A Dona.

Julho 1, 2009

estava escuro naquela noite. eu lembro bem disso. boa parte da memória foi apagada pelo álcool, mas disso eu lembro claramente: estava escuro naquela noite. parecia que a companhia elétrica resolvera agir no bairro e cortaram a luz de todos os que não pagavam a conta (o que deve totalizar eu e dois ou três vizinhos). o fato de todos na rua estarem sem luz prova o que eu vinha suspeitando há tempos: um maldito gato de luz. eu bem sabia que não fazia sentido aquelas contas absurdas. eu mal paro em casa, como diabos poderia vir tão alta? malditos vizinhos, maldito bairro, maldita vida. lembro de ter amaldiçoado a tudo e a todos, especialmente depois que, ao me deslocar da cozinha para o meu quarto, meti a canela numa caixa de som na sala.

cheguei no quarto e me deitei na cama, pronto para dormir já que não havia mais nada o que fazer daquela noite. antes de adormecer, pus-me a pensar na vida, meio que sem querer – porque só se pensa na vida meio sem querer – já que nunca foi do meu grado parar para pensar besteiras. não lembro do que passou em minha mente. algo haver com solidão, mulheres, família, amigos e a falta de tudo isso na minha vida. foi então que ouvi um barulho vindo da rua. a vi entre a névoa que se formava na rua que dava pra minha janela e, apesar da ausência de eletricidade, consegui enxergá-la facilmente. caminhava lentamente dentro de seu vestido negro colado ao seu corpo, revelando suas curvas que os circuitos de fórmula 1. seus passos ecoavam na rua e se amplificavam no meu quarto, ou na minha cabeça, não sei bem ao certo. seus pés traçavam uma linha reta pelo chão, um na frente do outro, sempre. os quadris largos sob a cintura fina agitavam-se no ar e seu vestido parecia se seforçar para não rasgar no busto. uma delícia de mulher sozinha naquele breu. ajoelhei na cama e fiquei observando enquanto ela vinha na direção do meu prédio.
ela parou e um silêncio pesado se fez instantaneamente. eu podia ouvir meu coração batendo calmamente – cada contração, cada relaxamento – suas câmaras se enchendo e esvaziando com o sangue do meu corpo. então notei que era capaz de escutar o suspirar da mulher e notei que agora, enquanto ela erguia a cabeça como se para procurar algo, ela também podia ouvir minha respiração, bem mais pesada que a dela. senti seus olhos me encontrando ali, um homem um pouco acima do peso, sem camisa, olhando pela janela a rua, ela. senti-me compelido a encará-la, até mesmo a falar com ela. quando notei estava em pé, observando-a me olhar.
acho que seus lábios se moveram e formaram alguma palavra que foi engolida pelo som que veio, naquele momento, de algum dos outros apartamentos. ainda havia vida no mundo além da minha e daquela estranha. ela olhou para trás e, de onde antes havia ninguém, emergiu da escuridão um homem alto, careca e pálido. ele falou algo para ela, que acenou com a cabeça num gesto simples e apontou para a minha janela (mesmo podendo ter sido qualquer uma das outras infinitas janelas do edifício onde moro, eu sabia que ela apontava especificamente para a minha, onde eu estava parado, intrigado, observando os dois estranhos). o homem olhou e me encarou e, mesmo à distância, pude ver seus olhos brancos. senti um frio na espinha – algo que só sinto quando acordo e não reconheço o lugar onde estou. não é muito comum, mas já aconteceu. o bom é quando é a cama de uma mulher que vai acordar e se arrepender de tudo. o ruim é numa cela fria e um cara mal encarado dorme na cama embaixo da tua. o homem agora caminhava em minha direção, se aproximando da faixada do prédio. saí da janela. tinha de fazer algo. fui à cozinha pegar algo para me defender, apesar de não saber bem o porquê de me defender, que perigo corria, senti uma urgência de ter algo para me proteger. no escuro, tateei por algo nas gavetas. cortei meu dedo na peixeira e achei que serviria. arma clássica e clássicos não morrem, ao menos é o que vêm dizendo há um bom tempo e é o que tenho escutado desde moleque.
o que veio depois é um tanto confuso, não lembro bem. ouvi passos na escada, se aproximando cada vez mais e xinguei o vizinho que deixou os portões lá debaixo destrancados. encostei-me na parede, esperando qualquer tentativa de arrombamento. os passos continuaram, cada vez mais altos. pararam. fiquei nervoso. queria saber o que estava acontecendo lá fora. começava a pensar por que eu não tinha corrido para fora daqui, me escondido nalgum outro lugar, batido desesperado na casa de alguém. mas seria muito provável que, quem quer que eles fossem, me pegassem lá também. eu não estava a salvo em nenhum lugar, a não ser que eu lutasse e vencesse. aqui dentro, pelo menos eu tenho minha faca, é minha casa, minha arena.
nada acontecia lá fora e isso começava a me irritar. eu não sei bem o que eu queria que acontecesse, mas eu sabia que não queria que nada acontecesse, isso seria sinal da minha paranóia, talvez tudo o que eu vi foi a chegada de um vizinho novo e lá estava eu de faca na mão encostado na parede pronto para interceptar o ataque. lembro de ter pensado: por que diabos ele não arromba a minha porta? pouco antes de fechar os olhos para respirar e me concentrar no que conseguia escutar vindo do corredor. o silêncio imperava e era demasiado denso, não conseguia captar nenhum ruído vindo de fora. quando abri os olhos vi uma mulher, a mesma da rua. quase morro do coração. como diabos ela havia entrado ali? como conseguiu ser tão furtiva e tão gostosa usando esses saltos e essa roupa? ela se aproximou.
“parada aí, dona!” eu disse apontando a faca em sua direção.
“calma, docinho.” ela falou movendo seus lábios carnudos e sexies. sua voz era sensual. tanto que você só conseguia imaginá-la gemendo seu nome numa noite como aquela. senti seu perfume e minha cueca começou a ficar apertada.
“olha só, dona. eu não sei quem é a senhora” estava me esforçando ao máximo para me concentrar e minha voz não falhar e eu tropeçar nas palavras “certamente não sei o que faz aqui. por favor, me diga antes que eu faça algo de que me arrependa.”
“benzinho” ela disse tocando a ponta da faca com a falange distal do indicador. um pingo de sangue se formou. “eu vim aqui porque preciso de você.” ela tirou a o dedo da faca e chupou o sangue. “de um favor.”
a cada palavra dela eu me sentia seduzido e hipnotizado. seus lábios grossos e vermelhos moviam-se sempre de uma maneira que qualquer um podia jurar que diziam: beije-me, possua-me, farei loucuras com você.
“que tipo de favores, dona?” eu disse me controlando para não adicionar sexuais ao final da pergunta.
“preciso dos teus serviços.” o cheiro dela era insuportavelmente delicioso e sensual e mais uma inspiração e minha calça explodiria.
“meus serviços, dona? não sei de que vai te servir um oncologista alcoólatra a essa hora da madrugada. não se cura câncer do nada e um diagnóstico pode esperar mais 6 horas até o sol nascer e a primeira clínica abrir. ele não vai sofrer metástase magicamente para todos os órgãos em tão pouco tempo. além do mais… eu não sou o melhor. longe disso.”
“eu sei disso.” e não sabendo se ela se referia ao fato de saber que o diagnóstico não ia importar agora ou ao fato de eu não ser o melhor, me senti ferido. “não estou querendo os teus serviços como médico.” agora sim, ela realmente feriu meu orgulho “preciso dos teus outros serviços.” eu não sabia do que diabos ela estava falando, mas a dona havia me ofendido. só eu posso me criticar e ninguém tem o direito de reconhecer que estou dizendo a verdade. ninguém sabe de nada!
