ela esperava na porta de casa. esperava de braços cruzados, cara amarrada, pernas agitadas. esperava como se estivesse esperando algo; algo que não vinha, nunca viria. não havia ninguém no corredor, só ela. e há duas horas ela esperava caminhando de lá para cá no corredor. passos lentos, arrastados. se tivesse uma lata no corredor, provavelmente ela chutaria a lata e ficaria chutando-a de um lado a outro até que cansasse de chutar, pegasse a lata e jogasse na lata de lixo do final do corredor, então esperaria mais. até cansar.
mas ela não cansava. por mais impaciente que ela ficasse, por mais agitadas que suas pernas ficassem, por mais tensos que seus braços se cruzassem, com unhas a penetrar o antebraço até quase sangrar, ela não cansava de esperar. os segundos passavam arrastando as horas atrás de si, como escravos puxando pedras para construir algo maior que nunca vão usufruir. naquela noite eu não dormi olhando através do olho mágico para ela no corredor.
a noite passou, do dia veio, a vida veio ao mundo inteiro, mas para ela continuou a espera. eu não poderia trabalhar enquanto ela estivesse no corredor, esperando. eu não poderia fazer nada além daquilo. ela me prendia. havia alguma coisa nela, nos olhos que eu não enxergava através do olho mágico, em seus cabelos negros que lhe ensombreavam a face. havia algo nela, eu sabia disso. mas nunca soube o que era até ser tarde demais.
era minha segunda noite olhando-a no corredor. eu esperava pelo que ela esperava. rosto grudado na porta, olhos ardendo pela falta de sono e de lágrimas para lubrificá-los, passei outra noite observando-a. algumas horas ela encostou na parede, outra hora ela correu de um lado para outro do corredor. ela ainda não havia comido desde que chegara ali, desde que eu a vi esperando no começo de tudo. nem um sanduíche de dentro da bolsa, nem um suco, nem uma garrafa d’água. há dois dias ela não comia e não bebia. eu deveria fazer alguma coisa. e fiz. observei-a até o dia nascer e virar tarde e noite novamente.
na terceira noite de vigília, esperando que o que ela esperava viesse logo, decidi que se o que quer que viesse não viesse logo, amanhã seria um novo dia. disse a mim mesmo que hoje seria minha última noite observando-a. disse-me que amanhã seguiria minha vida, voltaria ao trabalho, ao mundo. se não vier o que quer que seja, amanhã abrirei a porta, sorrirei para ela e direi bom dia e passarei por ela como se ela fosse uma estranha - o que de fato era - e irei ao trabalho como todas as outras manhãs antes de encontrá-la. e a terceira noite passou sem que chegasse o que ela esperava. agora eu tinha que cumprir o que havia prometido. mas eu sentia medo. medo de ela me olhar e me achar estranho, medo de ela saber que eu estava ali o tempo todo, olhando-a por todo aquele tempo, observando-a em sua espera agoniante. tinha medo que ela me julgasse. mas engoli o medo. foi a primeira coisa que engoli depois de dias observando-a ininterruptamente. abri a porta do jeito que estava, a roupa amassada, as pernas acabadas, os olhos vidrados emoldurados por olheiras gigantescas.
ela me vê e sorri.
“estava esperando por você.”
No corredor
Setembro 4, 2008“Assim não vale porque dói”
Agosto 30, 2008ela dizia, falava tanto, que eu era rude, grosso, criticava tudo o que eu fazia. e ela gostava de tudo isso. da minha tal grosseiria, do meu modo rude. ela tinha gostos estranhos, aquela mulher, gostava dos tapas, dos xingamentos, gostava do estrago. e ria, lindamente, ria como uma louca sempre que realizávamos uma de suas vontades. “assim não vale porque dóis” ela dizia para rir da minha cara de: desculpe-me, não era para ter sido tão forte. ela era uma verdadeira maluca. mas era uma deusa. uma deusa mesmo. não dessas que você vê na rua rebolando suas bundas maravilhosas e você chama de minha deusa. não, nada disso. ela havia saído, de fato, de um panteão, caído na terra por acidente e me encontrado numa noite escura onde as luzes se escondiam porque sabiam que havia algo errado no ar.
