que me levaram ao local onde iniciei minha vida adulta, não há muito o que se falar. os três casaram cedo dando início a suas próprias famílias e negócios, de forma que, quando alcancei os dezesseis anos e vi minha última irmã casar, fiquei só na casa com meus pais. nessa época terminei meus estudos – da família, eu havia sido o único a apresentar algum interesse pelos caminhos do conhecimento. papai continuava com sua mercearia – se havia sustentado nove pessoas com ela, podia muito bem sustentar somente três – e mamãe agora que a casa esvaziara e o trabalho diminuira drasticamente, já não tinha mais com o que gastar seu tempo, de modo que me importunava quase todas as horas do dia. é de conhecimento geral que uma mãe, ao ver seu filho sossegado em seu canto, sente dentro de si tamaho incomodo que não consegue acalmar-se. além de estudar, eu trabalhava como mensageiro de um dos meus professores, no entanto, no meu coração, a vontade de viajar pelo mundo e conhecer tudo o que ele pode ser e oferecer se reavivava a cada dia, crescendo e se tornando maior do que a da minha infância.

certa noite, fugindo das conversas irritantes da minha mãe, encontrei refúgio na taverna que eu frequentava quando tinha cinco anos e tudo o que queria era ouvir histórias de outros lugares. quase treze anos depois, eu já não queria escutá-las apenas, minha vontade era ser parte de uma delas. estava eu tomando um caneco de cerveja quente quando um homem alto de cabelos curtos e negros e porte físico atlético-forte começou a se gabar de ter participado das maiores aventuras que qualquer um poderia imaginar. é claro que isso parece uma conversa pra boi dormir – ele começara a contá-la exatamente como contavam quando eu era criança -, mas havia algo no jeito do homem que a falava que o fazia parecer completamente confiável. talvez fosse sua capa um tanto desbotada e suas botas de viagem completamente gastas, apesar do aspecto limpo de sua pele e seus cabelos. eu não sei bem o que foi, mas ao ouvir a história do homem, levantei-me, fui para fora do bar, urinei numa das paredes de madeira do lado de fora, entrei novamente e prestei bastante atenção a ele. em determinado ponto da história, ele apresentou um amigo seu, magro, cabelos longos presos às costas, pálido e com olheiras que pareciam de alguém que não dormia nunca. ele dizia que esse era um dos seus companheiros de grupo de aventuras. observei-os bem e esperei que terminassem o falatório.

quando a história acabou, depois da minha quinta caneca de cerveja, caminhei até o homem forte que se encontrava afastado do seu companheiro. ele me olhou nos olhos e senti que estava sendo analisado. o sangue correu para minhas bochecha e isso me deixou constrangido, porque sei que ele notou. tentei falar alguma coisa, mas minha voz não saiu. ele sorriu para mim.

“tenha calma, amigo, eu não vou machucar você. vamos lá, fale o que quer…” ele era amigável e caloroso, me senti menos intimidado.

“b-bem, senhor.” disse eu numa voz baixa e tímida ” e-eu g-gostaria de saber se o senhor me aceitaria como acompanhante do seu grupo de aventuras.”

ele pareceu um pouco surpreso.

“ora, veja só! não recebo muitas dessas propostas.” ele coçou a nuca “dio, venha aqui!” disse gesticulando para o homem magro do outro lado da taverna. mais uma vez eu senti o sangue corando minha face.

o homem se aproximou de nós, me encarou com seus olhos cinzentos e profundos que se encontravam no meio daquelas olheiras escuras e eu senti um frio gelando minha espinha, parecia que ele podia ler cada um dos meus pensamentos.

“pois não, alter?” disse o homem com uma voz fria e calma como um lago sem vento. era a primeira vez que ouvia o nome do contador de histórias.

“bem, o jovem amigo aqui” ele colocou a mão no meu ombro e me olhou “qual o seu nome mesmo, amigo?”

“hã… meu nome é damien.” meu olhar se deslocava do homem forte para o magro e dele de volta para o outro.

