estrela solitária.

Outubro 29, 2009

é escuro e é noite e é uma das mais quentes do ano. uma daquelas em que as nuvens começam a se tornar densas no céu, preparando-se para desabar sobre todos, e abafam tudo o que está sob elas e escondem tudo que há acima delas. existem muitas noites assim, essa é só mais uma e eu poderia dizer que é nela que nossa história acontece, mas não é. há um homem de feições leves sentado num canto de um bar, o mesmo canto de todo dia, ele transmite, em seus traços, mesmo com a barba constantemente por fazer e o cabelo sempre precisando de um corte, um ar de confiança que contagia a todos que o vêem. é ali, em seu canto, que bebe até começar a ver embaçado, até começar a esquecer, até quase não suportar o peso de sua própria cabeça e quase cair no sono. mas ele nunca dorme. sempre sai do bar sozinho, depois de assistir a cada um de seus amigos ir embora – nenhum deles chega ali com ele, nenhum sai dali com ele – , cada rosto desconhecido entrando e saindo pela mesma porta pela qual ele sai caminhando enquanto o dono do bar gira suas chaves e tranca sua porta. no entanto, não se sabe o que ele faz enquanto o sol passeia pelo céu e as portas do local que lhe parece o lar estão fechadas. as pessoas, sempre elas, falam sobre os seus possíveis refúgios. essas pessoas falam demais, sempre, e essa é uma mania odiável que não parece estar nem um pouco perto de ser abandonada.

entre passos trôpegos nas idas e vindas do banheiro, o homem interage com os clientes do local contando casos engraçados de sua vida e piadas a todos que estiverem dispostos a ouvir. se apresenta a desconhecidos com cerimônia e pompa, meneando a cabeça para os homens e flertando com moças, que riem com seus galanteios e, depois de algumas recusas, conta histórias sobre suas amantes e suas grandes glórias do passado (um número surpreendentemente elevado para um homem que vive como ele vive, entre a escória da cidade, sempre bêbado). conquista muitos assim, com sua espontaneidade e alegria, conseguindo algumas doses de bebida na conta de quem oferecer. no entanto, ele nunca pediu a ninguém que lhe pagassem a bebida e, por muitas vezes, recusava que o fizessem, mas depois de insistirem por algum tempo com seus “ora, vamos”, “por favor”, “não me faça essa desfeita”, aceitava de bom grado. quando estava de bom humor dizia que queria celebrar com todos, isso acontecia mais ou menos uma vez a cada dois meses, e todos sabiam o que isso queria dizer: as bebidas daquela noite, para quem estava sentado com ele em sua mesa, seriam na conta dele. sempre foi uma dúvida constante, daqueles que sabem um pouco de sua situação, como ele arranjava o dinheiro para pagar por suas bebidas. ele ria, chamava o questionador de criança tola e dizia que era tudo muito simples e que ele nunca estava devendo nada a ninguém e que, na verdade, o dono do local devia a ele alguns favores e não havia ainda álcool no mundo que chegasse perto de pagar sua dívida. apesar dessa dívida que alegava que o dono do estabelecimento tinha para com ele, pagava sempre tudo o que consumia. todos duvidam do que ele falava e espalha-se por aí que ele é herdeiro de algum milionário desconhecido que deixou todo o seu dinheiro para ele. havia sempre, em seu bolso, dinheiro para saldar sua dívida no fim de cada noite. e não importava quão grande fosse a conta, havia sempre o suficiente para uma generosa gorjeta. perguntávamos a ele se ele não tinha medo de ser assaltado ao sair de casa com todo esse dinheiro no bolso (todos viam quando ele abria a carteira e tirava uma nota de cem do meio de, no mínimo, outras cinco) e ele dizia que não tinha medo de nada por ali e que ninguém iria se envolver com ele. advertiamo-lhe que o mundo estava mudado, que as coisas no seu tempo eram diferentes e que hoje em dia não dava mais pra andar por aí tão seguro de si. acho que tudo o que lhe dizíamos, no entanto, soava para ele como piada, porque ele ria e tomava um gole de sua bebida.

ninguém encontrava com ele durante o dia. alguns diziam que o viam pedindo dinheiro n’alguma esquina do centro da cidade, sentado no chão com um chapéu à sua frente. quando lhe diziam isso ele praguejava e dizia que as pessoas deviam ter mais o que fazer com suas vidas curtas e miúdas como a das moscas de frutas. ele dizia que havia pensado em abandonar tudo isso há muito tempo, por causa dessas coisas, partir para longe daqui e conhecer coisas mais interessantes. mas, ele dizia, aqui tinha os melhores drinques e as melhores comidas. e que de forma alguma ele queria cruzar com alguns daqueles seres. não sei de quem ele se referia, mas ele pareceu bem sério quando disse isso. o assunto do que fazia durante os dias nunca foi esclarecido. uma vez sentei na mesa dele e começamos a beber, só eu e ele, e conversar. contei-lhe sobre minha vida, meus dois filhos, meu trabalho, minha esposa e o amor que senti por ela e temo já não sentir e o medo do abandono e a insegurança que a vida me proporciona agora. falei-lhe do emprego e as frustrações que ele me traz, meus sonhos e esperanças todas que foram embora pela janela, achando que podiam voar e morrendo logo abaixo, depois da queda. então, depois que abri meu peito e enchi meu copo de lágrimas e whisky,  ele, um tanto afetado pelo álcool, seus olhos brilhando como os de um ébrio, me contou coisas que supostamente viu e viveu. eu não sei por que, mas tudo o que ele falava me parecia bastante real e possível – talvez fosse o álcool – , como o fato de eu estar ali respirando. ele me falou de jantares e de pessoas que não eram pessoas e me falou de como viu cidades de prata e de como a sombra dela era agoniante e desesperadora para os homens como eu (ele não se incluiu no gênero), me falou de como era a vida fora desse plano, falou-me de visitas ao deus baco, disse-me a sensação que é fazer amor com deusas e tentou me explicar alguns dos grandes segredos. fez uma lista de lugares que conheceu e que eu achava que eram lendas, mentiras criadas para encantar crianças e fazê-las sonharem com esses locais.

perguntei-lhe o que diabos ele fazia ali, no entanto. se ele havia estado em tantos lugares, por que continuar naquele mesmo bar, naquele mesmo canto, com aquelas mesmas pessoas?

ele segurou minha mão, disse meu nome e disse que era por causa de pessoas como eu. “por causa de pessoas como você, meu amigo, eu acho que vale a pena continuar por aqui, com essas bebidas maravilhosas, suportando o que vier.”

quando saí do bar naquela noite, o céu estava fechado e era escuro. ele ficou lá dentro. lá em cima as nuvens começam a ficar densas. está quente, abro dois botões da camisa e chamo um dos táxis que ficam ali na esquina. entro nele, digo meu endereço e vou embora. está abafado e quente. é impossível ver a lua ou as estrelas daqui de baixo, queria acreditar que elas também não nos vêem de lá de cima, mas elas vêem tudo.


confissão.

Outubro 28, 2009

as cartas estão guardadas dentro do guarda roupas, prontas para serem esquecidas por mim, mas nunca sendo. às vezes eu me pergunto onde estão as páginas que escrevi e mandei pelo mundo. me pergunto se elas foram esquecidas ou se existe a vontade de não mais lembrar o que elas diziam como existe aqui. mas eu lembro de muita coisa porque é assim que sou: alguém que não aprendeu a esquecer, que não gosta de esquecer, na verdade. acho que precisamos aprender a conviver com o que passou muito mais do que simplesmente fingir que nada ocorrera. já pensei muitas vezes em fazer a língua das labaredas lamber as palavras escritas naqueles papéis, os desenhos criados e pintados, cada envelope trabalhado. ainda guardo cada laço que ornamentava suas obras. espero o dia em que criarei coragem para fazer algo com elas… mostrar a alguém, jogar tudo fora, transformar tudo em cinza. e eu me pergunto que fim tiveram meus meses inteiros postos em palavras, meus pensamentos mais íntimos derramados em folhas de papel sujo por grafite. são quase uma da manhã e quem come sozinho na frente do computador pensando num patético passado de um ano atrás sou eu. quem pensa, às vezes, que há exatamente um ano, estava dedicando boa parte do seu tempo e de seus pensamentos a apenas um assunto, que se foi e não rendeu, sou eu. e sou eu quem se sente culpado por saber que não consegue fazer muito mais que textinhos de amores mal realizados, não correspondidos, fins tristes de coisas que não aconteceram porque nunca tiveram a oportunidade de acontecer de verdade. sou eu quem tenho coisas que não devia na parede, que vive com o passado no presente. seja nas paredes do quarto ou nas estantes do quarto de hóspedes ou ao lado da cama. o passado infesta minha vida. e o passado era cheio de sonhos.