e ela viveu comigo. vivia comigo, reclamando dos meus jeitos, das minhas manias, reclamando do modo como eu encarava as coisas, ela, sendo um poço de otimismo e vindo de um lugar onde deuses eram reais, não aceitava que eu dissesse que ninguém ouvirá as preces de ninguém, que ninguém vai descer do céu pronto para nos salvar. ela me chamava de imbecil por dizer isso acreditando que ela era uma deusa. e, pensando bem, ela tinha razão, eu era mesmo um imbecil por acreditar tanto nela. às vezes eu brincava com o fato. dizia a ela que ela não existia. que eu era um esquizofrênico e que ela era minha grande fantasia, que tudo o que ela era, ela era por minha causa. que um dia, por minha causa, ela deixaria de existir, quando eu desacreditasse nela. eu dizia tudo isso com um sorriso no rosto assistindo-a ficar horrorizada, chocada, zangada, possessa, assistia a sua fúria. a ira de uma deusa. e no fim, eu ria alto, gargalhava e dizia: “mas por enquanto eu preferia acreditar”.
foi acreditando nela que tudo começou.
um sábado à noite, o som ligado, sidney magal cantando, nas paredes minhas duas guitarras, Anna e Ella, e ela dançando nua em cima da mesa para mim. naquele momento eu pensei comigo mesmo: “ela é boa demais para ser verdade.” e era mesmo. num momento de descrença que tudo terminou.
foi um pensamento rápido. rápido como o leve tremor que se deu na casa - como se uma mão agitasse toda a casa, como se faz quando se é criança e acabamos de prender um besouro numa caixa -, como o movimento que as pernas dela fizeram quando não encontraram apoio, como o som que ela fez quando bateu com a cabeça no chão.
eu nunca descobri o que foi aquele tremor, nunca soube porque só eu o senti, porque o mundo inteiro não percebeu minha casa sendo balançada no ar como um pacote de pastilhas valda cheio de formigas, besouros, coisas do tipo. a única coisa que aprendi, com tudo isso, é que é assim que morrem as deusas: dançando nuas sobre uma mesa.
O chamado.
Agosto 26, 2008estava encostado na parede do lado de fora da casa. chovia forte. eu me molhei todo naquela noite, mas eu realmente não me importei com isso. eu sentia em minhas mãos um calor que nunca antes havia sentido. parecia que elas estavam pegando fogo. a chuva não apaga as chamas invisíveis, não limpava o que deveria sair. algumas pessoas passavam do outro lado da rua. estavam assustadas, olhavam para mim achando-me estranho. um olhar que dizia claramente que elas não confiavam em mim. que pensavam que eu estava ali para roubar qualquer coisa.
minhas costas tocando os tijolos da casa e eu tentando respirar. respirar parecia a melhor coisa a se fazer naquela hora. respirar e se acalmar. um, dois. inspira, expira. inspira, expira. tem alguém com a mão nos meus ombros perguntando se eu estou bem. é uma senhora. deve ter seus quarenta e poucos, cinquenta anos. uma tia de alguém, uma mãe de alguém. eu faço um sorriso que acho forçado, mas que sai naturalmente, um sorriso simpático que serve para abrir um canal de comunicação entre mim e outros e digo que estou bem.
obviamente, eu estava mentindo. as coisas nunca mais estariam bem.
eu não sei explicar como foi…como começou. eu sei que uma hora estávamos lá, todos. e agora não estávamos mais. ou melhor, todos estavam por todos os lugares, menos eu. eu estava no meio de todos. as paredes dentro da casa estavam pintadas com o sangue das pessoas que estavam lá dentro e eu não sei o que aconteceu. minhas mãos estavam enxarcadas quando dei por mim. acho que eu fiz aquilo. acho que as pessoas lá de dentro me receberam e eu fiz aquilo com elas.
mas eu não lembro…eu não lembro de nada.
nada a não ser uma voz, um nome, um chamado.
Fique.