“não sei do que a senhora está falando, dona. mas gostaria muito que a senhora fosse embora. não há nada que eu possa fazer por você.”
a faca na minha mão apontava a saída da casa. ela abaixou meu braço e pôs seus lábios contra os meus. sua língua passeava pela minha boca e sua saliva se misturava à minha. tinha gosto de laranja, os lábios, sua saliva não tinha lá muito gosto, mas matava a sede que eu não sabia que tinha. ela meteu a mão no volume que se projetava contra ela vindo da minha pelve. tremi. aquela mulher iria foder comigo. MESMO. eu soube disso na hora, senti isso na hora, mas não parei. fazia tempo desde que uma mulher, espontaneamente, sem envolvimento monetário, tocara as partes que ela começava a acariciar lentamente. esse é o ponto fraco de todo homem, mulheres: colocar a mão no pau de um homem é como uma daquelas manobras em que domadores dominam suas bestas agarrando-as pelos chifres. uma mulher que pega bem no homem sabe domá-lo, dominá-lo. a dona me tinha adestrado em suas mãos e eu faria tudo o que ela dissesse. foi assim que perdi para ela. ela me tinha nas mãos literalmente e não tão literalmente. não lembro bem dos detalhes, como já disse algumas vezes, e isso é triste porque essa é a parte da noite que todo homem gostaria de lembrar. eu tento, juro como tento, mas nunca me vem a mente mais do que alguns gemidos, a lembrança de um canal vaginal pequeno e apertado… e só. seu corpo…seu corpo era um daqueles poucos que não nos arrependemos de ver nus. era lindo, perfeito e harmônico. ela me encostou na porta e fizemos ali mesmo. quando ela enroscou as pernas ao meu redor falou, entre gemidos, ao meu ouvido com uma voz que arrepiou cada pêlo da minha nuca. eu não lembro o que ela disse. provavelmente minha condenação.
depois do sexo ela abriu a porta e o homem estava lá, parado, me olhando com seus olhos vazios e leitosos capazes de congelas espinhas. não mais a minha. eu estava relaxado, de saco e mente esvaziados. o melhor sexo da minha vida com a dona gostosa sem nome. apertadinha como uma virgem. eu disse, essa é a maior lembrança da noite, acho. ou uma das maiores. ele e a mulher trocaram olhares e algumas palavras que nunca entraram na minha mente. a voz dele…é algo que eu não faço a menor idéia de como é. mas ele tinha aquele jeito de que, ao falar, seria como se ouvíssemos ecos do passado ou qualquer coisa tão metaforicamente horripilante quanto. ele entrou na minha casa. eu disse algo do tipo “dê o fora da minha casa!” mas ele me ignorou. provavelmente eu repeti a ordem acrescentando um “filho da puta” ao final. ele continuou me ignorando, veio em minha direção e pôs as mãos ao redor do meu pescoço. começou a apertar. eu dava olhares desesperados em direção à mulher, que permanecia observando. consegui escapar dos braços daquele maníaco. a gostosa acendia um cigarro com um olhar de tédio que me deixou revoltado. procurei pela faca que larguei quando ela abriu meu ziper. estava no chão perto da porta e havia um louco querendo me matar no meio do caminho até ela. então fiz o que, creio eu, tenha sido o ato mais escroto de toda a minha existência. aquela coisa de filmes de ação: rolei no chão depois de saltar e terminei um pouco distante do objetivo. a sorte foi que aquela série de movimentos ridículos distraiu um pouco o homem e eu consegui pegar a faca a tempo de cortar seu pescoço sem levar uma porrada. o sangue jorrou num jato contínuo. sua jugular agora mandava o sangue do seu cérebro direto para o chão do meu apartamento, se misturando com o sêmen recém derramado no mesmo piso.
a mulher sorriu ao ver seu parceiro caído e gorgolejando sangue. falou que era exatamente esse serviço que ela tinha em mente. que eu tinha sido perfeito e que naquela hora devia terminar o serviço. não entendi bem o que ela quis dizer com isso, mas lembro bem de tê-la visto sorrindo e pedindo por mais e mais entre gemidos. um líquido vermelho e viscoso escorrendo entre minhas mãos e, depois disso, apaguei. quando acordei estava algemado. policiais me chamavam de filho da puta e coisas do gênero; meus vizinhos estão todos me olhando ir embora arrastado com expressões de nojo e desprezo. não sabia o que raios estava acontecendo, a noite anterior não me vem à mente.
dizem-me que eu tenho direito a um advogado que, ouço ele me dizer, é chamado de sem escrúpulos, amoral, sem vergonha, por simplesmente pegar esse caso. ele me deixa claro que não está feliz em me defender e expressa isso da melhor forma possível na sentença: “eu espero mesmo é que você apodreça e morra seu filho da puta desprezível.” eu falo que ele não precisa me defender se não quer, que outro pode fazê-lo e ele ri. me diz que ele foi escolhido pelo estado e não podia dizer não porque ele era a última escolha do estado. pensei que ele era como eu e não era o melhor no que fazia. Toda a noite me voltou à mente e eu explico a ele que o homem e a mulher invadiram minha casa, que me ameaçaram, que o cara tentou me matar e ele pergunta do que é que estou falando. que homem e que mulher eram esses que eu delirava sobre. falei da minha noite toda e ele riu mais uma vez, outra risada seca e sem humor. falou algo sobre apelar para insanidade mental, apesar de saber que molestadores e assassinos de crianças não conseguem se safar com uma desculpa esfarrapada dessas. eu engasgo e pergunto do que porra ele está falando, que crianças são essas e ele começa a sorrir, me chama de filho da puta sádico, mas fecha o rosto quando nota que eu realmente não sei do que ele está falando. então ele me deixa a par de todos os fatos: na noite anterior me armei de uma faca e uma câmera de vídeo e estripei os filhos do meu vizinho do lado, que trabalha de noite e deixa seus dois filhos, um casal, em casa, sós. a esposa morrera há 6 meses de um câncer, foi paciente minha e o homem confiava em mim e dizia aos filhos para me chamar caso algo errado acontecesse. eu nunca tive problemas com isso e aceitava de boa ajudá-lo em suas necessidades. provavelmente foi algo assim que aconteceu. bateram à minha porta, entraram – e é a partir daí que a fita começa a gravação – eu os amarrei, estuprei a menina, cinco anos de idade. depois de fazê-lo, cortei com a peixeira o pescoço do menino de três anos. molestei novamente a menina enquanto a sufocava e depois que ambos estavam mortos, esquartejei-os. estava tudo em fita. era eu e não havia como negar. eu não lembrava de nada daquilo. não lembrava de crianças, câmera, amarras… nada. lembro de mulher sensual, o homem de olhar vazio, do sussurro no ouvido, de acordar do sono com uma batida na porta, de recepcionar duas crianças, levá-las para o quarto, amarrá-las… oh deus… eu sabia que a mulher ia foder a minha vida.
estou sozinho aqui dentro. lá fora o julgamento acontece. eu espero a morte, eu a desejo mais que qualquer outra coisa, mais do que desejei a mulher de vestido negro e curvas sensacionais. desejo-a louca e intensamente. por isso pedi a meu advogado as pílulas que tenho à mão. eu sabia que ele concordaria que a morte seria ainda pouco para mim, mas falei que assim ele não teria de gastar seu tempo me defendendo. são dez comprimidos na cartela. dois deles são capazes de nocautear um homem, quatro induzem o coma facilmente, seis deprimem completamente o sistema respiratório. tenho os dez na palma da minha mão.
fecho os olhos, vejo a mulher de negro e engulo todos. espero você chegar. sentas ao meu lado, sinto tua presença, não ouso te olhar. reconheci a tua pegada quando colocaste a mão na minha virilha. tive que segurar um sorriso, sabia?
“vamos, docinho?”
“já era tempo, dona.”