sempre abro o guarda roupas e sento no chão para ver o que aquele espaço reservado para algumas tranqueiras me mostra. e é lá que estão as cartas. cartas que gostaria de reler, de pessoas que me fazem bem até hoje e algumas de quem me levou ao céu para soltar pouco depois que atingisse sua capacidade máxima. meu quarto cheira a passado e os sonhos que nele havia. hoje estava tomando banho e me veio a vontade de ser turista. sair pela cidade sem ter conhecimento de para onde ir ou que rua tomar ou onde comer uma boa comida sem correr o risco de uma grave intoxicação alimentar. senti falta das coisas que tive em janeiro: conhecer lugares novos por mim mesmo. ontem, ao brincar com minha carteira enquanto esperava por alguém, encontrei uma foto que deveria ter rasgado, queimado, matado. nela não havia um sorriso ou nada do tipo. era uma três por quatro datada do ano passado, dessas que se usa para fazer inscrições de vestibular. eu já deveria ter me desfeito dela, mas não consigo, ela está na minha carteira junto a outras fotos minhas. simbolizando uma coisa que já não existe há quase um ano. escrevo sobre uma coisa que não existe há mais tempo do que existiu. mas só escrevo porque a dor é universal e eterna, porque eu vivo do passado melhor do que vivo do presente e melhor do que especulo qualquer possível ou impossível futuro. senti uma vontade imensa de rasgar a foto ao meio e dizer que “ontem rasguei teu retrato, te matei e dormi”, mas seria uma mentira e uma coisa absurda. iria contra o que tento pregar de que não é assim que se supera as coisas, que descontar a frustração e raiva nas coisas que nos restou do relacionamento não é bom e que assim não aprenderemos nada. às vezes eu penso que ela sabe disso e torço para que ela não tenha rasgado ou dado ou jogado fora o livro que dei. no entanto, sei que ela já deve ter esquecido o que ele dizia e já não deve acreditar que aquelas palavras eram sinceras, apesar de serem. eu mesmo não acredito, hoje, em um quinto das palavras que ela me disse. mas acho que, ao escrever esse texto estou dizendo a ela para não crer nas minhas, já que prometi a ela que não haveria mais textos para ela. mas, ora, se ela ainda não percebeu que eu a enganei com isso – e eu não queria tê-la enganado, queria ter cumprido essa palavra, mas tudo o que senti foi maior que eu e, às vezes, eu precisava de inspiração d’algum lugar e isso parecia a coisa mais fácil a se fazer, como agora. preciso escrever porque há dez dias não escrevo e… esse é o assunto mais fácil sobre o que divagar: dor de cotovelo. e ela foi a minha dor de cotovelo mais recente. não sei se foi a que mais doeu até agora, sei que não vai ser a que mais vai doer na vida (queria eu que fosse, mas não, há muito o que ser machucado pela frente).

um dia conseguirei reler todas as cartas que ela me escreveu e rir de cada uma delas, da tolice que traziam e das doces mentiras, mas acho que hoje ainda não estou pronto para isso. prefiro que elas continuem onde estão, sem a luz do dia, sem meus olhos correndo por sua letra que me maravilhava por suas curvas. às vezes sinto falta de suas palavras, de sua alegria, de seu carinho. mas não de seu amor, não de amá-la. não do jeito que dizíamos. sinto falta ainda, como há um ano disse-lhe, de todos os momentos que não tive com ela, dos filmes não assistidos juntos, das tardes não passadas juntos conversando, das saidas à noite para qualquer lugar com som legal e pessoas legais. todas essas coisas que tenho com amigos, e não tive com ela, me fazem falta. assim como me fez falta há um ano o colo dela quando não podia tê-lo. quando pude tê-lo ela não quis me dar e hoje não mais o quero, fico feliz que ela tenha alguém que a faça feliz, sinceramente, feliz como ela não me deixou fazê-la, porque ela cria que eu não seria capaz. quem sabe, talvez, eu não fosse mesmo.


ménage à trois.

Outubro 16, 2009

as notas musicais são mais altas que o som da televisão. a voz sai das caixas de som dizendo que se eu quise-la ela estará no bar. eu acho que preciso dela como preciso desse texto. é um pouco superficial a minha necessidade, mas me faz bem saber que joni mitchell está ali por mim e eu estou aqui por mim também. eu preciso escrever para falar, criticar, me expressar de alguma forma porque ficar tempos sem escrever qualquer meia dúzia de palavras que me façam sentido está me fazendo um pouco de falta. muita, na verdade. dudu nobre está no jô, mas eu vou continuar fazendo como fiz por toda a minha vida e ignorar o que ele faz para seguir com a minha vida. e não é nem que eu não curta o samba/pagode que ele faz, se eu fosse ouvir esse estilo seria algo próximo da música dele que escutaria. é apenas… a falta de vontade de qualquer coisa. há dias eu não me sinto impulsionado a escutar música por horas. a ler por horas. em poucos minutos desligarei o meu player e verei alguns episódios de uma série de tv cancelada em 2002.
acho que nunca vi um filme inteiro do woody allen, apesar de ter um pôster dele dobrado em algum lugar do meu quarto (ganhei-o no ano passado de uma pessoa que, nas palavras do gabriel, “me fez bem e depois me pôs na lona.” e essa frase cai como uma luva) – resolvi desligar a tv para, assim, escutar melhor tudo o que ela tem a me dizer. – no pôster tem uma frase dele. eu não lembro qual é, sei que ela esteve pendurada na parede do meu quarto, na cidade para onde não quero retornar, por alguns meses. então, nessa madrugada em que eu não consigo pensar no que fazer, resolvi que assistiria a algum filme dele. a obra escolhida foi Annie Hall que, se não me engano, virou de alguma forma, “Noivo neurótico, noiva nervosa”. amanhã, creio, se tiver algum tempo, verei Annie Hall.
acabei de ir à cozinha e preparei um café com leite. olhei minhas opções e a pizza do jantar não parecia tão apetitosa assim… esquentá-la no microondas recém chegado do conserto não me pareceu a melhor opção. seria ótimo ter um biscoito doce ou uma barrinha de chocolate, mas não tenho. tenho, no entanto, café, leite e o adoçante que me acompanha desde os 12 anos. foi na cozinha, pensando em como warren ellis, grant morrison, neil gaiman e alan moore escrevem numa quantidade imensa, que resolvi voltar, tomar veronha na cara e continuar a escrever. não que eu esteja querendo me comparar a esses geniais filhos de umas éguas que eu admiro e invejo (warren ellis está entrando pro hall de roteiristas que eu respeito aos poucos, neil e alan fundaram esse hall e o grant me conquistou com algumas das obras quadrinísticas mais loucas que eu já li – e uma das mais lindas, All Star Superman. longe de mim chegar perto desses casas, mas é que a dica de qualquer escritor para novos escritores é: “escreva todo dia”. e eu não escrevo todo dia, cara. eu não escrevo de verdade há semanas. eu não teria sobre o que escrever todo dia e, quando me peguei pensando nisso, percebi que eu deveria realmente escrever todo dia. nem que fosse sobre a bunda de alguma garota que passou por perto de mim naquele dia e eu reparei. (há um conto parado, por sinal, vinte e oito ou vinte e nove dias da minha agenda do ano passado, sobre um relacionamento fictício pateticamente inspirado por uma garota linda dos cabelos longos e castanhos escuros, pele branca e uma bunda maravilhosamente redonda e grande e linda e de uma mancha no rosto que uma vez eu vi na fila da saraiva ajeitando a calcinha sonoramente – a onomatopéia pléc se encaixaria muito bem aqui – e depois disso comecei a encontrar com ela na faculdade. ela não faz medicina, já tentei descobrir, à distância, qual curso ela faz, mas falhei entre economia e alguma engenharia. ela é sensacional, do tipo colírio, um rosto de garota má, olhar frio e concentrado, do tipo capaz de reduzir um homem a nada se quiser. mas ela tem um macho.) meu café com leite esfriou loucamente enquanto escrevi tudo isso de uma vez, trouxe também para me acompanhar por essa noite uma garrafa de um litro e meio de água. será uma longa noite, como todas as outras da semana têm sido.
meu celular não toca desde as 18:40 e era minha mãe. antes disso ela me ligou às 14:00, 14:05, 14:10 e 15:00. antes disso a última ligação é da noite passada e era retornando uma ligação que eu havia feito para convidar uma amiga para ver um jogo num bar. o único som que ouço é o do ar condicionado. desliguei o som antes de ir à cozinha, quando me decidi que veria seriados pelo resto da noite. está claramente perceptível que eu não sou um dos seres mais decididos do mundo. eu chego a sentir falta em alguns momentos de alguma voz além das que falam na minha cabeça, aquelas que dizem: agora você deve falar sobre isso e isso e isso. até elas estão caladas ultimamente. desde pouco antes delas irem embora eu andava confuso, sentindo falta de coisas que eu não sei o que são, que talvez eu nunca tivera, mas que desejara. é a época do ano. ano passado lembro de ter sido atingido por sentimento semelhante, mas eu tinha meio que um jeito de deixar a loucura escapar sem me sentir culpado e sem ser ignorado. era bom. há tempos não escrevo uma carta que não seja um presente de aniversário e eu me sinto mal por isso, me sinto culpado por achar que não conseguirei nunca mais escrever 11 folhas de papel, frente e verso com minha letra miúda e enviar tudo num só envelope gordo pelo correio. eu temo nunca mais conseguir arrancar tanto assunto do nada como antes eu conseguia. e até nos meus versos eu vejo a repetição extrema e o cansaço. eu não consigo enxergar nada de novo neles e me entristeço e decepciono por pensar que talvez eu não consiga mais criar tiradas sagazes, fazer trocadilhos inteligentes e essas coisas que antes eu conseguia com uma certa frequência. é tudo muito estranho e bem ruim. me sinto frustrado por não sentir o tesão que meus colegas sentem por estudar o que estudamos, e sinto um medo enorme por saber que essa é a única coisa pela qual eu realmente senti tesão por toda a vida. é como passar a vida inteira querendo comer a megan fox e a scarlet johanson ao mesmo tempo e, na hora das preliminares, quando a johanson está com o seu pau na boca e a megan está mandando ver um belo oral na scarlet, ao invés de pensar que é o cara mais sortudo do mundo, você pensa que talvez devesse ter ficado mesmo com aquela menina que dizia que te amava lá na sua cidade, e não ter celebridades disputando pra ver quem vai sentar em você primeiro. é triste, muito triste.
meu café com leite que, quando preparei, estava morno devido ao leite gelado e o café não muito quente, agora está frio como a água gelada que eu trouxe para o quarto e esquentou. o tempo vai estragando tudo. a água, o café e a vida.