“bem, o damien aqui quer se juntar ao grupo, o que você acha, hein?” ele dizia tudo com um bom humor que me fazia desconfiar que eu estivesse servindo de alguma piada para os dois. dio encarou alter e depois me olhou por um tempo, calado.

“bem, por mim tudo bem, temos que falar com a outra metade do grupo.”

“é verdade” disse alter “damien, o que é que você sabe fazer?” os olhares dos dois se voltaram para mim. a taverna inteira continuava com suas conversas altas e eu não conseguia pensar em nada extraordinário que eu soubesse fazer.

“bem… sei ler, escrever, entendo um pouco das artes da cura e da culinária, além de saber avaliar um pouco gemas e pedras preciosas – essas coisas eu aprendi em livros, não garanto muito a prática. graças aos tomos eu aprendi sobre história e geografia e tenho um pouco de conhecimento de macenaria e entendo um pouco sobre a forja de armas e armaduras, mas não sou muito bom com o manuseio de espadas. entendo de portas e fechaduras – já tive que desmontá-las e remontá-las algumas vezes na minha casa…”

“calma menino” disse alter rindo “não precisa perder o fôlego. falaremos com nossos amigos. eles estão descansando na estalagem. iremos falar com eles agora e dentro de meia hora estaremos de volta com a resposta. fique aqui.” ele sorriu para mim, encarou dio nos olhos e saiu pela porta. os olhos cinzentos pousaram sobre mim mais uma vez, de cima a baixo e seguiu o homem corpulento. estava prestes a viver a meia hora mais demorada da minha vida.

as pessoas ao redor não se importavam que minha vida poderia mudar completamente naqueles minutos por vir, tudo o que elas faziam era continuarem com suas vidinhas, bebendo, falando alto, jogando dardos no alvo pendurado na parede, perdendo dinheiro, ganhando dinheiro, gargalhando, o mundo continuava ali dentro e eu não era parte dele porque tudo poderia mudar drasticamente, e eu esperava ansiosamente por isso. tomei um outro caneco de cerveja e acabei correndo para a porta para vomitar do lado de fora. estava nervoso demais. entrei novamente e fiquei sentado numa cadeira em frente ao balcão do taberneiro. não bebi mais nada. cada segundo parecia meia hora e um século havia passado até que os dois homens voltaram a aparecer no bar, agora acompanhados por uma mulher ruiva de olhos verdes e pele bronzeada, usando um vestido leve e florido que grudava em seu corpo bem fornido e cheio de curvas e um homem careca e barbado de quase dois metros de altura que parecia algum tipo de sacerdote vestindo roupas que pareciam de dormir. os quatro se aproximaram de mim.

“damien” disse alter “esse é ostaf e essa moça linda é dara. eles são o resto do grupo.”

naquele exato momento eu não queria saber de nada daquilo, só queria saber a resposta.

“prazer, eu sou damien.” eu tentei sorrir para os dois, mas temo ter falhado drasticamente na tentativa.

“bem, damien.” disse a mulher. sua voz era suave e bela. ” soubemos que você gostaria de se juntar a nós. o que te levou a essa decisão?”

fui pego um tanto desprevinido com essa pergunta, pensei que eles fossem me dizer diretamente a resposta. eu precisava saber!

“bem, dara… desde pequeno eu sempre quis me juntar a um grupo de aventureiros e agora que tenho idade o suficiente para sair por aí – tenho dezessete anos e oito meses – gostaria de realizar esse sonho.”

“filho…” disse o homem que parece sacerdote ” você sabe que essa vida não é fácil, não é? que requer vários sacrifícios e que noites como essa, em tavernas, contando histórias, são resultado de dias na estrada, dormindo no chão duro e longe de casa há muito tempo, não sabe?”

“sim, eu sei, senhor. é exatamente isso que sempre desejei. não o chão duro, não as tavernas, mas a estrada, o companheirismo e a aventura.”

os quatro se olharam.

“veja bem…” dio começou a falar “no momento nós achamos que nosso grupo está com o número perfeito.”

comecei a sentir um desânimo me assolando, tomando conta de mim por dentro, estava prestes a ruir, tinha medo que fosse chorar a qualquer momento.