Agosto 24, 2008“você uma vez disse que eu não falava dos meus medos e das minhas apreensões. acho engraçado isso, porque…bem…eu só faço falar sobre isso. cada linha, verso, parágrafo, estrofe, cada palavra dita, pensada, cada uma delas está entupida de medo e apreensão. cada personagem fresco, cada eu, cada você, cada ela, cada diálogo longo e desconexo, cada falta de sentido, cada repetição, cada repetição, cada repetição, cada uma delas: medo, medo, medo. apreensão. lembra de quando eu disse que era com você? que agora era contigo, que se você estivesse disposta eu estaria disposto? que ali, dependendo das tuas respostas, eu faria minhas escolhas? e você disse: ‘comigo.’ naquele dia, eu disse que espero o tempo que for, dias, semanas, meses, anos, 10, 20, 30, quantos forem. eu espero. porque essa foi minha escolha: esperar. sinceramente, eu não ligo para quanto vou esperar. eu sei que ainda é cedo para tudo, mas acho que termino sempre falando disso porque é algo que sempre me atrai, o futuro, o amanhã. é um assunto maltido que sempre me machuca mas que eu sempre penso - como a velha mariposa voando em direção à chama da vela para se queimar. eu sempre me queimo. são nessas horas que penso em avançar o tempo, expandir todo o universo uns 15 anos só para saber como vai ser o amanhã. depois eu encolheria tudo de novo, mas só queria ter certezas do amanhã, saber como estamos, eu, você. e você disse que sabia que eu falava de tudo de uma forma indireta, sabia que eu não falava dos meus medos e apreensões, mas ainda há mais. tememos o que desconhecemos e o que conhecemos. eu conheço a dor. temo que ela volte. e conheço a felicidade, a alegria. graças a você conheço elas. e não quero que seja só uma visita, não quero que uma hora elas decidam que ficaram tempo demais e está na hora de ir embora. quero que fiquem, quero que você, que as trouxe para mim, fique. Fique.”
Das pessoas e coisas.
Agosto 20, 2008os segundos, os minutos, as horas, todos passam às dúzias e eu aqui, parado, estagnado no momento em que eu tentei me mover. eu não consigo, não consigo achar a vontade - aquela que todos têm de mudar as coisas, de revolucionar o mundo, de fazer alguma coisa pelos outros ou por si mesmo. há tempos não sinto vontade de mudar nada. conformo-me com as coisas do jeito que elas são. se está ruim está ruim. não se pode mudar o fato de estar ruim, até que fique bom estará ruim. não há meio termos. não há meio bom meio ruim. não há coisas que oscilam entre bondade e maldade assim. só as pessoas fazem isso. e fazem isso de uma forma que, no fim, com um pouco de paciência e matemática, poder-se-ia calcular tudo e dizer se ela era boa ou ruim.
não, não é nada disso. não há bem ou mal.
carros e carros e ônibus e motos passam e buzinam e fazem mais barulho do que deveriam. eles estão lá fora para ajudar quem está lá fora. eles estão lá fora para irritar quem está aqui dentro. mas não são eles quem irritam, não são carros que se buzinam, não é mesmo? o problema de tudo, afinal, sempre foram as pessoas. (isso está certo? sempre foram as pessoas? ou sempre foi as pessoas, concordando com o problema?) as pessoas… tem quem diga que gosta delas, mas elas não conhecem todas, não conhecem o motorista que está buzinando o ônibus, ou o caminhoneiro que passou por cima de todas as galinhas de alguém. a verdade é que ninguém conhece ninguém. por mais que ache que se conheça alguém.
a verdade mesmo é que eu não sei do que estou falando. e não quero saber. tudo o que eu procuro são fugas. fugas de mim mesmo, porque ser cansa. eu lembro do dia em que eu percebi que nunca na minha vida eu seria outra pessoa. eu senti uma imensa tristeza, um vazio enorme. não que ser eu seja ruim, mas é que ser uma pessoa só é limitar demais seus pontos de vista. é limitar demais todos os pensamentos que poderíamos ter. quando penso nisso, nos pensamentos que poderíamos ter, nas impressões que guardaríamos se pudéssemos ser outras pessoas ao longo da vida, mudando de pele, de roupa, de olhos, de órgãos internos e externos, crescendo cabelo, cortando cabelo, perdendo peito, barriga, bunda, ganhando pêlos, perdendo pêlos. vendo pessoas.
a maior forma de se conhecer pessoas não é sendo uma pessoa. é claro que isso colabora, mas, como já foi dito, só seremos uma pessoa pelo resto de nossas vidas, isso limita muito o nosso conhecimento de pessoas. pessoas pessoas pessoas. (porque escrever tantas pessoas num só parágrafo me lembra das minhas aulas de redação e o medo constante de ter uma redação completamente anulada só pelo uso de pessoas, e agora estou aqui, usando pessoas) não, o melhor jeito de conhecer pessoas não é sendo uma pessoa, mas observando várias pessoas.