“os dedos entrelaçados já não dão-se as mãos.”

Outubro 7, 2009

é uma cena normal, os dois de mãos dadas, dedos entrelaçados. a velha pintura que todos sabemos de cor e salteado, o casal pode ser formado por quem quisermos, nós – nós e nossas amadas, amantes, namoradas, esposas -  nossos amigos e suas digníssimas ou digníssimos, nossos familiares, pais, avós, tios, qualquer um que seja capaz de fazer um par com alguém. há alegria e cumplicidade naquela imagem, de uma forma que não se consegue apenas explicar em palavras, que é preciso sentir algum dia a vontade de segurar a mão de alguém para saber explicar. o sol se põe n’algum ponto que ninguém vê direito, mas sabemos que está na hora do crepúsculo pela tonalidade das cores na pintura. o casal usa roupas normais de um fim de tarde onde quer que estejam passeando (porque, sinceramente, isso não importa, o como estão vestidos, quantas pessoas estão ao redor, se neva ou chove, se é no brasil ou na argentina ou na argélia ou nova zelândia, a cena é igual e se repete todo o santo dia entre casais, é um simples entrelaçar de dedos.). a idéia central dessa paisagem está ali nas mãos, nos dedos. elas se tocam, eles se entrelaçam, como se as duas pessoas procurassem de uma forma simples, se tornarem apenas uma.
ele sente a vontade de estar com ela. a tarde inteira foi maravilhosa, haviam se divertido, conversado sobre tudo o que poderia imaginar ser possível se conversar com uma pessoa do sexo oposto. não! com qualquer pessoa. haviam falado de medos e certezas, de risos e lágrimas, haviam falado sobre música boa e ruim, drogas boas e ruins, livros bons e ruins. diabos! tinham falado sobre quadrinhos e discutido a diferença entre os dois maiores roteiristas do mundo na opinião de ambos (apesar dela preferir as coisas de um e ele as coisas de outro). haviam falado sobre o lirismo de um e a crítica política de outro e como ambos possuiam a incrível capacidade de serem líricos sem serem piegas e ele ainda falou sobre como ele acha que em um você consegue encontrar mais do ser humano no super herói e n’outro você encontra mais do herói no humano. falaram sobre como o cinema consegue transformar grandes quadrinhos em puro lixo (e ele era um pouco mais liberal quanto a isso. apesar de achar que muitas coisas se tornaram a maior porcaria cinematográfica que poderiam virar) e em como os grandes estúdios só querem saber da grana que os heróis geram e que pouca gente está cagando para as histórias. e ele falou sobre como hoje em dia o rock n roll não é mais tão cheio de sentimento e energia quanto nos anos sessenta ou setenta – apesar de nenhum deles ter chegado perto de viver essas décadas – e que havia poucas bandas para as quais se dar valor atualmente. e ela discordou. foi nesse ponto que ele teve sua decepção com ela, sua grande decepção: ela começou a listar bandas novas e músicas novas que ele devia escutar e ela dizia nomes que ele nunca iria aprender, bandas que ele nunca pensaria em sequer conhecer, e ela falava e falava sobre como eles eram a nova vanguarda e como não perdiam em nada para as bandas de antigamente e, num momento, ela quase arrancou seu coração ao dizer que adorava a maldita música eletrônica (ele costuma dizer que aquilo não é música, mas barulho). apesar de tudo isso, riram e se divertiram enquanto discutiam as melhores frases de seriados da adolescência de ambos e se perguntavam um ao outro qual era o melhor personagem e trocavam novas informações sobre as coisas novas que um via e o outro não e terminaram anotando um no celular do outro o nome de uma ou duas séries de comédia que o outro deveria assistir. e, n’algum momento, entre uma risada por causa de uma lembrança boba que ela trouxe ou um simples estar parado observando a beleza dos olhos dela, ele pensou em como aquelas horas todas haviam passado sem que ele notasse e em como havia tempo que não se divertia tanto com apenas uma pessoa, que há uma quantidade demasiada grande de tempo havia passado desde a última vez em que não se entediara com uma conversa de mais de quinze ou vinte e cinco minutos. eram quase cinco da tarde e ele estava ali, conversando com aquela mulher, há quase quatro horas sobre coisas que antes pensava serem impossíveis de se conversar sem esquentar a cabeça com a outra pessoa. foi enquanto a via rindo de alguma situação que ele contara – ou ela. não fazia diferença, de verdade, quem falara o que – que ele sentiu um impulso enorme de segurar aquela mão branca que se agitava à sua frente. segurá-la e entrelaçar seus dedos com os dela, talvez beijá-la e simplesmente ficar assim por um tempo. tempo o suficiente para que se sentisse bem e confortável com aquela situação. mas no exato momento em que encaminhava sua mão na direção da dela, pensou que talvez aquela não fosse a coisa certa a se fazer, que talvez ela não quisesse sua mão junto da dele, que talvez ela não achasse confortável aquela situação, que seus dedos ficariam melhores livres dos dele. então, no meio do caminho, a mão que ia certa na direção da dela, com medo da rejeição, exitou e vacilou, procurou outro caminho, um novo objetivo, um bolso da calça, um copo sobre a mesa, uma coçada inocente numa parte do corpo, uma saída estratégica de uma possível humilhação. sim, humilhação porque ser rejeitado é sempre humilhante.
ela sente a vontade de estar com ele. com ele, ela se sente à vontade de falar sobre coisas que com outros homens ela simplesmente calaria com medo de ser considerada estranha demais: seus gostos… tanto para música quanto para literatura… ela quase não se controlou quando ele, enquanto falavam sobre um dos livros favoritos dos dois recitara pequenos trechos de alguns dos capítulos favoritos dela. e sentiu que aquilo que tinham, a incrível forma como se conectavam, falavam entre si através de referências à cultura pop, só aumentava mais e mais quando passaram quase uma hora discursando sobre quadrinhos e a importância da nona arte para ambos. ela fala com ele sobre seus filmes favoritos e não recebe um “nunca ouvi falar” como resposta. muito pelo contrário, ela consegue reproduzir cenas inteiras puxando pela memória de ambos. ela sente, a cada minuto que passa, que se sentasse para assistir a um filme com ele, ouviria comentários irônicos que poderiam irritá-la, mas que, na verdade, a fariam rir no final de tudo porque ela iria perceber que tudo o que ele comentou, por mais maldoso e irritante que tenha sido, foi bem verdade e que aquele personagem tão sério, que ela adorou e achou extremamente complexo e completo, realmente é um psicólogo frustrado com sua incapacidade de ser um psiquiatra como tantos que vemos fora das telas e que ela conhecia tão bem, os velhos clichês que só a vida pode nos oferecer. com ele ali à sua frente, seus olhos castanhos que passam confiança e seu sorriso seguro, ela sentia que havia uma conexão que poucos antes conseguiram, mesmo ela sabendo que ele era o tipo de cara que preferia passar a noite segurando um joystick e apertando botões ao invés de sair para dançar com ela numa sexta à noite, ela sentia que havia um link entre eles que não podia ser derrubado facilmente, nem mesmo quando ele disse que o sentimento de verdade estava no brega, na música de amor, de corno e que quem nunca foi corneado não sabe o que é sofrer de verdade por causas do coração, ou quando ele afirmou – e aqui ela teve que engolir um pouco uma pequena regurgitada que ela deu, ao menos foi o que ela disse “okay, depois disso acho que vomitei um pouco por dentro.” – que certas boybands têm músicas boas, bem melhores do que boa parte das bandas que ela clamava serem legais e quase o estapeou quando ele abriu a boca para dizer que “cry me a river” era melhor que “kool thing”. na verdade, ela pensou em largar toda aquela conversa, pensou naquela ofensa e em levantar e se afastar daquele ser bizarro. mas ele ria enquanto assistia à sua reação. isso meio que a acalmou e a fez repensar tudo e viu que abandonar aquele cara ali por causa de uma incompatibilidade cultural não era a coisa mais inteligente a fazer, já que para cada item não compatível havia cerca de cinco ou seis que batiam com um sincronismo tão perfeito que parecia inacerditável. “por deus”, ela pensou, “esse cara sabe as melhores cenas de filmes, os melhores trechos de livros, os melhores episódios de seriados, não se pode ter tudo e querer que ele também saiba sobre as melhores músicas. isso eu posso ensinar a ele.” e se pôs a ensinar a ele que as melhores bandas do mundo eram todas aquelas que ele não conhecia. e que não era subestimando as grandes bandas que ele conhecia, mas é que todas elas eram tão antigas que soavam como uma avó cantando para ninar os netos. ela achou, no entanto, que essa metáfora o irritou um pouco. chamar led zeppelin de música de avó foi demais até para ela, que riu e pediu desculpas dizendo que a banda era simplesmente perfeita, mas que havia muitas outras coisas tão perfeitas quanto, ou até mais, fazendo turnês pelo mundo. ele pareceu realmente afetado com aquilo, tomando sua cerveja com olhos voltados para o copo e sorrisos cada vez mais contidos para ela. foi então que ela sentiu a vontade de dizer a ele que não queria que aquilo os afastasse, a vontade de se aproximar dele, segurar sua mão e deixá-la ali, junto da dele. e foi então que sentiu o medo de que isso não fosse possível devido às suas críticas musicais um tanto exageradas. medo que seus dedos pequenos nunca encontrassem os longos e grossos dedos morenos daquele homem que conhecera naquela tarde incrível. ela pensa em extender a mão e entrelaçar seus dedos com o dele, assim, do nada, objetiva como nunca havia sido em toda a vida, mas não conseguiu. sentiu que esse passo devia ser dado por ele, que se ela fizesse mostraria um interesse por alguém que não a buscou e, para ela, a ausência de busca quer dizer a ausência de desejo. para ela, ele não a queria porque não segurava a mão vazia dela entre as suas.
é uma cena normal, os dois de mãos dadas, dedos entrelaçados. a velha pintura que todos sabemos de cor e salteado. nada disso está acontecendo. nenhuma mão sente o calor da outra, o frio começa porque o sol se põe e ambos estão sentados em cadeiras distintas. a noite está chegando trazendo uma lua que míngua como os ânimos de ambos. a conversa que durou horas, toda uma tarde, está sem energia, fraca como meia dose de vodka com refrigerante quando a intensão de tudo é embriagar alguém. a festa continua para todos, todos riem, ele ri, ela ri, mas mal riem juntos como nos tempos áureos que passaram juntos. as horas passam e passam se arrastando minuto a minuto para ambos. cada segundo em silêncio, para eles, era um grão de eternidade que caia na ampulheta. antes se perdiam um no outro, olhos nos olhos, agora, se perdiam em suas bebidas até que ele diz que está ficando tarde e deve ir embora, perguntando a ela como é que ela vai embora e ela diz que vai de carona com um amigo que está planejando ficar até mais tarde. eles se despedem com dois beijos nas bochechas e um “nos vemos por aí” depois que ele se despediu de todos os outros da festa. ela o vê indo embora e se decepciona consigo por não ter se atirado pelo menos dessa vez e segurado a mão dele, feito suas mãos se encaixarem. ele caminha pela porta, decepcionado consigo pela covardia, por não ter conseguido daquela vez, e nunca, a coragem necessária para superar seus medos e suas frustrações e simplesmente ter segurado aquela mão. era apenas uma mão. o que uma mão pode significar, no final das contas?