“mas…” continuou ele, senti um aperto no peito quando ouvi essa palavra saindo de seus lábios “achamos que você, especialmente, poderia ser uma aquisição boa para o grupo. seja bem vindo, damien. partiremos amanhã pela manhã. esteja na estalagem quando o galo cantar com suas malas. você tem montaria?”

fiquei estupefato com a notícia. estava exultante e não sabia como reagir. fiquei parado por um tempo. a taverna inteira pareceu se calar, mas isso não aconteceu de verdade, foi apenas perspectiva.

“filho…” senti a mão de ostaf em meu ombro e seus olhos castanhos encontraram os meus “você tem montaria?”

“oh” disse eu voltando à realidade “não, não. quer dizer… meu pai tem alguns cavalos, dois ou três para fazer algumas entregas da mercearia. talvez eu possa pedir a ele um deles para que eu possa montá-lo e viajar com vocês.”

“bom. faça isso.” falou dio. “nos encontramos na ‘estalagem do sol poente’ amanhã quando o galo cantar. até mais, damien.”

“até.” disse eu, excitado com tudo o que havia me acontecido.

“tchau.” me disseram o resto do grupo, saindo da taverna todos juntos.

naquela noite cheguei em casa, arrumei minhas coisas e disse a papai e mamãe que estava saindo para conhecer o mundo. meu pai falou para eu tomar cuidado, concordou em me passar um de seus cavalos. já a mãe não foi tão condescendente, fez um pouco de manha, disse que eu estava abandonando ela, disse que eu era seu bebê e que não podia ir embora assim, mas o pai explicou a ela que já estava na idade de eu sair de casa como os outros fizeram. ela parecia inconsolável, mas eu disse que essa era minha escolha e que pela manhã estaria indo embora. voltaria quando desse e que tentaria mandar alguma mensagem para ela assim que encontrasse um serviço de mensageiro confiável. fui dormir com ela dizendo que não aprovava aquilo e que eu só queria causar desgraça a ela com esse meu mau comportamento, mas, antes do cantar do galo ela estava me acordando com um beijo e um abraço, dizedno que me amava e me entregando minhas coisas todas arrumadas na porta de casa.

cheguei na estalagem montando o meu cavalo e todos já estavam na porta esperando por mim. o galo cantou. eu sorri. disse um bom dia a todos e me falaram que rumariamos para o sul, ouviram falar de um homem que comanda um vilarejo rico com mão de ferro. o sol se levantava no leste e o galo cantou mais uma vez. era uma vida nova que se iniciava para mim naquela manhã. e eu estava pronto para ela.


o teu perdão.