frio.

Junho 30, 2009

“se é por falta de adeus pode ir embora desde já.”

lembro do que senti quando ouvi o primeiro verso da canção. lembro porque até hoje sinto o frio enorme que congela a espinha quando ela começa. porque nada mudou desde a primeira vez até agora. e nenhuma das vezes a sensação foi mais ou menos intensa. ela foi e é simples e completamente verdadeira. e eu me vi escutando aquilo e me senti escorrer pelo chão, evaporar e sumir no ar, me tornar pó, do pior tipo de pó, aquele que jamais segue adiante. pó ao vento que se espalha e nunca se une. e até hoje eu sinto que é impossível se recompor de algo assim.

na época eu também pensei que aquela era a pior coisa a ser ouvida, nada no mundo seria piorque aquilo, a dor e a humilhação jamais se superariam e nenhuma frase jamais conteria tamanho desprezo e tanta inocência maldosa quanto aquela.

obviamente eu estava errado.

hoje em dia eu sei muito bem – bem mais do que gostaria de saber, mas nunca o suficiente para saber demais – que não é bem assim e que há inúmeras coisas piores do que uma simples verdade : as verdades complicadas.


A eterna batalha

Maio 20, 2009

o sangue esguichou da ferida recém aberta num jato forte e uniforme – algo que lembrava mangueiras de bombeiro ao serem abertas, fazendo-nos notar a alta pressão arterial de tal criatura -, jogando hemáceas, plaquetas e quaiquer hemocompostos a mais de cinco metros do seu dono. as escamas prateadas, danificadas ao redor da ferida profunda, mostravam como sua pele era dura e somente as armas mais afiadas da imaginação conseguiriam penetrar tal couraça. o vermelho quase negro escorria fortemente, espalhando-se pelo chão formando uma poça que começava a refletir o céu e seus astros como um lago calmo e límpido, ou um rio que avançava com calma para além de suas margens. havia mais de um litro de sangue espalhando-se no chão e a mancha inicial, já não parecia distante do corpo gigantesco caído no chão.