acho o ser humano o animal mais fantástico de se observar. e tudo isso devido ao dom da consciência. os outros animais são guiados pelo instinto, a vontade de sobreviver. o homem foi amaldiçoado com a razão. e ele se acha especial por causa disso. é interessante assistir à interação social do homo sapiens. para mim, é sempre um programa divertido. mas por mais que observemos, por mais que anotemos seu comportamento, que observemos os padrões que existem e os assemelham aos de quaisquer outros animais, nunca conheceremos o homem.
conhecer o homem vai muito além de simplesmente entender fisiologia e anatomia e psicologia. conhecer o homem vai além de observar seus comportamentos. e vai ainda além de tentar unir tudo isso. claro, o homem não passa de vazio, assim como todo o resto das coisas, mas esse é um vazio intrigante, um vazio cheio de coisas. coisas desconhecidas, coisas inintendíveis, coisas coisas coisas. (coisa também era um dos motivos de eu temer as notas de redação. nunca sabia quantas coisas havia usado e quantas coisas foram cortadas.)
O para sempre…
Agosto 14, 2008era quente. era quente a mão dela. quente como um verão na praia. quente como a tarde que passaram juntos olhando a vida acontecer. quente como a língua dela passeando na boca dele. e era por ela, pela mão que parecia a o sol depois de um dia chuvoso, que ele a puxava. apertava-a fortemente, como se tivesse medo de que ela fosse escorregar por entre seus dedos e que fosse perdê-la para sempre se não segurasse forte. os dedos finos e delicados dela se uniam, quase sendo um só. fazendo com que nem se notasse que eram bem tratados toda quinta feira à tarde.
mas não era quinta feira. e a tarde já havia ido embora. agora a lua brilhava amarelada. as estrelas mostravam seus retratos de anos e anos e anos. não estava frio, mas também não estava quente. era uma noite comum para todos os outros que não estivessem prestes a falar do para sempre. e até para quem estava prestes a fazê-lo também tomaria essa noite como comum. não havia nada para diferenciá-la de todas as outras coisas. exceto por eles dois ali, andando quase correndo em direção a algum lugar que ambos não sabiam onde. até que ele parou de andar de frente ao mar. puxou-a para perto de si, tomou lugar atrás dela e segurou-a pela cintura colocando sua cabeça sobre o ombro dela. apontou.
“olhe ali aquela estrela.”
“qual?”
“qualquer uma. olhou?”
“olhei.” disse num tom impaciente.
“olhe de verdade. olhe para qualquer estrela, mas olhe. veja!”
“estou vendo!”
“pois bem… quanto tempo você acha que essa estrela tem?”
“muito tempo…até a luz chegar aqui…”
“exato, exato. muito tempo. mas esse tempo de vida da estrela é finito, não é? uma hora ela deixará de jogar a luz até a gente e alguém vai notar. não a gente. não acho que estaremos aqui, nossos corpos e almas. nós só seremos pó. mas alguém vai notar. alguém tem de notar, não é?”
“deve ser…”
“sim…alguém há de notar.”
“e onde você quer chegar com isso? você quer me dizer que para sempre são as estrelas do céu? que para sempre é extremamente relativo? você quer que eu acredite nesse para sempre?”
“eu quero que você acredite no único para sempre que existe. no para sempre que a gente faz. você lembra de quando estávamos começando? lembra que um dia marcamos nossos nomes no cimento? o cimento endureceu e nossos nomes estão lá. aquilo é para sempre. nossos nomes estão naquele momento eterno. ele se repetirá para sempre enquanto existir cimento, enquanto existir um eu e um você, e esse é o momento mais comum de todos. o tempo… o tempo não pode ser uma reta. ele pode ser para mim e para você e para nós todos. mas ele não é uma reta. só não aprendemos como são suas curvas.”
“do que você está falando, homem de deus?”
“deus. para ele, se ele existisse, o tempo seria por onde ele andaria. o tempo é uma grande estrada na qual todos nós trafegamos. só que ela está engarrafada. todos em linha reta. nas duas mãos. o para sempre é o caminho por fora da estrada. o para sempre é a contra mão. o para sempre é o código que a gente usa para trapacear nos jogos de videogame.”
“meu bem… você está bem?”
“não. não estou bem porque você disse que me odiava. e isso ficou para sempre. ainda estou ouvindo que você me odeia.”
“e foi só uma brincadeira. e quanto a todas as vezes que eu disse que te amava?”
“viu só? amava!”
“…idiota. amo. amo amo.”