janeiro 9, 2010

“talvez você não acredite em nada disso. e eu nem peço que você o faça, porque acho que cabe a cada um de nós escolher nossas crenças. no entanto, respeitar essa individualização de pensamentos não quer dizer que eu deva me privar dos direitos de te achar ridícula e demonstrar isso todas as vezes que eu puder, através das minhas gargalhadas e olhares – se você não acredita no que estou falando. sabe, mulher, acho que você seria capaz de me olhar bem fundo nos meus olhos com os seus, depois de toda uma noite juntos trepando feito dois animais no cio- ou fazendo amor, como você prefere chamar nossas noites de conjugação carnal – e me perguntar, enquanto estamos suados, cansados, sugando todo o ar que nossos pulmões puderem, se eu realmente gosto de você, se eu sinto o mínimo de amor por ti. você também é capaz de dizer que não me conhece nem um pouco, enquanto eu penso que você é a pessoa que mais sabe sobre mim que eu conheça. você sabe minhas vontades e meus medos, sabe meus sonhos todos e meus pesadelos. você é a pessoa que pode me reduzir a pó numa só sentença ou que pode me fazer ser menos pozinho. mas você sempre consegue me surpreender ao descrer nas coisas que falo. como se eu fosse o maior mentiroso da face da terra – eu acho  que às vezes você deve realmente acreditar que eu sou e eu não entendo realmente os motivos de você pensar isso. eu rio sempre, porque é tudo o que eu posso fazer em relação ao que você acha ou deixa de achar quanto aos meus sentimentos e pensamentos direcionados a ti. você, com seu cabelo de todas as cores, tua boca de vários sabores, me faz pensar que o louco de tudo isso sou eu, quando, na verdade, sabemos direitinho quem é. você me diz que tem medo de me perder nesses meus surtos de loucura, só que quando vamos analisar os fatos, quem foge sempre é você e eu que tenho que ir atrás, correndo descalço no asfalto quente feito um louco fugindo do hospício ou um ladrão escapando da polícia, galopando na estrada como um filme romântico clichê, esperando que haja um engarrafamento n’alguma ponte antes de você chegar na auto estrada e ultrapassar todos os limites de velocidade existentes – porque sabemos que seu pé é um tanto pesado e que  a velocidade te deixa tão excitada quanto um beijo e uma lambida no teu pescoço. você até me diz que não faz sentido eu correr atrás, já que você é quem não quer mais nada, mas se eu não for, não encontrarei mais um bom motivo para seguir a diante. é sempre assim. nada disso é justo, mas quem foi que disse que seria? o conceito de justiça foi criado por nós homens e, desde então, tentamos aplicá-lo às coisas naturais e básicas do universo, como a vida, mas quem disse que elas seguiriam tais regras e leis? quem disse que  os próprios sentimentos,  que deveriam ser subordinados a nós, já que foram criados e alimentados por nós com todos os pensamentos e esperanças que temos, o fazem? eles acabam nos subordinando a eles e nos fazendo de gato e sapato. é muito complicado explicar toda essa baboseira, por isso que eu nem ouso tentar. eu simplesmente sigo, faço sempre o que me dá na telha e termino sempre te ferindo sem querer e me ferindo porque te feri e me arrependendo por te ferir e me ferindo mais ainda para que você veja que estou realmente arrependido e que jamais foi minha intensão causar o mal inicial, mas às vezes acho que não é essa a forma correta de se fazer as coisas e você me diz que não é, que eu ajo feito uma criança, me pondo de castigo como se assim eu fosse concertar tudo o que fiz, quando na verdade termino não mudando em nada o ocorrido. mas acho que quando você me diz essas coisas todas, você percebe que meu arrependimento nos meus olhos e nos meus gestos infantis é real e consegue, de alguma forma que eu não entendo, me perdoar. entenda que essa coisa toda que temos não faz o menor sentido, é extremamente irracional, mulher, meu bem, meu amor – ou o que quer que venha na cabeça para te chamar nas horas em que estamos a sós – mas quem disse que eu preciso de razão quando tenho você? quando tenho você, é somente isso que quero ter, para sempre, você: uma vida ao seu lado, uma morte ao seu lado, o que quer que seja que venha depois, se vier algo depois, como você acredita que vem e eu teimo em dizer que não para te ver ficando rosa, vermelha, roxa de raiva e eu me por a rir, mas que na verdade eu torço para que exista, já que se assim for, estarei mais e mais tempo ao seu lado – mas, veja bem, eu não acho que haja nada esperando por nós do lado de lá. para ser sincero, eu nem acredito que tenha um lado de lá, não faz a menor diferença, no fim das contas porque eu quero que você entenda uma coisa: eu quero e vou te amar até o fim, até o universo inteiro se expandir e se encolher, até as malditas estrelas se apagarem, até o tempo conhecer a eternidade, até que o último átomo se canse de existir e se despeça de seus prótons e nêutrons e elétrons e todas as suas subpartículas que eu não conheci porque meu ensino médio só me permitiu chegar até aí. agora olhe ao redor,  veja as pessoas putas da vida dentro dos carros. está um baita calor, um trânsito infernal. olhe para mim agora e entenda o que fiz, perceba que isso só aconteceu porque foi para você. então faça esse favor para mim, mulher, e saia desse carro, suba nesse cavalo e vamos embora daqui, porque estou cansado e quero tomar um banho contigo e dar umazinha antes de dormir ao teu lado.”