Árvore.

Setembro 23, 2009

há uma árvore localizada numa esquina entre a porta do apartamento onde passo partes da minha vida sem ter vontade de chamar de lar (e às vezes quase temendo um dia tê-lo que fazer, mas logo afasto tal pensamento tenebroso de mim) e o local onde param os ônibus para me levar para a única razão de eu ter entrado nesse inferno de cidade. essa árvore não é gigantesca, não chega a tocar nos fios da rede elétrica ou do telefone, mal se diferencia de todas as outras árvores dessa cidade. suas folhas não são verdes e belas e lustrosas como as folhas da exuberante e rica flora dos trópicos, mas folhas amareladas que, muitas vezes, caem no chão, são pisoteadas, espalham seus pedaços mortos por aí. seus galhos projetam sombras não muito sólidas, não seguras, como se a qualquer minuto um raio de sol fosse capaz de atravessá-los e acabar com toda e qualquer proteção contra o calor e a luz do sol. o tronco da árvore se projeta de seu canteiro irregular, as pedras que um dia foram cuidadosamente dispostas num mosaico preto e branco no chão ao redor do buraco onde já fora possível ver terra e um pequeno caule verde – há muito, muito tempo, tempo demais para que eu saiba quando, tempo demais para qualquer um que a note ou se importe saiba – já não são mais dispostas de uma forma a deixar o chão plano como deveria. milhares de pés já pisaram naquelas pedras, há algumas pedras que não se encaixam mais, há aquelas perdidas no tempo, esquecidas no espaço entre uma passada e outra, um tropeço e outro. as pedras que viajaram da calçada para a rua, onde os carros as arrastam, onde as chuvas as lavam e levam direto para os bueiros, onde o sol jamais poderá tocá-las. junto com as pedras quebradas, vão também algumas amêndoas caídas, os frutos do suado trabalho da árvore, prontas para nunca viverem. apesar de sua aparência fraca, suas raízes, no entanto, são fortes, a parte que parece ser a mais resistente de si, capazes de quebrarem o cimento e a calçada e penetrarem no asfalto, prontas para sugar para si os nutrientes bizarros que só a cidade com sua poeira e calor e seus esgotos e poluição pode oferecer.

há uma árvore no caminho. no caminho da minha vida há uma árvore. e essa planta que poderia ter tantos odores, tantas boas fragrâncias, o perfume delicioso das rosas ou dos cravos, margaridas, maracujás, limões, tem cheiro de gente. todas as vezes que passo por ela é como se passasse ao lado de uma pessoa, porque é o fedor delas que sinto: o fedor de urina e fezes e lágrimas e suor, tudo junto e misturado, empestando aquela esquina, fazendo aquela árvore – que poderia muito bem ser um belo pé de amêndoas, aquelas que nunca são colhidas dos galhos, mas sempre estão pintando as ruas e calçadas e todos os arredores de onde quer que cresçam – ser uma árvore gente. talvez seu jardinheiro tenha sido jesus ou um dos grandes revolucionários espirituais, um dos grandes pilares das crenças ocidentais, talvez não. as amêndoas são pessoas caídas e espalhadas na área ao redor da árvore. sempre que passo por sob sua copa nem um pouco frondosa, encontro em suas raízes alguns frutos caídos, talvez esperando para serem germinados, esperando a vida crescer dentro deles para que, assim, tornem-se algo mais que simplesmente frutos caídos de uma árvore – sonhos de talvez serem eles próprios, um dia, árvores que farão seus próprios frutos e os espalharão pelo mundo como sua árvore mãe o foi -, talvez esperando que a idéia de vida simplesmente desista deles enquanto há tempo e os deixe somente como a casca para serem facilmente reabsorvidos por quem os fez. os galhos da árvore se estendem como se fossem braços buscando algo que nunca conseguem alcançar, como dedos que tateiam na escuridão por algo que não conhecem. esperança, talvez, ou apenas expressem, em sua tortuosidade o desespero e confusão da sua situação. o tronco enrugado da árvore parece o corpo de um velho trabalhador braçal, a pele dura cheia de frestas, seca e quase completamente morta, tornando-se inacreditável achar que por baixo dela corram em vasos pequenos, frágeis e finos os líquidos responsáveis por trazer a vida a toda aquela obra da natureza. as poucas folhas verdes que o sol tocava sem que as danificasse alimentavam e árvore, criavam seu alimento, sua energia, faziam suas trocas, seu metabolismo, viviam porque foram condenadas a isso.