o homem dentro da armadura chamuscada carregava o que restara de um escudo de corpo num braço e no outro, que parecia ter o antebraço quebrado ao meio, uma lança amarrada à parte do braço que estava inteira. a luta durara séculos, milênios até e, finalmente havia um vitorioso. mas tudo tinha seu preço. largou o escudo, desprendeu a lança, tirou o elmo e um rosto barbado revelou-se. havia cicatrizes por todo o rosto, pedaços inteiros onde não havia barba porque o tecido regenerado não era capaz de criar anexos como o original. seus olhos eram de uma cor fraca e opaca, difícil distinguir a cor que tiveram algum dia, verde, azul ou castanho. os longos tempos de batalha o marcaram de várias formas, apagando tudo o que um dia foi. o bravo cavaleiro de armadura brilhante agora era o dono de nada além de uma chamuscada e opaca placa de ferro sem valor. sem cavalo, morto na batalha, não era mais cavaleiro. sem damas a cortejar, não era mais cavalheiro. não lembrava como ou por que a batalha havia iniciado. era algo maior que eles dois, algo tão velho quanto o tempo, ou até mais. não fazia diferença agora que ele havia vencido a batalha, podia retornar ao lar, descansar por toda a eternidade ao lado da sua Maria, teria os filhos que a luta nunca dera, teria o sossego que a batalha lhe tirara. agora ele poderia viver tudo aquilo que não viveu devido à eternidade de luta.

aproximou-se do que restou do seu cavalo branco, os intestinos formavam um desenho macabro ao redor do seu fiel amigo, quase não se identifica que aquilo um dia caminhara por planícies belas como só eles haviam visto sob o sol que sempre os ilumina. despediu-se dizendo que cavalgariam novamente algum dia. ele queria acreditar naquilo, mas se a batalha durara todo aquele tempo, quanto tempo demoraria até que pudesse reencontrá-lo? será, realmente, que iria reencontrá-lo? as dúvidas começavam a surgir em sua mente. olhou para cima e, distante, vendo um ponto azul iluminando o céu, constatou que a caminhada para casa seria longa e solitária. pela primeira vez em mais tempo que ele pode lembrar, estará sem outro ser vivo ao seu lado.

então encarou seu eterno inimigo. suas presas ainda pareciam extremamente ameaçadoras, todos os dentes eram maiores que ele em estatura, poderiam empalá-lo facilmente, atravessá-lo como se fosse feito de ar ou qualquer coisa tão simples quanto. seus olhos, sempre com um brilho maléfico que fazia sua espinha gelar sempre que os encarava, agora estavam vazios. o ódio não aparecia mais neles. não havia mais o pavor que seu hálito quente conseguia causar, a aura de morte e terror que pairava a seu redor sumiu, tudo se esvaiu com a vida no instante em que o cavaleiro acertou o exato ponto onde suas escamas duras como aço se tornavam mais frágeis, como pedras. o sangue todo já estava coagulando, o calor da batalha já não esquentava mais nada, o corpo colossal começava a ficar realmente frio, o clima do deserto onde estavam começava a esfriar, mesmo com o sol sempre a pique.

o homem despediu-se do seu nêmesis. sentiu um enorme alívio em seu coração e um vazio gigantesco em sua alma: agora não havia um grande propósito, agora só havia o retorno ao lar, havia a vida pacata que ele sempre sonhara, agora receberia seu prêmio. havia combinado com Ele que, assim que conquistasse a batalha, receberia seu prêmio, seu ponto azul, seu lar. olhou para o céu e o viu. lágrimas brotaram de seus  olhos. enxugou-as e, quando viu, seu prêmio não estava mais lá. ouviu um relincho, o chão tremeu. uma sombra gigantesca pairou sobre ele.

só podia pensar que Ele era um grande sacana, um grandessíssimo filho da puta.

saltou para o lado antes que o fogo o atingisse, agarrou seu escudo, agora inteiro, armou-se com sua lança e, surpreendentemente, com um braço inteiro, segurou-a pronto para atacar.

pensou que uma hora Aquele filho da puta ia pagar por tudo aquilo… um dia. toda aquela tortura tem de ter um fim.

Ele não pagava por esperar.


àqueles que acreditam.

Maio 1, 2009

crer é uma das coisas mais admiráveis. admiro verdadeiramente aquele que crê. não apenas o que diz que acredita. dizer que acredita é muito fácil. dizer qualquer coisa é muito fácil. posso abrir a boca a qualquer momento e dizer que acredito. dizer que perdôo, dizer que sinto muito. posso dizer qualquer coisa com meus lábios, língua e cordas vocais, posso escrever qualquer coisa com minhas mãos e os instrumentos precisos. mas acredito que verdadeiramente acreditar é difícil, quase impossível para muita gente. admiro aqueles que verdadeiramente crêem. (muita verdade e crença num parágrafo tão pequeno, mas é isso que penso.)

quando falo em verdadeiramente crer, eu falo dos extremos, falo daquele que, ante a prova de que tudo o que crê está errado, continua acreditando. admiro aquele que escolhe não perceber as coisas para se sentir bem, porque o faz somente para se sentir bem, mas cuja escolha não é tão racional assim, é movida apenas pela crença no que ele não entende, no que ele jamais entenderá. ou numa explicação que pode ser simples e fácil, mas para ele diz tudo. admiro os ignorantes que acreditam que a resposta está em uma coisa só. admiro aqueles que pegam um livro e dizem que a verdade está nele e apenas nele. independente do livro, independente das pessoas. admiro quem acredita piamente em algo que não faz sentido.

admiro, na verdade, aquele que acredita que vale a pena fazer sacrifícios por coisas que ninguém mais faria sacrifícios. admiro aquele que acredita que vale a pena morrer por coisas que não representam certezas. admiro quem acredita que não precisamos de certezas para certas coisas. admiro quem acredita que vale a pena matar por algo, vale a pena morrer por algo, vale a pena ir para onde quer que seja por esse algo. (sim, isso foi uma paráfrase quase citação de sin city e eu digo porque pouca gente notaria e quero que notem.)

admito que admiro os ignorantes, porque é deles, e somente deles, o reino dos céus. admiro-os porque eles têm a força para seguir adiante sempre. admiro-os porque jamais conseguirei ser um deles. e não é que eu não seja ignorante, é que eu simplesmente não consigo usar minha ignorância para acreditar tanto e tão intensamente em algo.

nada me interessa, em instante nenhum. nem flávio cavalcante, nem mais nada que passe na tv.