(texto originalmente publicado aqui e aumentado no dia 9 de janeiro)


tudo o que você conhece parte II (ou, tudo o que você continua conhecendo.)

janeiro 1, 2010

em outros cantos de tudo o que há por aí, muitas coisas aconteciam. moléculas conviviam entre si em harmonia, isoladas de muitas outras diferentes, mas sem grandes conflitos. os elementos básicos, hidrogênio e hélio, que não queriam se unir a outros, permaneciam isolados em suas conhecidas comunidades, alguns deles, entretanto, aqueles que antes haviam tomado a decisão de formar planetas, disseram que precisavam de umas férias e um passeio por aí seria bom, então resolveram dissolver algumas de suas ligações, fazendo com que os corpos do qual faziam parte já não fossem mais tão unidos, indo cada um para seu canto da existência, prontos para conhecerem tudo o que pode ser conhecido até cansarem e resolverem se assentar em algum outro lugar bom para eles e se reunirem mais uma vez a outras moléculas.

nos planetas em que as associações moleculares eram estáveis, como vimos anteriormente, as alianças formadas se tornavam cada vez mais complexas, com bactérias englobando suas semelhantes e se tornando cada vez maiores e desenvolvidas, com novas funções cada vez mais difíceis de  se imaginar que um dia seriam capazes de ter, mas as pequenas danadas se mantinham bem. é claro que muitas delas falharam, e as evoluções ocorriam em períodos bem espaçados de tempo. mas a história sempre pode ser resumida a poucas palavras, como estou fazendo agora para a compreensão dessa grande lenda contada por aqueles quem têm boca e querem falar a todos que têm ouvidos e querem ouvir. e, por mais que alguém pense que esses são muitos espalhados por tudo o que existe, eles são a incrível, absurda e indignante minoria.

as já famigeradas bactérias, que agora se uniam umas às outras para um bem cada vez maior e não queriam mais ser chamadas por seus nomes, mas se designavam “células no tecido da vida”, estavam prestes a assinar um dos contratos mais arriscados da história até então: a saída de seus organismos para fora da água, já que a vida ali dentro estava oferecendo riscos demais. os organismos, que eram formados por inúmeros conjuntos desses “tecidos da vida”, responsáveis por funções que antes pareceriam mera fantasia (dividir criaturas em dois gêneros, onde já se viu? bem, agora isso era a realidade e a reprodução agora gerava maior variabilidade, algo bom para todos), competiam entre si de forma desigual e um pequeno grupo de células, responsável por novas adaptações e as grandes revoluções, começou a trabalhar nos projetos para tornar viável o plano audacioso. depois de algumas milhares de tentativas e centenas de milhares de falhas, viu-se que tudo estava pronto para ser executado. o mundo subaquático engoliu as risadas quando o primeiro ser pisou no solo fora dos oceanos. pequenos passos, diriam depois, mas importantíssimos para o que até então se conhecia como vida.

logo após o ocorrido, vários outros dos amontoados celulares resolveram se unir à nova adaptação. refinaram suas linhagens até o ponto em que estivessem todas aptas o suficiente para que as aventuras pelo desconhecido mundo, onde a luz incidia diretamente sobre eles e não sofria a refração que a água lhe causava, fossem possíveis. houve um enorme impacto sobre todos os organismos, que passaram subitamente de seres pacatos e acostumados à vida aquática a exploradores de primeira grandeza, sonhando com a desbravação da superfície iluminada do planeta que observamos com tamanho afinco. mas é claro que a novidade não agradou a todos, os tradicionais e céticos, descrentes que a evolução do planeta estaria acima deles, na sujeira da terra e barro, diziam que o melhor para todos era continuar onde estavam. escolhendo para si outras adaptações para o futuro, outros utilitários que não fossem aquelas coisas que serviam para se arrastar pela imundície, permaneceram nos mares. diziam que aquela moda estúpida não os levaria a lugar nenhum e todos eles acabariam se arrependendo daquilo tudo algum dia. eles não poderiam estar mais certos.