há uma árvore numa esquina de uma cidade. ela poderia ser mais uma árvore em mais uma esquina de mais uma cidade grande – cheia de seus atraentes outdoors e suas belezas antinaturais nos distraindo de tudo o que é natural e belo – se eu não a tivesse notado, se eu não tivesse sentido o seu cheiro, se não tivesse reconhecido que aquele era o odor que emanava não de amendoeiras, mas de pessoas. há milhares de outras pessoas que, como eu, passam todos os dias por essa árvore, a vêem, mas não entendem o significado do que enxergam, simplesmente passam por ela para seguir suas vidas, como todos, não sabendo diferenciar – ou pior, talvez nem mesmo se importando – se aquilo caído no chão, à sombra da árvore, perto da poça de urina escura, é uma amêndoa ou um homem que precisa ser ignorado para que a vida continue seguindo como sempre se seguiu até aquele momento. essa esquina acordava abarrotada com frutos caídos ao chão, frutos sobre frutos, frutos fazendo mais frutos, mas hoje em dia os frutos são cada vez mais raros ao seu redor. e é por isso que hoje eu espero. espero um dia fazer o velho caminho da árvore e não encontrá-la mais por lá. encontrar um tronco partido, vários nós vistos por dentro, contá-los-ei, saberei a idade da árvore, mais ou menos quanto tempo ela frutificou. nunca saberei, no entanto, de seus frutos espalhados por aí, se todos eles morreram onde nasceram ou se cresceram e se tornaram melhores, as poucas amêndoas não ignoradas. as poucas frutas que não caíram podres ao chão.


“ser teu pão, ser tua comida.”

Setembro 12, 2009

eu queria ser o teu desejo. sabe quando a gente acorda e a primeira coisa que a gente pensa é em como gostaria que a primeira coisa que a gente visse fosse a outra pessoa, que a primeira coisa a se sentir fosse o corpo quente ao nosso lado? pois bem, eu queria ser a pessoa que você deseja que esteja ali contigo para sentir teu olhar preguiçoso de manhã, ouvir tua voz ao acordar e rir quando você disser que está soando como um travesti bêbado. vou te dizer que nem saberia dizer, já que eu nunca acordei ao lado de um travesti bêbado e você me diz que não é com ele acordando, mas sim bêbado, apenas. e eu direi que, mesmo assim, sob essas condições, eu nunca estive com um travesti. eles nunca fizeram meu tipo. e você vai rir da minha idiotice e me perguntar qual o meu tipo. e eu vou dizer a verdade pra você e abrirei um sorriso ao te ver fechando o rosto por não me ouvir falando que “meu tipo, mulher, é você.” daí, vou tentar te beijar e você vai se levantar e se afastar de mim correndo para escovar os dentes e eu vou te seguir para tirar o gosto de sono da boca. então, no banheiro, tocamos nossas línguas de hortelã e espumamos como cães raivosos, rosnamos um para o outro só pela brincadeira e pelo prazer do riso. para mim, é sempre bom ouvir o teu riso, mulher. a tua risada ao acordar é como música boa quando se precisa, uma sinfonia inteira do beethoven, um minueto de chopin, um solo de guitarra do hendrix ou como o baixo do entwistle, a bateria do bonham, milhões de outras alusões a músicos fodas e a bandas que mandam no meu coração como você o faz. então voltamos ao quarto e ficamos por lá até criarmos coragem de ligar para algum lugar que queira nos alimentar por uma quantia módica nesse domingo preguiçoso. esperamos a comida chegar jogando baralho na cama e eu estou perdendo minha cueca quando a comida chega. você ainda está completamente vestida. você quer que eu atenda a porta nu e eu digo que não vou atender a porta nu porque isso é crime e eu não posso ser preso ainda. você ri e diz que eu sou fraco demais e eu admito que sou fraco mandando você ir para a cozinha pôr os pratos e os talheres na mesa. nos alimentamos, te pago a minha cueca e o almoço me trouxe boas mãos, consigo te deixar nua depois de algum tempo. o telefone toca algumas vezes e nós ignoramos. o tempo passou rápido demais e o faustão já diz adeus. você implorou a tarde toda para não ligar a tv, mas eu quis te mostrar como tudo aquilo era engraçado, como a tv da massa realmente consegue fazer domingos serem os piores dia da semana. eu ri do teu desespero ao ouvir o boa tarde do faustão, ri do teu alívio quando desligamos o aparelho para irmos dormir porque no outro dia teríamos trabalho, como sempre, já que a vida sempre segue do jeito sem graça de sempre. eu durmo ao teu lado pensando em como quero ser teu desejo.

eu queria ser o teu desejo como você é o meu. queria que você pensasse nas coisas como eu penso, de uma forma pervertida e devassa. queria que você pensasse que eu sou o único homem que você quer que estimule teu clitóris – seja com dedo, língua ou na fricção do meu pênis no teu canal vaginal -, quero que você deseje meu falo dentro de ti. ele e somente ele, porque ele pode muito bem resumir quem sou às vezes. você pode resumir qualquer homem a seu órgão sexual por pelo menos uma hora do dia sem se sentir mal por isso, você sabe muito bem disso, minha querida. alguns de nós negarão, mas eles mentem. acredite em mim quando digo essas coisas. aliás, acredite em mim sempre, porque eu não tenho motivos para mentir, porque eu acredito na verdade, doa a quem doer. você me conhece melhor que todas as outras mulheres que já tive, porque você sabe o que aconteceu depois delas, você sabe o agora e sabe o antes delas também, você sabe o tamanho do meu pau e, infelizmente – ou felizmente, até -, poucas o sabem. então, é isso que quero, meu bem, que você deseje me ter inteiro dentro de você, saborear meu sêmen e engolí-lo, mesmo que você nunca tenha engolido nada de ninguém, quero que você me peça para ejacular na tua boca para você me sentir quente descendo pela tua garganta. quero que você me deseje pelo ogro que sou, pela insensibilidade e pelas ordens e pelo desprezo que tenho por certas coisas tuas. quero que me desejes para ser teu macho, para te dominar e te deixar no chão pronta para mim. quero que você me queira para realizar comigo os teus desejos sexuais e não sexuais, para segurar minha mão e apertá-la forte quando se sentir com medo de alguma coisa qualquer – de um cachorro, uma barata, o escuro, a morte. quero que você deseje a minha mão nessas horas todas, porque saberá que serei o teu amparo e consolo e que estarei contigo para deixar as lágrimas caírem, porque todas devem cair, e enxugá-las quando for a hora certa de fazê-lo.

então, mulher, meu bem, docinho, amada, rolinho de beterraba, ou como quer que seja que você prefira que eu te chame, eu desejo ser teu desejo mais que muita coisa no mundo. desejo porque sinto que assim será melhor para nós dois. sinto isso quando fecho meus olhos e é você quem eu vejo, você quem ouço gemendo, você que quero com a boca ao redor do meu pau. é de você que eu lembro quando ouço uma música que nunca antes me lembrou alguém e ninguém ligaria aquela melodia ou letra a você, mas eu o faço porque ela é linda e triste, como você. e é também de você que lembro quando vejo um filme genial e penso que se fosse eu e você ali, eu certamente atiraria na tua testa se você fosse mordida por um dos despertos quando chegasse o despertar, em você que penso também quando vejo filmes idiotas e sinto que aquela hora e meia teria sido muito melhor gasta se você estivesse comigo assistindo àquela porcaria. quando te digo todas essas coisas, é porque todas elas foram sentidas e pensadas antes de serem expostas e ditas aqui pra você, saiba disso.

eu queria ser o teu desejo assim como você é o meu. não me leve a mal. eu sei que as coisas nunca são como deveriam ser, há muitas teorias – teorias demais – para se encaixar em apenas uma realidade. um amigo meu tem algumas idéias interessantes sobre a realidade. de acordo com ele, ela é sempre mutável de alguma forma, uma não muito boa. um dia me aprofundarei melhor nelas, talvez, hoje eu quero realmente ser o teu maior e único desejo.


o senhor do bom fim.