Hoje é terça feira…

Abril 22, 2009

“terça feira? heh. deixe-me contar umas coisas que eu sei sobre as terças feiras… são os dias mais sombrios. acredite nisso. não há vida nas terças feiras, meu amigo, tudo o que existe deixa de existir no momento em que a segunda vira terça e o sol não aparece no céu quando deveria, e as nuvens não somem nunca. se você parar suas vida para obervar uma terça feira agindo, você verá muita coisa que não queria. você coisas que os olhos humanos não foram desenvolvidos para ver, você vê a anti-luz, você enxerga a verdadeira natureza da escuridão, você enxerga todas as cores sob uma nova forma, você não consegue encontrar a vida em nada nem em ninguém, você não vê a beleza onde deveria estar e nem onde não estaria. é tudo horrendo, tudo aterrorizante, tudo pronto para se demolir sobre sua cabeça quando estiver extremamente distraído com as dores. as dores da terça feira. porque uma terça feira não é terça feira sem uma dor que seja. nas terças feiras você vê tudo borrado, você enxerga sombras do que, no dia anterior, eram pessoas como eu ou você. terças feiras são capazes de destruir tudo, acabar com esperanças e com sonhos, matar milhares deles por segundo. isso apenas no começo dela. ao longo do dia, na escuridão eterna das 24 horas, as coisas não vão melhorando. às terças você encontra o medo, a solidão, o desespero. e eles entram na tua casa como se fosse domingo, só que muito pior, porque agora elas estão a trabalho e aos domingos elas só vêm visitar. eles entram e bagunçam tudo, transformam tudo o que você tem numa zona, num mundo fantasma, numa quase vida. às terças feiras todos morrem. todos são zumbis.

só que ninguém percebe.

é por isso que estou aqui trancado, porque um dia, numa terça feira, anos atrás, os zumbis me agarraram e me trancaram aqui dentro. porque eu percebi… eu entendi tudo.”


O veneno.

Abril 9, 2009

o sol entrava por entre as frestas que a janela fechada deixava. uma jovem mulher estava sentada numa poltrona reclinável. estava sentada olhando para o tempo, que passava no relógio da parede. ela tinha seus vinte anos, cabelos negros como piche caíam trançados por sobre o ombro até que a ponta deles apontasse para seu ictus cordis. ninguém jamais diria que era a moça mais linda que havia visto na vida, mas era dona de uma beleza estranha que podeira se acostumar depois de um tempo e, com alguma paixão e um tantinho de esforço, poder-se ia chamar de linda. mas jamais a mais linda. tinha lábios inxados, olhos escuros pequenos, aumentados pelas finas lentes de seus óculos de aros grossos, e leves olheiras que lhe escureciam o semblante. cada segundo passava por suas mãos com um leve toque do indicador no braço da poltrona. cada segundo um toque. foi assim por um bom tempo.

a porta se abriu. ela continuou olhando o relógio que arrastava seus ponteiros negros pelo fundo branco. o homem que acabou de chegar fechava a porta com a chave. olhou para ela e sorriu. ela não o notou.

“que horas são, Kristina?”

ela não soube responder.

“hã? o que?”

“a hora. que horas são? você está olhando o relógio, não está?”

“sim, sim.” gaguejou ela.

o homem agora se movia em direção ao sofá, onde soltou seu corpo largo, quase gordo, e ficou a encarar a mulher, em silêncio, por um tempo.

“você sabe que precisamos conversar, não é?” disse ele de braços estendidos e se acomodando da melhor forma nas almofadas do sofá.

“precisamos?” disse sem flexionar nem um pouco o tom de sua voz, sem desviar o olhar dos ponteiros.

“sim, precisamos.” disse ele de forma séria. seu tom foi tão grave que a fez mover os olhos para vê-lo pela primeira vez desde que pusera os pés na casa há cerca de meia hora.

“é… precisamos. então, vamos conversar.” ela se virou para ele. agora ambos se encaravam. “sobre o que você quer falar?”

um silêncio que dizia a verdade pairou entre os dois por segundos. constrangedores e amedrontadores segundos. até que ele falou.

“por que você não morre?”

ela não se abalou com a pergunta absurda.

“o que você quer dizer com isso? acho que não tenho idade para morrer ainda. mal completei vinte e um.”

“você bem entendeu o que eu quis dizer.” ela realmente havia compreendido. “eu digo… com tudo o que eu te dei, com os litros e litros de coisas que eu te dei… como é que você ainda não morreu?” ele fazia aquelas perguntas como quem perguntava o que ela havia tomado no café da manhã.

“eu não sei.”

“lógico que você sabe. o que eu te dei, mulher, faria muita gente morrer, acabaria com a raça de muita gente ruim. mas você está aí de pé. firme como uma rocha, olhando as horas como quem não tem mais nada para fazer. esperando algo que nunca vem.”

“acho que o que eu tanto esperava chegou, finalmente.”

“então era isso?”

“era sim.”