desse momento em diante, acompanharemos de uma distância tranquila e segura tudo o que acontece com aqueles que resolveram se arriscar no mundo seco e iluminado, onde passaram de seres pegajosos e úmidos recém saídos do oceano, para criaturas escamosas e secas, ganhando tamanho e se alimentando agora das grandes plantas que se desenvolveram na superfície do planeta sem que a observássemos, já que a ação, na botânica, não é das mais instigantes (e quando falamos anteriormente das bactérias que se alimentavam de luz, você acha que não estávamos falando exatamente de como as plantas começaram?). havia samambaias gigantescas e líquens e muitas outras coisas verdes fotossintetizantes que serviam de alimento para os pequenos organismos que começavam a diferir entre si entre pequenos, médios e grandes. depois de algum tempo alguns deles conseguiram até um pouco de pêlos e se tornaram minúsculas bolotas peludas que lutavam para se esconder já que não queriam terminar sendo a refeição de seres ligeriamente maiores. e era assim que o mundo seguia, aumentando cada vez mais a variedade de vida sobre sua superfície.

houve uma época da história da vida como ela tem sido em que, sobre a terra, reinou um tipo espetacular de organismo; assustadoramente grandes – gigantescos mesmo -, magníficos e monstruosos. foi um período difícil para os seres pequenos – que tinham, em sua grande maioria, a estranha mania de roer coisas – já que a qualquer segundo poderiam ser facilmente pisoteados ou sua vida se esvairia de seus corpos entre os dentes afiados de alguns dos animais, vamos chamá-los assim de agora em diante, de maior porte. já os gigantescos animais – viram como essa palavra funciona? – competiam entre si pela comida. havia, entre eles, aqueles que comiam somente a carne de outros e os que devoravam toneladas das plantas que os cercavam. as antigas alianças em prol das boas evoluções quase inexistiam entre os habitantes. é claro que houveram inventos revolucionários, como as asas, mas em sua grande maioria, todos pareciam se concentrar apenas em caçar uns aos outros, matar tudo que encontrarem e arrancar suas carnes de seus ossos para encher suas barrigas. instinto de sobrevivência do mais básico que foi elevado a níveis danosos, como veremos adiante.

como todo grande reinado, houveram tempos bons, de enorme riqueza e ascenção, onde o temor e o respeito é facilmente notado. mas é dos períodos ruins que devemos nos precaver sempre, coisa que não fizeram. caíram em terra por não saberem organizar sua alimentação – caçavam mais do que precisavam, deixavam sobras demais – aliado à decisão de se assentarem nesse planeta tomada por um dos nossos já conhecidos aglomerados-de-elementos-unidos-que-viajam-pela-existência-à-procura-de-um-local-bom-o-suficiente-para-descansarem. então, depois de centenas de milhares de anos como donos do planeta, eles sumiram da superfície, deixando – depois de alguns meses de escuridão e cinzas causado pelo grande pedaço de matéria-exploradora-do-tudo-o-que-há que se uniu ao planeta – tudo livre para que aquelas pequeníssimas criaturas, as quais sobreviveram roendo pequenas sementes e coisas do tipo e que antes eram assustadas demais para sair à luz do dia e explorar a vastidão ao seu redor, se arriscassem em passeios nunca antes feitos.


dezembro.

dezembro 31, 2009

e hoje, último dia do mês de dezembro, último dia do ano de dois mil e nove de acordo com o calendário utlizado por nós pessoas cristãs do ocidente e que monopoliza o mundo, estou escrevendo o que foi o último mês desse grande pequeno resumo de quase tudo o que eu consigo lembrar do que me aconteceu nesse ano que passou.

o mês doze começou com um pequeno teste final e a última prova com um espaçamento de dois dias. consegui passar nos dois e ser feliz com um início de férias e com pouca dor, já que dessa vez as bactérias estavam menos atrevidas, mas ainda estavam lá, as malditas. voltei para casa e os exames do pré operatório foram solicitados, mas ainda não os fiz.

então passei uma semana em casa, me divertindo e tudo mais, me decidindo sobre comprar ou não um presente de natal maravilhoso.