Setembro 8, 2009

“há uma história para essa fitinha. eu vou te dizer toda ela porque você me perguntou sobre. acho que você merece muito bem saber sobre isso. a ganhei do meu avô quando eu era uma criança de sete anos de idade – isso faz com que ela esteja amarrada ao meu pulso há quase vinte anos – e, desde então, tem se enrolado e enrolado no meu braço, mas de forma alguma estourou. era uma tarde de março quando ele chegou de viagem depois de duas semanas entre a bahia e o rio de janeiro. fui ao aeroporto com meu pai para buscá-los: ele, minha tia e minha avó. eu sempre adorei ir ao aeroporto. tanto pela estrada que leva até ele quanto pelo resultado da viagem: ver aquelas máquinas gigantescas que, como se por magia, se erguiam no ar e sumiam entre as nuvens. os aviões sempre me fascinaram, talvez por isso eu tenha desejado por um tempo largar tudo o que conquistei para tentar a vida como piloto de avião, algo inusitado. nunca conheci um piloto de avião por aqui. não sei de nenhuma família cujo filho entrou para a escola de aviação de alguma das grandes empresas aéreas do país. a sorte foi que notei a estupidez que seria e larguei a idéia pouco tempo depois de ela ter surgido. meu pai dirigia o carro da minha tia naquele dia, eu ia no banco de trás por ser pequeno demais para andar na frente. quando estacionamos fomos para o portão de desembarque, onde me deixaram esperando pelos meus avós na parte restrita. lá eu podia ver os aviões de uma forma muito melhor. brancos, ostentavam seus símbolos pelos ares, onde ninguém os via, e os trazia para a terra, que era onde podiam ser avistados por todos. assisti ao desembarque do avião e, de longe, avistei meu avô. alto, moreno, os poucos cabelos que tinha eram brancos e curtos. de longe podiamos ver seu bigode da mesma cor e bem feito. logo depois vinha minha avó e à frente, ajudando-o a descer as escadas uma por uma, minha dedicada tia. ele se aproximava a passos lentos e arrastados – eram assim desde que eu tinha 3 anos e ele sofreu seu primeiro derrame, as seqüelas foram poucas, pelo que lembro, mas seu caminhar nunca mais foi o mesmo, apesar de toda a fisioterapia. e eu ansiava pela presença deles, pelas novidades e pelos presentes.ao atravessarem o portão que separa a parte de desembarque da pista de pouso, corri para abraçá-los. pedi a benção a todos, como sempre fui acostumado a pedir – e até hoje, mesmo sem acreditar que deus irá me abençoar porque creio em sua divina inexistência, peço a meus familiares – e meu avô me deu um cheiro na cabeça, como era seu costume. tanto era que, até hoje, quando alguém vem me beijar, eu baixo a cabeça para que me beijem a testa ou o topo da cabeça. um costume estranho, mas que nunca saiu de mim. estávamos todos felizes por terem feito uma viagem tranqüila e sem complicações.

fomos, então, para a casa dos meus avós, onde eles contariam mais sobre as duas semana, desfariam as malas e destribuiriam os presentes. sim, eu sempre fui um menino interesseiro e egoísta. cresci e me tornei esse homem egoísta, mas menos interesseiro que quando criança. hoje em dia poucas coisas me interessam. uma delas é você. sim, é claro que você me interessa. os teus olhos brilham de uma forma diferente dos outros olhos que eu já vi e tua voz tem uma entonação bela. você consegue sempre parecer interessada em qualquer coisa que eu diga, inclusive minha ida ao aeroporto aos setes anos para pegar meus avós e minha tia, pessoas que você nem conheceu fisicamente e nunca o fará porque agora eles são apenas lembranças boas que eu carregarei comigo até onde der. e é claro que há fotos deles, mas por mais que você os veja, nunca será a mesma coisa, você nunca saberá como é ser abraçado por eles como eu soube. mas vamos voltar à minha história antes que eu me distraia demais elogiando você e sua maneira de sempre ter paciência comigo e minhas histórias sem sentido ou continuidade. minhas lembranças bestas. mas é que você pediu isso quando perguntou o que essa fitinha significava. é claro que você sabe o que é uma fitinha do nosso senhor do bonfim. você amarra e faz alguns pedidos para quando ela estourar, porque ela vai estourar um dia, seu desejo se realizar. mas dizem que se você contar esse desejo ele nunca se realizará. eu mantenho o meu trancado a sete chaves. infelizmente, não vou dizer para você antes dela pocar. sim, pocar. você sabe o que é isso, não sabe? é claro que sabe, te ensinei uma vez… é o mesmo que estourar, quebrar. a corda do violão pocou, a gente diz. enfim, a história da fitinha… chegamos na casa dos meus avós, eles tomaram banho, almoçaram porque chegaram por volta de onze da manhã e o almoço não tinha sido servido no avião. naqueles tempos havia comida de verdade no avião. não eram essas coisas de caixa e só. estava a família inteira que morava na cidade: eu, meu pai e minha tia e meus avós. meus dois primos moram longe e meu tio, na época, também. depois da refeição fomos para o quarto eu, meu avô e minha tia, foi lá que meu avô me entregou a fitinha. lembro que ele mandou que escolhesse uma cor antes de entregar a fita para mim. escolhi azul porque é uma cor bela. ele me entregou a fitinha mandando eu estender o braço e que a cada nó que ele desse nela, era pra eu fazer um pedido. ele deu três nós. ao fim do terceiro ele me disse que assim que aquela fita estourasse sozinha, meus desejos seriam realizados. lembro de todos os meu pedidos até hoje. dois já se realizaram, mas o que espero mesmo é o terceiro. mas esse… esse eu acho que está quase se realizando… espero. e o melhor… tenho quase certeza que se realizará com você.”

“é?” ela perguntou curiosa com as mãos passeando sobre os braços dele até tocar na fita velha e enrolada. foi aí, então, que ela estourou e ele sorriu. ela fez um olhar de espanto, como se tivesse feito uma coisa horrível, como quando se quebra um jarro da avó e ninguém está vendo e não se sabe o que fazer. “e o que você pediu?”

ele se aproximou dela, deu um abraço e lhe disse ao ouvido.

“pedi pra ser feliz.”


A primeira vez. (texto de 04 de maio de 2009, 3:11 a.m.)

Setembro 1, 2009

a chuva caindo lá fora me traz hoje lembranças da primeira vez que eu a vi. era uma noite escura e eu havia passado muito tempo preso num lugar desconhecido, esperando uma curta estiada, uma breve trégua nessa luta dos céus, para que eu pudesse fazer meu caminho pela rua. trovões e relâmpagos cortavam a noite, tornando-a turbulenta e revelando formas que as sombras escondem. eu estava molhado, minhas roupas grudavam no corpo, revelando tudo o que sempre tento esconder: o peitoral mal definido, quase ginecomástico e a barriga protuberante. mal enxergava um palmo na minha frente, com ou sem óculos, não fazia a menor diferença naquela noite, porque as gotas se acumulavam nas lentes de resina, atrapalhando a visão quase tanto quanto os três graus de miopia e o astigmatismo que me faz ver a vida através de uma névoa constante que teima em esconder e distorcer as formas das pessoas e objetos.

a chuva escorria pelo meu rosto de traços toscos e irregulares, acumulava-se de alguma forma na minha barba rala que crescia naqueles tempos e adicionava uns poucos anos às minhas feições. era uma noite ótima para se passar em casa, deitado na cama com um bom livro, uma boa música, uma boa comida, uma boa bebida, uma boa mulher. era uma noite para se perder entre as cobertas e só se encontrar no sonhar. eu poderia dizer que foi assim que a conheci. poderia confessar que foi dessa maneira que a vi pela primeira vez: nos sonhos que tive em noites como aquela. mas eu não falo disso. seria mentira. na verdade, dizer que conhece uma pessoa sem conhecer o cheiro e o sabor de sua pele, a cor e o brilho de seus olhos e a elegância e o charme de seu caminhar é contar mentiras a quem quiser ouví-las ou lê-las. eu não faço dessas coisas. enganar é juntar-me a tantos que não quero ao redor. falo aqui da verdade, da noite chuvosa em que me molhei por inteiro (e comigo estava parte do que sou, parte da minha casa, parte das coisas que deixei para trás para ali estar) , de quando senti seu cheiro pela primeira vez (e o cheiro dela me marcou como poucas coisas marcam um homem, como poucas mulheres conseguem assinar na memória de um homem), de quando soube que sua pele era salgada de verdade, apesar de tudo o que chamávamos um ao outro, seus lábios eram salobros como a água dos rios onde me banhava nos fins de semana longínquos da minha infância.

antes daquela noite, que se parece com a que temos agora lá fora, eu não conhecia nada dela além de sua voz. antes daquela noite ela era uma idéia. há algo a ser tocado além da voz e seu olhar paralisado a milhares de quilômetros de mim. então, aqueles olhos vívidos estão agora a poucos centímetros de você, brilhantes, cheios da água que não transborda porque ainda não é a hora, mas que alguma hora certamente será. há algo em ser tocado por um olhar que nos faz pensar. digo… quando se olha pela primeira vez, ao vivo, alguém que só nos vinha em sonhos e se é olhado em retorno… deus, eu quase chego a acreditar. não há sensações semelhantes para se comparar e me fazer claro.