“engraçado… eu pensei que eu fosse te pegar de surpresa. mas acho que quem foi surpreendido fui eu. todo dia eu chegava em casa esperando encontrar teu corpo caído em algum cômodo da casa. então eu diria à tua família que eu te encontrei assim quando cheguei. e todos lamentariam e chorariam. e eu choraria muito porque sentiria demais a tua falta. e diria que nunca mais amaria alguém como você e que você era a mulher da minha vida. tua família teria pena de mim, meus amigos teriam pena de mim, eu teria pena de mim, me enganaria com toda essa bobagem de você ser a única na minhda vida. depois seguiria minha vida, depois do luto, depois da dor. eu lembraria de você como uma das melhores coisas da minha vida. quando você morresse você deixaria de ser a mulher que acorda descabelada e com mau hálito para se tornar a mulher que acordava linda todos os dias e tinha a boca com gosto de hortelã sempre, não importando a hora do dia. você deixaria de ser um ser humano que amei pra ser a coisa mais perfeita que amei. seria uma lembrança, uma idéia. é claro que eu nunca mais poderia sentir o teu cheiro e eu sentiria falta das nossas trepadas, mas certos sacrifícios precisam ser feitos. além do mais, o luto poderia me arrumar umas mulheres descartáveis. então, por que é que você não morre depois de todo o amor que eu te dei?”

“porque ele não é forte o suficiente para matar. e nem se você me desse todo o amor que tem, seria capaz de causar algum efeito. tudo o que você tinha e me deu era demasiado fraco. e era até doce, sabia? você me envenenava com o teu amor pensando em me matar e eu sentia o gosto doce na minha boca. mas ele nunca foi o suficiente para o que você planejava. por isso eu não morri, por isso que ninguém jamais vai morrer do teu amor. porque ele é fraco. é como suco de uva.”

“suco de uva?”

“nunca embriagará como vinho, mas tomamos quando queremos ter certeza que não faremos alguma besteira. o teu amor, para mim, foi diversão. algo para me assegurar que jamais faria alguma besteira. agora vá, saia daqui antes que eu tenha que te dar o meu amor.” ela apontava para a porta pela qual o homem havia passado há algum tempo. ele entrara por ela aparentando seus vinte e poucos anos, mais que os dela, o cabelo curto, a barba por fazer. agora ele recebia a indicação de sair por ela. levantou seu corpo que agora parecia ter o dobro do peso, seu rosto parecia mais marcado por aqueles minutos de conversa que pelos anos de vida. tinha agora quase 40 anos. não havia mais nada para falar entre os dois e a pergunta que tinha fora respondida de forma sincera. ele era fã da sinceridade, doesse a quem doer. e sempre era nele que doía.

“adeus, mulher.”

“adeus, Marco.”

nunca um adeus foi dito com tanto alívio por um casal.


O Sol

Março 26, 2009

era sempre pelas manhãs que eu vivia. pela sensação de que a noite iria embora assim que surgisse o primeiro raio de sol a iluminar o horizonte e arrastasse todo o mal, purificasse a vida inteira. eu vivia pela esperança de que agora, com aquela insignificante, porém maravilhosa e bela, bola de fogo subindo pelo céu, o mundo seria um lugar menos sujo, menos errado, menos pecador. eu vivia por coisas erradas, mas naqueles tempos eu não sabia disso e, se sabia, era-me adorável o pensamento que eu estava errado, que o mundo podia mudar espontaneamente. eu adorava lançar sobre meus olhos fantasias, adorava viver de ilusões.

eu lembro bem do dia em que percebi que eu estava enganado, que o mundo inteiro não tinha mudança. diferente do que todos dizem por aí, não foi uma decisão minha, mas deles. eles não me queriam mais ao redor e eu não digo isso pelos milhões que falavam que não precisavam de mim. eles mostravam. cada um deles, os que me idolatravam e os que seguiam suas vidas independentemente de minha existência, mostrava em suas atitudes que não havia jeito para aquilo. foi uma tarde de terça feira e um pai havia acabado de estuprar sua filha de 10 anos num canto do mundo, enquanto naquele exato momento uma mãe afogava o terceiro filho e jogava seu corpo junto dos outros dois, num outro lugar uma outra mãe cozinhava seu bebê de 6 meses no forno e esperava o ponto de cozimento calmamente sentada numa cadeira da sala de sua casa, um menino recusa-se a fazer a lição de casa em algum país subdesenvolvido e é espancado até a morte com um cano que seu pai usaria numa construção,  uma mãe, que se dizia extremamente benévola, fazia caridade e cuidava sempre das crianças dos outros quando podia, serrou os membros do único filho, desprendeu a cabeça de seu corpo e jogou tudo numa lata de lixo. tudo isso acontecia num espaço de tempo de 24 horas, uma rotação da terra em torno de seu eixo, o suficiente para o sol purificar o mundo inteiro novamente, para que no dia seguinte mais do mesmo acontecesse e continuasse acontecendo até o fim.

naquele dia eu não me importei mais com nada e nem ninguém. a vida deles, para mim, valia tanto quanto para eles. o mundo inteiro poderia colapsar, cidades inteirar ruir, milhões de vidas acabarem, eu não apareceria para salvá-los, eu não me preocuparia. nunca mais. eles poderiam agora brincar de suas guerras sem motivos, manipular vírus e bactérias para destruir completamente as vidas uns dos outros, poderiam estuprar e matar o quanto quisessem, eles não valiam o pensamento. segui meu caminho sem que eles o obstruíssem.

um dia ouvi dizer que tudo aquilo estava prestes a acabar, milhares de cidades haviam sumido, um dos hemisférios jazia sob uma eterna nuvem cinzenta que a luz do sol jamais seria capaz de penetrar, os poucos sobreviventes que restaram viviam em comunidades reclusas e quase não havia contato entre eles. parecia o começo de tudo aquilo, da humanidade, só que sem a beleza dos dias de outrora, sem rios plácidos correndo para oceanos que refletiam belamente o céu. há o cinza, o negro, o vermelho. os mares são ácidos e não comportam mais nenhum tipo de vida, completamente infértil, as nuvens que se formam no hemisfério que recebe a visita do sol ainda amarelado são vermelhas e chovem ácido. os campos que antes cheiravam a flores hoje cheiram a enxofre, corpos decompostos são as coisas mais comuns de se encontrar nos lugares. homens se alimentam de ratos e os ratos das baratas e as baratas dos homens. o ciclo da vida continua, a roda nunca pára.

estou sentado entre escombros, as cinzas escorrem entre meus dedos, construções monumentais de concreto, aço e vidro, carne e osso, mulheres, homens, velhos, crianças, completamente irreconhecíveis, irreparáveis. vidas desperdiçadas porque eu não estava mais me importando com nada disso. porque, para mim, há muito tempo, o sol não limpa mais nada nas almas sujas de todos.

e eu nem posso dizer que me arrependo disso.