“não… você só quer acabar com a discussão. você só quer dizer que o seu amor é muito mais forte que o seu ódio. não. ódio… ódio é forte. é mais forte que amor. ódio é algo que eu nunca senti. ódio é forte demais para os corações não se machucarem ao senti-lo. eu não quero o seu coração machucado com o ódio. eu não quero você machucada de jeito nenhum. porque eu te amo… eu te amo para sempre. ontem, hoje e amanhã. porque é tudo o que existe: o ontem, o hoje e o amanhã. você entende isso? entende o que quero dizer?”
“acho que sim…”
“eu quero dizer que o para sempre…o para sempre existe sim. até que deixe de existir formas de se trafegar na estrada do tempo… (porque coisas podem existir e depois deixar de existir, tudo pode, pessoas, roupas, animais…) até que um dia a estrada se apague e os carros nela evaporem e todos os motoristas sumam e uma porta seja fechada e nada mais exista, nem o nada e nem o vazio. quando não houver vida e nem morte… aí sim para sempre terá cessado sua existência. aí sim tudo o que há será o inimaginável e o inexitstente. mas até lá, eu te amo para sempre.”
“…” ela baixa os olhos.
“…” ele beija o pescoço dela, sussurra no ouvido “eu te amo.”
ela se vira para ele. olha-o bem fundo nos olhos. os olhos negros como o vazio, cheios do calor da vida. e ela fala com uma voz rouca, trêmula, cheia de lágrimas contidas.
“eu nunca mais vou brincar com você.”
e ele sorri. e ela sorri. e tudo termina bem.
e foram felizes para sempre.
(porque o para sempre existe)
Quem sabe…
Agosto 10, 2008o silêncio reinava entre os dois. mas não havia só o silêncio entre eles, havia a frieza. mas era só o silêncio que amplificava cada um dos passos dados por eles. o silêncio é um rei impiedoso, seu punho de ferro é conhecido por muitos. ele é respeitado e temido. o silêncio diz tudo aquilo que ninguém tem a coragem de dizer quando todos sabem que é preciso dizer uma coisa que será incômoda. o silêncio sabe das coisas, é sábio.
o sol agora estava aqui em baixo e descia mais e mais e mais. logo logo o sol estaria lá, do outro lado, pronto para outra vida, outras pessoas, outros momentos. logo logo ele não estaria mais aqui para os dois. ao pôr do sol, as mãos não mais dadas, braços cruzados, andando lado a lado, ele toma a frente dela.
“talvez as coisas que eu queira dizer não precisem de explicação, talvez tudo o que eu tenha aqui para dizer só possa ser sentido e só possa ser transmitido através desses sentimentos. talvez tudo o que eu verdadeiramente queira explicar seja que quando eu beijo você eu não sinto seus lábios nos meus lábios, eu sinto mundos se unindo, galáxias se juntando, sinto que se o mundo acabasse agora eu estaria feliz, porque sabia que tinha você comigo. eu não tenho que explicar nada, não tenho que saber explicar nada. cada um de nós deve aprender a sentir. você sabe sentir?”
ela olhou para ele bem fundo nos olhos. qualquer um poderia dizer que ela estava prestes a rir. um daqueles risos irônicos que dizem: “se eu sei sentir?”
“se eu sei sentir?. sim, eu sei sentir. sinto que você não sabe de metade do que está falando, sinto que você é feito de sonhos e desejos, sinto que você não percebe o que tudo o que a gente é verdadeiramente representa ou representou ou representará. você não faz a mínima idéia de como eu me sinto com você. não, não sabe. mas não é por falta de explicação. eu sempre expliquei. sempre disse que estar com você me fazia feliz, me deixava querendo sempre mais e mais e mais. à noite eu penso em sempre estar com você. sempre. mas eu vejo que não é impossível explicar as coisas. e eu só queria ouvir você dizer, você explicar tudo o que sente.”
“você não faz idéia do que é para sempre…”
“não sei? então me ensine o que é para sempre.”
“…dá a mão.”
ela não chegou a dar a mão, mas ele a tomou. andaram de mãos dadas novamente. ele na frente puxando ela que se deixava guiar meio na defensiva, desconfiada.
E quem sabe?