a chuva pingava do meu queixo e percorria o longo caminho até o chão. eu caminhava cabisbaixo, quase sem me preocupar comigo. o mundo não existia mais para mim até que a encontrei com seu guarda chuva. havia um sorriso em seu rosto. algo que dizia muito sem dizer coisa alguma. parecia muito bem me dizer “estou aqui, vem comigo que não haverá mais chuva no teu caminho, não haverá mais nuvens no teu céu, vem comigo que eu te prometo um dia seco e quente comigo.” ela sorria debaixo do seu guarda chuva, parada na esquina, esperando o sinal fechar. cheguei ao seu lado e, quando olhei bem para ela, notei que seu sorriso não era bem um sorriso, era sua expressão constante, como se tudo fosse parte de uma grande piada da qual ela sempre acha graça, mesmo quando ela sabe que não há motivos para o sorriso. por um breve momento, então, senti calor naquela noite fria. ela reparou em mim, estranho, desengonçado e feio, parado ao lado dela. viu-me como, gostaria de acreditar, nenhuma outra antes me viu. ergueu suas sobrancelhas, franzindo a testa, olhou-me nos olhos com a mesma expressão do aluno do ensino médio que tenta encontrar a solução de uma equação de segundo grau de cabeça. sem dizer uma palavra, atravessou a rua com o sinal ainda verde. não havia carros passando quando ela pôs o pé na rua, porém, quando foi minha vez, para continuar perto dela, um carro dobrou a esquina e quase me atropelou, deixando-me extremamente sujo de lama.

a chuva lá fora já parou, mas as lembranças continuam num jorro ininterrupto de imagens e sons daquela noite. imagens que sou incapaz de reproduzir em palavras ou desenhos ou qualquer outra maneira. fui amaldiçoado quando jovem. rogaram sobre mim a maldição de jamais saber como transmitir aquilo que se quer transmitir, jamais sendo capaz de compartilhar com o mundo as idéias e as lembranças da beleza que vivem na minha memória e na imaginação. aquele dia nunca estará num amontoado de palavras ou numa gravura qualquer. aquela noite e todas as outras noites repletas de beleza estarão sempre e somente na mente incapaz e falha desse que escreve.

não parece certo para mim jamais poder dizer como ela era linda e como cheirava bem e tinha tanto um gosto bom quanto um fascinante bom gosto. até hoje, seu perfume nunca ficou tão bem em outra pessoa. não me parece justo ela sempre ir embora sem que eu a conheça. não me parece justo sempre chover nas minhas lembranças. eu sempre penso no que seria se não fosse um dia de chuva, se eu não estivesse tão abatido, se ela não tivesse atravessado, se  aquele carro nunca tivesse quase me atropelado. eu sempre penso no “e se…” para não ter que viver o “mas agora…”. as infinitas possibilidades do “tudo o que podia – quase devia – ser e não foi” me fascinam mais que a entediante realidade.

a chuva não cai mais lá fora. aqui dentro ela continua, não pára, ela neva no meio do verão. lá fora está molhado das gotas que caíram e não caem mais. cada uma delas, escorrendo pelo chão, me trazem o teu cheiro. aquela foi a primeira vez que a vi. houveram outras vezes, vezes que a conheci melhor, vezes que a desconheci, vezes em que ela foi embora e uma única vez em que eu fui embora para nunca mais voltar.

mas hoje… hoje é a noite de lembrar da primeira vez.

a chuva caindo lá fora me traz hoje lembranças da primeira vez que eu a vi. era uma noite escura e eu havia passado muito tempo preso num lugar desconhecido, esperando uma crta estiada, uma breve trégua nessa luta dos céus, para que eu pudesse fazer meu caminho pela rua. trovões e relâmpagos cortavam a noite, tornando-a turbulenta e revelando formas que as sombras escondem. eu estava molhado, minhas roupas grudavam no corpo, revelando tudo o que sempre tento esconder: o peitoral mal definido, quase ginecomástico e a barriga protuberante. mal enxergava um palmo na minha frente, com ou sem óculos, não fazia a menor diferença naquela noite, porque as gotas se acumulavam nas lentes de resina, atrapalhando a visão quase tanto quanto os três graus de miopia e o astigmatismo que me faz ver a vida através de uma névoa constante que teima em esconder e distorcer as formas das pessoas e objetos.

maria engolia.

Agosto 27, 2009

era uma vez uma mulher que engolia. começou a engolir cedo. no início insistia com as coisas normais, líquido amniótico e coisas do tipo. assim que saiu de onde todas as pessoas do mundo saem e quase todos os homens passam a vida tentando entrar, começou a engolir o leite da mãe: o primeiro, mas não o preferido, e certamente não o mais consumido ao longo dos anos. o tempo foi passando e ela foi desenvolvendo suas habilidades de engolir, fazendo-o cada dia mais e mais. enchia a boca, às vezes, até não caber mais nada, até o fundo da garganta, até quase vomitar, mas não o fazia e terminava sempre engolindo tudo. enquanto crescia ia conhecendo novas coisas para se engolir, novos sabores, o doce, o amargo, o salgado, o azedo, o ácido e a adstringência. estava na entrefase menina-mulher, a chave de cadeia de muito marmanjo, o momento exato em que se descobre que a vida tem muito a oferecer além daquelas coisinhas que vinha colocando dentro de si até então, havia os prazeres e as dores e ela queria absorver tudo o que podia, havia demasiada gula em sua alma, queria engolir o mundo e estava num momento  em que acreditava ser capaz, quando a fome de vida ainda não faz engolir os pequenos regurgitados de tédio, e o estômago faz por bem embrulhar tudo numa náusea só, era uma vez uma mulher que engolia.
dias passavam enquanto ela crescia e se tornava um projeto de alguém. e em nenhum desses dias maria, porque esse era seu nome e nenhum outro nome ela teria se não esse mesmo, deixou de engolir sequer uma vez. havia em seu olhar um constante desejo, uma vontade intensa e imensa de querer aprender sobre a vida, as inúmeras formas de se devorar e se engolir. quando tinha fome, engolia os sólidos, quando tinha sede, engolia os líquidos. com ela sempre foi assim e não havia outro jeito de sê-lo. às vezes, parecia impossível saciar seus desejos, às vezes parecia não ter nenhum. a vida com ela era de extremos com apenas uma constante: o engolir. não havia disfagia (progressiva ou não) ou odinofagia que a fizesse parar de engolir. engolia todos os dias, para crescer, para aprender, para passar o tempo, para o que quer que fosse. e por entre os dias ela vagava em cima de passos tão certos quanto os vapores dos cigarros que ela fumava só por odiá-los nas bocas alheias, mas ela engolia a fumaça, nos bares todos – entre um copo de álcool e outro, enquanto ficava ébria como achava que todos deveriam sempre estar -, com todos amantes e amigos, e um dia trouxe a fumaça para si. engolia-a com uma fúria só sua, como se o mundo inteiro fosse culpado por aquela fumaça, pelo escurecimento dos seus pulmões. ela engolia outros tipos de fumaças, todos os dias, a cidade grande lhe fascinava por oferecer tantas oportunidades de engolir as coisas novas que ela tanto sonhara conhecer, explorar o desconhecido. foi na cidade que aprendeu que a vida que queria não era como em seus sonhos de menina moça, as coisas não seriam todas maravilhosas e fáceis de engolir. com o tempo passando e nada aparecendo além de pequenas rugas em sua pele, ela entendeu que o mundo era grande demais para ser engolido e que tudo o que tinha era muito pequeno. percebeu-se impotente diante de tudo o que a cercava, notou que sonhos às vezes permaneciam na terra de morfeus e de lá não se moviam e foi se decepcionando com o mundo, percebendo que não havia dignidade. sentia-se suja, havia em si uma imensa vontade de ser punida. punida para conquistar a redenção. por uma razão qualquer, queria pagar de alguma forma por tudo o que engolia. como se cada vez que houvesse engolido alguma coisa, tivesse pecado, e com seu sofrimento e a humilhação, alcançaria a redenção que buscava. queria ver seu próprio sangue jorrar, suas lágrimas cairem e se misturarem a outros líquidos viscosos, sentia vontade de engasgar, porque acreditava que se tornaria merecedora de tudo o que um dia engoliu e do que engoliria. assim, com esse desejo de autodepreciação, foi que ela conseguiu vários amantes, alguns amigos, todos prontos para explorar suas vontades de engolir, seu estranho desejo de rendição. arranjou várias cabeças, vários corpos, vários membros, grandes e pequenos, finos e grossos, e os engoliu todos, quanto mais, melhor. maria queria o mundo em sua boca, saboreá-los todos e crescer com isso.
um dia um homem que se achou amigo – amante – dela lhe perguntou o porquê daquele desejo, o que ela acreditava realmente estar alcançando ao fazer aquilo. ela tragou um cigarro, deu de ombros como quem diz que não sabe direito, apesar de saber muito bem, e disse que assim era uma forma de obter conhecimento sobre todos, entender cada um. tê-lo em sua boca era o ápice da entrega completa e do conhecimento. ela o conheceria por inteiro. como se, no que ela engoliu, estivesse a essência dele, a vida inteira que ele teve e a que terá, tudo escrito na saliva quente que ele passou para ela no começo da noite em beijos quentes, no suor salgado que ela lambeu de sua barriga ao chegarem em casa depois de uma noite fora, rindo de besteiras, de brincadeiras de amigos, de filmes bobos, no líquido esbranquiçado e de cheiro esquisito que jorrou de seu membro depois de algum tempo dos devidos estímulos, líquido esse que ela sempre faz questão de engolir, que parece explicar melhor que qualquer livro o verdadeiro significado das coisas. ela engolia tudo para poder entender tudo, mas parecia nunca funcionar, o conhecimento parecia nunca chegar da maneira que ela esperada. “talvez, apenas talvez ela esteja buscando-o das maneiras erradas”, ele pensou, mas nada disse porque gostava de vê-la lambendo-o, chupando-o, engolindo-o.
esse foi apenas um dos homens que maria conheceu. havia muitos deles. eram seu sabor predileto dentre todos os pedaços de carne que teve o prazer de conhecer. e ela gostava da carne, das carnes todas, masculinas e femininas, engolia todas e gostava de todas, bem passadas ou ao ponto, quentes ou frias, tocando-as com sua língua e deixando suas papilas gustativas explorarem bem todos os nuances dos sabores. deixava cada pedaço de carne escorregar garganta abaixo. amava as carnes todas menos as que punham em seu prato nos almoços tumultuados de domingo, de segunda a sexta-feira, e aos sábados, com o gosto de sal que lhe lembrava as peles suadas dos filmes a que ela não assistia, mas as trazia pra dentro porque era lá que elas deveriam estar, sempre, dentro dela. falsamente voraz, ela engolia a carne, devorava-a por inteiro. engolia como se não houvesse mais nenhum alimento no mundo. como se engolir fosse sua missão no mundo, engolia porque assim fora criada para fazer, desde que nasceu, desde que seu pai fecundou sua mãe, estava programada para fazê-lo. engolia porque vivia por isso e para isso, porque sem engolir, maria não existia. e, enquanto vivesse, maria engoliria.