“and on a milk white neck, the devil’s mark.”

Março 11, 2009

ela desceu do navio com seu já conhecido passo lento, observando o mundo ao seu redor com uma mescla de desprezo e curiosidade, atravessando todo o cais enquanto um homem que eu não conhecia, e que provavelmente ela também não, carregava sua mala logo atrás. ela estava linda vestida com aquela roupa que eu desconhecia e que lhe caia tão bem no corpo, expondo suas formas sem ser apelativa, mas jamais sendo inocente ou puritana, apenas misteriosa. eu a conhecia bem demais para me iludir com a idéia de pureza em seu corpo ou alma. ela era alguém que, apesar da pouca idade, era vivida. e digo vivida no pior dos sentidos da palavra. havia passado por mais camas que muitas das prostitutas que, à noite, ganhavam a vida fazendo o mesmo caminho que agora ela fazia por passeio. o vestido novo balançava com o vento forte que vinha do mar e o cheiro de tripas de peixe e algas quase sumiu quando ela chegou ao meu lado e abraçou-me fazendo seu já conhecido perfume levar para longe quase todo o cenário ao meu redor, levando-me para passear nas lembranças boas que seu delicioso aroma me remetia. mas, como de praxe, ela nunca se dava por completo, nenhuma parte de si. logo, se afastou e perguntou como eu estava, perguntou se senti sua falta e com um leve aceno de mão dispensou o homem que arrastava a mala pesada e me fez entender, sem olhares ou gestos adicionais, que a partir dali aquela mala era meu fardo.

seus cabelos negros e curtos, à moda que ela gostava, tornavam-na menos fêmea dependente, esculpindo em seu rosto um ar de decisão que, em conjunto com seus gestos simples e duros – quando assim os queria – fariam muitos líderes da humanidade parecerem moças indecisas escolhendo o vestido que cobrirá seus corpos na noite do baile. ela havia chegado para, mais uma vez, por ordem na minha vida. como essa fosse uma extrema desordem, um completo caos. ela se achava demasiado importante para mim e eu tinha medo de provar que não e me ver perdido em meio à sua importância. seus lábios se moviam formando palavras que eu quase não entendia, mas me esforçava o suficiente para que fizessem sentido e eu fosse capaz de respondê-las sem parecer um estúpido retardado qualquer. em determinado momento ela tomou a dianteira, quando encontrou o local onde eu estacionara o carro, e eu fiquei para trás com sua bagagem, observando-a enquanto balançava seus quadris de forma hipnotizante até chegar ao lado do veículo parado e encostar-se nele com ar de aborrecida porque eu estava ali, parado onde ela me havia me deixado.

“venha, não temos o dia todo.” ela me disse. e ela estava certa. como sempre, estava certa. nós nunca temos o dia todo para nada, especialmente para as coisas boas. e era bom observá-la.

arrastei-me com a mala até o carro, enfiei-a no porta malas. ela já estava dentro, no banco do carona, ligando o rádio para evitar qualquer possível conversa que teríamos no caminho até o apartamento. do porto até a garagem eram exatos quinze minutos que foram preenxidos pela música ruim da rádio, que ela acompanhava com os lábios sem emitir som algum. olhava a cidade pela janela fechada e a seus olhos tudo parecia incrivelmente chato, sem gosto, como comida sem sal.

chegamos no prédio e subimos os três andares de escada. não é preciso dizer que ela chegou lá em cima primeiro e que em momento algum me ajudou com o peso que eu carregava, porque, como ela havia me dito sem palavras, aquele era meu fardo e somente meu. abri a porta e ela foi direto para o seu quarto que, desde quando ela veio para cá, deixou de ser meu para ser somente dela, onde eu era sempre um visitante, um intruso.ligou o ar condicionado, deitou na cama que um dia eu chamei de minha e tirou as sandálias de salto jogando-as nos cantos, quase quebrando as poucas coisas que eu ainda tinha orgulho de chamar de minhas.

fechei a porta da casa, tranquei-me no banheiro, tomei banho, vesti uma calça de linho daquelas bem confortáveis e boas tanto para dormir quanto para ir ao supermercado e fui para o quarto deitar-me ao lado dela, para sentir o cheiro dela que eu tanto gostava. fiquei parado na porta do cômodo, impressionado porque ela na cama parecia alguém. alguém mesmo. mas não um alguém que eu quisesse estar, um alguém totalmente desconhecido. e, pela primeira vez em meses, eu pensei que eu não me sentia bem em estar com ela, em ser tão submisso, em não mais existir sem antes ter que pedir permissão a ela.

então decidi que seria o fim, como tantas vezes havia decidido coisas na minha vida. essa seria a última vez que sentiria seu fogo, seu cheiro bom de folhas queimadas numa primavera florida. deitei-me ao seu lado e disse ao seu ouvido que não dava mais para mim, que ali era o fim e que logo ela teria que ir embora.

mas ela me disse, sem se exaltar, sem um movimento sequer na cama, olhos fechados, que não havia decido nada daquilo e que não seria assim. que não havia me autorizado fazer tal coisa. isso foi há três anos.

hoje lembrei de tudo isso, caro amigo, porque não há mais o que ser feito. o corpo dela está frio ao meu lado e as folhas se apagaram.


“quanto mais aperta, tanto mais difícil arrancar.”