voltei para recife para fazer a última prova que faria no ano que foi de alemão, depois de perder muitas e muitas e muitas aulas por causa das batérias filhas da mãe. espero ter passado, espero mesmo mesmo mesmo ter passado de turma.

então voltei para casa e estou livr de bactérias desde o começo do mês.

dezembro foi um mês de muitas saídas e bebidas e bebidas e bebidas e saudade. saudade porque a minha namorada viajou para passar o natal com a família dela em recife e me abandonou em casa sem ela. bebida porque encontrei amigos, encontrei amigos e encontrei amigos e bebemos, bebemos e rimos e filosofamos – e eu até caí e vomitei.

o mês acaba daqui a dezessete horas e cinquenta e sete minutos. o ano também.

mas a vida continua e vai ser um ano bom. tenho quase certeza disso.

quase, porque só os tolos tem 100% de certeza.


novembro.

dezembro 31, 2009

novembro veio com seu dia dos mortos e me proporcionou mais um feriado em casa. uma alegria só. depois o retorno aos fatídicos estudos, se esforçando para tirar o atraso de todos os assuntos passados e conseguir fazer uma prova satisfatória que viria logo.

aí ele continuou com o ritmo do ano e passou rápido. e isso foi bom porque ele precisava acabar.

então fiz a prova e provei a mim mesmo – e a todos que quiserem ver e achar que isso é uma prova – que para passar nessa faculdade não é preciso ir às “aulas”.

depois dessa prova, descansar e receber em casa a visita maravilhosa da namorada. que alegria, não é mesmo? apresentá-la à vida triste que levo em recife e o único lugar que me consola, a livraria cultura. apesar de que a levei para sair com amigos num programa mezzo de índio mezzo divertido.

depois que ela foi embora, o mês acabou, não havia mais nada a não ser se preparar para dezembro e o retorno triunfal ao lar e às férias.


outubro.

dezembro 31, 2009

outubro é o mês das crianças e de uma novidade. as crianças todos conhecem, a novidade virá ao fim desse texto.

começou tudo tranquilo, ou algo equivalente quando está se falando de um mês com uma prova que tem todo o potencial para ser uma das mais temidas logo nos primeiros dias. eu tentei, tentei mesmo estudar o máximo que deu para a prova dos assuntos que eu perdi enquanto convalescia no leito da cama em casa e não estudava absolutamente nada, mas ainda assim, não consegui todos. apesar disso, passei na prova de sistema neurológico, e isso foi bom.

depois do teste, começamos o módulo de sistema cárdio-respiratório, depois teríamos dez dias de folga, que usei para curtir a vida e somente isso. uma completa irresponsabilidade, mas se eu pudesse me dar um adjetivo apenas, seria esse, apesar de saber que, quando é realmente, mas realmente necessário ser responsável, eu sou.

depois do intensivo de férias, o retorno às aulas, mas não por muito tempo. dois dias após o retorno à cidade, uma amigdalite teve início, evoluindo rápido e com dor e se tornando um abcesso, precisando de medicamento intra muscular (isso quer dizer injeção no bumbum). retornei ao lar para que minha mãe aplicasse o remédio em mim e tive cerca de dez dias de descanso que eu também não usei para estudar (isso fez com que eu acumulasse muito assunto, mas muito mesmo). depois de melhorar, voltei a recife, onde permaneci por seis dias, quando um outro abcesso começou a se formar e, veja só que beleza, voltei para casa de novo. dessa vez, porém, decidido a estudar tudo o que não havia estudado, já que já havia passado da metade do módulo e eu não estudara nenhum assunto. tomei vergonha na cara e comecei a fazer uma das coisas que mais odeio: estudar. (adoro aprender. estudar é o preço mais caro que se paga por conhecimento.) tinha que conseguir estudar o suficiente para passar na faculdade. a prova seria em novembro, eu tinha tempo.

então o mês foi indo embora comigo se curando de uma reincidência de amigdalite em casa. a novidade? você me pergunta. bem, a novidade é que eu terminei outubro com uma namorada.