texto em parceiria com Ariane. aqui está, kiddo, all done. obrigado por maria.


lonoff, graça e melo neto.

Agosto 25, 2009

não há muito o que dizer. isso é mais um exercício para ver até onde eu consigo me estender sem idéias e o quanto vocês que estão me lendo conseguem me agüentar sem elas. porque eu não me rendo fácil às coisas, por incrível que pareça. e talvez tudo isso esteja extremamente fora de contexto, mas tudo há de fazer sentido alguma hora, talvez, espero. há muitas coisas na cabeça agora e poucas preocupações sérias. são quase quatro da manhã e isso não quer dizer muita coisa além disso mesmo. para alguém, tal informação pode ser preciosíssima, enquanto para mim… para mim só quer dizer que, por mais uma noite, eu consigo me manter acordado até horários em que o mundo inteiro parece dormir e só resta eu e a solidão para me fazer compania. e nós conversamos, eu e ela, sobre tudo o que se pode imaginar. nós nos falamos como velhos amigos que se encontram num bar e resolvem sentar e tomar algumas bebidas antes de cada um voltar ao seu caminho tendo trocado telefones que nunca serão discados, depois de marcar saídas que nunca acontecerão, criar planos que serão frustrados não pela falta de vontade de ambos, mas pelo simples fato de ser assim que as coisas são quando tudo é do jeito que é. um tanto confuso, um tanto repetitivo, mas é isso que faço e é assim que sou quando não estou criando uma história boba sobre alguma mulher que nunca existiu, mas que ainda assim possui um pouco ou um tanto das mais importantes damas da minha vida. eu sou um cara vazio como a madrugada.

todo o barulho que ouço é o do ventilador às minhas costas, não há músicas tocando e nem carros na rua. cada tecla sendo apertada se faz alta nessa noite, meus dedos estalam vez ou outra, meu pescoço também, minhas costas tensas começam a doer e eu preciso de uma noite longa de sono antes de seguir. eu preciso de algumas certezas que eu não sei quando terei, preciso acabar com os medos que tenho de vez em quando, acabar com um pouco de toda a dor que não existe, mas que eu teimo em criar porque é isso que eu faço: invento coisas que não existem para me atormentar. mas eu também me atormento com o passado, com as lembranças das coisas todas e as incríveis possibilidades. eu vivo pensando no que eu mais tentava evitar há um tempo: tudo o que deveria ter sido e não foi. toda a vida que não aconteceu para mim porque assim não devia ter sido, mas que um dia eu sonhei que teria. os sonhos frustrados que tive e tenho. porque não é fácil livrar-se de frustrações. elas nos acompanham onde quer que vamos, como sombras, pensamentos, como nós mesmos.

na mesa há uma caneca vazia, uma bandeja vazia, uma tela vazia. há baratas e músicas e papéis. e eu me apóio nela para escrever tudo o que eu preciso, para abrir a mente e dizer, ou ao menos tentar fazê-lo, que esse exercício de nada está indo melhor do que eu esperava.

hoje eu pensava sobre a vida, sobre como eu preciso melhorar. é necessário, para mim, investir mais em outras formas de cultura além da música, literatura, cinema e arte seqüencial. e não que eu entenda bem dessas quatro, longe de mim, não há nada no cinema que eu entenda, mas é uma boa forma de unir algumas das artes que não aprecio tanto (como o teatro) às artes que amo como literatura (bons roteiros, bons roteiros são boas palavras, boas idéias) e música. as artes plásticas se oferecem a todos como uma puta, qualquer um pode vê-las, cobiçá-las, amá-las ou odiá-las, muitos podem se comover e uns poucos podem tê-las, mas eu não consigo me comover com um sorriso pintado, uma mão esculpida. uma vez eu disse a alguém que eu não conseguia me comover com uma imagem apenas, o texto se faz fundamental sempre, a música quase sempre. sinto que preciso entender de luzes, enquadramentos, sequenciamento, tempo, preciso entender um pouco de teoria musical, preciso saber comos, quandos e porquês de determinadas coisas para crescer não só como alguém que ama a literatura e sonha um dia poder escrever alguma coisa publicável, mas como alguém, simplesmente. talvez não concordem comigo, é bem provável.

esse ano li alguns livros de um escritor americano, judeu, chamado philip roth, e achei que ele abordava assuntos de uma forma sensacional. admirei o jeito como ele conseguia fazer seus personagens extremamente humanos e cheios de defeitos e completamente carismáticos e me inspirei nele muitas vezes nos desenvolvimentos de alguns “contos” que estão por aqui. foi com um dos personagens que ele criou, o escritor e.i. lonoff, que me peguei pensando em como eu sou fraco para o ofício de escritor de verdade. eu não estou pronto para ser um solitário como a literatura precisa que eu seja, não estou pronto para me dedicar a ela e somente ela. ainda tenho sonhos demais para isso. ainda sonho um dia ir a hospitais não para visitar, mas para trabalhar, cuidando de cânceres ou sistemas nervosos ou o que quer que eu termine me tornando. há dias em que tudo o que desejo é que me descubram, que me tirem desse buraco negro literário que é a internet, sugando tudo que há e transformando tudo em coisas que ninguém entende; que me joguem, então, em folhas de verdade, pedaços de papel, espaço físico, que é o que as palavras merecem, porque elas têm força e poder e são tudo o que tenho e tudo o que todos e quaisquer um têm: palavras. mas eu acho que não estou pronto. há dias em que tudo o que quero é me dedicar só e somente à medicina, mas eu não consigo isso porque… bem… porque eu nunca consigo me dedicar inteiramente a alguma coisa. o e.i. lonoff, de roth, ídolo do zuckerman, um escritor iniciante, mostra a todos que a literatura não é para os fracos pouco esforçados e distraídos como eu. ao perceber isso sinto-me uma fraude, o que é uma piada pretenciosa, porque para achar que eu sou algo merecedor de riso devo considerar o que escrevo literatura. podem rir, podem rir.

não apenas o americano roth me faz pensar na engenharia das palavras. com a frase anterior, obviamente todos deveriam saber que joão cabral de melo neto se envolve em seus versos com o mesmo empenho do ficcional lonoff, do real graciliano. não, eu não tenho talento para passear de escritor em escritor, mas um me levou ao outro e ao outro. graça escrevia como as lavadeiras de alagoas lavavam roupas; joão cabral polia o poema como uma pedra, lonoff reescrevia a mesma frase quinze vezes. processos de aprimoramento que requerem mais tempo e paciência e amadurecimento do que tenho.

esse meu exercício é para todos que, como eu, amam a escrita, a literatura, mas sabem que não podem depender dela para suas vidas. conheço pessoas que entendem que a literatura exige dor e sacrifício, exige a lapidação que eu nunca tive paciência de fazer, pessoas que fazem pedras brilharem tanto quanto diamantes apenas com a arte do polimento. admiro-as pela paciência e gostaria de ser como elas, mas não consigo.esse texto vai para a única verdadeira polidora de palavras que eu conheço e que há tempos não leio. esse texto é um pouco para dizer que a admiro, um pouco para dizer que acredito nela, e que um dia espero crescer para me tornar alguém como ela.