Março 9, 2009

saudade é uma coisa estranha, não é? às vezes a gente sente saudades de quem acabou de dizer tchau e não sentimos de quem não vemos há anos. aí, um dia, deixamos de sentir saudades de quem deveríamos sentir para sentir de alguém que a gente nem lembrava e vem com uma profundidade que não se pode descrever com precisão. como um soco no estômago que quase faz a comida voltar, nos deixa sem ar. e a gente sente uma dor no peito que não dá pra explicar. e essa saudade é a saudade daquilo que a gente teve e nunca mais vai ter. e é quando a gente nota que nunca mais vai ter falta o ar pra gente respirar.

vez em quando dá uma coisa inexplicável que nos deixa agoniados sem saber o porquê. e é aí que a gente nota que está com saudades de algo que nunca teve, saudade de alguém que nunca conheceu, de um cheiro que nunca sentiu. sente falta da música que nunca ouviu. e é decepcionante isso porque é como se alguém esfregasse um pedaço de papel com algo escrito na nossa cara para a gente ler e a gente não consegue ler porque está muito perto e se nos afastarmos vamos para longe demais daquilo. e eu ainda acho que a gente sente saudade de coisas que não são tão boas assim. contrariando aquela premissa que só se tem saudade do que é bom. acho que todo mundo, hora ou outra, sente falta de sofrer um pouquinho, de ter motivos para chorar num canto, de ficar recluso, calado num quarto escuro, travesseiro sobre a cabeça para evitar qualquer luz e mergulhar completamente na escuridão. acho que todo mundo pensa naquela dorzinha que ele não sente mais faz tempo. no começo com um sorriso de alívio, mas aí você percebe que aquela dorzinha te fazia sentir coisas que hoje você não sente e não era apenas dor. aí seu sorriso murcha, você nota que é um tanto quanto sado-masô porque fica lembrando da dor para assim ter motivos para chorar, para se sentir bem chorando, lavando a alma. é o que acho.

acho que a saudade do que é bom é bem maior, é claro, bem melhor também, mas não é mais válida que a outra. acho muitas coisas sobre várias coisas, sabe… às vezes acho que devia parar de achar tudo isso e só seguir minha vida sem jamais achar ou desachar coisa alguma. viver calado, apático, sem jamais ter idéias sobre coisas e sem jamais me expressas sobre as possíveis idéias que tive.


“Eu gosto da tua saia sim…”

Março 5, 2009

desde que o tempo é tempo – não! desde antes de o tempo ser chamado de tempo por quem quer que tenha colocado esse nome nele – as coisas têm sido assim. mas o engraçado é que elas sempre parecem que mudaram, sempre aparecem com novos rostos, novas vozes, novas qualidades e novos defeitos, mas sempre as mesmas. e o melhor é que eu aceito isso tudo. porque não há realmente nada que eu possa fazer para mudar o que ninguém nunca conseguiu.

são sempre as mesmas cenas que se repetem feito uma música boa no repeat. e elas seguem assim porque nós escolhemos para ser assim. tudo tem o seu devido fim. a música bonita não continua infinitamente, apenas se repete. a imagem comovente não vai mudar, as paisagens dos quadros permanecerão sempre com suas cores, suas luzes, seus nuances, um quadro do nascer do sol nunca terá a beleza do poer porque não foi feito para isso, ele sempre repetirá aquele mesmo período entre as quatro e meia e seis da manhã. é sempre a mesma falta de emoção, a falta de fé.

não há piadas que me contem que me façam rir, não há assunto que me tome o interesse, que me faça querer gastar meu tempo, minha saliva, minhas vontades com. não há pessoas que me façam crer que tempo com elas não seja tempo perdido. não há risada e não há pranto, não há prazer nem dor. tudo é fora de mim.

e tudo o que poderia existir não existe porque acabaram antes mesmo de um possível começo. estranho pensar em tudo isso, porque me dá vontade de falar com alguém, ligar para alguém e lamentar a falta de sentimentos, lamentar essa apatia. dá vontade de chorar pra alguém sentir pena de mim, me olhar e dizer que vai me salvar, que vai me amar ou qualquer besteira assim – porque eu sei que seria mentira, sei que não há alguéns para alguéns, que ninguém ama ninguém e, principalmente, que nossa salvação só depende de nós mesmos. quero algo que me faça viver. tendemos a procurar esse algo em outras pessoas. é um erro, um dos belos, mas ainda assim errado. algumas horas, a vontade que dá é só a de poder sorrir. sem medos, apenas abrir os lábios e mostrar os dentes sem parecer uma careta de nojo, sem parecer um grunhido de ódio.

eu quero uma mulher ao meu lado para cheirar seus cabelos, lamber sua pele, sua língua, seu sexo, para dizer que ela está linda sim do jeito que ela está e que mais bonita que aquilo só de quatro e rir da minha própria piada – que é tão verdadeira que é melhor fingir ser falsa – enquanto ela faz uma cara de ofendida e morder sua barriga, beijar sua boca, olhar seus olhos. quero uma mulher para me divertir na cama não só com sexo, mas com conversas. porque eu quero tanto seu corpo quanto sua alma. quero olhá-la enquanto ela se veste para ir embora, coloca sua maquiagem, seus pós, seus batons. quero dizer que a saia dela é legal, que eu gosto, que ela tem que deitar ao meu lado e tirá-la imediatamente porque as roupas não servem mais para nós dois. quero, para mim, o que todos chamam de amor, para que eu saiba, finalmente, se é realmente tudo isso que os outros falam.

quero desligar o som quando ela for embora para que eu assista a qualquer merda na tv. porque não há música que chegue aos pés de tudo o que passamos e na tv está o alívio, está a falta de informação e a incrível capacidade de desestimular o raciocínio. eu quero dormir quando ela vai embora e acordar no meio da madrugada, enquanto passa algum programa tosco no canal que me fez dormir, pronto para uma vida de verdade, seja lá o que isso queira dizer. eu quero tudo isso porque eu sempre tenho muitos quereres, porque é o melhor e é a única coisa que posso fazer. quero viver, quero ver, quero crer.