Agosto 7, 2008vinham os dois juntos, mãos dadas, dedos entrelaçados, paisagem bonita, sol lá em cima, descendo e descendo, folhas nas árvores, água correndo em riachos e fontes, pássaros voando, pássaros comendo pão, pássaros soltando dejetos no ar para atingirem quem quer que esteja no chão, pessoas passando. pessoas sempre passam por todos, elas nunca importam muito. não as pessoas do mundo inteiro, apenas nossas pessoas importam. para os dois, eles importavam. para o mundo eles só eram mais dois passando por um parque numa tarde ensolarada. ele aproxima o rosto do ouvido dela, diz algumas coisas e ri. ela fica séria, olha para ele bem seriamente enquanto ele ri e ela começa a rir. ela tem um sorriso lindo. mesmo no meio de tantas pessoas, ela se destacaria muito facilmente com aquele sorriso.
“eu te odeio.” disse ela no meio do riso. “te odeio, te odeio, te odeio.”
ele parou de andar. ela deu um passo e parou. parou no meio de toda a gente que vinha. mas ela não queria parar. ela não sabia porque pararam, isso estava claro em seu olhar.
“nunca…” disse ele calmamente, estava sério como nunca estivera antes “nunca diga isso. certo?”
“o quê?”
“nunca diga que me odeia.”
“era só brincadeira.”
“eu sei, eu sei. mas, por favor, nunca, nunca diga que me odeia, nem de brincadeira nem de verdade. eu não consigo aceitar que você me diga algo assim. porque eu te amo demais para aceitar tal coisa. só…só não diga, okay?”
“…você é assim fresco sempre?”
“não é questão de frescura… não sei explicar.”
“você não sabe explicar muitas coisas. se você não explicar, quem vai?”
“não sei…não sei…”
medo
Julho 31, 2008“eu tenho medo dos teus medos, das tuas apreensões. eu tenho medo que você tema qualquer coisa que não devia temer. eu tenho medos, claro, todo mundo tem, mas meus maiores medos, no momento, são que teus medos atrapalhem tuas decisões, que eles façam você pensar que algo que deveria fazer para que existisse um nós - porque deve haver um nós - é demasiado perigoso quando na verdade não é.”
caminhando e…
Julho 29, 2008o sol batia em seu rosto cheio de espinhas. ele suava, suava e suava. era meio dia e ele não sabia de onde estava vindo a energia que fazia com que seus músculos se movimentassem. “finalmente esta gordura toda vai ser queimada para me dar energia”. andava com imensa dificuldade, em parte por estar machucado, em parte por ter preguiça, em parte por se sentir cansado, em parte por tentar se dividir em tantas partes que parte nenhuma dele conseguiria se sustentar se não se unisse uma com as outras. ele não era muito unido consigo.
ele tinha fome, sede, sono, preguiça, medo, ansiedade. ele tinha de tudo naquele momento, menos o que ele mais queria ter. ele queria ter a mulher que ele pensa que é a mulher de sua vida em seus braços. ele queria poder beijá-la e abraçá-la e cheirá-la e tocá-la e tê-la e saboreá-la.
mas mal sabia ele que ela, naquele momento não estava onde ele pensava que ela estava, não estava onde ninguém pensava que estaria. não sabia ele e o resto do mundo que ela não passava de algo que ele criou para poder não se sentir tão só quando chegasse em casa. alguém para ser seu objetivo de vida. ele criara uma vida para poder seguir com a sua, de tão insuportável que ela se apresentava.
não, ele não sabia que tinha tais problemas. nunca percebera que as horas que passava falando com ela onde quer que fosse eram horas faladas consigo mesmo. fala que eu te escuto e ele escutava o tom de voz dele pensando que era ela quem falava as coisas bonitas e ele escutava sua própria voz falando as coisas que ele sabia que diria sempre. porque ele dizia as mesmas coisas sempre.
ele não sabia também que enquanto andava para casa, onde sentaria na frente de um computador e ficaria ali por horas e horas e horas sem fazer nada, jogando paciência, ouvindo as mesmas músicas que já ouviu alguma vez, pensando nas mesmas coisas que pensa sempre: a vida, o universo e tudo mais.
ele não sabia de muitas coisas. não sabia que seus amigos todos estavam longe, não fisicamente, mas emocionalmente, e quem se afastou não foram eles, mas ele que os afastou, os jogou para longe com seu muro de impassibilidade.
ele era um homem que se via garoto. era um garoto que não queria crescer, não queria ser homem, queria ter sempre seus 16 anos onde não havia responsabilidades e a vida se resumia a vagabundar e bater punheta.
não que agora fosse muito diferente do que era, mas agora há cobranças. e cada vez menos tempo para a punheta.